quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

RUI MARQUES: "APENAS POR AMOR À MODALIDADE É QUE AS CORRIDAS DE AVENTURA SE MANTÊM"




Rui Marques é um apaixonado pelas Corridas de Aventura, disciplina com a qual travou conhecimento nos idos de 1999. Até lá nunca tinha ouvido falar de mapas ou de bússolas e aquela primeira experiência foi “amor à primeira vista”. A sua dedicação à modalidade levou-o a colaborar com diversas organizações e fez igualmente parte da estrutura interna de vários clubes. É ele o nosso convidado de hoje, para nos falar de Corridas de Aventura, justamente!


Orientovar - Este foi um ano atípico para a Orientação portuguesa, a conflitualidade no seio da Federação levou à queda da Direcção e do seu Presidente e, naturalmente, toda a estrutura competitiva se ressentiu dessa enorme instabilidade. As Corridas de Aventura, contudo, ressentiram-se mais do que as restantes disciplinas. Isso aconteceu porque as Corridas de Aventura são “o elo mais fraco”?

Rui Marques - Para perceber o que se passa é importante compreender um bocado a história das Corridas da Aventura. Elas nasceram fruto da persistência do Alexandre Guedes da Silva e de muitos que o acompanharam. Quer se goste ou não do Alexandre, temos que lhe dar o mérito de ter organizado as primeiras provas, de ter criado os primeiros Campeonatos e de ter fundado uma estrutura (Portugal Eco Aventura) que ano após ano foi ganhando adeptos, chegando nos últimos anos (antes de passar para a FPO) a ter médias de 50 equipas por prova. Essa estrutura foi aprendendo a enfrentar as contrariedades, muitas vezes à custa de erros e a tornar as CA's atrativas. Mas quando ocorreu a integração na FPO não se aproveitou o que já existia. O resultado não demorou muito a fazer-se notar. O número de equipas participantes começou a diminuir. Consequentemente, o estado actual é fruto disso. Apenas por amor à modalidade é que as CA's se mantêm. E um grande exemplo foi 2011.

Por exemplo a prova dos Açores só se realizou porque houve uma Directora de Prova (e toda a sua equipa) que se dedicou de corpo e alma à prova e, apesar das muitas adversidades que ocorreram, nunca baixou os braços. A Serra da Estrela só foi para a frente porque um grupo de atletas resolveu assumir a prova quando a estrutura que inicialmente estava por detrás desistiu. As restantes são organizadas por clubes já com credenciais nas organizações de provas e que procuram acima de tudo o desenvolvimento desportivo e não o lucro. Mas provavelmente se os Açores e a Serra da Estrela tivessem falhado, não sei o que seria do resto da época.


Chamar mais pessoas para a modalidade

Orientovar - Olhando para aquilo que se passa aqui ao lado, em Espanha, vemos que as Corridas de Aventura têm uma aceitação enorme, ao contrário do que acontece entre nós. Onde é que reside o segredo? Porque é que as coisas não funcionam assim em Portugal?

Rui Marques - Embora ultimamente não tenha acompanhado as CA's em Espanha penso que a razão da sua aceitação é terem mantido o mesmo modelo, a mesma estrutura. E podemos constatar que as provas se realizam numa área muito maior quando comparado com Portugal. Tanto pode ser na Galiza como no outro lado de Espanha, o que implica um gasto maior, mas os espanhóis não deixam de participar. Um dos aspectos que joga a favor dos espanhóis é o peso dos patrocínios das autarquias que é muito maior que em Portugal.

Orientovar – Falou anteriormente na Corrida de Aventura das Serras da Estrela e da Malcata, a qual foi tornada possível graças a um movimento que surgiu de forma praticamente espontânea, liderado por Jorge Baltazar. Foi uma solução de recurso ou vamos assistir a mais situações análogas no futuro?

Rui Marques - Eu gostava que isso não acontecesse, porque se acontecer é sinal que a FPO e os clubes não estão a conseguir assegurar o calendário. O que é necessário para reanimar as CA's é tornar a disciplina atrativa, adaptá-la à crise e chamar mais pessoas para a modalidade. Por exemplo, criar provas de um dia mas mantendo duas ou três provas de dois dias. Levar a cabo provas “em estrela” para que não seja necessário assistência e reduzir as necessidades organizativas. Cortar ou reduzir algumas actividades mais caras como sejam a canoagem. Criar condições financeiras mais apetecíveis para quem se inscreve em todas as provas do calendário. E acima de tudo incentivar o dinamismo e a publicidade.


A falha mais grave da FPO prende-se com o site

Orientovar - Que avaliação faz do trabalho da Federação enquanto organismo que tutela as Corridas de Aventura? É o trabalho possível ou sente que as Corridas de Aventura são menosprezadas?

Rui Marques - Seria fácil dizer que são menosprezadas, mas eu tenho a esperança que não seja isso. O que acontece é que o modelo organizativo mudou. Antigamente havia um núcleo central que organizava, ajudava a organizar e tinha uma larga experiência. Agora cada organização actua individualmente. A FPO deveria ter as funções desse núcleo com uma estrutura de apoio para além dos Supervisores. Mas as pessoas com experiência são poucas e também possuem pouca disponibilidade.

