Luís Santos é, pelo segundo ano
consecutivo, o Supervisor do maior evento regular de Orientação
Pedestre em Portugal. É nessa qualidade que fala do seu trabalho
junto da organização do POM 2012 e não tem dúvidas em afirmar que
o evento tem potencial para ser o melhor de sempre.
Orientovar
- Esteve diretamente ligado a quatro das seis últimas edições do
Portugal O' Meeting. Gostava que me falasse dessas experiências e
que estabelecesse as devidas comparações naquilo que é possível
ser comparado.
Luís Santos
- Apesar dos enormes investimentos em trabalho para estes eventos,
são eventos especiais e todos sabemos que são a nossa maior "porta"
de divulgação para a comunidade internacional da Orientação, pelo
que é para mim um orgulho ter feito parte das equipas de trabalho
que foram responsáveis pelas edições de 2007 (São Pedro do Sul),
2009 (Mora) e 2011 (Alto Alentejo). Apesar de falarmos da mesma
prova, foram todas experiências muito diferentes mas muito ricas em
termos emocionais, de vivências e de realização pessoal.
Tentando retratar em
poucas palavras cada uma delas, recordo um evento de terrenos
espantosos como foi o de São Pedro do Sul, um mapa que ficou como um
dos meus preferidos (Campo de Anta), o mau tempo em alguns dias de
prova e o meu maior erro que terá sido o não acompanhamento das
provas de Sprint. Desportivamente, marcou-me a vitória esmagadora do
Thierry Gueorgiou.
Em 2009 o volume de
trabalho pessoal foi muito mais esmagador pois fui co-diretor do
evento a meias com o António Rodrigues. Recordo o drama das tensas
relações com os proprietários (3º e 4º dias em risco a 3 dias do
evento e 2º dia em risco na manhã do evento) e a forma como
privilegiámos diferentes tipos de terreno, culminando com as pedras
de Pavia Leste. A recordação mais marcante foi a do OriShow no
Campo de Futebol do Cabeção. Organizativamente começámos o evento
à beira do cancelamento, com uma terrível incapacidade de colocar
as coisas a funcionar e acabou em apoteose com centenas de pessoas
nas bancadas do campo a viver intensamente a final. Não foi nada de
importante mas ficou na memória.
Em 2011, de novo uma supervisão,
primeira oportunidade de trabalhar com o meu amigo Fernando Costa.
Trabalho mais exigente para mim a nível técnico do que tinha sido
em 2007, excelentes momentos com a equipa organizativa do GD4C, de
novo o Thierry a brilhar. Momento menos bom talvez a Cerimónia de
Encerramento que é talvez o momento mais difícil de qualquer POM.
Uma prova tremendamente exigente para as organizações e que, à
hora da Cerimónia, quando já existe uma dose forte de
descompressão, é muito difícil manter os níveis de trabalho
elevados, o que acaba por causar dificuldades nos momentos finais.
Líder organizativo da
Orientação Pedestre Mundial no Inverno
Orientovar
- Que significado e importância tem para a Orientação portuguesa e
para o nosso país um evento com a dimensão e a projeção do
Portugal O' Meeting?
Luís Santos
- O Portugal O'Meeting não tem em Portugal a importância que
deveria ter, como um dos eventos desportivos que mais praticantes
estrangeiros traz a Portugal entre todas as modalidades. Mas esse
reconhecimento existe no mundo da Orientação. Creio que nos últimos
anos tem-se trabalhado muito e bem no sentido de projetar o evento e
Portugal como centro da Orientação Mundial no Inverno. Prezo muito
os amigos que tenho em Espanha e gosto de fazer Orientação em
Espanha mas aqui parece-me que houve um claro desafio entre Portugal
e Espanha na conquista pela preferência dos atletas de outros países
para treinarem e participarem em WRE’s no Inverno. A verdade é que
conseguimos - também com a ajuda do WMOC 2008 - desequilibrar este
desafio a favor de Portugal e hoje em dia nem passa pela cabeça dos
responsáveis espanhóis marcar um WRE para o fim-de-semana do POM,
como aconteceu no passado.
