segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

KENNETH BUCH: "GOSTO DE PARTILHAR AQUILO QUE FAÇO"




Nunca se destacou por aí além como atleta mas é, actualmente, um dos mais conceituados treinadores do mundo da Orientação. Kenneth Buch acaba de assumir o comando da equipa técnica da Selecção Francesa de Elite e o Orientovar falou com ele. Aqui fica um punhado de ideias que dão a conhecer um pouco melhor o homem, a sua obra, os seus sonhos e o seu futuro.


Orientovar – Em Portugal apreciamos o Fado, algo que tem uma relação directa com a música tradicional mas que pode, também, ser entendido como “destino”. Acredita no destino? Ser treinador de Orientação é o seu “fado”?

Kenneth Buch – Na verdade conheço o Fado e já fui uma vez a um restaurante de Fado. Foi realmente uma experiência especial, que todos aqueles que visitam Portugal não deveriam perder. Eu cresci com a Orientação, graças a uma família muito dedicada à modalidade. Não sou propriamente uma pessoa espiritual ou que acredita muito no destino, mas uma vez que fala nisso, é verdade que me sinto realmente vivo quando trabalho com os atletas e, em muitos sentidos, é isto que eu mais quero fazer no mundo. Não sei porquê, mas estou realmente empenhado no meu trabalho e creio que tenho imenso para dar. Uma vez, numa entrevista para um emprego, alguém disse que eu não tinha uma paixão pelo trabalho, mas devo dizer que, no meu trabalho como treinador de Orientação, sinto como que um fogo a arder e que espero nunca se extinga.

Orientovar – Ser um orientista de excepção tem algo de genético ou tudo se aprende, se adquire?

Kenneth Buch – É difícil de dizer. Seguramente, os aspectos genéticos constituem uma vantagem nos primeiros tempos, mas depois disso acredito que o mais importante pode ser aprendido, se porventura lhe dermos tempo. Quando aprecio um atleta, aprecio sobretudo as suas capacidades mentais, pois acredito que aí residem os aspectos mais importantes.


Aquilo que geralmente faz a diferença é a parte mental

Orientovar – Você é professor, você é treinador... Para si, o que está em primeiro lugar? Como lida com estas duas partes de si próprio?

Kenneth Buch – Talvez não tenha percebido bem qual é o meu trabalho como professor porque é, na verdade, também o de treinador. Eu ensino os melhores orientistas que estudam no Secundário. Seguramente que uma parte do treino é ensino e eu gosto imenso disso. Mas em primeiro lugar vejo-me como treinador.

Orientovar – No processo de treino, qual a importância do treino mental, relativamente ao treino físico e ao treino técnico? Onde reside o maior desafio?

Kenneth Buch – Pessoalmente, penso que o treino mental é o mais importante, se falamos de atletas de topo da Elite desportiva mundial. Muitos atletas podem treinar até atingirem um excelente nível, tanto técnico como físico, mas aquilo que geralmente faz a diferença é a parte mental. Mas certamente que tudo é importante, porque para se ser o melhor tem de se ser bom em tudo.


O desafio à frente da selecção francesa é excelente

Orientovar – Há um par de meses atrás afirmou que o seu objectivo como treinador era “vir a tornar-se num dos melhores do mundo”. Agora que assumiu o comando da selecção francesa de Elite, não vê esta oferta da Federação Francesa como uma forma de reconhecimento das suas qualidades? Como recebeu este convite e de que forma encara o desafio?

Kenneth Buch – Sim, seguramente é uma forma muito bonita de reconhecimento e sinto-me imensamente feliz pela possibilidade que se me oferece de poder trabalhar com a selecção francesa. Ser um dos melhores do mundo é como que uma visão para mim, faz-me lutar para ser cada vez melhor. Penso também que este empenhamento em melhorar sempre é uma qualidade importante num treinador. Mas felizmente estou cada vez mais perto. O Thierry contactou-me no início da temporada para saber se estaria interessado. Depois do WOC as coisas foram-se tornando mais evidentes, até se concretizarem. O desafio à frente da selecção francesa é excelente e espero conseguir manter o primeiro atleta no topo enquanto o segundo atleta vai subindo uns degraus até que possa ser ele, com o tempo, a assumir o comando.

Orientovar – Acredito que o treino representa uma forma de aprendizagem mútua. Como vê esta oportunidade de trabalhar com o multi-campeão Thierry Gueorgiou? Assusta-o?

Kenneth Buch – É algo com que sempre sonhei e, em certa medida, é verdadeiramente excitante. Poder trabalhar com o Thierry antes de ele colocar um ponto final na sua carreira é algo de muito interessante e espero aprender muito com a sua experiência. Acredito também que tenho algo para lhe oferecer e para manter a chama dele acesa. Se isso me assustasse, não teria aceite o cargo. Vejo isto como uma grande oportunidade para ambos e espero um futuro brilhante.


