segunda-feira, 7 de novembro de 2011

JOSÉ FERNANDES E O MOMENTO ACTUAL DA CARTOGRAFIA EM PORTUGAL: "PÔR TODA A GENTE A FALAR É O GRANDE OBJECTIVO"




O Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de Orientação promoveu recentemente uma reunião para debater o momento actual da cartografia em Portugal. O Orientovar foi ao encontro de José Fernandes, um dos elementos daquele importante órgão consultivo, deixando-lhe aqui um punhado de conclusões deveras interessantes.


Orientovar – Com que objectivos se partiu para esta reunião?

José Fernandes - Foi a primeira vez, que eu saiba, que se fez uma reunião deste género. A iniciativa partiu do Departamento de Cartografia da Federação Portuguesa de Orientação, ao qual pertenço, e foi um momento para, com os cartógrafos mais representativos, aqueles que realmente estão a trabalhar, fazermos uma análise do actual estado da cartografia em Portugal. Foi, por assim dizer, um levantamento das necessidades que temos e do muito que há para debater no sentido de melhorar, não só as condições de trabalho dos nossos cartógrafos, mas a própria qualidade dos trabalhos.

Orientovar – Quando falamos dos cartógrafos mais representativos, estamos a falar de quantos cartógrafos?

José Fernandes – Estamos a falar de muito poucos, infelizmente. Estamos a falar de meia dúzia de cartógrafos que são os nomes que aparecem nos mapas com que nós corremos aos fins de semana. Isto num universo de algumas dezenas de cartógrafos de nível 3, os únicos que estão habilitados a cartografar qualquer mapa a qualquer escala, embora a maior parte deles não esteja no activo.


Faz falta, sobretudo, olhar para os regulamentos e cumprir exactamente aquilo que lá está

Orientovar – Quer falar-me da reunião em si?

José Fernandes – Esta reunião foi o pontapé de saída para mais conversas que iremos ter no futuro. Nesta primeira fase, propus-me coordenar o grupo e conseguir os contactos de toda a gente. Pôr toda a gente a falar é o grande objectivo, algo que poderá culminar na criação duma associação de cartógrafos. Serão eles a analisar as suas necessidades e a definir uma estratégia para melhorar o seu trabalho no futuro.

Orientovar – No momento presente, quais as grandes preocupações dos cartógrafos portugueses?

José Fernandes – Há um problema sério que advém do facto do mercado não funcionar. A maior parte dos clubes está fidelizada a um ou outro cartógrafo e normalmente os trabalhos são atribuídos por ajuste directo. Os clubes detêm a confiança do cartógrafo, é uma confiança recíproca, mas isto redunda em processos que, mesmo a nível de regulamentos, não serão os melhores. Mas as preocupações não se relacionam apenas com este tipo de situações, mas também com questões técnicas da própria cartografia. Faz falta, sobretudo, olhar para os regulamentos e cumprir exactamente aquilo que lá está. E isto não é respeitado, em muitos casos, devido à pressão da parte dos clubes que influencia negativamente o trabalho dos cartógrafos. Há clubes que têm uma filosofia virada para o espectáculo, manipulam escalas, saltam por cima daquilo que está estabelecido e esse é um grande problema para os cartógrafos, porque precisam de trabalhar e vêem-se na necessidade de ir atrás das exigências dos clubes. Isto não pode ser. É necessário encontrar soluções de compromisso para que aquilo que está estabelecido seja cumprido.


É possível produzir melhor trabalho e trabalho isento de críticas

Orientovar – Temos poucos cartógrafos e diferentes abordagens por parte da cada um deles?

José Fernandes – Cada cartógrafo – é inevitável! – deixa a sua marca no mapa. De qualquer maneira, desde que os critérios sejam uniformes e desde que se cumpra aquilo que está regulamentado, isso não constitui um problema muito grande. Mas é necessário uniformizar critérios. Nisso todos estão de acordo. Um cartógrafo quando faz trabalho de campo não pode confrontar-se com a dúvida de meter ou não no mapa determinado elemento. Não pode haver hesitações, até porque isso complica o seu trabalho. São necessárias mais reuniões e, inclusivamente, encontros de trabalho no campo para que estes critérios possam ser aferidos. Esta foi uma ideia que surgiu na reunião e que teve um acolhimento imediato da parte de todos. Creio que daí poderão advir resultados muito bons.

Orientovar – No particular aspecto da cartografia, esta foi uma boa temporada? Que avaliação faz, em função dos contributos que foram surgindo ao longo da época?

