sábado, 19 de novembro de 2011

ORIENTAÇÃO EM BTT: GRANDE ENTREVISTA COM DAVIDE MACHADO, DANIEL MARQUES E JOÃO FERREIRA (I)




Sexto classificado na prova de Sprint e quinto classificado na prova de Distância Longa dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT 2011, Davide Machado é, inquestionavelmente, o expoente máximo da Orientação em BTT portuguesa no momento presente. O Orientovar teve o privilégio de encontrá-lo recentemente em Pinho (S. Pedro do Sul), juntamente com Daniel Marques e João Ferreira, outros dois nomes incontornáveis da modalidade no nosso País. Numa conversa a quatro cuja primeira parte hoje aqui se desvenda, eis uma Entrevista que é, em si mesma, um documento importante que pode ajudar a perceber e a analisar o momento actual e o futuro da Orientação em BTT no nosso País.


Orientovar – É verdade que começou tarde a fazer Orientação em BTT, Davide?

Davide Machado – Um bocadinho, um bocadinho... Já comecei no final da minha temporada de júnior – fiz apenas duas ou três provas como júnior -, depois fiz uma época em H21A para ganhar alguma experiência e esta foi a minha segunda época no escalão de Elite. Por isso penso que comecei um bocado tarde.

Orientovar – E esperava ter atingido tão rapidamente um lugar de topo, com a vitória este ano no ranking da Taça de Portugal e ainda esses dois pódios nos Mundiais de Itália?

Davide Machado – Não, realmente não esperava. Precisamente por ter chegado demasiado tarde à Orientação em BTT, sempre pensei que iria ter pela frente um período mais longo de adaptação. Eu não fazia bicicleta e tive que encarar dois desafios, a adaptação à Orientação em BTT e a adaptação à bicicleta, naturalmente. A vertente técnica estava algo facilitada pela minha experiência na Orientação Pedestre, mas tive de desenvolver aptidões físicas que pouco ou nada têm a ver com aquilo que já fazia anteriormente. Mas adaptei-me bem, correu bem, sobretudo na parte física tive uma evolução enorme e rápida e isso foi muito bom.


A motivação está de volta

Orientovar – O Davide começou com 19 anos, o que é realmente muito tarde. Mas tanto o Daniel como o João, por sinal, não começaram muito mais cedo. É verdade?

Daniel Marques – É verdade, sim. Eu comecei com 16 anos.

João Ferreira – Na Orientação Pedestre, mesmo sozinho, comecei com oito ou nove anos, mas só aos 17 anos é que tive o primeiro contacto com a Orientação em BTT.

Orientovar – Mas no caso do João os resultados apareceram muito cedo?

João Ferreira – Felizmente para mim, os resultados apareceram realmente muito cedo, com dois nonos lugares em Campeonatos do Mundo e um sétimo lugar nos Europeus. A transição para Elite apanhou-me numa fase complicada da minha vida - os estudos estavam em primeiro lugar - e não alcancei os objectivos desportivos que pretendia, acabando por falhar o Campeonato do Mundo de Montalegre. Mas a motivação está de volta, só tenho 22 anos e a promessa de muita e boa Orientação em BTT pela frente.


Acho que ainda posso voltar ao que era

Orientovar – Depois dos Mundiais de Montalegre, o Daniel também decidiu parar e fazer, como diz, um “ano sabático”. Estas paragens, na alta competição, representam uma quebra enorme ou nem por isso?

Daniel Marques – Enorme, sem dúvida. Ao contrário do João, a minha paragem teve a ver com uma opção própria, no sentido de poder dedicar-me um pouco mais à família e ao trabalho. São opções que somos levados a tomar e eu assumi-a de livre consciência, as coisas são mesmo assim. Abdiquei por uma época da parte desportiva mas acho que ainda posso voltar ao que era e evoluir um pouco mais. Contudo, não me sinto obrigado a isso. Sinto apenas que gosto muito da modalidade. Não estou obcecado por ganhar o que quer que seja, fiz este ano Orientação em BTT simplesmente numa vertente de lazer a 100% e gostei muito do que fiz, apesar de não estar treinado e de isso fazer com que sofra mais nas provas. Mas pronto, estou apostado em voltar à alta competição no próximo ano, já tenho a minha vida mais organizada e já fiz alguns treinos. Talvez não tantos como gostaria mas vamos a ver como é que as coisas correm.

