domingo, 4 de dezembro de 2011

WILMA SOUZA: "EXISTEM SENSAÇÕES QUE AS PALAVRAS NÃO CONSEGUEM DESCREVER"




Nascida há 32 anos na cidade do Cabo de Santo Agostinho, no Estado de Pernambuco, região Nordeste do Brasil, Wilma Barbosa de Souza é 2° Sargento da Aeronáutica, especialista em Eletrónica e a nossa convidada de hoje no Espaço Brasil. 


O primeiro contacto de Wilma Souza com a Orientação ocorreu em 2004 e, desde então, entre as muitas conquistas, foi Campeã Brasileira de Elite (2006), Vice Campeã Sul-Americana (2006), Campeã Sul-Americana (2009) e Vice-Campeão Sul-Americana de Sprint (2010). Em 2004 participou nos Campeonatos Mundiais Militares, na Holanda, o mesmo acontecendo em 2005 (Finlândia) e 2007 (Croácia). Em 2005 esteve presente na Estafeta Jukola (Finlândia) e em 2010 no O-Ringen (Suécia). Já este ano, para além duma etapa da Liga Francesa de Orientação Pedestre, esteve presente no Portugal O' Meeting (Alter do Chão, Crato e Portalegre) e ainda no II Meeting Internacional de Arraiolos. A sua maior conquista foi alcançada no passado dia 22 de Julho, no decurso dos 5º Jogos Mundiais Militares do CISM (Rio de Janeiro), com a obtenção da medalha de bronze na prova de Estafeta feminina.

Pessoa sensível, aquilo que Wilma Souza mais aprecia no ser humano é a bondade, o dom de fazer o bem e em contrapartida o que mais detesta é a maldade. Na sua opinião, “a cada dia que passa, assiste-se a uma luta equilibrada entre o bem e o mal, de um lado pessoas que fazem o bem, que ajudam o próximo, que dizem não à guerra, à fome, e do outro lado aquelas pessoas que fazem o mal, semeiam a discórdia, são violentas, intolerantes com o próximo e por muito muito pouco iniciam as guerras de todos os tipos”. Quanto aos hobbies, o que gosta mesmo é de comer. Adora sair com os amigos, ou até mesmo sozinha, para desfrutar de uma boa comida de todos os tipos, inclusive a culinária portuguesa. Mas não descarta uma chance de ficar em casa com os seus cachorros e assistir tranquilamente a um bom filme.


Uma conquista de todos os orientistas brasileiros

Orientovar - Quando busco nas minhas memórias uma imagem que represente a suprema alegria da Orientação, não posso deixar de ir ao encontro da fotografia da Wilma na final da Estafeta dos 5º Jogos Mundiais Militares, onde a equipa feminina do Brasil conquistou o terceiro lugar. Quer recordar aquele momento tão especial?

Wilma Souza - Na noite anterior, uma atleta brasileira do Pentatlo Naval, que dividia o apartamento connosco, muito feliz, veio mostrar-nos a sua medalha de bronze conquistada naquele dia. Segurei aquela medalha, admirando tamanha beleza e pensei: “... poxa, que pena que não sentirei a sensação de conquistar uma igual...”, pois sabíamos desde o início do processo que seria uma tarefa muitíssimo difícil conquistar uma medalha nos Jogos. Afinal os europeus dispensam apresentações, quando falamos de orientação, porém tínhamos a certeza de que faríamos o nosso melhor. Naquele dia 22 de julho de 2011, não me sentia bem e pedi ao meu técnico para não correr a estafeta. De imediato ele afirmou que não seria possível a substituição e que me acalmasse, afinal faltavam ainda algumas horas para a partida. Fiquei muito pensativa, preocupada com a responsabilidade de fechar bem a competição...

