5 de Março de 2011,
Alter do Chão. Após a frontal oposição da família orientista à
forma como o anterior Órgão de Gestão vinha conduzindo os destinos
da modalidade, Augusto Almeida regressa à Presidência da Direção
da Federação Portuguesa de Orientação. Um ano volvido sobre a
singular data, é ele o convidado de honra deste espaço, traçando o
balanço dum curto mas intenso mandato à beirinha do fim.
Orientovar – Que
desafios, que dificuldades, no fundo, que balanço de um ano de
mandato?
Augusto Almeida
– O importante era devolver a normalidade à modalidade, não só
no aspeto administrativo, mas essencialmente nos aspetos económico e
financeiro. Foi conseguido. Concerteza que no início houve
necessidade de fazer um trabalho mais intenso porque as coisas
estavam paradas. Não havia plano de seleções, não havia planos de
estágio, não havia a documentação entregue no IDP para o apoio da
tutela, havia mais de 300 documentos a carecer de despacho e não
haviam atas. Digamos que o início foi um bocado mais sofrido, o
desbloquear das verbas arrastou-se até Julho, mas conseguiu-se
normalizar a situação. E não fora termos de devolver cerca de
quatro mil euros ao IDP de formação que não foi ministrada no ano
de 2010 – cujo dinheiro foi gasto, naturalmente! – diria que,
nada que não se esperasse, as coisas estão nos carris e agora é
continuar.
Se fosse eu, não o
teria feito
Orientovar - Olhando
para a época passada e para esta que já decorre, foi uma boa opção
o ajuste do calendário ao ano civil?
Augusto Almeida –
Não sei responder. Se fosse eu, não o teria feito, mas eu sou
apenas um. Tenho que respeitar as intenções de quem procedeu à
alteração, certamente convicto de que iria ter outras vantagens. A
solução que a Assembleia-Geral votou foi esta, é esta a nossa
realidade. Enfim, sinto que a época parte a meio, possivelmente para
a nossa realidade e para o nosso clima – que não temos necessidade
de parar no Inverno – seria mais adequado fazer a época coincidir
com o ano escolar. Mas são opções, qualquer uma delas tem
vantagens e inconvenientes, esta é a realidade e agora vamos, pelo
menos uns anos, conviver com ela. E se daqui as uns anos chegarmos à
conclusão que realmente é melhor retroceder, voltaremos a
equacionar a questão.
É com enorme orgulho
que vemos as atenções voltarem-se sobre nós
Orientovar – O
Inverno é a nossa “época alta”, acabámos de confirmá-lo uma
vez mais com o Portugal O' Meeting e com o Meeting de Orientação do
Centro a chamar ao nosso País a fina flor da Orientação mundial.
Como é que a Federação olha para este fenómeno?
Augusto Almeida –
O Portugal O' Meeting tem um histórico de 17 anos, os World Ranking
Events têm um histórico também de alguns anos e sem dúvida
nenhuma que é com enorme orgulho que vemos as atenções voltarem-se
sobre nós nesta altura do ano. Em 2013 vamos ter uma inovação e
que esperamos resulte em mais êxito relativamente àquilo que é o
sucesso afirmado dos WRE, que é termos as três provas pontuáveis
em três fins de semana consecutivos: O Portugal O' Meeting, um no
fim de semana anterior e outro no seguinte. Pensamos que esta fórmula
poderá resultar em atrairmos ainda mais gente do centro e norte da
Europa, que estão cobertos de neve nesta altura. É bom para os
atletas que estão a começar a sua época e é aqui que podem aferir
a sua forma e o trabalho a desenvolver, e é bom para os amantes da
modalidade que a praticam numa vertente de lazer.
Certamente
encontraremos um caminho de algum financiamento
Orientovar – Para
quando a atribuição aos clubes destas provas pontuáveis para o
ranking mundial com a contrapartida de algum encaixe financeiro por
parte da Federação?