O POM projetou-se para
números julgados impossíveis até 2005/2006 (agora com POM's acima
dos 1500 participantes, antes nunca chegando aos 1200) e isso
reflecte-se também no WRE do fim-de-semana seguinte, nos campos de
treino, no WRE de Janeiro, enfim, Portugal parece-me ser efetivamente
o líder organizativo da Orientação Pedestre Mundial no Inverno,
estatuto este que deve ser valorizado por nós, mas também
salvaguardado, criando condições para nunca arriscar um POM fraco e
perder num ano todo o trabalho desenvolvido ultimamente.
Tento integrar-me de
corpo e alma nas organizações
Orientovar - Ser
Supervisor dum evento desta envergadura que responsabilidades e
desafios acarreta?
Luís Santos
- Eu vejo as minhas funções como alguém que deve estar ao serviço
da Organização. E só se alguma vez sentimos que a Organização
(ou alguém entre os seus múltiplos intervenientes) está a descurar
os interesses dos praticantes é que o Supervisor deve passar a ser o
defensor dos atletas. Tento integrar-me de corpo e alma nas
organizações e deixar claro, com trabalho útil, que estou presente
para ser uma mais valia para o evento e para o grupo organizador e
não um "empecilho" ou um "controlador" do
trabalho organizativo. Tento não sobrecarregar as contas da FPO com
viagens excessivas e isso traduziu-se por exemplo num grande esforço
para conseguir visitar no terreno todos os pontos de controlo em três
dias (não vi todos os do Sprint, mas terei visto mais de 350 pontos
de controlo), centralizando o enfoque do meu trabalho nos aspectos
técnicos da prova em terrenos exigentes e que obrigam a um elevado
grau de concentração de todos os intervenientes no trabalho técnico
(curiosamente, numa equipa muito similar há que já trabalhou em
2007 comigo). Quanto mais e melhor trabalho técnico for efetuado na
fase de preparação, mais tranquilos estaremos nos dias do evento.
Orientovar - Como
estão a decorrer os trabalhos de Supervisão do POM 2012?
Luís Santos
- Entrei no "comboio" do POM 2012 já com ele em
andamento, uma vez que entrei a substituir o meu colega supervisor
Rui Antunes, mas ainda a tempo de conseguir acompanhar todo o
trabalho técnico de preparação de percursos. O Ori-Estarreja tem
estado a fazer um trabalho excepcional a nível técnico, tal como já
fizera em 2007. As tarefas estão a seguir os seus timings normais e
as coisas parecem-me estar a correr bastante bem e só ao nível do
site seria bom haver um pouco mais de dinamismo para cativar os que
estão em dúvida para participar. O trabalho técnico encontra-se em
fase de conclusão e agora é hora de processar inscrições em
grande número e de planear e preparar aspectos logísticos
importantes como as partidas, algumas limpezas em zonas de prova,
preparação de Arenas, projeção de pontos de interesse para os
espectadores, organigramas e cronogramas para a prova, entre outros.
Se o sol brilha a
organização também brilha
Orientovar - Tem
havido necessidade de afinar muita coisa na articulação com as
entidades organizadoras ou a relação com o Ori-Estarreja e com o
Clube de Orientação de Viseu – Natura tem decorrido de forma
perfeitamente tranquila?
Luís Santos
- No POM 2011 havia uma dificuldade invulgar que era a necessidade de
articular com três municípios diferentes um evento desta dimensão.
Mas havia um único clube organizador e interlocutor. No POM 2012
temos dois municípios e dois clubes organizadores. O meu trabalho
tem sido quase totalmente realizado com o Ori-Estarreja, uma vez que,
no modelo organizativo implementado, ficou a seu cargo o trabalho
técnico dos quatro eventos principais, ficando o COV mais com a
ligação às entidades locais e com o Sprint de Viseu. Talvez o
trabalho de comunicação e divulgação pudesse estar a ser mais
eficaz, talvez o município de Viseu pudesse ter um papel mais
preponderante nesse aspecto, mas interessa assinalar nos aspectos
técnicos que há um excepcional trabalho de prospeção dos clubes
organizadores e os meus amigos do Ori-Estarreja não me vão levar a
mal se destacar o papel deste clube, que é pouco conhecido pela
comunidade orientista, como é o caso do Clube de Orientação de
Viseu - NATURA, mas que tem efetuado um trabalho notável na promoção
da modalidade nesta região do país e pode ter um papel fulcral no
desenvolvimento da modalidade num distrito que me parece ser um dos
distritos com maior potencial para a descoberta de novos terrenos
para a modalidade.
