segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TRUNFO É COPAS!




A sorte não estava com ele e esta era mais uma “mão” fraquinha. Sem trunfos e só com cartas baixas, o homem desinteressou-se do jogo. Nas mesas adjacentes continuavam a ouvir-se as batidas secas, cortadas aqui e ali por uma interjeição mais irritada ou pelas manifestações de júbilo de quem acabava de dar um “chito”.

De repente, a calma de mais uma tarde de sueca foi invadida pela música, ao mesmo tempo que o espaço em volta do Parque se animava como que por magia. O homem ergueu os olhos, seguiu desinteressadamente um bando de pombos que levantava voo ao som da Shakira e acabou por se fixar num estranho e ruidoso grupo que passava ali mesmo ao lado. Decidiu levantar-se, cedeu o seu lugar na mesa a outro “rapaz” da sua idade e foi tentar perceber que algazarra era aquela.

Não eram estes esmaecidos raios de sol dum Inverno que teimava em desassumir-se, tão pouco as árvores ainda despidas, os ramos como mãos descarnadas erguendo-se aos céus, que tornavam diferente o Basílio Teles. Os amores-perfeitos começavam a cobrir os canteiros, tingindo-os dos amarelos e lilases das suas sedosas pétalas, mas isso era o mesmo todos os anos. Como era igual o jogo de repuxos, ordenados na sua imensa monotonia, que quebravam a espaços a rotina dum espelho de água invadido de quando em vez por uma gaivota mais atrevida. Diferente mesmo, eram as muitas dezenas de jovens que se preparavam para fazer daquela tarde a sua tarde. Uma tarde de festa e de convívio, de sã camaradagem e de competição leal. Uma tarde votada ao Desporto Adaptado, uma tarde de todos e para todos. Diferentes, mas iguais!

Mãos nos bolsos do casaco, o homem deu aos seus passos um norte sem norte, tentado a perceber o porquê de tanta energia, de tanta alegria. E quando de súbito deu por si, estava no meio dum relvado “semeado” de curiosos prismas laranja e branco. Numa das margens, uma jovem segurava um mapa e uma bússola. O alvo da sua atenção eram justamente aqueles prismas e o homem aproximou-se. Percebeu então que havia mais e mais prismas espalhados pelo relvado e também mais jovens e menos jovens seguravam mapas e bússolas e tinham ainda uma particularidade em comum: havia sempre alguém que os acompanhava, que os apoiava e auxiliava na deslocação em cadeira de rodas.

Que os prismas afinal se chamam “balizas”, viria a descobrir o homem entretanto, não sem alguma surpresa. Da mesma forma que veio a saber que este desporto, de linhas de norte, curvas de nível, áreas abertas, objectos especiais e pontos cronometrados feito, se designa por Orientação de Precisão. E que é um desporto exigente, que desafia os sentidos e apela ao intelecto, que “vive” de distâncias e de escalas, de observação, correlações e estratégia.

Dali, viu outros jovens e menos jovens, em grupos mais numerosos, seguirem ao encontro de mais balizas. Acompanhava-os agora, lado a lado, querendo experimentar, viver, sentir a felicidade da Orientação Adaptada. Também ele percebia que a cada sequência de cores correspondia o desenho duma mão aberta, dum coração ou dum sorriso. E todos os que estavam com ele abriam as mãos, mostravam-nas uns aos outros, cumprimentavam-se, abraçavam-se. E sorriam, sorriam sempre!

Perdoe-se ao escritor o devaneio. Forja-se um homem, solta-se um grito. Quer-se que o nosso homem tome finalmente consciência que, tal como a sociedade no seu todo, também ele andou de costas voltadas àqueles que são vistos como “diferentes”. Quer-se que ele se insurja contra o desprezo de ideais tão nobres como os da liberdade e da igualdade. Pretende-se que ele denuncie o autêntico desperdício que é marginalizarmos um tão grande manancial de exemplos e valores. Exige-se que ele regresse às mesas da sueca e, com um discurso inflamado, faça com que todos os outros se ergam e caminhem, tornados arautos duma sociedade mais justa e melhor.

O homem aproxima-se da mesa de jogo. Troca um olhar fugidio com o “rapaz” da sua idade que o substituiu e, ao sentar-se de novo, está seguro que o azar não vai durar sempre. À sua direita dá-se cartas. Trunfo é copas!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

Anónimo disse...

SIMPLESMENTE DIVINAL!

Grande Abraço
Rui Antunes

Rui Tavares disse...

Excelente Texto!
Parabéns á orientação adaptada e a todos aqueles que se esforçaram para fazer deste um dia diferente entre tantos iguais!

Fernando disse...

Bom dia
Já tinha saudades destes textos.
Eu que estudei mesmo em frente a este parque, quando li a história parecia que estava lá a ver os velhos das cartas. Parabéns.

Fernando

Joaquim Margarido disse...

Um abraço de agradecimento ao Rui Antunes, Rui Tavares, Fernando Costa e também à Ana Carreira - fiel comentadora do Orientovar no Facebook - pelas palavras de apreço e carinho. Espero conseguir mais tempo para dedicar a estes "devaneios". Também eu já tinha saudades das Crónicas!