Bem, iniciei o meu percurso sabendo que estava na 6° posição. Navegando para o ponto 5 avisto a atleta da Polónia e fiquei surpreendida, pois ela tinha partido à minha frente. Continuei o meu percurso e encontrámo-nos mais a frente e seguimos juntas para o ponto de espectadores. Estávamos já na floresta quando a progressão começou a tornar-se difícil, devido ao terreno muito sujo. Olhei para o mapa e decidi mudar a minha rota, saí da floresta e segui por um trilho que, por sinal, era o caminho mais longo mas permitiu-me desenvolver uma corrida mais rápida. Quando passei pelo funil, um silêncio absurdo, ninguém incentivando, enfim, achei estranho, pois normalmente no ponto de espectadores as pessoas incentivam, gritam, e nada aconteceu, só que depois eu entendi o porquê. O meu técnico e toda a gente estava surpreendida por, naquele momento, eu ser a terceira atleta a passar e não quiseram falar nada para não me desconcentrar. Imagine se eu ouvisse alguém dizer-me que eu era a terceira atleta?

Continuando, mais à frente cometi um erro e eis que encontro a atleta polaca novamente, ela alcançou-me e começámos um duelo terrível, na minha cabeça, pela quinta posição. Eu não fazia a mínima ideia de que estávamos lutando, na realidade, pelo terceiro lugar. Faltando muito pouco para terminar o percurso cometi muitos erros, perdi de vista a polaca e pensei: ela já está bem longe, mas para minha surpresa, ela também errou... e quando me dirijo para o último ponto, olho para trás e vejo-a novamente, bem próxima, e pensei: agora eu não perco mais... Quando estou a mais ou menos uns 2 a 3 metros do ponto, ouço: Você é terceira !!!! Eu ouvi aquilo e comecei a gritar: Meu Deus, não é possível!!! Só faltava surgir da floresta para o “finish”, onde todos, numa ansiedade e nervosismo sem tamanho, estavam esperando... Meu Deus, quando vi toda aquela gente gritando, aplaudindo, incrédulos, nossa!!! É muito difícil falar, descrever em palavras o que senti. Corria e gritava ao mesmo tempo: Meu Deus, meu Deus, o que é isso????? Obrigada meu Deus...

Simplesmente, eu não me contive, me despi de tudo e minha alma ali materializava nas minhas expressões o que eu estava sentido. Não me pergunte o que foi exatamente, pois descobri que existem sensações que as palavras não conseguem descrever o que se sente. Plenitude, talvez seja a palavra mais próxima. Passou um filme na minha cabeça, desde 2009 treinando longe de casa, da minha vida, dos meus amigos, da minha família, em prol de um sonho, de bem representar o meu País nos Jogos, e de repente o que era apenas um sonho se tornou real, e agora eu não precisaria pegar e admirar a medalha de outros atletas, mas eu poderia sim, namorar a minha medalha de bronze.

À noite, quando fomos para a Cerimónia de Entrega de Prémios, encontrei no caminho um senhor que compôs, simplesmente, a primeira equipa militar brasileira de Orientação, na década de 70. Perguntou-me como tinha sido a competição de Estafeta e eu, com um sorriso sem tamanho, disse-lhe: Fomos bronze!!! Estamos muito felizes!!! Ele olhou-me com os olhos cheios de lágrimas, abraçou-me e disse: Muito obrigado!!! Aquele momento fez-me entender que essa conquista não foi uma conquista da equipe brasileira feminina de Orientação, mas sim uma conquista de todos os orientistas brasileiros. Afinal, é a nossa primeira medalha!!!!!


Foi paixão à primeira vista

Orientovar - O que mudou com aquela medalha de bronze?

Wilma Souza - Hoje sinto-me muito mais confiante. Tenho a certeza que, com um trabalho bem direcionado e planeado, um sonho pode vir a tornar-se real!

Orientovar - O seu percurso na Orientação tem a ver com a sua carreira militar ou é anterior a isso?

Wilma Souza - Eu sou militar da Força Aérea e recebi o convite para praticar Orientação em 2004. Desde então, foi paixão à primeira vista e não parei mais. Todos os anos tem lugar o Campeonato das Forças Armadas, onde participam atletas da Marinha, Exército e Aeronáutica, e dessa forma sou convocada para treinar. Trata-se de um conjunto de provas de seleção para formar a equipa do Brasil que irá participar, posteriormente, no Campeonato Mundial Militar.


A Europa é o celeiro dos grandes ícones da Orientação Mundial

Orientovar - Como é feito o seu dia a dia de atleta?