José Fernandes – Esta foi uma temporada muito idêntica às anteriores, no âmbito da cartografia e da sua qualidade. A quantidade de mapas produzidos não andará muito longe do que sucedeu nos outros anos e a qualidade é sensivelmente a mesma porque os cartógrafos também são os mesmos. De qualquer maneira – foi ontem reconhecido e é sabido, sobretudo por aqueles que andam mais atentos a estas coisas –, é possível produzir melhor trabalho e trabalho isento de críticas porque, desde que os regulamentos estejam a ser cumpridos, não há lugar à crítica. Se críticas houver, só poderão ser por ignorância e temos de as relativizar. Estou certo que a junção de saberes e de experiências vai ser muito frutífera e muito útil para os trabalhos que se irão levar a cabo nos próximos anos.


O traçador de percursos tem de ser amigo do cartógrafo

Orientovar - Um mau traçado de percursos pode arruinar um mapa e, em muitos casos, o cartógrafo acaba por sofrer injustamente as críticas que deveriam ser dirigidas ao traçador de percursos. Como avalia esta situação?

José Fernandes – Embora não fosse um dos assuntos agendados, também se abordou este aspecto, já que constitui uma preocupação muito grande. Temos que melhorar muito no traçado de percursos, muito mais até do que na cartografia. Vejamos, um traçador de percursos não tem de ser necessariamente um cartógrafo, mas é absolutamente essencial que se conheça de cartografia para levar a cabo um bom traçado de percursos. Quando planeia um percurso, depois de fazer o trabalho de casa - no fundo um simples esqueleto, nada mais do que isso -, o traçador de percursos faz todo o restante trabalho no campo. Aí há a necessidade de analisar tudo ao pormenor e esse é o momento privilegiado para ver o mapa com olhos de ver. Se o traçador percebe que, no mapa, há uma zona que não se encontra bem representada – e isto pode acontecer por variadíssimas razões -, é obrigação do traçador defender aquilo que há de bom no mapa e passar ao lado de alguma imperfeição, até porque não há mapas perfeitos. O traçador de percursos tem de ser amigo do cartógrafo.

Orientovar - As várias disciplinas da Orientação têm especificações diferentes em termos da própria cartografia. Considera haver um equilíbrio em relação àquilo que se faz na Orientação Pedestre, na Orientação em BTT e na Orientação de Precisão?

José Fernandes – No que respeita à Orientação Pedestre e à Orientação em BTT, creio que estão bastante bem dominadas e caminham de mãos dadas em termos qualitativos. Já no que diz respeito à Orientação de Precisão, estamos perante uma realidade nova, da qual eu não estou 100% habilitado para falar. Creio, contudo, que temos um caminho quase todo por fazer. Uma vez que tem sido uma disciplina importante e em grande crescimento nos últimos tempos, vamos ter de lhe dedicar a devida atenção.


Temos cartógrafos a trabalhar muito bem e o seu valor já é reconhecido

Orientovar – Dentro de dois anos e meio, Portugal organizará o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão WTOC 2014. A devida atenção de que fala deverá passar exactamente por quê?

José Fernandes – Passa, desde logo, por conhecer bem a modalidade e os seus objectivos. A Orientação de Precisão é uma ilustre desconhecida da generalidade dos orientistas portugueses. Eu, pelo menos, devo penitenciar-me nesse sentido. Mas em primeiro lugar, como em todas as coisas, aquilo que temos de garantir é um conhecimento aprofundado da modalidade e depois trabalharmos para que os eventos possam desenrolar-se normalmente e terem sucesso. Quanto ao Campeonato da Europa, a sua organização cria-nos uma enorme responsabilidade. Uma vez que ganhámos a candidatura, face à qualidade organizativa já demonstrada em anteriores eventos, penso que devemos potenciar ao máximo as nossas capacidades.

Orientovar – Na gesta marítima, há cinco séculos atrás, Portugal deu novos mundos ao Mundo. Nos dias de hoje, que posição ocupam os nossos cartógrafos no contexto da cartografia à escala mundial?

José Fernandes – Neste momento temos um cartógrafo que trabalho quase exclusivamente fora de Portugal, nomeadamente no continente americano. E não lhe tem faltado trabalho. Outros há que já têm trabalhado lá fora e mais haveriam se estivessem disponíveis para sair do País. Isto é um sinal de que a qualidade dos nossos cartógrafos já é reconhecida além-fronteiras. Sem termos uma escola – creio que também não faz falta, mas temos o nosso próprio estilo -, temos cartógrafos a trabalhar muito bem e o seu valor já é reconhecido. Nos dois últimos anos tivemos mapas cuja análise deu lugares de destaque nas preferências de grandes atletas da Elite mundial. Isto é um sinal de que a cartografia em Portugal está no caminho certo. Embora possa e deva melhorar em certos aspectos.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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