terça-feira, 15 de novembro de 2011

XXXII MEETING ORIENTAMENTO VENEZIA: 20 KM, 2 HORAS, 88 PONTES




A cidade dos Doges recebeu a 32ª edição do seu Meeting de Orientação e, por uma manhã, as estreitas ruas bordejadas de canais fervilharam duma animação e duma energia diferente da de todos os dias. 4462 atletas inscritos contou o Orientovar, numa prova que teve a participação dos portugueses Tiago Aires e Manuel Dias. Cronista de serviço, é pela pena do popular Manel que nos chega o relato da prova, em mais um exercício de escrita notável, revelador da sua enorme paixão pela Orientação e da sua dádiva em partilhar connosco momentos tão preciosos quanto este. Obrigado Manel!


Estive a contá-las, atravessei 88 pontes durante as quase duas horas que, no domingo, demorei a fazer o percurso principal do Meeting de Orientação de Veneza.

A 32ª edição do MOV reuniu 4379 participantes. Classificaram-se na Elite Masculina 149 atletas. O lituano Jonas Vytautas Gvildys (1:09:54) remeteu para 2º lugar (1:10:21) o italiano Alessio Tenani, vencedor em 2000, 2006 e 2010. Tiago Aires obteve um honroso 9º lugar (1:16:57). A minha guerra era outra e, por isso, fiquei imensamente feliz com a 133ª posição (1:57:22).

O MOV é uma experiência insubstituível. Praticante que não tenha facilidade em gerir demasiada informação não pode, nem por um instante, levantar os olhos do mapa. Por cada três ruas que se abrem à nossa frente, duas conduzem ao desastre: ou acabam num canal ou derivam em ramificações que cada vez nos afastam mais do ponto para onde queríamos ir.

Depois, Veneza não é só um labirinto, é também um formigueiro. À dificuldade de navegar naquele dédalo de ruelas, túneis e becos, é preciso acrescentar o desafio de progredir entre uma multidão que, a certas horas, torna praticamente intransitáveis algumas artérias. Os mapas, à escala 1:7.500, marcam a castanho as ruas mais concorridas, mas evitá-las implica, nalguns casos, opções de percurso manifestamente penalizadoras.

A complexidade das ruas e canais condiciona o itinerário a este ponto: o percurso HE deste ano, medido em linha, tinha 11,2 km e o Tiago fez uma distância real de 18,3 km (GPS). Eu, com algumas opções menos económicas, devo ter feito uns 20 km, mas não me arrependo da ousadia de ter levado um peitoral personalizado com o meu nome a verde. Foi um teste maravilhoso e muito estimulante.

Suponho que a minha estratégia deve ter sido mais ou menos a de toda a gente: escolher o itinerário em função dos canais que tinha de atravessar em cada pernada. Quando há mais do que uma ponte, é preciso optar pela que aparentemente favorece a ligação mais rápida e, depois, organizar o trajecto em função dessa escolha.

Nas zonas mais complicadas e nas pernadas maiores, outro truque é seleccionar, como pontos de passagem intermédios, pequenos largos que funcionam como ilhas no meio da navegação, permitindo aferir a correcção do percurso em diferentes momentos da pernada, sem ter de se angustiar com o controlo de todos os becos e ruelas que vamos deixando à direita e à esquerda e que, na prática, é quase impossível confirmar exaustivamente.

No que toca às multidões, é um totoloto, a começar pelo sorteio dos tempos de partida. E nesse aspecto a prova está longe de garantir justiça competitiva. Quando o Tiago e eu íamos do hotel para a área de concentração, cruzámo-nos com Alessio Tenani, já em prova, entre o Rialto e São Marcos. Seriam umas 9.15 e a essa hora a maioria dos turistas estaria ainda a tomar o pequeno-almoço, porque o sol já brilhava mas estava ainda bastante frio. Quase três horas depois, quando foi a nossa vez de passar no mesmo sítio, certas ruas estavam transformadas em rios de gente.