Augusto Almeida –
É mais um assunto que está em cima da mesa e é um assunto que a
Direção já tem discutido no seu seio. Temos três ou quatro
modalidades de ação mas primeiro quisemos entre nós pensar bem
como resolver o problema e, numa fase posterior, tencionamos chamar
os principais clubes e ver, das modalidades possíveis, quais as que
eles preferem. É verdade que a presença de toda esta gente, se for
onerada em três ou quatro euros não significa nada e, tanto para a
formação como para as seleções jovens, por exemplo, pode ser uma
fonte de financiamento muito interessante. Mas isto são situações
que carecem sempre de ponderação de todos os agentes. A nossa
modalidade vive essencialmente do voluntariado dos clubes, da
dinâmica dos clubes e, em tempos de crise, em que os clubes têm uma
dificuldade tremenda em arranjar financiamentos extra, que não sejam
os institucionais, temos que ponderar. Mas certamente encontraremos
um caminho de algum financiamento.
A modalidade aprendeu a
viver com o essencial
Orientovar – Que
impacto é que a crise económica que atravessamos pode ter sobre os
clubes e a modalidade?
Augusto Almeida
– Enquanto cidadãos, temos que aceitar que as pessoas cuidem do
seu bem-estar e dos seus, tomando prioridades. Não me passa pela
cabeça que uma pessoa que tem dificuldades em alimentar a sua
família, em honrar os seus compromissos, em satisfazer as suas
necessidades básicas, vá “esbanjar” dinheiro num evento. A
generalidade dos nossos concidadãos atravessa dificuldades e é
legítimo que não compareçam às provas, pelo menos àquelas que
são mais longe. Os combustíveis são caros, a alimentação, o
alojamento, enfim... isto resulta numa visível diminuição de
praticantes. Mas, ainda que com uma quebra na participação, penso
que a modalidade vai sobreviver sem grandes dificuldades porque,
felizmente para nós, desde 2002 que já vivíamos sem “gorduras”.
A modalidade aprendeu a viver com o essencial, sem coisas supérfluas,
sem desperdícios de dinheiro e é este o caminho que vai levar a que
a modalidade sobreviva incólume da crise, dure ela dois, três,
quatro anos. E não é por acaso que, para a Taça de Portugal 2013
Nível 1, tínhamos 18 eventos e tivemos 25 candidaturas, enquanto
aqui ao lado, o meu amigo Victor Garcia Berenguér, Presidente da
Federação espanhola, me dizia que tinha seis. Isto demonstra que a
modalidade em Portugal está viva, os clubes estão dinâmicos, os
praticantes estão envolvidos. Não vamos ter aquele desenvolvimento
que todos nós quereríamos, aquela expansão que todos nós
adoraríamos que chegasse ao cidadão comum, mas também não se vai
colocar um espectro negro para a modalidade, não vamos baquear.
Precisamos duma Direção
Técnica Nacional
Orientovar - Falando
nas selecções, estamos num impasse. A Federação está sem Direção
Técnica Nacional e os grandes compromissos internacionais estão aí
à porta. Como é que se sossegam as hostes?
Augusto Almeida –
Está tudo tranquilo. Não há insubstituíveis em lado nenhum – os
únicos que conheço estão todos nos cemitérios! – e, portanto,
temos que levar o dia a dia com calma, com tranquilidade e
trabalhando com denodo e afinco para irmos resolvendo os problemas.
Acabámos de resolver o problema da viabilização dos OriJovens e
dos OriJúniores. O problema da Direção Técnica Nacional,
seguramente também irá ser ultrapassado a seu tempo. Em termos das
Seleções Nacionais não estamos minimamente preocupados, estão bem
entregues, as coisas estão a fluir normalmente, a seguir o seu curso
sem sobressaltos. Claro, precisamos duma Direção Técnica Nacional.
Se não for profissional, terá que ser amadora, mas sem pressas.
Vamos fazendo o nosso trabalho duma forma consistente para levarmos a
modalidade para aquilo que acreditamos seja o melhor para ela própria
e o melhor para todos nós.
O progresso existe, não
existe é à velocidade que nós queremos
Orientovar – O
Gabinete de Comunicação e Imagem continua sem sair da estaca zero.
Tínhamos a promessa duma aposta nas redes sociais e duma remodelada
página no Facebook, temos um site no mínimo pouco apelativo, enfim,
o que é que está a falhar aqui?
