quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ALICIA COBO CABALLERO: "A ORIENTAÇÃO EM ESPANHA ESTÁ ALCANÇANDO UM GRANDE NÍVEL INTERNACIONAL"




Praticamente a fechar o ano, Alicia Cobo Caballero é a nossa entrevistada de hoje no Orientovar. Uma conversa que tem em Espanha o seu ponto de partida e se estende a Portugal e à Finlândia. Um testemunho ao longo do qual se sente uma enorme paixão pela Orientação e onde a grande aposta se chama Vuokatti 2013.


Orientovar - As lesões marcaram a sua temporada e os resultados nunca apareceram como seria desejável. Em termos pessoais, esta é uma temporada para esquecer ou para lembrar?

Alicia Cobo Caballero – Creio que em parte para recordar e em parte para esquecer. É verdade que as lesões esta temporada não permitiram treinar como gostaria, várias lesões nos tornozelos (antes corria sem protecção) condicionaram-me bastante ao longo da época. Os resultados não foram bons, sobretudo no WOC 2011 França onde. no Sprint - e logo no primeiro ponto (controlo largo, em floresta e a subir) - cometi um erro de opção, nos pontos seguintes tentava ir mais rápido para recuperar o tempo perdido e só conseguia falhar mais ainda, bom… Esse erro no primeiro ponto marcou toda a prova.

Penso, contudo, que uma boa parte da aprendizagem na Orientação está precisamente nos erros que cometemos. Há que entender as coisas deste ponto de vista, analisá-las e recolher os ensinamentos, ficarmos com o que de positivo possa existir e seguir em frente. Teria sido fantástico chegar à final mas creio que, com o tempo, estas falhas farão com que possa melhorar mais e mais.


É importante que se promova mais a Orientação

Orientovar - Quando falamos da Orientação feminina em Espanha, vem-nos à memória as presenças da Annabel Fernandez, da Anna Serralonga e da Esther Gil na Final A de Distância Longa do WOC 2011, da Ona Rafóls na Final A de Sprint ou do 13º lugar da Estafeta, mas também dos pódios da Carmen Patiño Deniz ou da Sofia Berenguer nos Mundiais de Desporto Escolar. Como avalia estes resultados e que futuro antevê para a Orientação espanhola?

Alicia Cobo Caballero – Desde logo fica patente que a Orientação em Espanha está alcançando um grande nível internacional e os casos que menciona, da Annabel, da Anna e da Esther são prova disso mesmo, alcançando esse magnífico resultado na final de Distância Longa do WOC 2011. Aproveito para felicitá-las uma vez mais pois, além de grandes atletas, são grandes companheiras. Quanto às jovens, como a Carmen ou a Marina García, creio que é um indicativo de quanto talento existe, mas há que continuar a trabalhar pois creio haver um problema no tocante às orientistas jovens em Espanha e que é o da falta de atletas. Talvez se promovêssemos mais a Orientação nas escolas como fazem alguns clubes, por exemplo o Navalcán-O (que está realizando um importante trabalho na Orientação Escolar) ou o Halcón-O, fosse mais fácil vermos as meninas a começar a praticar a modalidade.

É importante que se promova mais a Orientação. Até há três anos atrás, desconhecia por completo a existência dum desporto chamado Orientação, mais a mais que toda a minha vida corri e fiz provas em floresta, o que dá conta, se assim o podemos entender, de quão pouco conhecida é a Orientação em Espanha. Isto não retira mérito ao trabalho que se faz na Federação Espanhola de Orientação. Foi graças a pessoas como Marta Armisén e Jesús de Miguel que conheci a Orientação e me iludi com ela, mas penso que necessitamos de promover a modalidade urgentemente.

Falei das meninas, mas falaria também dos rapazes e daria como exemplo, uma vez mais, o WOC 2011, no qual o Antonio Martínez, com a sua juventude, conseguiu intrometer-se na final de Sprint. Roger Casal é outro dos grandes exemplos da Orientação espanhola masculina e, ainda que não tivesse podido estar em França este ano, estou certo que teria feito bons resultados uma vez que o terreno era de feição, conforme ficou demonstrado nas nossas provas de selecção. Também – e falando dos jovens – temos o exemplo do Andreu Blanes que chegou à medalha de prata no JWOC 2011 e que, juntamente com Antonio Martínez e Marc Serralonga, conseguiram esse fantástico 4º lugar nas Estafetas. Aproveito para dar os parabéns a todos e também à selecção portuguesa que participou este ano em França.


Jogo limpo

Orientovar – Temos assistido a algumas alterações nos últimos anos e agora a IOF quer alterar em grande medida o figurino dos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre. Concorda com as alterações propostas?

