terça-feira, 24 de janeiro de 2012

EVA JURENIKOVA: "É COMO TREINAR NO PARAÍSO"




Deixou para trás as florestas cobertas de neve e abraçou os magnífico tapetes verdes do Norte Alentejo como quem se entrega a um sonho. Eva Jurenikova esteve alguns dias em Portugal e o Orientovar falou com ela. Por trás duma fisionomia frágil e duma voz quase sussurrada, esconde-se uma pessoa duma enorme força interior e uma orientista que vive e sente a modalidade como poucas.


Orientovar – Foi possível vê-la em Portugal neste início de Janeiro. Que significado teve esta estadia no início duma nova temporada?

Eva Jurenikova – Portugal é um lugar perfeito para treinar no período de Inverno. Já de há uns anos a esta parte que venho a Portugal quase ininterruptamente, pelo menos durante uma semana. Este ano estarei cá por duas vezes, uma vez que regressarei no próximo mês. Vejo Portugal como um dos melhores locais para nós, não apenas por causa do clima – é impossível, durante o Inverno, treinar na Escandinávia -, mas também pelos terrenos e pela oferta de campos de treino, pela sua qualidade. A qualidade é um aspecto verdadeiramente importante. Mapas, percursos, terrenos e… bom tempo. Não precisamos de temperaturas de 25º. Este tempo é perfeito para treinar. Imagino como deve estar na Suécia, com temperaturas de 20º negativos. São condições impossíveis para treinar. Aqui é como treinar no paraíso.

Orientovar – Quando teve início a sua preparação para a nova temporada?

Eva Jurenikova – Podemos dizer que comecei com alguns treinos estruturados a meio de Novembro. Duma maneira geral, é no período de Inverno que treinamos para os grandes resultados. Esta é a altura de treinar no duro, de lançar a temporada. É agora. Trabalho imenso a minha Orientação. Se vou de férias, por exemplo, procuro sempre um campo de treino ou algo de parecido. Costumo fazer uma pequenina pausa, geralmente em Novembro, mas não tenho nenhuma planificação rígida a este respeito. Levo a coisa nas calmas, não me forço a nada… mas não seria nada fácil estar duas semanas sem treinar. É como o ar que respiro. Claro que, se estiver doente ou lesionada, não posso treinar. Mas esse não é o meu estado natural.


Procuro ir ao encontro daquilo onde devo melhorar

Orientovar – Falando dos campos de treino do Norte Alentejo, foi possível ver que alguns dos percursos são traçados por si. Como é que chegamos aqui?

Eva Jurenikova – Há algum tempo atrás, recebi um e-mail de Fernando Costa dando conta da sua intenção de organizar campos de treino nesta região. Em Dalarna, onde vivo e trabalho, falámos sobre as hipóteses que se nos ofereciam para campos de treino e Portugal era uma das minhas propostas. Lembrei-me então daquele e-mail, entrei de novo em contacto com Fernando Costa, recolhi informações adicionais sobre os campos de treino e ofereci os meus préstimos para traçar alguns percursos, no caso de ele necessitar de ajuda. Já cá tinha estado antes; na verdade, conhecia até alguns dos mapas e sabia, portanto, de que tipo de terrenos estávamos a falar. Isto ajuda imenso quando traçamos um percurso, sabemos se devemos fugir ou não às zonas mais verdes no mapa, mas a verdade é que me esqueci dessas pequenas linhas de água que, nesta altura do ano, poderão não ser tão pequenas assim. Isto fez com que as passagens não estivessem mencionadas. Isto é algo que deverei ter em atenção no futuro. Mas devo confessar que estou muito satisfeita com os mapas e com o meu trabalho.

Orientovar – Qual a análise que faz da época passada?

Eva Jurenikova – Foi a minha melhor época e isso deixou-me imensamente feliz. Quer dizer, eu busco sempre mais, procuro ir ao encontro daquilo onde devo melhorar e há imensas coisas onde poderei melhorar ainda mais também este ano. No decorrer de algumas provas mais importantes, cometi alguns erros que se revelaram cruciais mas, globalmente, a temporada foi muito boa. Fiquei muito feliz com as minhas prestações e com os resultados. Alcancei a minha primeira medalha num Campeonato do Mundo, a medalha de prata com a equipa da República Checa na Estafeta, e fiquei muito perto duma medalha individual com o 4º lugar na prova de Distância Longa. Quando cheguei ao final desta prova, confesso o meu desapontamento. Cometi alguns erros mesmo no final da prova e esses erros custaram-me uma medalha. Bem, nas primeiras horas após o final da prova, devo dizer que estava inconsolável, ainda que o 4º lugar fosse o meu melhor resultado de sempre a título individual. Mas mais tarde, já na última noite dos Campeonatos, cheguei à conclusão que, afinal, as coisas não correram mal de todo, consegui excelentes resultados e estou muito contente.


Talvez possa melhorar um bocadinho mais, mesmo treinando um bocadinho menos

Orientovar – E este ano, na Suiça?

Eva Jurenikova – Tenho feito uma análise cuidada dos terrenos, de qual o tipo de treino mais adequado. Posso dizer que as provas de Distância Longa e de Estafeta decorrerão em terrenos similares àqueles que encontramos em Ostrava, na República Checa, de onde sou natural. Não são terrenos muito exigentes do ponto de vista técnico, mas ainda assim penso que vamos ter de ser rápidos, muito bons fisicamente e, no final, muito precisos. Realmente não iremos ter tempo para perder alguns segundos, será necessário optimizar durante toda a prova. Mas não serão uns Campeonatos tão especiais como o foram em França, no ano passado.

