sexta-feira, 25 de novembro de 2011

IONUT ZINCA NA GRANDE ENTREVISTA: TREINO E CORRO PARA PODER "RESPIRAR"




A sua forma de estar, a sua afabilidade e as suas qualidades de grande orientista não permitem que passe facilmente despercebido. Com o seu 5º lugar na final de Sprint dos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2011, Ionut Zinca saltou definitivamente para o estrelato. No final duma temporada inesquecível, o Orientovar foi ao seu encontro e aqui dá conta duma conversa vivida e sentida.


Orientovar – Subir ao pódio num Campeonato do Mundo é sempre um ponto alto na carreira de qualquer desportista. Que especial emoção sente, ainda hoje, quando se recorda do 5º lugar da Final de Sprint do WOC 2011, de estar ali, aos olhos de todos, lado a lado com nomes como os de Daniel Hubmann, Anders Holmberg ou Matthias Mueller?

Ionut Zinca – A verdade é que, no momento em que cruzei a linha de meta, a sensação era a de que tinha ganho. Havia algo que me dizia que as coisas iam correr muito bem, antes mesmo de começar a minha prova. Estava na quarentena com a minha namorada e disse-lhe “hoje é o meu dia” e ela disse-me que me mantivesse concentrado. Parecia que era realmente o único a acreditar nas minhas possibilidades de entrar no top 6. Foi um dia no qual toda a minha raiva, frustração e pouca sorte de todas as classificatórias desapareceu com uma prova única de 14 minutos. Foi importante estar ali, lado a lado com os melhores do mundo, mas não faço Orientação para me comparar aos outros, faço-a porque é a minha vida, a minha “respiração”. Treino e corro para poder “respirar”.

Orientovar - O quinto lugar alcançado correspondeu a uma prova perfeita ou não há provas perfeitas?

Ionut Zinca – Quando cruzei a linha de meta sabia que tinha feito uma prova quase perfeita e que, a juntar aos últimos seis meses de trabalho no duro, seria suficiente para entrar nos dez primeiros. No final, não pude conter as minhas emoções. Tinham sido dias muito duros, com uma prova de Distância Longa para esquecer (devido a problemas de estômago e também por causa do calor), um golpe muito forte na prova de Distância Média que quase me deixou fora da final e, pior do que isso, o meu pai, de férias na Roménia, acabara de ter um acidente e eu desconhecia quase por completo qual o seu estado. Posto isto, em termos pessoais foi realmente uma prova perfeita, mas analisando-a friamente há dois aspectos que merecem um sério reparo. Na segunda metade da prova o ritmo caiu demasiado e isso levou-me a perder o terceiro lugar e uma falha na penúltima baliza, devido a uma abordagem demasiado pelo largo e que me fez passar o túnel, fez com que perdesse mais quinze segundos e, consequentemente, a quarta posição.


Dentro de muito pouco tempo irei abandonar a Orientação

Orientovar - Prevêem-se importantes mexidas no figurino dos Mundiais de Orientação Pedestre. Qual a sua posição no tocante a este caso? É um conservador empedernido ou, pelo contrário, um fervoroso adepto da mudança?

Ionut Zinca – Na realidade, toda esta situação é perfeitamente indiferente para mim. Passa-me ao lado, uma vez que não chegarei a viver qualquer uma das alterações previstas. Dentro de muito pouco tempo irei abandonar a Orientação e procurarei concentrar-me na família. Deste modo, quando as alterações forem implementadas estarei fazendo outras coisas. Quanto às alterações que se configuram no horizonte, é como em tudo na vida, o mundo pula e avança. Se outros desportos funcionam bem com este tipo de figurinos e queremos que a Orientação seja uma modalidade olímpica no futuro... pois então que acordemos todos para esta nova realidade porque a fórmula actual não está a produzir grandes resultados.

Orientovar - Como avalia o actual momento da Orientação e, em particular, daquilo que vai acontecendo na Roménia?

