quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

MIGUEL SILVA: "O MEU MAIOR OBJECTIVO É O DE ALCANÇAR NÍVEIS DE RENDIMENTO COMPATÍVEIS COM RESULTADOS DE RELEVO INTERNACIONAL"




Vencedor do ranking da Taça de Portugal em 2009/2010, Miguel Reis e Silva não foi este ano além do 14º lugar. Ainda assim, soube chamar a si o título nacional de Distância Média e foi dele o melhor resultado alcançado por um atleta português nos Campeonatos do Mundo WOC 2011. O Orientovar falou com ele e aqui se publica o balanço de toda uma temporada.


Orientovar - A temporada de 2011 trouxe com ela a novidade dum calendário respeitando o ano civil. Esta alteração foi positiva?

Miguel Reis e Silva - Na minha opinião a mudança não foi positiva. Quisemos fazer como os outros, mas esquecemo-nos que temos condições diferentes dos outros países, neste caso melhores. O calendário internacional é ditado pelo clima dos países nórdicos e existia um conflito entre a época típica dos melhores atletas do mundo e o nosso clima que permite provas de Novembro a Janeiro e as proíbe em Agosto. Se repararmos bem, o próprio calendário internacional é estranho. No Atletismo, os Campeonatos do Mundo são em Agosto e a época acaba em Agosto. No Triatlo, os Campeonatos do Mundo são em Outubro e a época acaba em Outubro. Na Orientação os Campeonatos do Mundo são em Julho mas a época acaba em Outubro.

Parece-me óbvio que os Campeonatos se encontram deslocados para os três meses de sol dos países nórdicos, resultando na morte da modalidade nos restantes seis meses. Se me perguntar se isto tem lógica, digo-lhe que sim, porque estes países são o principal motor da modalidade e onde se encontram a maioria dos atletas. O ponto está em que nós tínhamos a oportunidade de continuarmos a trabalhar enquanto os outros dormiam, mas decidimos também matar a modalidade durante seis meses por ano. Muitos dos melhores atletas nacionais acabaram por continuar a parar em Agosto, encarando a restante época como preparação para a próxima. Provavelmente vai ser também o meu comportamento nas próximas épocas. Resumindo: ganhámos o estatuto de “país desenvolvido” por seguirmos o calendário internacional mas perdemos boas organizações de provas que tínhamos numa altura do ano em que temos condições climatéricas favoráveis e, como seria de esperar, continuamos sem provas em Portugal em Julho e Agosto.


Encarei esta época como um período de transição

Orientovar - A sua prestação na prova de Sprint do WOC 2011 acabou por constituir o momento alto da nossa presença em França. De que forma recorda hoje essa prova?

Miguel Reis e Silva - Eu não tinha tempo disponível para ficar em França durante todo o período de competição e, ao mesmo tempo, queria participar neste evento. Após as provas de selecção, surgiu a possibilidade de participar no Sprint a expensas próprias e agarrei esta oportunidade. Foi, sobretudo, um momento importante para o futuro. A minha preparação foi atípica a todos os níveis. Estava destreinado na leitura de mapa, estava fatigado mentalmente e cheguei ao local da prova doze horas antes do início da minha prova. Sabia deste handicap e tentei compensar com uma preparação mental intensa cujo resultado me surpreendeu e que fica como uma ferramenta muito útil para o futuro. Aqui tenho também que mencionar o apoio do meu clube, CPOC – Clube Português de Orientação e Corrida, sem o qual a minha participação não teria sido possível.

Orientovar - A Orientação é uma modalidade repleta de imponderáveis e de obstáculos, literalmente. Esta foi uma temporada em que o vimos algo afastado dos lugares cimeiros. Lesões? Estudos? O que esteve na base desta relativa obscuridade?

Miguel Reis e Silva - O estudo foi, sem dúvida, o principal obstáculo esta época. No final do curso existe um exame cujo resultado é a base da distribuição dos alunos por especialidade. É um exame antiquado que premeia a memorização sobre a lógica e que, felizmente, se prevê que dentro de dois anos deixe de existir. No início da época fiz deste exame a minha prioridade. Não por querer uma especialidade que exige uma nota alta, mas sim pela importante consolidação de conceitos que se retira deste estudo. Passei a treinar apenas uma vez por dia, participei em menos provas e, como seria de esperar, baixei o meu rendimento desportivo. Encarei esta época como um período de transição, com outros objectivos que também me preenchem pessoalmente. Vendo as coisas por este lado, os resultados obtidos foram claramente superiores aos que esperava.


