sábado, 4 de fevereiro de 2012

ANTÓNIO CARLOS SILVA: "É MUITO IMPORTANTE MOSTRAR AOS ATLETAS QUE ELES NÃO ESTÃO SOZINHOS"




Antonio Carlos Silva nasceu em 21 de Dezembro de 1975, em Brasília. Graduado em Pedagogia e pós graduado em Gestão de Recursos Humanos, é funcionário da Agencia Nacional de Aviação Civil. Nas horas vagas gosta de ler, correr, jogar vídeo game, curtir os sobrinhos, ou escrever pequenos poemas ou contos. Embora reconhecendo que “essas horinhas são curtas”, disponibilizou-se a partilhar connosco as suas impressões sobre algo que faz parte da sua vida: a Orientação.


Orientovar - Quando começou a praticar Orientação e que significado tem para si este desporto?

António Carlos Silva - Fui apresentado à modalidade no final de 2008. Minha amiga Vanessa, conhecedora dos meus interesses, falou acerca dum desporto onde era possível percorrer trilhos tendo como desafio encontrar pontos com o auxílio de uma bússola e um mapa. Daí fui apresentado ao meu mentor e amigo, José Fernandes, o qual possui alguns títulos importantes no Brasil e me tem ensinado bastante. Para mim a Orientação é o resultado da junção de três coisas que sempre gostei: testar o raciocínio, estar em contacto com a natureza e correr. Além disso, serve como terapia, já que possuo uma grave doença na retina e fui aconselhado pelo médico a ir ao encontro de atividades que diminuissem o grau de stress laboral a que estava exposto. No início acho que ele não achou muita piada à ideia, mas hoje podemos ver, literalmente, os bons resultados.

Orientovar - Apesar da sua vida de orientista ser relativamente curta, atrevia-me a pedir-lhe que nos enumerasse algumas das experiências mais marcantes ao longo destes quatro anos?

António Carlos Silva - De facto sou um novato ainda, aprendendo a ficar de pé na Orientação. Mas já posso citar momentos marcantes nesta modalidade tão apaixonante. Na minha curta trajetória, como marcantes estão todos os resultados que me levaram aos pódios. Felizmente, vez ou outra consigo aparecer numa cerimónia de entrega de prémios. O pódio é um momento mágico, onde o atleta extravasa emoções, onde mostra a todos a sua capacidade de superação. Também é o momento de reverenciar aqueles que engrandecem a disputa, ou seja, todos os outros atletas que lutaram mas não conseguiram aquele tempo ou aquelas balizas tão desejadas.

A vontade é de enumerar aqui vários momentos pitorescos na prática da Orientação. Isso por conta da paixão que tenho por essa modalidade. Mas vou citar apenas mais dois. O primeiro deles: a participação no WMOC 2011. Representar o Brasil no WMOC 2011 foi de uma carga emocional enorme. Impossível esquecer o momento em que eu, Marco Aurélio e Paulo Becker empunhámos a bandeira do nosso país, no desfile de abertura em Pécs, na Hungria. Foi emblemático por vários motivos. Estávamos longe do nosso país, sem sequer um uniforme de equipa (diferentemente do que ocorre com os atletas brasileiros que disputam o WOC ou os Jogos Mundiais Militares). Além disso, por diversas vezes fomos interrogados sobre a candidatura do Brasil para receber o WMOC 2014, inclusivé fomos entrevistados pelos organizadores do evento. Bem, fizemos a nossa parte, respondendo a todos sobre como é praticar Orientação no Brasil e que, sim, temos condições para organizar um Mundial. Felizmente, durante a competição, o blogue Orientovar produziu uma matéria versando sobre nossa presença no evento. Aquela matéria foi uma injeção de ânimo, pois havia entre nós uma sensação de abandono já que, embora sendo o Brasil candidato a sede do WMOC 2014, não houve manifestação oficial da Confederação Brasileira de Orientação sobre nossa presença no evento. Foram as palavras do Joaquim Margarido, pelo Orientovar, que estamparam na internet o reconhecimento do que representava a nossa presença naquela competição. É muito importante mostrar aos atletas que eles não estão sozinhos. Voltei da Hungria com a mala recheada de novas experiências e conhecimentos técnicos e sobre organização de grandes eventos. A outra experiência marcante está ocorrendo agora, enquanto respondo a estas perguntas.


Precisamos profissionalizar a gestão e a execução dos eventos

Orientovar - Todos sabemos o quanto a modalidade tem evoluído no Brasil nestes últimos tempos. Como tem acompanhado este processo?