Orientovar – Quem está já a treinar a sério é o Davide e João. Como está a correr?

Davide Machado – A minha ida para o Jamor, ao abrigo do estatuto de Alto Rendimento, representou uma alteração muito grande na minha vida de atleta. Aquilo que faz realmente a diferença são as infraestruturas e a qualidade dos meios colocados à disposição dos atletas para treinar. Quanto à vertente técnica, o acompanhamento será feito pelo António Aires, o que me permitirá mais alguns treinos durante a semana. Ou seja, até agora o treino técnico resumia-se à minha participação nas provas. Agora, se implementar treinos técnicos também à semana, aí já estarei a dar um passo enorme. As condições para que possa evoluir existem e só espero que isso aconteça.

João Ferreira – Estamos a trabalhar na próxima época já há algum tempo e com ansiedade para que comece.


Um lugar entre os seis primeiros estaria perfeitamente ao nosso alcance

Orientovar – Reunidas as condições ideais, que lugar seria o de Portugal no âmbito da Orientação em BTT Mundial?

João Ferreira – No que respeita às Estafetas, eu penso que um lugar entre os seis primeiros estaria perfeitamente ao nosso alcance.

Daniel Marques – Sim, concordo. Efectivamente nunca aparecemos nas Estafetas com uma equipa forte. Uma equipa forte exige que os três elementos sejam fortes e regulares e, reunidas estas condições, esse objectivo seria plenamente alcançável.

Orientovar – O Davide tem este ano dois pódios em Campeonatos do Mundo de Elite – reconhecidamente os melhores lugares de sempre alcançados pela Orientação em BTT portuguesa – e depois apresenta resultados medianos nos Europeus da Rússia. Como é que isto se explica?

Davide Machado – Faltou um pouco de conhecimento. A parte técnica era muito exigente e a cartografia era algo diferente daquilo a que estamos habituados. Ou seja, não estou habituado àquele tipo de mapas e de terrenos e acabei por falhar claramente na componente técnica. É precisamente este tipo de falhas que espero colmatar no Jamor.


Este era um Campeonato talhado para os nórdicos

Orientovar – Ainda recentemente o Diogo Miguel, em entrevista ao Orientovar, afirmava que o aspecto mais imnportante na Orientação é a experiência. Temos pouca experiência internacional, competimos pouco lá fora?

Daniel Marques – Sim e não. Se analisarmos em detalhe os resultados do Davide na Rússia, temos de admitir que Portugal era um outsider no conjunto de países presentes. Não tínhamos a Espanha, a Itália fez resultados tão fracos ou piores do que os nossos, ou seja, este era um Campeonato talhado para os nórdicos, habituados àquele tipo de terrenos. Efectivamente a experiência é fundamental na Orientação, mas essa experiência tem de ter, depois, uma correspondência no factor concentração. E o factor concentração tem a ver, sobretudo, com a tal experiência, tem a ver com o saber pensar nos momentos mais importantes. E isso implica fazer uma época inteira focado nos grandes objectivos, ir lá fora e fazer treinos e provas em terrenos parecidos àqueles que iremos encontrar depois nas grandes competições. É isso que nos falta.

Orientovar – Foi por isso que o João foi a Itália, ainda que a expensas próprias?

João Ferreira – Exactamente. Ir a Itália era um objectivo que tinha colocado a mim próprio no início da época e não queria pô-lo em causa, apesar de não ter sido um dos três atletas convocados. Acabei por ir a expensas próprias, no sentido de aumentar a minha experiência e de poder competir ao mais alto nível, que é isso que me motiva e me faz andar para a frente.

(continua)


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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