Alicia Cobo Caballero – Bom, eu tenho apenas três anos de prática da Orientação, não senti muitas alterações neste curto espaço de tempo e, portanto, a minha voz não é a voz da experiência. Todavia, no que diz respeito ao WOC e às alterações que se configuram, gostaria humildemente de dizer algo. Desde logo, as alterações serão bem-vindas se o objectivo for diversificar e tornar mais atractivo o nosso desporto. Neste sentido, creio que a ideia da IOF em fazer uma Estafeta de Sprint, ainda para mais com a particularidade de se tratar duma Estafeta Mista, é genial. As zonas urbanas são sempre locais muito importantes quando se trata de promover o desporto e de torná-lo num espectáculo. Mas o formato da Distância Longa, sem qualificatórias e baseando-se no ranking dos três anos anteriores, retira muitas possibilidades àqueles países onde a Orientação é um desporto jovem e em desenvolvimento, como será talvez o caso de Espanha. E o facto de poder apresentar um atleta apenas é algo que, para mim, não está ainda muito claro.

Independentemente disto, aproveito a oportunidade que me é dada para dizer que, aquilo que a IOF realmente deveria fazer, era velar para que as Normas Internacionais de Orientação fossem cumpridas. Este ano, em França, viveu-se um episódio lamentável nas qualificatórias de Sprint e nas quais estas normas não foram cumpridas. Ainda que numerosos atletas não cumprissem as normas, ainda que os juízes tomassem nota das inconformidades, ninguém acabou por ser desclassificado. Mas penso que a culpa não foi apenas da organização, mas também dos países que não reclamaram face ao incumprimento, provavelmente porque acabariam também por ser prejudicados no acesso dos seus atletas à final. As alterações e as novas propostas no sentido de melhorar o nosso desporto são boas, mas estas bases deveriam reforçar-se e concorrer para que todos pudessem competir em igualdades de circunstância. Acredito que situações como esta não se voltarão a repetir e que se pratique um jogo limpo, que é aquilo pelo qual a Orientação deve primar.


Aproximar as mulheres e as famílias deste desporto maravilhoso

Orientovar - Quais os grandes desafios que se colocam à Orientação espanhola neste momento?

Alicia Cobo Caballero – A Federação Espanhola leva a cabo inúmeros projectos no sentido de difundir a Orientação em países onde a modalidade é desconhecida ou o seu conhecimento é ainda incipiente. É o caso de José Samper, que recentemente recebeu a Medalha da Real Ordem de Mérito Desportivo, com os seus trabalhos em Moçambique, ensinando a Orientação e desenhando novos mapas, de Pedro Pasión em Cabo Verde ou de José Angel Nieto Poblete na América do Sul. Outro dos projectos que se promovem a partir da Federação Espanhola, e graças à participação activa de Marta Armisén, Esther Gil, Roger Casal e Jesús de Miguel, é o Campeonato da Mulher, que leva já três edições e tem como objectivo promover o desporto entre as mulheres. Esta é uma forma muito bonita de aproximar as mulheres e as famílias deste desporto maravilhoso, porém a competição não é destinada apenas às mulheres que se iniciam na Orientação, mas também àquelas que, correndo ao mais alto nível, procuram melhorar a sua técnica. Treinos a diferentes níveis, palestras, correcções… tudo isto concorre para que o projecto seja muito atractivo para todos.

Orientovar - Durante o WTOC 2011, foi uma participante atenta e interessada na prova de Temp-O. Quer relatar-me a sua experiência e de que forma devemos apostar na Orientação de Precisão?

Alicia Cobo Caballero – Sim, foi muito interessante experimentar esta nova modalidade. Participei apenas na prova cronometrada e foi muito emocionante, desde logo porque não é uma disciplina fácil, como poderia pensar-se à priori. Fi-lo numa perspectiva de treino e a verdade é que desfrutei imenso. Julgo ser importante abrir o leque de oportunidades no tocante à Orientação e que, inclusivamente, possa ser praticada por pessoas que se desloquem em cadeira de rodas, por exemplo, ou outras que, por qualquer motivo, não possam correr. Auguro, desde logo, um grande futuro para esta modalidade que está, todavia, a dar os primeiros passos. Creio que em Portugal existe um Circuito de Orientação de Precisão, isso é fantástico e creio que, pouco a pouco, irá tendo uma maior aceitação e popularidade.


Posso ir comprar pão e fazer Orientação ao mesmo tempo

Orientovar - Neste momento encontra-se na Finlândia, em Outubro e Novembro ainda fez Pedestre, mas agora está virada para a Orientação em Esqui. Como é que está a correr a experiência? Vamos vê-la em Valle de Pineta, a ser a primeira vencedora dum troféu de Orientação em Esqui em Espanha?