Para quem, no entanto – e é a esmagadora maioria -, se desloca ao MOV pelo simples fascínio de correr na cidade das gôndolas, a aglomeração de pessoas na rua, mais do que uma contrariedade, é um motivo de encanto. Não há outro local assim.

Veneza é, de facto, a Meca da orientação urbana. Orientista que se preze tem de peregrinar até ali pelo menos uma vez na vida. Eu alimentava esse sonho desde que, numa manhã de Novembro de 1998, sentado numa esplanada em frente da ponte dei Scalzi, vi correr por ela um atleta em fato de orientação. E depois outro, e outro, e outro. Paguei o café e saí de máquina em punho. Aproveitando sucessivas boleias, cheguei a um ponto de controlo e fartei-me de fotografar. Pelo mesmo processo fui levado a outro ponto de controlo, onde repeti a sessão fotográfica. E assim andei esquecido das horas e do mapa durante meia manhã. Quando quis voltar para trás, não fazia a mínima ideia do sítio onde estava.

Volvidos 13 anos, e depois de várias outras visitas à cidade, eis-me finalmente em Veneza empunhando, em vez da máquina fotográfica, uma bússola e um mapa de orientação. Um mapa igual ao que aqui se reproduz, retirado da página pessoal de Alessio Tenani, que já noutras circunstâncias tive ensejo de elogiar. Ao percurso do italiano, marcado a vermelho, Tiago Aires acrescentou o seu, descarregado do GPS com a típica fita verde.

As opções mais distintas são na pernada longa para o ponto 16. Tiago, escolhendo o percurso aparentemente mais curto, atacou por leste, atravessando o Grande Canal na ponte da Academia (a NE do ponto 15) e tendo de enfrentar depois as ruas apinhadas de gente na zona do Rialto, junto à mais famosa ponte de Veneza. Tenani, avançando por oeste, teve um trajecto talvez um pouco mais longo mas beneficiou de uma primeira parte mais despovoada e menos labiríntica, vindo a atravessar o Grande Canal entre a Piazzale Roma e a Ferrovia, só correndo o risco de ter de abrandar o ritmo no último terço da pernada. Podia esperar-se uma grande diferença nos parciais. Pois não. Tiago fez 9.39 contra 9.33 de Tenani.

Para verem a diferença de andamento e de navegação, deixo também o meu registo nesta pernada: 14.28! Fiz, em termos gerais, a mesma opção de Tenani, mas compliquei no princípio avançando para NW em direcção à grande praça rectangular, ou seja, enfiando-me na única zona verdadeiramente labiríntica deste sector. Depois, em frente à Piazzale Roma (aquela grande mancha branca a sul da estação ferroviária) atravessei para o lado do jardim (a leste), acabando por só passar o Grande Canal na ponte dei Scalzi.

Este último parágrafo não tem, evidentemente, qualquer intuito de medir-me com atletas do gabarito de Tiago Aires ou Alessio Tenani. Pretendo só, para benefício dos companheiros de orientação, evidenciar os custos de não simplificar a navegação, acrescentando prejuízo técnico à minha natural desvantagem física.

A Elite Masculina trocava de mapa no ponto 18, antes de atacar os últimos 3.900 metros do percurso. As cartas de jogar ao fundo do 2º mapa aludem à oportunidade que Alessio perdeu de fazer o póquer. Em vez do 4º ás saiu-lhe um rei, ou seja, um 2º lugar, para juntar às três vitórias anteriores.

Para tornar a festa ainda mais deslumbrante, tivemos a sorte de um fim-de-semana cheio de sol. Em pouco mais de 48 horas, palmilhámos uns 70 km. Andámos sempre de ténis e não apanhámos um único “vaporetto”, apesar de o nosso hotel ficar à beira da estação ferroviária e o centro de competição estar instalado bem para lá da praça de São Marcos.

No domingo, o pavilhão desportivo do Arsenal transformou-se numa babel de cor e alegria, com gente das mais diversas proveniências reatando contactos do Verão passado, falando já de projectos para o próximo ano e distribuindo folhetos com promoção das suas próprias organizações. Entre as provas anunciadas, não faltou informação sobre o POM 2012 e o WRE da Marinha Grande, que nós próprios carregámos de Lisboa.