António Carlos Silva - Tento posicionar-me o mais perto possível dessa evolução. Percebo que ela implica, consequentemente, uma maior participação de civis. Explico melhor: aqui no Brasil a Orientação é maioritariamente composta por atletas do meio militar. Ampliar o número de participantes vai de encontro, portanto, a uma mudança quase cultural acerca da forma como a modalidade vem sendo tratada por aqui. Num país tão grande como o nosso, é fundamental que as ações sejam realmente democráticas. Felizmente, percebe-se um crescente movimento neste sentido. Aos poucos, os eventos nacionais vão ocorrendo fora da região Sul, valorizando os demais clubes e atletas. Também há um visível esforço da Confederação Brasileira de Orientação em incentivar a participação de crianças e adolescentes em idade escolar.

Importa salientar que a modalidade aqui é considerada amadora, mas possui um crescimento acima da média quando a comparamos com outros desportos. Entretanto, no meu entender, ainda há muito a fazer. São vários os esforços dos clubes para cativar novos atletas, mas apenas uma percentagem muito pequena continua praticando a modalidade depois do contacto inicial. A fidelização dos novos orientistas ainda deixa muito a desejar. Precisamos profissionalizar a gestão e a execução dos eventos de Orientação, dar prioridade às ações de marketing e alargar o espaço de debates de ideias. Importante, ainda, estarmos atentos às novidades tecnológicas, tal como está sendo feito na Europa.


O trabalho em conjunto traz bons frutos

Orientovar - Admito que, em termos pessoais, a criação do “Orientista em Rota” seja a sua pequena contribuição para a melhoria deste desporto. Porquê um blogue?

António Carlos Silva - Quando comecei a participar em competições, tive a clara percepção de que a divulgação era um espaço vazio na Orientação. Ciente da força que tem a internet e suas ferramentas, achei por bem criar um espaço dedicado aos nossos atletas. No Orientista em Rota há espaço para mostrar ao mundo imagens dos atletas em campo, nos pódios ou em momentos de confraternização. Também há uma tentativa de criar um espaço para discussões técnicas e colher sugestões de melhoria para os próximos eventos. Ainda falta muito, mas vou tentando a cada dia melhorar este espaço. Sobre o formato de blogue, tem muito a ver com a questão de ser um espaço mais ágil. Já pensei em criar um fórum de discussão, mas percebi que não temos maturidade suficiente para tal (talvez seja necessário um pouco mais de tempo, para que tanto os atletas quanto os dirigentes tenham uma melhor noção de como utilizar esta ferramenta em defesa da Orientação). E quando falo em maturidade, refiro-me exclusivamente à dificuldade que temos em debater ideias. Há uma barreira sublimada a qual se firma na premissa de não contrariar aqueles que porventura são mais experientes na Orientação no Brasil. Quando sugiro ou exponho algo que vejo como negativo numa regra ou num evento, quero que entendam essas ações como uma oportunidade de melhoria e não como se estivesse desafiando ou tentando desmoralizar alguém.

Orientovar - Como avalia a parceria com o Orientovar e que resultou numa divulgação mais alargada do recente Campeonato Sul-Americano de Orientação?

António Carlos Silva - Confesso que fiquei positivamente surpreendido. Já conhecia o Orientovar e tenho especial admiração pela forma como são escritos seus textos. Também tenho a noção de que é um espaço com boa aceitação aqui no Brasil. A participação sincera dos orientistas foi o que me fez crer que estamos no caminho certo. Embora pese a sensação que nas entrelinhas há um certo receio por parte dos orientistas em tecer críticas aos organizadores, ainda assim elas tornaram-se explícitas e são extremamente importantes para melhorar nossos eventos. Acredito que o mérito de toda essa grande divulgação se deva à credibilidade conferida ao Orientovar. Sem titubear, arrisco-me a afirmar que esta foi uma das melhores coberturas online de um evento já realizado aqui no Brasil. O facto foi emblemático e confirma a máxima de que o trabalho em conjunto traz bons frutos.


Falta de padronização dos nossos eventos

Orientovar - Lena Eliasson foi uma das orientistas presentes no Sul-Americano e que teve a gentileza de partilhar conosco algumas impressões sobre o evento. Concorda com as observações feitas?

António Carlos Silva - Concordo em todos os aspectos. São observações que mereciam realmente ser expostas por alguém alheio à nossa realidade. Espero, de todo o coração, que os nossos dirigentes estejam atentos a essas considerações. Aqui abro um parêntesis para enaltecer a atitude do casal Ronaldo e Thaiane em trazer dois atletas de gabarito para a competição. Este intercâmbio é importantíssimo, sobretudo para quem deseja sediar um WMOC. A questão das distâncias e tempo de conclusão dos percursos foi atípica neste Sul-Americano. Daí a importância dos nossos cartógrafos e traçadores de percurso participarem em eventos na Europa. Aqui na capital, Brasília, tivemos uma melhoria considerável na organização das provas depois que o atleta Marco Aurélio decidiu implementar modelos os quais viu na Suiça, na Hungria e em Portugal. Apesar das resistências, em Brasília foi possível realizar em 2011 um campeonato de Sprint. E este torneio deixou-me completamente à vontade no Sprint do WMOC 2011. Felizmente estamos dando os primeiros passos. E o pioneirismo reside, também, em trazer o que há de melhor no berço da Orientação. Temos a bela oportunidade de avançar a partir das experiências e melhorias já implantadas na Europa.