Alicia Cobo Caballero – Sim, vim aqui para treinar nestes terrenos com vista ao WOC 2013 que terá lugar em Vuokatti, muito perto do local onde vivo neste momento. Estou a treinar com o clube SK-Pohjantähti, de Oulu. Estou muito feliz por ter vindo, é sem dúvida uma das experiências mais gratificantes, tanto no que toca à Orientação como no campo pessoal. Uma das técnicas que mais treinei foi a tomada de azimute. Sem bússola, aqui, estás praticamente perdido e desde logo este era um aspecto onde precisava de melhorar. No início não foi fácil acostumar-me a correr neste tipo de floresta, o terreno é completamente diferente daquele que encontramos em Espanha, mas aos poucos fui-me adaptando. Estive a competir com o clube e devo afirmar que é uma experiência com a qual estou aprendendo imenso. Tenho aqui bons companheiros de equipa com os quais treino e de quem vou recolhendo muitos ensinamentos. Além do mais, pude participar este ano com o SK-Pohjantähti no 25-Manna da Suécia, na qual o nosso clube conseguiu alcançar uma posição fantástica. Também fiz numerosas provas nocturnas, incluindo algumas com neve e gelo. Treinar aqui é, acima de tudo, uma maravilha.

Saindo de casa posso ir comprar pão e fazer Orientação ao mesmo tempo. Há mapas por todo o lado, tanto urbanos como na floresta. Se algum orientista nunca veio à Finlândia deveria pensar em fazê-lo, não apenas devido aos terrenos mas pelo país no seu todo. A Finlândia é um país maravilhoso. Neste momento terminou já a temporada de Orientação Pedestre e começa a de Orientação em Esqui. Não estou aqui especificamente para treinar esta modalidade, na verdade nunca a tinha praticado e farei aqui a minha estreia, mas posso assegurar que conto com os melhores professores. No entanto, quanto a ganhar em Valle de Pineta, creio que de momento é algo que está longe dos meus propósitos. Por agora as minhas atenções centram-se por inteiro na Orientação Pedestre.


Que o Orientovar chegue este ano ao milhão de visitas

Orientovar - O que espera fazer na próxima temporada? Vamos voltar a vê-la em Portugal, como aconteceu este ano no Meeting de Gouveia e no Portugal O' Meeting?

Alicia Cobo Caballero - Espero estar de novo em Portugal no próximo ano. Encanta-me correr no vosso país, é sempre fantástico poder deslocar-me aí, não apenas pelos terrenos que existem e que vou descobrindo, mas também pela hospitalidade, pelo clima, pela gastronomia... Tudo isto faz com que as viagens a Portugal sejam sempre momentos mágicos e nos obriguem a descobrir o tempo necessário para isso. Espero marcar presença nalgumas provas, claro. O Meeting de Orientação de Gouveia e o POM 2011 foram duas grandes provas com magníficos terrenos, traçados e organização. Em 2012 gostaria muito de participar no Portugal O’ Meeting, nos Campeonatos Nacionais de Terras do Bouro e ainda nalgumas provas do Circuito Urbano, como as do Porto ou de Évora, embora as coisas em termos de calendário não sejam fáceis. Não sei se passarei a Primavera a treinar na Finlândia pelo que todo o meu planeamento da temporada depende disso. A curto prazo, os meus objectivos passam pelos Campeonatos de Espanha e pelo WOC 2012. Seria fantástico poder correr a prova de Distância Longa e o Sprint no WOC 2012, pelo menos a prova de Sprint. Terei de viajar até Espanha para disputar algumas provas da Liga espanhola mas, desde logo, o grande objectivo centra-se em 2013, no WOC que terá lugar em Vuokatti, e é por isso que aqui me encontro.

Orientovar - Agora que o ano está a chegar ao fim, quer formular um voto para 2012?

Alicia Cobo Caballero – Que todo o mundo seja feliz, que façam muita Orientação e que o Orientovar chegue este ano ao milhão de visitas.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

Alicia Cobo disse...

Obrigado, Joaquim, por esta bela entrevista e deixe-me dizer tudo o que penso. Não sei onde você consegue tempo para fazer o que faz mas é claro que a Orientação portuguesa não seria o mesmo sem o Orientovar. Assim, espero que continue por muitos anos com este belo projeto.

Maga disse...

Sem dúvida mais uma grande entrevista.
Todos os dias passou aqui no "ORIENTOVAR" para acompanhar a modalidade à distância, pois é me impossível de outra forma.
Deste já quero dar os parabéns pelo EXCELENTE trabalho que tens feito pela modalidade.
Despeço-me desejando Te um Feliz Natal e um Bom Ano 2012, assim como para todos os amantes da ORIENTAÇÃO.
Bem haja
Ponta Delgada,22-12-11
Élio