Antecedendo a prova-rainha de domingo (MOV), realizou-se no sábado uma prova mais curta, no extremo leste da cidade e com mapa à escala 1:5000, o Park O Venezia (POV). O percurso mais longo (MM1) tinha 4,3 km. Classifiquei-me em 48º entre os 105 atletas que terminaram esse percurso. O vencedor foi… Tiago Aires, com quase um minuto de vantagem sobre o 2º classificado.
E agora cedo-lhe a palavra, mas ele nem fala disso.

Tiago a pensar no pódio

“Há muitos anos que queria participar no MOV. Este ano surgiu a oportunidade e não podia falhar, ainda mais tendo em conta que o WOC 2014 vai ter provas em Veneza (possivelmente três provas, se as estafetas urbanas mistas forem incluídas no programa). Sabia de antemão que seria um enorme desafio em termos técnicos, o que não imaginava era a dificuldade que é correr com milhares de pessoas nas ruas que simplesmente impossibilitam correr. Se já é exigente navegar naquela cidade, o que dizer com pessoas constantemente na frente.

Confesso que estava com expectativa de conseguir um lugar no pódio nesta 32ª edição do MOV, mas rapidamente percebi que o espírito desta prova é muito mais um evento de espectáculo e divulgação do que propriamente uma prova competitiva totalmente justa. Exemplo disso é o local de partida onde todos os 4300 inscritos podem estar a observar as dificuldades dos outros atletas na zona do triângulo, onde existiam várias ruas sem saída. A juntar a isto, há o facto de ser completamente diferente partir no início (9h00) ou partir entre as 11h00 e as 13h00.
Percebendo isto, tentei desfrutar da prova, pois é incrivelmente intenso navegar naquelas condições e perante tantas ruelas sem saída, túneis, canais, etc...


É uma experiência que certamente gostaria de repetir, pois em termos de resultado posso fazer bem melhor. Acabei por ter dois momentos de total desconcentração (ponto 5-6-7) e depois a seguir à troca de mapa (19-20-21) perdendo no total quatro minutos. Adorei a experiência. No próximo ano será no dia 11 de Novembro.”

Manuel Dias / Tiago Aires

[Resultados e fotos do MOV e POV em http://www.orivenezia.it/. Mapas extraídos da página pessoal de Alessio Tenani em http://www.alessiotenani.it/]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

Presidente disse...

Parabéns!!!
Grande relato (mais um!!!).
Abraço

Paulo Franco disse...

Mt bom! Obrigado pela partilha! As duas mecas do orientista, Oringen e Veneza... falta-me a segunda, por não muito mais, espero! :)

PFranco

José Grada disse...

Em 2007, numa viagem para os 5 dias da Eslovénia com o meu clube, o Ori Estarreja, tivemos o previlégio de visitar Veneza.
A visita foi curta, uma questão de horas em que deambulamos pelo centro da cidade. Então imaginei como seria ali uma Prova Urbana naquele labirinto de vielas,ruas sem saida, pontes, canais, num formigueiro infernal de gente. Afinal, tal como o Manel nos descreve Veneza em dia de prova.

Embora as classificações sejam questão menos importante e sem poder avaliar a qualidade dos participantes, direi que a posição do Tiago no top ten é muito honrosa.
O Manel não sendo um especialista, também esteve bem.

PFernandes disse...

Olá Amigos,

Simplesmente ESPECTACULAR!

Partilho todas as palavras do Paulo e do Mestre José Grada...

Não conhecia esta prova!
Fiquei a conhecer um pouco de Veneza no regresso do ISF deste ano nos Dolomites...
... e gostaria de voltar um dia... brevemente... seja para fazer a Maratona, seja para participar nesta super-aventura de mapa-na-mão!

(que inveja, Tiago e Manel...)

Resta-nos sonhar, através destas maravilhosas histórias... talvez para o ano (XXXIII Meeting)?


Saudações Orientadas