domingo, 20 de novembro de 2011

ORIENTAÇÃO EM BTT: GRANDE ENTREVISTA COM DAVIDE MACHADO, DANIEL MARQUES E JOÃO FERREIRA (II)




Apresentamos hoje a conclusão da Entrevista com Davide Machado, Daniel Marques e João Ferreira. Um documento importante, no qual passado, presente e futuro da modalidade são vistos por quem sabe.


Orientovar – A meio da época, num desabafo publicado no seu blogue, o Daniel Marques lamentava a falta de critério nos trabalhos desenvolvidos pelos principais responsáveis pela Orientação em BTT nacional. Que acompanhamento é necessário para que a modalidade evolua?

Daniel Marques – Eu critiquei mais o acompanhamento que foi feito nos últimos anos. Perdíamos fins-de-semana a encontrarmo-nos e basicamente aquilo que fazíamos era dar umas voltas a uma pista. Não saíamos duma pista. Para a nossa modalidade, acho isso um erro estratégico muito grande, para além do dispêndio de recursos sem qualquer tipo de retorno. Foram usados meios de forma mal calculada. Devíamos aproveitar esse tempo, sim, mas para nos reunirmos e para nos concentrarmos nos mapas. Em termos físicos, basicamente, qualquer um de nós consegue treinar saindo à rua. Aquilo que era importante, treinar com mapa, analisar em conjunto as várias opções, aprendermos uns com os outros a nível técnico, isso não foi nunca feito.

João Ferreira – Concordo com aquilo que o Daniel diz. Penso que temos resultados a nível mundial para que as pessoas comecem a ver a Orientação em BTT como um desporto com futuro e no qual vale a pena apostar. Está na altura de nos sentarmos e de pensarmos naquilo que é necessário fazer daqui para a frente para tornar esta modalidade ainda mais apelativa e para conseguirmos mais e melhores resultados ainda.


Montalegre não foi, de todo, a melhor escolha

Orientovar – Um treinador estrangeiro poderia ser uma boa solução para a selecção nacional de Orientação em BTT?

Davide Machado – Não sei. Não tenho conhecimento de treinadores estrangeiros que pudessem, de alguma forma, trazer valor acrescentado. Penso que temos bons técnicos nacionais, é só aplicar os conhecimentos que eles têm à parte da Orientação em BTT. Ou seja, os conhecimentos temo-los cá, é só saber direccioná-los para o sítio certo.

Orientovar – Em termos de promoção da modalidade, o Campeonato do Mundo de 2010, em Montalegre, foi uma oportunidade perdida?

Daniel Marques – Eu acho que sim. Aliás, critiquei isso desde o início, quando fui consultado sobre os locais ideais para a realização do evento, cerca de um ano e meio antes. Na perspectiva da captação de novos elementos para a modalidade, Montalegre não foi, de todo, a melhor escolha. Há naquela zona dois ou três clubes que fazem BTT mas com um número pouco significativo de praticantes e a quem falta esta dinâmica da captação e da formação. Se o evento fosse realizado em zonas como Leiria, Recardães, Torres Vedras ou Grândola, por exemplo, poderíamos ver este aspecto potenciado, isto para além de serem zonas logisticamente muito mais acessíveis e que poderiam ser rentabilizadas de outra forma. Mas gostaria de ressalvar que, em termos mediáticos, o Campeonato do Mundo se portou muito bem. Não foi, portanto, um caso perdido.


Penso que a aposta deve centrar-se nas pessoas que fazem Pedestre

Orientovar – O Campeonato do Mundo não trouxe mais praticantes para a modalidade como seria de esperar e vimos a assistir a um decréscimo dramático no número de participantes de prova para prova. Como é que se inverte esta realidade?

João Ferreira – Não estamos habituados a vir a provas de Orientação Pedestre e é engraçado que ainda há pouco falava com o Davide, olhávamos para o parque de estacionamento repleto de viaturas e pensávamos se conseguíssemos levar apenas metade daquelas pessoas para uma prova de BTT quão interessante não seria, nem que oferecêssemos as bicicletas para as pessoas experimentarem. É realmente uma questão muito complicada porque, se pensarmos bem, para a Pedestre temos umas calças, uma t-shirt e umas sapatilhas, e vamos fazer a prova, numa prova de Orientação em BTT temos a componente da bicicleta que, independentemente de ser mais barata ou mais cara, implica ainda a sua manutenção, o transporte, etc. E isso é um factor que limita muito as pessoas. Por outro lado, se pensarmos em captar pessoas que façam Maratonas de BTT e pensarmos em trazê-las para a Orientação, penso que isso é mais difícil. Penso que a aposta deve centrar-se nas pessoas que fazem Pedestre e mostrar-lhes que a Orientação em BTT também é muito engraçada.

Orientovar – É curioso ter falado nas Maratonas de BTT, até porque eu sei que o Davide ainda há bem pouco tempo participou numa. Como é que é Davide, porque é que a BTT tem crescido tanto e a Orientação não capitaliza rigorosamente nada deste crescimento?