A Federação não pode ficar à espera dos escassos apoios do Estado e tem de se tornar activa

Orientovar - Certo de que o Jan Kocbach não me levará a mal, à “boleia” do World of O, qual foi para si a prova da temporada em Portugal?

Miguel Reis e Silva - Escolha fácil: a prova de Distância Longa do II Meeting Internacional de Arraiolos! Porquê? Primeiro, porque foi uma das raras provas de Distância Longa feitas em Portugal, no verdadeiro sentido da palavra; e segundo, porque o mapa tem qualidade e uma dimensão enorme (17.7 km2!) que permite evitar passar várias vezes no mesmo sítio. Duvido que voltemos a encontrar uma prova com esta qualidade técnica nos próximos tempos. Fica a recordação e o mapa em si para treinos futuros. Desisti da prova devido às dores de uma lesão no joelho contraída no Portugal O'Meeting da semana anterior. Custou-me mais por abdicar do prazer que o mapa me estava a dar do que pelo peso da desistência em si.

Orientovar - Como avalia o actual momento da Orientação portuguesa? Não o preocupa a quebra de participantes?

Miguel Reis e Silva - Actualmente estamos bem, mas podemos estar melhor. No Atletismo já foram canceladas várias provas por falta de fundos e, por enquanto, ainda prosseguimos sem falhas. Contudo, perante a conjuntura económica actual é claro que se avizinham mais dificuldades. É uma espiral descendente: o preço dos combustíveis aumenta, o número de inscrições diminui, os clubes emagrecem, os apoios aos atletas diminuem e, consequentemente, o número de atletas diminui. A Federação não pode ficar à espera dos escassos apoios do Estado e tem de se tornar activa. Na minha óptica, o modo de atenuar este problema passa pela Federação se promover e se saber vender, o que actualmente não é prioridade. São as regras da sociedade actual e temos de saber jogar com elas. Era um dos poucos pontos do programa da Direcção anterior com o qual concordava.

Se a Nike faz um mapa horrível da baixa de Lisboa e junta dezenas de pessoas todas as semanas, porque não pode a FPO fazer melhor com o excelente mapa da mesma área que detém há mais de uma década? Porque é que já não existe o Baixanima que colocava uma partida em massa de Orientação no coração de Lisboa? Temos de entender a sociedade actual e jogar com as regras. Se para ter 800 jovens a fazer Orientação temos de pagar 1000 € para a modalidade aparecer num episódio dos “Morangos com Açúcar”, então que assim seja.


Quanto mais provas, melhor

Orientovar - Uma nova temporada se aproxima, o POM 2012 começa a dominar já as atenções e há essa novidade do I Circuito Nacional de Estafetas e do I Circuito Nacional Urbano. O que pensa desta profusão de provas? Pode ser uma boa estratégia para captar novos participantes ou, pelo contrário, irá acarretar quebras mais acentuadas ainda?

Miguel Reis e Silva - Para mim, quanto mais provas, melhor; e não me parece que um aumento do número de competições vá dispersar os atletas. Estes dois circuitos eram essenciais para colmatar alguns períodos do calendário com menos actividade e a aposta nas duas vertentes da modalidade que dão mais espectáculo parece-me adequada. Lembro-me de que na época em que apareceram as provas de Park (actualmente chamado Sprint), todos os fins-de-semana existia uma prova nesta vertente. Depois, acabaram.

Sei que sou suspeito, mas acho que o Sprint tem que ser uma aposta da nossa Federação por dois motivos: É a vertente que faz a modalidade chegar ao maior número de pessoas com um menor custo; e é a vertente em que os atletas de países em desenvolvimento na modalidade (como nós) têm mais hipóteses de obter resultados de relevo lá fora.


A corrida de montanha é um óptimo complemento à Orientação

Orientovar - Que Miguel Reis e Silva iremos ver em 2012?

Miguel Reis e Silva – O passado dia 20 Dezembro foi o dia 0 da minha época, depois de três semanas intensas de viagem sem treinar e uma gastroenterite que me fizeram perder 6 kg. Foi uma pausa não planeada e tardia mas a vida não se resume à Orientação e para continuar a longo prazo têm de existir pausas. Esta vai ser a minha primeira época como não-estudante e acho que a minha qualidade de vida vai aumentar substancialmente. Só o facto de ter os fins-de-semana para mim e chegar a casa sem a consciência de ter que ir estudar chega.

