sábado, 21 de janeiro de 2012

O MEU MAPA: "PERCURSAMENTOS" DE DINIS COSTA




O promotor do Blogue desafia-me, em jeito de convite, a fazer a escolha de um Mapa, com o propósito de a partilhar com todos Vós, assinto por consideração. Pois, sou feliz quando acrescento Valor ao mundo e quando aprecio Valor no mundo.

Como introito à problemática direi que escolher é sempre excluir, tal como generalizar é ignorar a parte, isto é, excluir de outro modo.

Logo, dizer que só um Mapa é bom é mentir e dizer que todos são bons é um ardil, mas o compromisso não permite o refúgio no truísmo. Por outro lado, ter consciência desta problemática ético-gnosiológica já é uma escolha de existência, uma busca; na independência e na verdade…

Nos primórdios, compreensivelmente, só havia uma mão aberta de Mapas e de Clubes já contando com ANORT e ASORT (que são história). Multiplicaram-se uns e outros. O aparecimento de mapas novos e a obrigatoriedade de algumas provas terem de se realizar em tais mapas foi fundamental para a minha afirmação, dado que, alguns dos demais até já conheciam as moitas dos mapas existentes e estavam nas suas “hortas” a fingir que faziam Orientação.

Como sou de operações especiais “ranger” tinha muita prática de navegação na escala 1/25000, os novos mapas eram raridade mas, a ousadia e o desafio eram aliciantes, havia que tentar bater umas bolsas de “deuses míticos” da modalidade que estavam nos “fusos”, nos “páras” e nos “cmds” e um ou outro deus solitário que são os que mais admiro porque valem por si.

Solitário, fazendo uso de argucia e reflexão, aprendendo com os meus erros e com os dos outros, fazia trabalho físico e técnico intensivo:

Treinei com determinação e persistência.

Fazia treino sistemático, assente num plano, como uma forma de organizar, testar e, definir comportamentos, criar automatismos mentais. Houve treinos, e algumas provas, em que arriscava para poder inovar.

Treino de novo, penso, questiono, percebo que a condição técnica, na Orientação, tem que estar sempre, no mínimo, um passo à frente da condição física.

Munido de raciocínio prudencial fiz preparação “específica” e, na impossibilidade de fazer o treino físico em terreno semelhante, por este não existir na área de residência, muni-me de umas sapatilhas próprias e fiz a preparação física correndo sobre as rochas e pedras de grande dimensão, fixas para prevenir entorses, junto ao mar, em especial na zona intercotidal, na praia de (Ribeira D’Ilhas) a norte da Ericeira.

Aclaro que treinar em terrenos semelhantes não é treinar em mapas iguais ou até quem sabe…,

O subentendido é o pior crime pois, não há nada melhor, para quem se quer vencer, que ter o prazer de pegar num mapa virgem e usufruir

No dia da competição cumpri o meu ritual e parti concentrado, senti-me seguro sempre que tive que progredir sobre afloramentos rochosos húmidos, para fugir à vegetação existente entre os mesmos. Venci-me e, ao faze-lo, tive êxito.

Mas, entendo que quem pretender vencer deve, em primeiro lugar, reconhecer e analisar os seus fracassos para os suprimir e, por outro lado, deve também compreender e analisar os seus êxitos para os poder replicar.

Chegados aqui apresento-vos a minha escolha, arquétipo sem legenda ou identificação para ser todos e de todos, é objeto simbólico que homenageia todos os Terrenos, todos os Cartógrafos e todos os Mapas.

O mapa do Campo do Gerês – Sul

Não o entendam como uma escolha mas como uma referência, estereótipo, que me serviu e serve de pretexto para este percurso e pensamentos (percursamentos) sobre a minha envolvência com a Orientação, que me envolveu e envolve, porque faz parte da minha experiencia de vida, fascina-me, é, por isso, tao só, um ponto significativo, um pico de forma e resultados que veio em crescendo: Campeão Ibérico *.

Confesso-vos que o que mais contribuía para a minha autoestima não era receber os troféus - a fotografia -, mas sim a adrenalina da sua conquista sendo, por isso, sempre discreto nas vitórias. Ao chegar ao final de uma prova sem mácula – “prova limpa” -, objetivo derradeiro, era o sucesso emocional supremo.