Davide Machado – Bem, eu penso que a questão está em que o pessoal gosta menos de pensar e mais de seguir fitas. Tudo o que implica seguir mapas e raciocinar é um obstáculo. Penso que é precisamente por isso que não conseguimos atrair o pessoal do BTT. Como o João acabou de dizer, será eventualmente mais fácil levar o pessoal da Pedestre para a Orientação em BTT.

Daniel Marques – Levar as bicicletas para uma prova de Orientação Pedestre e fazer actividades de demonstração, connosco a servir de monitores, pode ser um caminho. Sobretudo junto dos mais jovens, é aí que está o ouro. Há pessoal que tem um bocado de medo de cair, ao passo que a gente jovem está mais receptiva à bicicleta e aquilo que estamos a precisar de momento é precisamente de gente jovem. Quanto ao pessoal do BTT “puro e duro”, acho que muitos já experimentaram pelo menos uma vez e o problema é que não foram devidamente ensinados, perderam-se grandes oportunidades por falta de conhecimento e de empenho de quem tinha a responsabilidade de monitorizar as acções e de ir com eles para o meio da floresta, e que em muitos casos acabou por nem ir, deixando-os abandonados à sua sorte. As pessoas perdem-se e param, gastam muito tempo e saem frustrados porque realmente não conseguem fazer aquilo como deve ser. E este é um factor que pesa muito, depois, na continuidade destas pessoas.


Não tenho conhecimento de que haja Orientação em BTT nalguma Escola do País

Orientovar – No caso da Orientação em BTT feminina a situação é particularmente dramática.

Daniel Marques – A nível internacional, a IOF está a avançar muito com as provas mistas. Em todas as provas da Taça do Mundo temos uma Estafeta com dois homens e uma mulher a competir. Infelizmente isto não tem sido uma aposta das organizações em Portugal e mesmo em termos de presença internacional não tivemos atletas femininos este ano a competir lá fora. Isto não é ser machista nem coisa que o valha, por favor não me descompreendam, mas a realidade é que, em termos de competitividade, é mais fácil uma atleta feminina chegar ao topo, sobretudo porque o número de elementos de cada nação a competir no sector feminino é menor. Ora, se conseguíssemos trabalhar bem um grupo de elementos femininos, talvez aí se conseguisse arranjar alguém que chegasse lá acima e que servisse de motor para que mais atletas pudessem aparecer.

João Ferreira – Também é importante apostar na captação junto das Escolas. A Federação de Ciclismo tem evoluído na vertente do BTT no Desporto Escolar e a Federação de Orientação tem igualmente evoluído, mas na Pedestre, esquecendo a Orientação em BTT. Pessoalmente, não tenho conhecimento de que haja Orientação em BTT nalguma Escola do País. Seria muito interessante colocarmos a Orientação em BTT nas Escolas.

Davide Machado – Talvez os clubes também tenham uma palavra a dizer neste particular aspecto da captação e da formação, embora na generalidade dos casos já fazem o que podem e não está fácil fazer mais ainda. O BTT Loulé é quase um caso à parte na modalidade devido aos fortes apoios que têm e à excelente política de distribuição de verbas pelas várias secções. A Orientação, em si mesma, não gera grandes apoios e a Orientação em BTT muito menos. A nível de Pedestre já temos muita formação, era agora essencial que os clubes se dispusessem a apostar na Orientação em BTT.


Tudo o que sirva para mostrar a modalidade no nosso país é bom

Orientovar – A Federação Portuguesa de Orientação prepara a candidatura de Portugal à organização do Campeonato do Mundo de Veteranos de Orientação em BTT em 2013. Isto traz algumas mais-valias para a Orientação em BTT portuguesa ou, como projecto, é visto com pouco interesse e representa, sobretudo, um dispêndio de recursos?

Davide Machado – É uma mais-valia. É claro que terá custos, mas tudo o que sirva para mostrar a modalidade no nosso país é bom.

Daniel Marques – O facto de se tratar dum Mundial de Veteranos não deixa de ser uma prova muito competitiva, muito forte. Já tivemos campeões do Mundo com idade de Veteranos e muitos dos melhores atletas de Elite já não são novos. A idade de Veteranos é uma idade muito bonita, acho eu (risos), as pessoas têm ainda muito para dar e um Mundial de Veteranos não deixa de ser uma montra da Orientação em BTT e faço votos para que possa ter um elevado número de participantes e seja uma prova em grande estilo.

Orientovar – Pedia-lhes um voto para a Orientação em BTT portuguesa na próxima época?

João Ferreira – Mais participantes e melhor competição.

Davide Machado – Fundamentalmente, mais participantes.

Daniel Marques – Sim, acho que precisamos efectivamente de mais gente a praticar, sobretudo jovens, porque em termos de organizações e tudo o mais julgo que estamos muito bem servidos. Queria exprimir ainda o desejo de que todos possamos evoluir e tenhamos um escalão de Elite muito competitivo.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Dinis Costa disse...

Sempre que houve campeonatos (mundiais) em Portugal dei sempre o meu contributo, de forma graciosa – voluntariado. Mas ali, para BTT, só o monte é que era alegre.
Não fui visto nesse evento.