Ponto de viragem

Orientovar – Relativamente ao WOC 2012, na Suiça, será possível vermos a selecção francesa quebrar o factor casa e fazer melhor ainda do que fez em Le Revard, no Verão passado?

Kenneth Buch – Este ano assistimos a um falhanço quase total da selecção norueguesa depois dos Campeonatos disputados em casa e portanto, seguramente, quanto mais alto subimos, maior é a queda. Espero poder conseguir manter a equipa no melhor caminho no sentido de, pelo menos, alcançar tão bons resultados quanto os da passada temporada. Se nos centrarmos apenas nas medalhas, não creio que consigamos fazer muito melhor, mas apontamos para uma melhoria dos resultados, entendendo a selecção como um todo. Os nossos objectivos são elevados, mas por agora estamos centrados em fazer a melhor preparação, trabalhar arduamente em cada sessão de treino e depois, em Julho, veremos se somos bem sucedidos.

Orientovar – Como avalia o estado actual da Orientação? Vamos no caminho certo?

Kenneth Buch – Humm..... Penso que a Orientação se encontra num ponto de viragem. As últimas alterações sugeridas pela Federação Internacional de Orientação foram para mim uma surpresa. Por vezes interrogo-me de onde virão estas ideias e sobre o porquê de tanta pressa na mudança. Com o desenvolvimento de equipamento técnico e na era do GPS, as oportunidades de se fazer um bom trabalho nos aspectos relacionados com as distância são maiores do que nunca. Muito bem, talvez pudéssemos implementar algumas alterações para aperfeiçoar o uso destes equipamentos, mas não é nisso que se baseiam as últimas sugestões. Na realidade, o Sprint foi a pior novidade dos últimos anos, na minha opinião. Então, porquê introduzir no programa do WOC, de súbito, novas distâncias sem qualquer tipo de teste? Para mim é como que um puzzle. E é por isto, creio, que as decisões relativamente ao futuro colocam a Orientação num ponto de viragem.


Portugal é perfeito para treinar Orientação

Orientovar – Creio que vamos vê-lo de novo em Portugal no próximo ano. Pode dar-nos alguns detalhes da sua visita? Porquê Portugal?

Kenneth Buch – Sim, estarei aí por duas vezes. Portugal é perfeito para treinar Orientação e aprecio imenso os terrenos. Irei primeiro com a selecção francesa e reservaremos uns dias do nosso Campo de Treino para participar nalgumas provas do Portugal O' Meeting. Irei mais tarde, no início de Março, com um grande grupo de atletas juniores da Noruega, nomeadamente alguns dos estudantes com quem trabalho.

Orientovar – Num processo ao qual deu o nome “A Minha Própria Companhia”, podemos vê-lo oferecer o seu trabalho a importantes atletas ou clubes, tais como Olav Lundanes ou Tue Lassen, Nydalen SK ou Lillomarka OL, por exemplo. Este ano também ministrou um curso para técnicos noruegueses, onde deu a ver o seu método de treino. Partilhar toda a informação é algo que devemos fazer ou cada um deve guardar a melhor parte para si?

Kenneth Buch – Penso que as pessoas devem decidir por si próprias se querem ou não partilhar os seus conhecimentos. Penso que é muito bonito que as pessoas possam mostrar abertura e queiram partilhar as suas experiências, mas se não o fizerem, tudo bem na mesma. Gosto de partilhar aquilo que faço e se tivesse mais tempo, fá-lo-ia com mais frequência. Estar disponível para ajudar os outros é algo que me enriquece muito e é também por isso, talvez, que eu sou treinador.


Encontrar a melhor maneira de mostrar o essencial

Orientovar – O ano de 2011 aproxima-se do fim. Posso pedir-lhe um voto para a Orientação nos anos vindouros?

Kenneth Buch – Desejo que a decisão relativa ao programa do futuro WOC seja baseada em encontrar a melhor maneira de mostrar o essencial, no sentido de encontrarmos o nosso próprio caminho em terreno que nos é desconhecido. E não obra de alguns políticos e com base em estranhas ideias não testadas a pensar nas Olimpíadas, que o tornem aborrecido e apenas interessante pelo espaço de um escasso minuto, como é o caso do conceito do Knock-Out Sprint!

[Foto de Jens Erik Mjølnerød]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Jorginho Fortunato disse...

Muito bom! Uma grande fonte de inspiração para os nossos técnicos que com menor disponibilidade fincanceira fazem um excelente trabalho. Precisamos valorizá-los! 1 Abraço