segunda-feira, 5 de março de 2012

AUGUSTO ALMEIDA: "NÃO HÁ INSUBSTITUÍVEIS EM LADO NENHUM"




5 de Março de 2011, Alter do Chão. Após a frontal oposição da família orientista à forma como o anterior Órgão de Gestão vinha conduzindo os destinos da modalidade, Augusto Almeida regressa à Presidência da Direção da Federação Portuguesa de Orientação. Um ano volvido sobre a singular data, é ele o convidado de honra deste espaço, traçando o balanço dum curto mas intenso mandato à beirinha do fim.


Orientovar – Que desafios, que dificuldades, no fundo, que balanço de um ano de mandato?

Augusto Almeida – O importante era devolver a normalidade à modalidade, não só no aspeto administrativo, mas essencialmente nos aspetos económico e financeiro. Foi conseguido. Concerteza que no início houve necessidade de fazer um trabalho mais intenso porque as coisas estavam paradas. Não havia plano de seleções, não havia planos de estágio, não havia a documentação entregue no IDP para o apoio da tutela, havia mais de 300 documentos a carecer de despacho e não haviam atas. Digamos que o início foi um bocado mais sofrido, o desbloquear das verbas arrastou-se até Julho, mas conseguiu-se normalizar a situação. E não fora termos de devolver cerca de quatro mil euros ao IDP de formação que não foi ministrada no ano de 2010 – cujo dinheiro foi gasto, naturalmente! – diria que, nada que não se esperasse, as coisas estão nos carris e agora é continuar.


Se fosse eu, não o teria feito

Orientovar - Olhando para a época passada e para esta que já decorre, foi uma boa opção o ajuste do calendário ao ano civil?

Augusto Almeida – Não sei responder. Se fosse eu, não o teria feito, mas eu sou apenas um. Tenho que respeitar as intenções de quem procedeu à alteração, certamente convicto de que iria ter outras vantagens. A solução que a Assembleia-Geral votou foi esta, é esta a nossa realidade. Enfim, sinto que a época parte a meio, possivelmente para a nossa realidade e para o nosso clima – que não temos necessidade de parar no Inverno – seria mais adequado fazer a época coincidir com o ano escolar. Mas são opções, qualquer uma delas tem vantagens e inconvenientes, esta é a realidade e agora vamos, pelo menos uns anos, conviver com ela. E se daqui as uns anos chegarmos à conclusão que realmente é melhor retroceder, voltaremos a equacionar a questão.


É com enorme orgulho que vemos as atenções voltarem-se sobre nós

Orientovar – O Inverno é a nossa “época alta”, acabámos de confirmá-lo uma vez mais com o Portugal O' Meeting e com o Meeting de Orientação do Centro a chamar ao nosso País a fina flor da Orientação mundial. Como é que a Federação olha para este fenómeno?

Augusto Almeida – O Portugal O' Meeting tem um histórico de 17 anos, os World Ranking Events têm um histórico também de alguns anos e sem dúvida nenhuma que é com enorme orgulho que vemos as atenções voltarem-se sobre nós nesta altura do ano. Em 2013 vamos ter uma inovação e que esperamos resulte em mais êxito relativamente àquilo que é o sucesso afirmado dos WRE, que é termos as três provas pontuáveis em três fins de semana consecutivos: O Portugal O' Meeting, um no fim de semana anterior e outro no seguinte. Pensamos que esta fórmula poderá resultar em atrairmos ainda mais gente do centro e norte da Europa, que estão cobertos de neve nesta altura. É bom para os atletas que estão a começar a sua época e é aqui que podem aferir a sua forma e o trabalho a desenvolver, e é bom para os amantes da modalidade que a praticam numa vertente de lazer.


Certamente encontraremos um caminho de algum financiamento

Orientovar – Para quando a atribuição aos clubes destas provas pontuáveis para o ranking mundial com a contrapartida de algum encaixe financeiro por parte da Federação?