A falha mais grave da FPO prende-se com o site. Se olhássemos para o que existia no ciclo do "Portugal Evo Aventura", veríamos que toda a informação estava centralizada, quer informação sobre as provas, noticias, fotografias, comentários, etc. Havia troca de ideias, era um ponto de encontro e isso atraía as pessoas. Actualmente a informação está distribuída entre as páginas dos clubes e uns três foruns, o que dispersa as pessoas. Mas existem outras falhas como o calendário em que nalguns períodos houve provas encavalitadas e depois largos meses sem provas. Ou não terem insistido em protocolos com outras entidades para a organização de provas, como por exemplo o Exército.


As CA's podem agir como um chamariz de atletas para praticarem Orientação

Orientovar - É daqueles que defende que as Corridas de Aventura se deveriam constituir em organismo autónomo, eventualmente com uma estrutura federativa própria?

Rui Marques - Costuma-se dizer que a união faz a força e por isso as CA's ganham com a integração, tal como as restantes modalidades ganham com a presença das CA's. As CA's podem agir como um chamariz de atletas para praticarem Orientação. Muitos vão participar numa aventura com os amigos e têm os seus primeiros contactos com os mapas. Eles também vão querer aprender a ler um mapa e a usar uma bússola. E quantos não passam a participar regularmente nos Campeonatos de Orientação Pedestre e em BTT? As CA's levam mais facilmente o desporto e a Orientação a sítios desconhecidos. E muitos desses sítios são relembrados mais tarde para provas de Orientação.

No entanto não gostava de ver isto num esquema de uma modalidade ter mais vantagens que outra. O que é importante é que as modalidades da FPO, no seu cômputo geral, saiam a ganhar. É impossível ter quarenta e oito provas de Orientação Pedestre da Taça de Portugal. As pessoas ficariam fartas e os Campeonatos perderiam interesse. A conjugação das várias modalidades vai tornar mais variado e atractivo o calendário.


Existem muitas alternativas mais baratas para quem gosta de aventura

Orientovar - Quais as suas expectativas relativamente ao próximo ano?

Rui Marques - Espero que 2012 seja melhor que 2011. Haver apenas três provas em Portugal pode levar a um menor esforço financeiro por parte das equipas, e desta forma serem mais participativas. Actualmente existem muitas alternativas mais baratas para quem gosta de aventura. Mas as CA's são especiais pelo trabalho de equipa, pela estratégia e pelas várias disciplinas que a compõem. As provas da próxima época realizam-se em locais com muitas potencialidades como Viseu, Vila Velha de Rodão e Lousã. As equipas organizativas têm alguma experiência pelo que espero que sejam provas de boa qualidade e que irão explorar as maravilhas naturais daquelas zonas. Espero também que a FPO dê uma ajuda para relançar esta modalidade.

Orientovar - Quer deixar um voto para 2012?

Rui Marques - Eu gostava que as pessoas deixassem de lado os conflitos existentes e se unissem em prol das modalidades que a FPO tutela. Que se deixasse de pensar em organizar provas apenas para ter lucro e que se pensasse mais no desporto. O objectivo da Orientação deve ser o de trazer as pessoas a praticarem desporto e a saírem satisfeitas. As Corridas de Aventura, como parte integrante da Orientação, também deve contribuir para atingir esse objectivo, oferecendo um vasto conjunto de atrativos que as outras modalidades não conseguem dar.



[Fotos gentilmente cedidas por Rui Marques]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

Dinis Costa disse...

“Um desalentado” (*)
Sempre a velha dualidade:
De um lado o desporto do outro o proveito (cofre no secretariado).
À mais do segundo lado que do primeiro e, as pessoas que participam pelo prazer que a coisa lhes dá, sentem desalento, quando outros se aproveitam da sua generosidade.
(*) Fui diretor de duas provas.

Mário Santos disse...

O grande erro dos responsáveis pelas Corridas de Aventura foi de natureza estratégica. A falta de visão de futuro, forçando a integração na FPO em vez de se projectarem como uma modalidade com Federação Própria, em que poderiam ter aproveitado a estrutura organizativa que já existia, é a principal razão pelo definhar das Corridas de Aventura. Procurar causas noutro lado é escamotear a verdadeira razão e não querer aceitar que aqueles que o defendiam na altura, porventura teriam razão. Mas estão sempre a tempo, porque esse é o caminho mais correcto. Corridas de Aventura não são uma modalidade de Orientação, mas continuam a insistir nisso (basta ver que numa equipa de CAs, nem todos precisam de saber ler um map). Em Portugal as CAs apoiam-se muito na Orientação porque isso é o mais fácil e barato em termos organizativos. As CAs são um desporto multi-actividades em que a Orientação é apenas uma dessas actividades. Insistir na actual solução poderá mesmo levar à extinção completa das CAs. Mas os responsáveis pelas CAs, em vez de canalizarem as suas energias para fomentar e dar um novo rumo às CAs, desgastam-se em críticas negativas e destrutivas à actual Direcção da FPO e a algumas pessoas que pertenciam a essa Direcção antes de Alexandre Guedes da Silva ter sido o Presidente da FPO. Reparei até que este senhor continua a ter no fórum da FPO um tópico onde numa base quase diária "casca" na Direcção da FPO descarregando toda a sua frustração por algo que na realidade é da sua responsabilidade: não ter dado um rumo e um futuro condigno às CAs. E tudo isso começou no dia em que optou pela via da integração na FPO em vez de permitir às CAs assumirem-se como uma modalidade autónoma, porque tem todas as características para isso.