terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

HOJE FALO EU: TERÇA-FEIRA DE CINZAS OU AS MEDIDAS DO (DES)GOVERNO




1. Ultimam-se os preparativos para mais uma edição do Portugal O’ Meeting. A grande festa da Orientação portuguesa está a chegar e traz com ela a promessa de enorme competitividade e números nunca vistos até hoje em dezassete edições do evento. Oito dos dez melhores atletas mundiais elevam o escalão de Super Elite Masculina ao nível dum Campeonato da Europa ou dum Campeonato do Mundo e perto de metade dos orientistas que integram o top 100 mundial, nos sectores masculino e feminino, jogam nas florestas de Viseu e Sátão as primeiras cartadas da época.

2. Para os atletas, é tempo de avaliar o actual momento e de redefinir estratégias para uma temporada que, este ano, vê as grandes decisões concentradas nos meses de Junho e Julho. Para a organização – a cargo do Clube de Orientação de Estarreja e do Clube de Orientação de Viseu-Natura -, trata-se de mostrar que o evento, nas suas múltiplas vertentes, foi bem planeado e melhor implementado. Bons mapas, percursos bem traçados em terrenos de eleição, competição leal e justiça nos resultados deixarão os atletas satisfeitos. E a maior satisfação da organização residirá, precisamente, no reconhecimento por parte dos atletas.

3. A região centro do País acolhe, durante cerca de uma semana, 1200 atletas estrangeiros, alguns deles de lugares tão distantes como o Canadá ou a Bielorússia, a Nova Zelândia ou o Brasil. Dos quatro cantos de Portugal virá perto de um milhar de participantes. Cerca de um milhão e meio de euros é quanto se estima que o evento possa injectar na economia da região e os vinhos do Dão, a Vitela de Lafões ou os pastéis de Vouzela, entre muitas outras “instituições” do Distrito, serão levados pelo Mundo inteiro graças ao Portugal O’ Meeting. Uma verdadeira lufada de ar fresco, numa conjuntura macroeconómica fortemente recessiva e onde cada euro conta.

4. O querer e a vontade de fazer sempre mais e melhor tem sido apanágio das organizações do Portugal O’ Meeting, de 1996 até aos nossos dias. Com um cariz absolutamente voluntário, centenas, milhares de homens e mulheres têm oferecido o seu tempo, o seu espaço e os seus recursos em prol duma causa entendida como sua e, dessa forma, elevado bem alto a bandeira da modalidade, a bandeira do país. É neste contexto que o anúncio do Governo em transformar a terça-feira de Carnaval numa terça-feira de Cinzas, fazendo dum dia habitualmente de festa e folia um dia útil de trabalho gratuito, cai que nem uma bomba. Uma bomba cujos efeitos destruidores se farão sentir já no curto prazo.

5. Um dos efeitos imediatos prende-se com a quebra nas participações dos atletas portugueses. Se um dia de trabalho a menos tem um peso significativo no bolso de cada um de nós, dois dias terão um peso muito superior. Não é de ânimo leve que se “empenham” dois dias de férias para poder participar no evento e as próprias empresas nem sempre demonstram a flexibilidade necessária para viabilizar estas situações. Todavia, esta quebra acabará, em certa medida, por ser minimizada pelo facto do rácio entre portugueses e estrangeiros ser de 1:2 e esses, os estrangeiros, estão cá e continuarão a procurar-nos em grande número, assim a qualidade organizativa das próximas edições do Portugal O’ Meeting o justifique.

6. Mas é precisamente sobre o impacto desta medida nas equipas organizativas que recaem as maiores dúvidas e preocupações. Quem se dispõe, voluntariamente, a organizar um Portugal O’ Meeting, conta, entre as premissas positivas (ou menos negativas), o facto de três dos quatro dias do POM serem dias de folga. Os fins-de-semana anteriores só eventualmente não são roubados à família porque a Orientação é o “desporto da família”. Mas há muito que ficará por fazer quando a prioridade se chama Portugal O' Meeting. O peso excessivo duma organização destas recai agora sobre uma estrutura mais fragilizada do que nunca, porquanto perde na terça-feira de Carnaval um pilar importante em todos os aspectos. Às preocupações inerentes à organização do evento, soma-se mais uma. E que não é de somenos.

7. Mas esta situação vem afectar igualmente a prova WRE do fim-de-semana consequente ao Portugal O' Meeting. O núcleo duro das organizações dessas provas prescinde em grande medida da sua presença no Portugal O' Meeting, no sentido de preparar condignamente o seu WRE. A prova não terá o impacto da anterior, mas seis ou sete centenas de estrangeiros ninguém lhe tira. São pessoas que prolongam por dez, doze ou mais dias a sua estadia no nosso País, pessoas que trazem riqueza à nossa economia. Pessoas que são extraordinariamente bem acolhidas e que voltarão nos anos seguintes. E neste bem receber, reconhecidamente, estará uma das chaves do sucesso dos nossos eventos.

8. Parece que quanto mais se apela ao voluntarismo e empreendedorismo, mais se reduzem os apoios para aqueles que desenvolvem soluções sustentáveis e que criam valor económico e social. O futuro afigura-se incerto, os índices revelam desconfiança e descontentamento e medidas como estas são tiros nos próprios pés. Com “passos” destes e a “morder a língua” caminhamos para o abismo.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Manuel disse...

Apoiado! É um disparate, só para "mostrar serviço" aos controleiros externos. Vejam como somos capazes de sofrer... (mesmo que nos estejamos a imolar)