Augusto Almeida – É mais um assunto que está em cima da mesa e é um assunto que a Direção já tem discutido no seu seio. Temos três ou quatro modalidades de ação mas primeiro quisemos entre nós pensar bem como resolver o problema e, numa fase posterior, tencionamos chamar os principais clubes e ver, das modalidades possíveis, quais as que eles preferem. É verdade que a presença de toda esta gente, se for onerada em três ou quatro euros não significa nada e, tanto para a formação como para as seleções jovens, por exemplo, pode ser uma fonte de financiamento muito interessante. Mas isto são situações que carecem sempre de ponderação de todos os agentes. A nossa modalidade vive essencialmente do voluntariado dos clubes, da dinâmica dos clubes e, em tempos de crise, em que os clubes têm uma dificuldade tremenda em arranjar financiamentos extra, que não sejam os institucionais, temos que ponderar. Mas certamente encontraremos um caminho de algum financiamento.


A modalidade aprendeu a viver com o essencial

Orientovar – Que impacto é que a crise económica que atravessamos pode ter sobre os clubes e a modalidade?

Augusto Almeida – Enquanto cidadãos, temos que aceitar que as pessoas cuidem do seu bem-estar e dos seus, tomando prioridades. Não me passa pela cabeça que uma pessoa que tem dificuldades em alimentar a sua família, em honrar os seus compromissos, em satisfazer as suas necessidades básicas, vá “esbanjar” dinheiro num evento. A generalidade dos nossos concidadãos atravessa dificuldades e é legítimo que não compareçam às provas, pelo menos àquelas que são mais longe. Os combustíveis são caros, a alimentação, o alojamento, enfim... isto resulta numa visível diminuição de praticantes. Mas, ainda que com uma quebra na participação, penso que a modalidade vai sobreviver sem grandes dificuldades porque, felizmente para nós, desde 2002 que já vivíamos sem “gorduras”. A modalidade aprendeu a viver com o essencial, sem coisas supérfluas, sem desperdícios de dinheiro e é este o caminho que vai levar a que a modalidade sobreviva incólume da crise, dure ela dois, três, quatro anos. E não é por acaso que, para a Taça de Portugal 2013 Nível 1, tínhamos 18 eventos e tivemos 25 candidaturas, enquanto aqui ao lado, o meu amigo Victor Garcia Berenguér, Presidente da Federação espanhola, me dizia que tinha seis. Isto demonstra que a modalidade em Portugal está viva, os clubes estão dinâmicos, os praticantes estão envolvidos. Não vamos ter aquele desenvolvimento que todos nós quereríamos, aquela expansão que todos nós adoraríamos que chegasse ao cidadão comum, mas também não se vai colocar um espectro negro para a modalidade, não vamos baquear.


Precisamos duma Direção Técnica Nacional

Orientovar - Falando nas selecções, estamos num impasse. A Federação está sem Direção Técnica Nacional e os grandes compromissos internacionais estão aí à porta. Como é que se sossegam as hostes?

Augusto Almeida – Está tudo tranquilo. Não há insubstituíveis em lado nenhum – os únicos que conheço estão todos nos cemitérios! – e, portanto, temos que levar o dia a dia com calma, com tranquilidade e trabalhando com denodo e afinco para irmos resolvendo os problemas. Acabámos de resolver o problema da viabilização dos OriJovens e dos OriJúniores. O problema da Direção Técnica Nacional, seguramente também irá ser ultrapassado a seu tempo. Em termos das Seleções Nacionais não estamos minimamente preocupados, estão bem entregues, as coisas estão a fluir normalmente, a seguir o seu curso sem sobressaltos. Claro, precisamos duma Direção Técnica Nacional. Se não for profissional, terá que ser amadora, mas sem pressas. Vamos fazendo o nosso trabalho duma forma consistente para levarmos a modalidade para aquilo que acreditamos seja o melhor para ela própria e o melhor para todos nós.


O progresso existe, não existe é à velocidade que nós queremos

Orientovar – O Gabinete de Comunicação e Imagem continua sem sair da estaca zero. Tínhamos a promessa duma aposta nas redes sociais e duma remodelada página no Facebook, temos um site no mínimo pouco apelativo, enfim, o que é que está a falhar aqui?