Os objectivos físicos para os quais vou trabalhar (poderão não ser já para este ano) são: nos 5 km pista, baixar dos 15’ (menos 17’’ que o meu melhor) e nos 10 km estrada, baixar dos 31’ (menos 40’’ que o meu melhor). Ambos são alcançáveis se o treino físico entrar bem e sem lesões e só daqui a vários meses. Montanha – representar a selecção nacional. Nesta época de estreia nesta modalidade fui o primeiro a ficar de fora para os Campeonatos do Mundo de Corrida de Montanha da FPA e quero mais. A corrida de montanha é um óptimo complemento à Orientação e dá-me um grande prazer.

Relativamente à Orientação, considero difícil delinear objectivos concretos, devido à complexidade da modalidade em si. Não tenho objectivos a nível nacional, para além de aproveitar os bons mapas que temos e o ambiente fantástico entre os nossos atletas (sinto agora imensas saudades de regressar a este ambiente). Posso apenas dizer com segurança que o meu maior objectivo é o de alcançar níveis de rendimento compatíveis com resultados de relevo internacional; dar o salto como o Gernot Kerschbaumer, que admiro, fez esta época. Se não for este ano, para o próximo ou para o outro. Na minha única participação num Campeonato do Mundo consegui um apuramento para a Final A, que me deu alento. O futuro a Deus pertence.

Orientovar - Neste final de ano, quer deixar um voto para a Orientação portuguesa?

Miguel Reis e Silva - Que saibamos aproveitar este país maravilhoso que temos (e nós, orientistas, sabemo-lo melhor que ninguém).


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns Orientovar, Parabéns Miguel.
Só uma ferroadazinha que o meu amigo Margarido não irá levar a mal.
Parece-me (a mim) um exagero as inúmeras entrevistas e notícias sobre a modalidade em outros países e sobre atletas de outros países que não o nosso. Sei que o Orientovar já é demasiado grande para se limitar ao pequenino que somos.Calculo também que nesses outros países haverá um elevado nº de leitores se calhar bem mais doque em Portugal. Mas será que já não haverá tema para mais publicações de notícias sobre nós? Se calhar até posso estar a ser injusto, mas esta é a ideia com que tenho ficado últimamente, eu que sou visita diária do Orientovar"salvo raríssimas excepções" e que irei continuar a ser.Atrevo-me até a afirmar que sem o Orientovar, a página da FPO não teria um terço das aberturas que tem.Veja-se o exemplo do forum que está moribundo, para não dizer morto.
Peço desculpa pelo meu atrevimento e pela minha sinceridade. Uma vêz mais parabéns aos dois pela excelente entrevista.
Bom Ano de 2012 para todos.
Rui Antunes

Joaquim Margarido disse...

Meu querido amigo Rui Antunes: Louve-se o seu atrevimento e a sua sinceridade. Pois ainda bem que fala no que fala, embora não me vá alargar muito no meu comentário ao seu comentário. Direi apenas que, nos últimos dois meses, dezasseis Entrevistas (umas mais simples que outras) a outros tantos "ilustres" da nossa praça esbarraram na indiferença ou, suspeito, no desprezo. Em contrapartida, enviei um punhado gordo de questões a um dos melhores treinadores do Mundo, Kenneth Buch, e três dias depois publico uma bela Entrevista, aclamada por todos (recebi os parabéns pessoais de Thierry Gueorgiou e de Jan Kocbach). O caminho parece estar apontado. O Orientovar sempre foi - e é! - aquilo que as pessoas querem. E são muitos os que, por cá, NÃO QUEREM!
Um grande abraço.

Presidente disse...

Vivam,
Deixo 2 notinhas:
- A FPO apoia todas as boas ideias que k«lhe sejam apresentadas desde que tenham quem as conduza (Miguel).
- O Forúm é um espaço absolutamente livre (sem censura) onde os interessados podem exprimir-se. Infelizmente foi usado e abusado e naturalmente caiu em desgraça. É como diz o ditado: diz-me com quem andas...
Bom 2012 para todos!!!
Abraço