quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MARIAN COTIRTA EM ENTREVISTA A ERIK BORG: "INDEPENDENTEMENTE DA COMPLEXIDADE DOS TERRENOS, AS DEFINIÇÕES DO ISOM SÃO IMPOSSÍVEIS DE SEGUIR"




Marian Cotirta assinou, só à sua conta, todos os mapas dos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre 2011 e também os dos Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão 2011, que tiveram lugar em França, em Agosto passado. Hoje respigamos uma entrevista concedida a Erik Borg e editada por Aleš Hejna com aquele que é designado por muitos orientistas consagrados como o “mago da cartografia”.


Como foi cartografar os terrenos do Campeonato do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2011?

Foi uma experiência única pelas extensões a cartografar (39 km2 WOC, 8.5 km2 Annecy, 7 km2 Hrebouilly) com áreas nem sempre fáceis mas muito interessantes. A organização limitou o número de cartógrafos que trabalharam nos mapas para irem ao encontro dos requisitos da IOF e puderem garantir uma homogeneidade de critérios no que diz respeito à interpretação e generalização de todos os mapas dos Mundiais.

Usou um ponto de GPS a cada 100 x 100 metros durante o introdução de detalhes no mapa?

Praticamente (90%) todos os documentos de trabalho foram feitos em IGN 1:25000, com equidistância de 10 metros e fotografia aérea, aos quais foi adicionada uma rede de pontos GPS com uma densidade variável de acordo com a complexidade da área a cartografar: um mínimo de 100 metros entre cada ponto GPS para áreas relativamente simples, cerca de 50 metros para terrenos complicados.

Quanto tempo demorou a elaborar os mapas?

Não é fácil de dizer... Para os mapas dos Campeonatos do Mundo e as provas da Taça do Mundo em Annecy, creio que cerca de 4000 horas para uma superfície de 47,5 km2, área e desenho incluídos. Portanto, uma média de 85 horas por km2. Para alguns pode parecer demasiado, mas eu creio que é o mínimo que se pode exigir para este tipo de terrenos. Os meus colegas finlandeses fazem uma média de 7 a 8 dias por km2.

Voltou aos terrenos depois dos suecos terem lá estado a recolher os detalhes? Quem determinou isto?

Sim, estive no terreno depois dos suecos. Os organizadores e eu achámos que isto seria indispensável no sentido de manter a homogeneidade dos mapas e garantir a sua qualidade. Esta situação constava do meu contrato mesmo depois de dar por terminados os mapas, ou seja, deveria trabalhar mais dois meses para ulteriores correcções. Os cartógrafos suecos fizeram o trabalho contratado pela IOF e eu fiz o meu trabalho. Apenas cumpri com o meu contrato, de acordo com o que tinha sido estipulado pela organização. Gostaria de realçar que, durante o tempo de duração do contrato, mantive sempre uma relação de grande proximidade com a organização, os Supervisores IOF e a equipa técnica. Devo dizer que me sinto particularmente satisfeito com a forma como se desenvolveu esta relação de trabalho, à excepção de algumas decisões impostas pelos Supervisores IOF (supressão de objectos não correspondendo às dimensões mínimas determinadas pelo ISOM, reformulação do relevo e a eliminação de curvas de nível intermédias em frente ao computador e não no terreno, como seria suposto).

Como correu o trabalho de cooperação com os cartógrafos suecos?

A cooperação foi boa. Ainda que nem sempre estivéssemos de acordo, descobrimos que temos uma linguagem em comum: cartografia. Os cartógrafos suecos eram livres de alterar quaisquer campos considerados necessários. O meu regresso ao terreno foi reconfortante. Por vezes concordei em absoluto com as alterações, outras vezes voltámos à forma inicial ou aplicámos uma terceira solução. Penso que o trabalho deles trouxe importantes benefícios ao produto final. Ao mesmo tempo, acredito que o trabalho feito por mim à posteriori foi igualmente muito benéfico e mesmo indispensável.

Como avalia o papel da IOF?

Sinceramente, sinto que a IOF acredita e espera que todos os problemas podem e devem ser resolvidos pelo cartógrafo e que o cartógrafo terá a solução para tudo. Isto nem sempre é possível e, assim, os orientistas tiveram que recorrer às lupas para conseguir ler os mapas. A solução mais prática e mais fácil teria sido a de adaptar a escala do mapa à complexidade do terreno e não o contrário, uma vez que é impossível simplificar este tipo de terrenos. Todavia, uma coisa parece clara: independentemente da complexidade dos terrenos, as definições do ISOM são impossíveis de seguir e, para mim, a única solução passa por reajustá-las. Espero que estes reajustamentos acompanhem os progressos técnicos dos últimos 30 anos (OCAD, Laser Scan, GPS), tornando possível a cartografia de zonas muito difíceis. Nos últimos 35 ou 40 anos, aquilo que o ISOM determina manteve-se imutável enquanto a tecnologia envolvida na execução de mapas de Orientação evoluiu enormemente. Espero ter a oportunidade de exprimir as minhas opiniões ao Conselho de Cartografia da IOF.

[Entrevista recolhida da página do Olles Maps no Facebook, em http://www.facebook.com/ollesmaps]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

Tiago Aires disse...

Viva,

Entrevista muito elucidativa e vem na altura certa, pois em Portugal é bastante comum a não utilização das regras ISOM. Certamente em alguns casos pelas mesmas razões que Marian Cotirta aponta nos terrenos do WOC2011, mas outras porque o trabalho de campo é feito com a marcação de demasiados elementos e sem a devida simplificação e cumprimento das dimensões mínimas para marcação dos elementos. Seja como for esta discussão é fundamental pois inicialmente a orientação como sabemos começou com mapas 1:100.000 e a tendência tem sido ter escalas cada vez menores, mas certamente tem de haver um limite.

Uma coisa é certa, existem terrenos mais técnicos e exigentes que os Portugueses um pouco por todo o mundo, e conseguem ser cartografados a 1:15.000, exemplo disso são os WOC´s que sempre têm cumprido o regulamentado pela IOF.
Mas há outra discussão dentro desta: que são as dimensões dos símbolos ISOM, que algumas vezes são reduzidas em Portugal tornado assim o mapa ilegível em corrida.

Cumprimentos
Tiago Aires

fernando disse...

Esta entrevista é muito importante para reforçar o debate que existe em torno do problema das escalas.
As regras da IOF não podem ser tão pragmáticas em relação a assuntos tão delicados e com interpretações tão diferentes umas das outras.