Augusto Almeida – Está a falhar que as pessoas não são profissionais. Vivemos de boas vontades o que, conjugado com alguma falta de recursos – e a saída de Fernando Costa criou aqui um hiato importante –, fez com que as coisas, na verdade, não tenham andado. Também não serei eu a dizer que é fácil andar. Há que ter paciência, há que ser persistente, há que tentar. Se olharmos para os meios de comunicação social nacionais, podemos constatar que, sem gastar um tostão, este ano tivemos muito mais notícias nas televisões e nos jornais do que em anos anteriores, em que até se pagavam assinaturas de mais de mil euros por mês. Portanto, se olharmos friamente, alguma coisa se evoluiu. O progresso existe, não existe é à velocidade que nós queremos.


Precisamos de encontrar um Órgão de Gestão

Orientovar – Os dois próximos anos trazem-nos grandes desafios do ponto de vista organizativo. São os Mundiais de Desporto Escolar ISF 2013, são os Mundiais de Veteranos e a ronda final da Taça do Mundo de Orientação em BTT, também em 2013, e é o Campeonato da Europa de Orientação Pedestre e de Orientação de Precisão EOC/ETOC 2014. Como é que se preparam estes embates?

Augusto Almeida – O maior desafio está antes desses todos. O maior desafio está já em finais de Maio deste ano, com as eleições para a Federação. Eu assumo que esse é o maior desafio porque precisamos de encontrar um Órgão de Gestão – Presidente e Direção – competentes e capazes de levar a modalidade por um ou dois mandatos, sem doideiras e sem demagogias.


Claramente, não sou candidato!

Orientovar – Mas, claramente, é candidato à Presidência da Direção da FPO para o próximo quadriénio!...

Augusto Almeida – Claramente, não sou candidato! Esta foi uma situação pontual para resolver um problema que existia. Não vou dizer que me ponho totalmente de fora porque, naturalmente, enquanto eu não morrer, não fica ninguém órfão.


O maior desafio é mesmo resolver o problema directivo

Orientovar – Mas este não deveria ser um projecto de continuidade, com o lançamento de candidaturas para 2013 e 2014, por exemplo?

Augusto Almeida – É verdade que sim. Mas estas coisas cansam, estas coisas aleijam. Nós, portugueses, somos um povo muito de desancar, de dizer mal e muito pouco de elogiar e de apoiar. Parafraseando Martin Luther King, “não perguntem o que é que o País pode fazer por vós, pergauntem antes o que podem fazer pelo País”. E aqui o problema que se coloca é igual. Não são muitos, é um punhado – eu arranjo-lhes mais dois, eles formam uma Direção e temos o problema resolvido – mas incomodam. E incomodam quem trabalha todos os dias denodadamente. Eu tenho alguns companheiros de Direção bastante cansados com estas situações, compreendo-os e percebo o cansaço deles. Porque as pessoas, em vez de ajudarem, parece que estão propositadamente à espera que caia um grão de pó num sítio qualquer para apontarem. Esta postura é muito má, destrói, não ajuda em nada. O projecto, órfão não ficará. Em última instância tomaremos conta da Federação por mais um mandato, mas era importante que viesse gente competente, gente capaz. Os desafios, realmente, são tremendos. Vamos encará-los com a mesma dedicação com que encarámos o WMOC, sem sobressaltos, mas volto à minha. O maior desafio é mesmo resolver o problema directivo e encontrar uma solução, se possível, para dois mandatos. A modalidade precisa de linhas estratégicas sólidas, de estabilidade. Mas coisas com os pés assentes no chão, não a estabilidade feita lá em cima dos pinheiros. Espero que, pelo menos isso, a modalidade tenha aprendido.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:

Nuno José disse...

Só um reparo

"ask not what your country can do for you - ask what you can do for your country"

Inaugural Address by John F. Kennedy - January 20th 1961

Anónimo disse...

Boa Noite;
Espero que a atual direcção da FPO continue, mas se não for o caso, acredito que as pessoas que forem chamadas a eleger uma nova, não cometam o mesmo erro do passado.
Os abutres já começam a vaguear por aí. Isso é um mau sintoma (na niha opinião, claro)
Cumprimentos;
Rui Antunes

Presidente disse...

Obrigado Nuno pela correcção.
Abraço