Nos momentos que precediam a partida o meu pensamento estava no mapa, afastando sempre a obrigação de vencer. Vencer é fazer uma prova limpa, a competição com os demais é secundária. Pois, defendo que quanto mais se afastar do pensamento qualquer preocupação de qualquer ordem, maior será o sucesso.

Neste contexto, conhecer e sentir a natureza favorece o sucesso, uma espécie de amor telúrico. Pois, um praticante é dono do seu percurso mas o sucesso implica que este tenha de entre as qualidades necessárias a qualquer competição as mais nobres. Atrevo-me a postular que a Orientação produz uma ética desportiva, uma ampla educação do espírito e da mente. Se noutras modalidades se fala em agressividade, para vencer aqui, em particular neste tipo de mapas, faz-se jus à rusticidade.

Ou seja, na nossa modalidade não é possível maximizar o sucesso fazendo uso da agressividade, com os concorrentes, com a organização, com a fauna ou com a flora ou com qualquer outra coisa. Exemplarmente rememora-se que quando se vê, numa qualquer competição, um qualquer praticante fazer uso de agressividade e lançar a bússola ou o mapa ao chão, e/ou palavrões ao ar fica-se imediatamente a saber que tal perfil nunca será um campeão até pode andar lá perto mas, para campeões -, a modalidade exige, valores e padrões de comportamento peculiares.

Em resumo, o sucesso requer qualidades como humildade, concentração, serenidade, ponderação nas decisões e uma avaliação “intelectual” dos dados em presença a cada “passada”…

Superei-me e, ao faze-lo, venci, ciente de que ainda tinha muito para aprender, segui outros caminhos, nutria outros desejos, sem deixar de “rondar” esta modalidade “inteligente”. Uma mescla de “xadrez” e corta mato. Um desporto com “cabeça e pés” isso sim é o que ela é. Não se pode” meter os pés” quando eles vão sem a cabeça a dirigi-los é o fim, é o fracasso pela certa, “borrega-se”.

Sempre me lembrarei de quem valorizou as minhas vitórias, amigos verdadeiros -alguns, todos estes mereciam ser nomeados individualmente, mas tenho receio de deixar ficar algum nas partidas da memória, porque são muitos. Assim, salvo do esquecimento genericamente os que me obrigavam a uma concentração constante, a uma escolha maximizada (dada pela relação entre consumo de energia e a velocidade de progressão) pois, todos sabemos que o cronómetro não para, a rocha não se desvia, a silva prende e vencer o desnível e a escarpa cansa.

Nestes espaços, de relevo rude e flora exuberante é que o espírito da modalidade se surpreende em toda a sua plenitude, por oposição aos terrenos onde o azimute faz de um campeão de corta mato um campeão de orientação, quer dizer: pode vencer tais provas.

Esta tipologia de mapas obriga os praticantes a fazer orientação, têm que ler o relevo em curvas de nível imaginárias, por a cabeça a pensar que é para isso que ela serve. Força-os a sair da rota (azimutal) num contínuo a cada pernada. Dá-lhes a possibilidade de progressão de construir saber.

Por outro lado, esta escolha justifica-se ainda, porquê este retalho é parte de um todo montanhoso com paisagens edílicas, que faz parte do imaginário cultural da nossa comunidade.

Chegados ao fim, desta partilha, direi que fazer orientação é sentir a natureza, é “VER” com o pensamento, - ver mais do que o olhar alcança -, a cada momento da progressão, fazendo uso da leitura e da interpretação de uma multiplicidade de códigos e símbolos de um mediador:
UM MAPA; o mapa do Campo do Gerês – Sul.

*Vencer no Exército e nas Forças Armadas, noutros mapas e locais, foi, para mim, igualmente significativo pela natureza das competições e da minha condição profissional.


Dinis Costa
Fed 1213

3 comentários:

José Grada disse...

Grande lição de Orientação!!!
Obrigado, Dinis.

fernando disse...

Também tive o prazer de partilhar algumas destas aventuras e histórias do Dinis Costa. Foi para muitos um grande professor.

jcsantos disse...

Bem-Haja por me ter proporcionado uma outra maneira de ver e sentir a Orientação.
Um abraço