Augusto Almeida –
Está a falhar que as pessoas não são profissionais. Vivemos de
boas vontades o que, conjugado com alguma falta de recursos – e a
saída de Fernando Costa criou aqui um hiato importante –, fez com
que as coisas, na verdade, não tenham andado. Também não serei eu
a dizer que é fácil andar. Há que ter paciência, há que ser
persistente, há que tentar. Se olharmos para os meios de comunicação
social nacionais, podemos constatar que, sem gastar um tostão, este
ano tivemos muito mais notícias nas televisões e nos jornais do que
em anos anteriores, em que até se pagavam assinaturas de mais de mil
euros por mês. Portanto, se olharmos friamente, alguma coisa se
evoluiu. O progresso existe, não existe é à velocidade que nós
queremos.
Precisamos de encontrar
um Órgão de Gestão
Orientovar – Os
dois próximos anos trazem-nos grandes desafios do ponto de vista
organizativo. São os Mundiais de Desporto Escolar ISF 2013, são os
Mundiais de Veteranos e a ronda final da Taça do Mundo de Orientação
em BTT, também em 2013, e é o Campeonato da Europa de Orientação
Pedestre e de Orientação de Precisão EOC/ETOC 2014. Como é que se
preparam estes embates?
Augusto Almeida –
O maior desafio está antes desses todos. O maior desafio está já
em finais de Maio deste ano, com as eleições para a Federação. Eu
assumo que esse é o maior desafio porque precisamos de encontrar um
Órgão de Gestão – Presidente e Direção – competentes e
capazes de levar a modalidade por um ou dois mandatos, sem doideiras
e sem demagogias.
Claramente, não sou
candidato!
Orientovar – Mas,
claramente, é candidato à Presidência da Direção da FPO para o
próximo quadriénio!...
Augusto Almeida –
Claramente, não sou candidato! Esta foi uma situação pontual para
resolver um problema que existia. Não vou dizer que me ponho
totalmente de fora porque, naturalmente, enquanto eu não morrer, não
fica ninguém órfão.
O maior desafio é
mesmo resolver o problema directivo
Orientovar – Mas
este não deveria ser um projecto de continuidade, com o lançamento
de candidaturas para 2013 e 2014, por exemplo?
Augusto Almeida
– É verdade que sim. Mas estas coisas cansam, estas coisas
aleijam. Nós, portugueses, somos um povo muito de desancar, de dizer
mal e muito pouco de elogiar e de apoiar. Parafraseando Martin Luther
King, “não perguntem o que é que o País pode fazer por vós,
pergauntem antes o que podem fazer pelo País”. E aqui o problema
que se coloca é igual. Não são muitos, é um punhado – eu
arranjo-lhes mais dois, eles formam uma Direção e temos o problema
resolvido – mas incomodam. E incomodam quem trabalha todos os dias
denodadamente. Eu tenho alguns companheiros de Direção bastante
cansados com estas situações, compreendo-os e percebo o cansaço
deles. Porque as pessoas, em vez de ajudarem, parece que estão
propositadamente à espera que caia um grão de pó num sítio
qualquer para apontarem. Esta postura é muito má, destrói, não
ajuda em nada. O projecto, órfão não ficará. Em última instância
tomaremos conta da Federação por mais um mandato, mas era
importante que viesse gente competente, gente capaz. Os desafios,
realmente, são tremendos. Vamos encará-los com a mesma dedicação
com que encarámos o WMOC, sem sobressaltos, mas volto à minha. O
maior desafio é mesmo resolver o problema directivo e encontrar uma
solução, se possível, para dois mandatos. A modalidade precisa de
linhas estratégicas sólidas, de estabilidade. Mas coisas com os pés
assentes no chão, não a estabilidade feita lá em cima dos
pinheiros. Espero que, pelo menos isso, a modalidade tenha aprendido.
Saudações
orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:
Só um reparo
"ask not what your country can do for you - ask what you can do for your country"
Inaugural Address by John F. Kennedy - January 20th 1961
Boa Noite;
Espero que a atual direcção da FPO continue, mas se não for o caso, acredito que as pessoas que forem chamadas a eleger uma nova, não cometam o mesmo erro do passado.
Os abutres já começam a vaguear por aí. Isso é um mau sintoma (na niha opinião, claro)
Cumprimentos;
Rui Antunes
Obrigado Nuno pela correcção.
Abraço
Publicar um comentário