Wilma Souza - Bem, não tenho muito tempo livre para treinar, pois trabalho todos os dias no quartel de 08h00 às 17h00. Só posso, então, treinar muito cedo da manhã ou após o trabalho. É bem cansativo, pois quando treino pela manhã acordo muito cedo e logo em seguida tenho que ir trabalhar. Prefiro na maioria das vezes treinar a noite, pois quando termino só me resta uma boa noite de recuperação e de sono. A parte técnica de Orientação é, infelizmente, negligenciada, pois faltam áreas cartografadas onde moro, na parte Nordeste do Brasil. Só consigo treinar tecnicamente quando a Força Aérea me convoca, com vistas a alguma competição, e nesse caso viajo para o Sul do País onde é o melhor lugar para treinar. Quando estou na minha terra só treino a parte física (corrida). No caso particular dos Jogos Mundiais Militares, fiquei afastada do meu trabalho por um longo período para me dedicar exclusivamente aos treinos para a participação nos Jogos.

Orientovar - Esteve no início de Março em Portugal, onde participou no Portugal O' Meeting 2011 e no II Meeting Internacional de Arraiolos. Que recordações guarda desses eventos? Vamos vê-la de novo, brevemente, em Portugal?

Wilma Souza - Nossa, ter participado nessas duas competições foi maravilhoso, na realidade um presente!!! Primeiramente, os mapas e toda a estrutura dos eventos estavam impecáveis e é sempre um momento muito importante participar em competições na Europa, pois aprendemos muito mesmo, com o traçado dos percursos, o mapa... É um desafio excitante!!! Afinal de contas a Europa é o celeiro dos grandes ícones da Orientação Mundial. E mais... foi minha primeira visita a Portugal e de facto gostei muito de tudo... um lugar repleto de história, beleza, excelente gastronomia, enfim, um local que quero visitar novamente em breve.


Sinto o sabor daquela conquista todos os dias

Orientovar - Que avaliação faz do actual momento da Orientação brasileira e o que lhe poderá estar reservado no futuro?

Wilma Souza - A cada dia melhoramos mais. Nossos cartógrafos, traçadores e organizadores vão-se aperfeiçoando, bem como os atletas. Antigamente os praticantes de Orientação advinham principalmente do âmbito militar, hoje a quantidade de civis é impressionante e continua a crescer ano após ano, além de ressaltar a presença das crianças e jovens, o que é muito positivo para o aparecimento de novos atletas de alto nível. A gestão ativa dos Clubes e da Confederação Brasileira de Orientação tem sido muito positiva em todo esse processo de desenvolvimento do Desporto, atraindo novos praticantes e inserindo a Orientação em diversas escolas e Universidades.

Orientovar - Quais os seus objectivos enquanto orientista?

Wilma Souza - Meu objetivo enquanto atleta já foi alcançado nos Jogos Mundiais Militares do Rio de Janeiro. Sinto o sabor daquela conquista todos os dias, e pretendo senti-la, lembrá-la por muito tempo.


Acreditem de verdade nos sonhos

Orientovar - A terminar a nossa conversa, quer deixar um desejo ou um voto para 2012?

Wilma Souza - Todo o ano que se inicia temos o hábito de apontar metas, sonhos... e é em cima dessa palavra – SONHO -, que digo a todos que, em 2012, acreditem. Mas acreditem de verdade nos sonhos, que com toda a certeza eles tornar-se-ão reais. O meu tornou-se. Felicidades a todos!!!!


[Foto e vídeo gentilmente cedidos por Wilma Souza]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

HELOÍSA MEDEIROS disse...

JÁ CONHECIA ESSA CONQUISTA. MAS É IMPOSSÍVEL NÃO ME EMOCIONAR NOVAMENTE AO LER A CONQUISTA DE UM OBJETIVO NARRADO COM TANTO AMOR.

PARABÉNS.

Dinis Costa disse...

Saudações
Pergunta para os “irmãos brasileiros” porque é que um pequeno país fez o Brasil tão grande?
Cumprimentos
Dinis Costa
(FPO -1173)