Orientovar - Que
Portugal O' Meeting vamos encontrar este ano?
Luís Santos
- Se alguém estiver na dúvida se o evento irá conseguir manter a
qualidade dos anos anteriores, não tenho dúvidas nenhumas em dizer
que tem potencial para os superar. Claro que depois na prática há
coisas que podem não correr da melhor forma. Costumo dizer, por
exemplo, que se o sol brilha a organização também brilha. Se é a
chuva que aparece, a organização só pode garantir que tudo corre
bem, mas a ideia do evento que fica nos participantes nunca será tão
positiva. Se o clima ajudar, há fortes possibilidades de estar aí à
porta um evento memorável, num POM que começa a ter um interesse
competitivo a entrar no Top 10 dos eventos mais acompanhados a nível
mundial (beneficiando do facto de ser o 1º grande evento da época a
nível Mundial e de servir de barómetro para avaliar a forma dos
melhores do Mundo), áreas belíssimas, principalmente em Sátão, e
na minha opinião, um evento que vai aumentando de interesse de dia
para dia, culminando com um 4º dia que é o meu preferido
(certamente haverá quem não venha a estar de acordo comigo quando a
prova estiver terminada...). Este POM irá levar a comunidade
orientista a conhecer uma cidade que tem estado fora do panorama da
modalidade mas que tem muito para oferecer e as provas de Sprint
urbano e de Orientação de Precisão constituirão uma boa forma de
confirmar isso mesmo. A título de curiosidade, estes dois eventos
terão lugar naquele que será, provavelmente, um dos maiores mapas
urbanos de Portugal.
Preocupa-me a
capacidade de "regeneração"
Orientovar - A pouco
mais de quinze dias do POM, há algum aspecto em particular que o
preocupa ou continua a dormir lindamente?
Luís Santos
- O que deveria estar feito nesta fase, feito está. Há ainda muito
por fazer, mas não vale a pena estarmos a preocupar-nos por
antecipação. Há experiência organizativa da parte de todos os
intervenientes e há capacidade de trabalho para desenvolver o que
está por fazer. Confesso que numa prova como esta, preocupa-me a
capacidade de "regeneração", dia após dia, do grupo
organizador. Quando começar o 1º dia da prova haverá já
intervenientes com cargas de cansaço elevadas em cima dos ombros.
Não é fácil chegar ao 4º dia ainda com um sorriso nos lábios e
capacidade de concentração para bem fazer e essa é uma das
preocupações de um POM. A outra preocupação não está nas nossas
mãos mas gera, naturalmente, alguma ansiedade. Falo do clima, embora
tenha consciência que um mau clima afecta essencialmente quem vai
pelo passeio e quem organiza. Quem vai para competir e não quer
saber de paisagens ou bonitas florestas, tanto lhe dá que chova ou
que faça sol, só lhe interessa o mapa e as suas opções.
Orientovar -
Pedia-lhe, a título pessoal e enquanto Supervisor da mais importante
prova do nosso calendário, que exprimisse um voto para este Portugal
O' Meeting.
Luís Santos
- O meu voto para este POM é que, se são portugueses e não sabem
se vão, não hesitem em participar. Se vêm de outros países e já
têm viagem marcada, certamente ficarão com vontade de voltar. Quem
descobriu os terrenos, quem os cartografou e quem vos preparou os
percursos, preparou-vos um evento de grande nível. Em termos
pessoais espero estar ao nível que a nossa modalidade precisa e
usufruir de uma das tarefas que mais gozo me dá na nossa modalidade:
a Supervisão.
Saiba tudo em http://www.pom.pt/pt/
Saudações orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO

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