Orientovar – Vamos vê-la chegar à medalha individual e ao ouro na Estafeta?

Eva Jurenikova – As coisas alteraram-se. No último ano fui profissional, não trabalhava e tinha tempo para treinar. Treinei como nunca tinha treinado antes e a verdade é que os resultados fizeram-se notar. Este ano estou a trabalhar, começo já a perceber que uma boa parte dos meus interesses não se resume aos treinos e às provas e coloco realmente um grande enfoque noutros assuntos. Continuo muito motivada para alcançar bons resultados, mas estou igualmente muito motivada para fazer um bom trabalho nos Campeonatos Europeus EOC 2012, em cuja organização estou envolvida. Veremos o que me reserva o futuro, mas continuo a treinar. Passei em revista a última temporada e, face às circunstâncias, decidi levar a cabo alguns pequenos ajustes. Quero correr mais e fazer mais Orientação do que no ano passado, numa altura em que fiz muito esqui durante o Inverno. Talvez possa melhorar um bocadinho mais, mesmo treinando um bocadinho menos. Isto motiva-me a continuar, a olhar para todos os pormenores onde posso melhorar. Penso que todo o processo que leva à grande vitória na maior das competições passa por aqui, em campos de treino como este, treinando, vivendo esta vida de orientista, mantendo elevados níveis de motivação. Se assim posso dizer, isto dá-me uma imensa felicidade.


Um enorme desafio

Orientovar – O que representa para si ser um dos traçadores de percursos dos próximos Campeonatos da Europa, em Dalarna?

Eva Jurenikova – Representa um enorme desafio. Tenho a certeza que estarei mais nervosa durante os Campeonatos na “pele” de traçador de percursos do que estaria se fosse simplesmente competir. É uma enorme responsabilidade e sei bem que a expectativa das pessoas em relação ao meu trabalho é elevada. Tem sido um enorme trabalho traçar as qualificatórias e as finais das provas de Distância Média e de Distância Longa. Serão, ao todo, vinte provas em quatro dias de competição. É uma enorme responsabilidade, há muito trabalho realizado nesta área, há diferentes tipos de percursos, tenho corrido, tenho verificado os pontos, uma vez, duas vezes, três vezes. Tenho marcado os pontos de controlo, tenho discutido com outras pessoas as opções… e tudo isto sem perder de vista as transmissões televisivas, os espectadores, as Arenas, como é que irá ser tudo isso e ainda as reuniões com os representantes das várias seleções, as áreas de quarentena antes do início das provas, enfim, um número infinito de pormenores que se apresentam e aos quais devemos dar resposta.

Como é óbvio, não posso apenas sentar-me ao computador e traçar os percursos; é necessário andar no terreno. E falar com o cartógrafo, falar muito, discutir o mapa; a cooperação entre cartógrafo e traçador de percursos tem de ser perfeita. Tenho algumas ideias de pormenor em relação ao mapa e este está ainda em fase de acabamentos, até acabar por ser impresso. Mas em todo este processo há também os traçadores dos restantes percursos e muito mais pessoas envolvidas, não sou apenas eu.


Encarar os erros como uma possibilidade de aprender algo e de progredir

Orientovar – Assumiu-se frontalmente contra as alterações que a Federação Internacional de Orientação pretendia implementar no programa dos futuros Campeonatos do Mundo. Como recebeu a notícia do recuo da IOF neste processo?

Eva Jurenikova – Estou muito contente com o facto de vermos a IOF recuar nos seus intentos. Penso que as distâncias que constituem o actual programa dos Campeonatos do Mundo não precisam de ser alteradas no sentido de as tornar mais mediáticas. As alterações que se impõem têm a ver com o próprio processo de produção televisiva. Há ainda imenso a fazer, poderemos vir a melhorar bastante. Não é necessário inventar novas distâncias ou novas disciplinas. A minha discordância incidia essencialmente no alinhamento da prova de Distância Média, com um prólogo e uma final sob a forma de perseguição, ou “chasing start”. Tudo aquilo estava tão errado. Não se pode vencer uma prova sem sequer olharmos para o mapa. Com uma final a ser decidida no sistema de “chasing start”, teríamos necessariamente um grande número de atletas a partir praticamente ao mesmo tempo, para a mesma prova, bastando seguirem-se uns aos outros ou simplesmente seguir o homem da frente. Nalguns casos seria possível meter o mapa no bolso e esperar pelo último ponto de controlo… Aquilo que quero dizer é que a Orientação poderia ficar de lado, pelo menos para uma parte dos atletas. Perde-se o valor da Orientação, a prova transforma-se numa espécie de corrida de Corta-Mato. Há muitos aspectos envolvidos que têm a ver com a justiça dos próprios resultados desportivos e esta alteração iria ser, seguramente, um aspecto tremendamente negativo no desenvolvimento da modalidade.

Orientovar – Neste início de 2012, pedia-lhe que deixasse uma mensagem a todos os orientistas.

Eva Jurenikova – Desejo a todos muitas alegrias neste fantástico desporto. Tentem encarar os erros como uma possibilidade de aprender algo e de progredir. Ao nível da Elite, dá-se naturalmente uma atenção muito grande aos resultados mas, por vezes, não são eles o melhor indicador duma prestação bem sucedida. Procurem avaliar as vossas performances antes de olhar para o quadro de resultados.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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