Ainda pecamos na questão de divulgação dos eventos, nos informativos com partes de mapas e fotos do tipo de terreno que será encontrado e no apoio logístico para os orientistas. Este é um ponto sobre o qual gostaria de tecer mais comentários. Talvez o grande problema esteja na falta de padronização dos nossos eventos. Por exemplo, em 2011, o nosso CamBOr (Campeonato Brasileiro de Orientação) foi realizado na cidade de Fortaleza (litoral da região Nordeste), em Caldas Novas (região central do Brasil) e em Santana do Livramento, onde também ocorreu o Sul-Americano. De positivo é importante realçar que foram respeitadas a diversidade de vegetação, de clima e de atrativos naturais. Tivemos a oportunidade de disputar provas no calor, sob chuva e no frio. Mapas brancos, com bastante curvas de nível e em áreas abertas e também verdes. Essa diversidade é muito positiva. Entretanto, diferenças brutais foram facilmente observadas quanto às premiações (medalhas e troféus), organização logística, divulgação nos meios de comunicação social locais, cumprimento dos calendários propostos, divulgação dos horários de partida, capacidade técnica e quantidade de pessoal de apoio para a realização das diversas atividades que envolvem uma competição.


O choro da Wilma é como um alívio e incentivo a todos os orientistas brasileiros

Orientovar - Se lhe pedisse, à semelhança daquilo que faz o World of O, que indicasse quem foi para si a figura do ano 2011 no Brasil, tanto no sector masculino como no feminino, quem apontaria e porquê?

António Carlos Silva - No masculino, Marco Aurélio Teixeira, por todas as inovações que trouxe para as competições regionais em Brasília. Agora ele vai atuar no interior de São Paulo e julgo importante observar lá o seu trabalho. No feminino, impossível não destacar a equipe feminina que conquistou o terceiro lugar nos Jogos Mundiais Militares. O choro da Wilma é como um alívio e incentivo a todos os orientistas brasileiros.

Orientovar - Qual o seu calendário pessoal e os grandes objectivos para a nova temporada que agora começa?

António Carlos Silva - Reparto a Orientação com o trabalho, o que não é fácil. Estou com 36 anos mas vou permanecer na categoria H21A agora em 2012. Sei que ainda tenho muito a aprender e é este o meu maior objetivo. Neste ano conhecerei de perto o Portugal O' Meeting e participarei no meu segundo WMOC, na Alemanha. Quero compartilhar com aqueles que ficam as experiências vividas nas competições europeias. No meu clube a ideia é auxiliar na captação de recursos financeiros para incrementar os prémios e obter melhorias nos materiais utilizados (desde bases para balizas até a confeção de novos uniformes). É um passo para fidelizar um maior número de orientistas.


Tenho muito orgulho em ser praticante de Orientação

Orientovar - A finalizar pedia-lhe um voto para a Orientação brasileira e para todos aqueles que espalham o perfume deste desporto pelas florestas do Brasil.

António Carlos Silva - Tenho muito orgulho em ser praticante de Orientação. Estou muito grato a Deus por poder cruzar o Oceano e, além de correr, conversar com outros praticantes e desmistificar algumas ideias, às vezes equivocadas, sobre o nosso país (foram inúmeras as vezes que, em Pécs, na Hungria, pude falar com orientistas de outros países acerca dos nossos mapas, sobre as condições que temos para realizar um grande evento, sobre a nossa fauna, sobre a incrível diversidade de clima e terreno que possuímos). Espero ansiosamente que os nossos dirigentes vejam os orientistas como clientes e estrelas dos eventos desportivos. Estes que hoje estão coordenando os rumos do nosso desporto são heróis, pois o Brasil é a “pátria” do Futebol, do Voleibol e da Natação. Segundo dados da Confederação Brasileira de Orientação, estamos próximos dos dez mil orientistas registados. Tarefa nada fácil num país onde existe um campo de futebol em quase todo os quarteirões. Mas os tempos são outros e é preciso estar atento a toda gama de mudanças. Os meus sinceros parabéns a todos os que contribuem para o crescimento do desporto aqui e no resto do mundo. Seja organizando, seja divulgando, seja criticando, seja suando a camisa ou sujando os pés no campo de provas.






[Fotos gentilmente cedidas por António Carlos Silva]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Antonio Carlos Silva disse...

Olá, Joaquim.
Agradeço imensamente o apoio que tens dado a todos nós aqui do outro lado do Atlântico. Agradeço, ainda, a oportunidade e parabenizo-o pela simplicidade e sensibilidade das perguntas, as quais refletem o compromisso do seu blogue e da sua pessoa em buscar o melhor para a Orientação, seja aí na Europa, seja aqui no Brasil.