1. Ultimam-se os
preparativos para mais uma edição do Portugal O’ Meeting. A
grande festa da Orientação portuguesa está a chegar e traz com ela
a promessa de enorme competitividade e números nunca vistos até
hoje em dezassete edições do evento. Oito dos dez melhores atletas
mundiais elevam o escalão de Super Elite Masculina ao nível dum
Campeonato da Europa ou dum Campeonato do Mundo e perto de metade dos
orientistas que integram o top 100 mundial, nos sectores masculino e
feminino, jogam nas florestas de Viseu e Sátão as primeiras
cartadas da época.
2. Para os atletas, é
tempo de avaliar o actual momento e de redefinir estratégias para
uma temporada que, este ano, vê as grandes decisões concentradas
nos meses de Junho e Julho. Para a organização – a cargo do Clube
de Orientação de Estarreja e do Clube de Orientação de
Viseu-Natura -, trata-se de mostrar que o evento, nas suas múltiplas
vertentes, foi bem planeado e melhor implementado. Bons mapas,
percursos bem traçados em terrenos de eleição, competição leal e
justiça nos resultados deixarão os atletas satisfeitos. E a maior
satisfação da organização residirá, precisamente, no
reconhecimento por parte dos atletas.
3. A região centro do
País acolhe, durante cerca de uma semana, 1200 atletas estrangeiros,
alguns deles de lugares tão distantes como o Canadá ou a
Bielorússia, a Nova Zelândia ou o Brasil. Dos quatro cantos de
Portugal virá perto de um milhar de participantes. Cerca de um
milhão e meio de euros é quanto se estima que o evento possa
injectar na economia da região e os vinhos do Dão, a Vitela de
Lafões ou os pastéis de Vouzela, entre muitas outras “instituições”
do Distrito, serão levados pelo Mundo inteiro graças ao Portugal O’
Meeting. Uma verdadeira lufada de ar fresco, numa conjuntura
macroeconómica fortemente recessiva e onde cada euro conta.
4. O querer e a
vontade de fazer sempre mais e melhor tem sido apanágio das
organizações do Portugal O’ Meeting, de 1996 até aos nossos
dias. Com um cariz absolutamente voluntário, centenas, milhares de
homens e mulheres têm oferecido o seu tempo, o seu espaço e os seus
recursos em prol duma causa entendida como sua e, dessa forma,
elevado bem alto a bandeira da modalidade, a bandeira do país. É
neste contexto que o anúncio do Governo em transformar a terça-feira
de Carnaval numa terça-feira de Cinzas, fazendo dum dia
habitualmente de festa e folia um dia útil de trabalho gratuito, cai
que nem uma bomba. Uma bomba cujos efeitos destruidores se farão
sentir já no curto prazo.
5. Um dos efeitos
imediatos prende-se com a quebra nas participações dos atletas
portugueses. Se um dia de trabalho a menos tem um peso significativo
no bolso de cada um de nós, dois dias terão um peso muito superior.
Não é de ânimo leve que se “empenham” dois dias de férias
para poder participar no evento e as próprias empresas nem sempre
demonstram a flexibilidade necessária para viabilizar estas
situações. Todavia, esta quebra acabará, em certa medida, por ser
minimizada pelo facto do rácio entre portugueses e estrangeiros ser
de 1:2 e esses, os estrangeiros, estão cá e continuarão a
procurar-nos em grande número, assim a qualidade organizativa das
próximas edições do Portugal O’ Meeting o justifique.
6. Mas é precisamente
sobre o impacto desta medida nas equipas organizativas que recaem as
maiores dúvidas e preocupações. Quem se dispõe, voluntariamente,
a organizar um Portugal O’ Meeting, conta, entre as premissas
positivas (ou menos negativas), o facto de três dos quatro dias do
POM serem dias de folga. Os fins-de-semana anteriores só
eventualmente não são roubados à família porque a Orientação é
o “desporto da família”. Mas há muito que ficará por fazer
quando a prioridade se chama Portugal O' Meeting. O peso excessivo
duma organização destas recai agora sobre uma estrutura mais
fragilizada do que nunca, porquanto perde na terça-feira de Carnaval
um pilar importante em todos os aspectos. Às preocupações
inerentes à organização do evento, soma-se mais uma. E que não é
de somenos.
7. Mas esta situação
vem afectar igualmente a prova WRE do fim-de-semana consequente ao
Portugal O' Meeting. O núcleo duro das organizações dessas provas
prescinde em grande medida da sua presença no Portugal O' Meeting,
no sentido de preparar condignamente o seu WRE. A prova não terá o
impacto da anterior, mas seis ou sete centenas de estrangeiros
ninguém lhe tira. São pessoas que prolongam por dez, doze ou mais
dias a sua estadia no nosso País, pessoas que trazem riqueza à
nossa economia. Pessoas que são extraordinariamente bem acolhidas e
que voltarão nos anos seguintes. E neste bem receber,
reconhecidamente, estará uma das chaves do sucesso dos nossos
eventos.
8. Parece que quanto
mais se apela ao voluntarismo e empreendedorismo, mais se reduzem os
apoios para aqueles que desenvolvem soluções sustentáveis e que
criam valor económico e social. O futuro afigura-se incerto, os
índices revelam desconfiança e descontentamento e medidas como
estas são tiros nos próprios pés. Com “passos” destes e a
“morder a língua” caminhamos para o abismo.
Saudações orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:
Apoiado! É um disparate, só para "mostrar serviço" aos controleiros externos. Vejam como somos capazes de sofrer... (mesmo que nos estejamos a imolar)
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