Ionut Zinca – Este é um momento nada fácil para a modalidade. O nosso querido desporto está condicionado pela crise que nos afecta a todos e, afinal, a Orientação é uma modalidade cuja prática não fica barata. Tanto para as organizações (mapas, aluguer de serviços, etc.) como para os atletas (taxas de inscrição, deslocações, alojamento, alimentação, etc.). Aos poucos os efeitos da crise acabam por se ir instalando, os organizadores fazem provas em mapas “maus” por questões económicas ou subvencionam os mapas com interesse para uma determinada zona, os atletas optam cada vez mais pelas provas locais ou reorientam os seus interesses para as corridas de montanha ou para as provas de estrada, etc. Quanto à Orientação na Roménia... não quero entrar em mais polémica mas, desgraçadamente, pouco a pouco a Orientação está a morrer no meu país e os responsáveis máximos, a Federação, está-se nas tintas.


Portugal apresenta uma qualidade organizativa realmente excepcional

Orientovar - Sei que continua a acompanhar de muito perto aquilo que se vai passando em Portugal e em Espanha. Qual a percepção que tem da realidade da Orientação nos dois países ibéricos? É uma Orientação a dois tempos?

Ionut Zinca – Faço provas em Espanha desde 2003 e penso que a primeira vez que competi em Portugal foi em 2004, mas dá para perceber que estamos a falar dum mesmo desporto e que tem nos dois países mentalidades distintas na forma como é abordado. Quando cheguei a Espanha, as provas na Primavera eram de grande nível e atraíam um elevado número de corredores estrangeiros de topo que vinham treinar e competir. A verdade é que, aos poucos, o nível das provas e das organizações deixou de ser tão elevado e assim se foram perdendo praticamente todos os atletas estrangeiros. Em contrapartida, Portugal apresenta uma qualidade organizativa realmente excepcional, conseguindo atrair os atletas estrangeiros e fazer do Portugal O' Meeting a mais importante prova europeia da Primavera.

Orientovar - As corridas de montanha ocupam cada vez mais o seu tempo e os seus interesses e já deixou antever que a Orientação, para si, está a chegar ao fim. O "Ionut Zinca-orientista" está prestes a dar lugar ao "Ionut Zinca – corredor de Trail"?

Ionut Zinca – Corri a minha primeira prova de montanha em 2003. Foram 32 km de prova e, quando cheguei ao fim, garanti a mim mesmo que nunca mais repetiria semelhante loucura. Mas a vida é das coisas mais bonitas e fascinantes que existem, dá tantas voltas... Dois anos depois terminava uma prova de montanha com uns 67 km. Bom, abreviando, gosto muito das duas modalidades, mas sobretudo da Orientação. Mas se atentarmos naquilo que realmente importa nesta vida ( o dinheiro e as oportunidades), nas provas de montanha podemos ganhar a vida, fazendo-o dum ponto de vista da profissionalização. No tocante aos patrocínios, em 2007, quando abracei por inteiro a Orientação, graças aos meus bons resultados nas provas de montanha, tinha garantido vários patrocinadores. A verdade é que acabei por perdê-los todos num ano apenas e isso devido a ter-me dedicado em exclusivo à Orientação.


Está na altura da IOF despertar para uma nova realidade

Orientovar - A cartografia é uma área que o apaixona e na qual começa a desenvolver algum trabalho. Quer falar-me dos mapas e de como vê o actual momento da cartografia?

Ionut Zinca – Nestes últimos meses do ano procuro conseguir algum dinheiro extra fazendo mapas. Nos últimos dois anos trabalhei em França, em 2010 fiz parte dos mapas para umas etapas da Liga francesa e este ano estou a trabalhar nos mapas do EYOC 2012. O terreno é bastante interessante, com muitos detalhes rochosos, bastante desnível e muitas variações no tipo de vegetação. Sinto que se passa com as normas do ISOM precisamente o mesmo que com o tipo de alinhamento dos Campeonatos do Mundo, ou seja, está na altura da IOF - Federação Internacional de Orientação despertar para uma nova realidade, sacudir o pó e vestir “roupa” nova. A verdade é que, com a mentalidades dos anos 60 / 70 estamos onde estamos. É facil entender isto, abres o OCAD, desenhas um buraco e depois desenhas uma área limpa de 250 m2 (25 x 10 metros) e vês o resultado. Há que alterar um grande número de símbolos e, para além disso, acrescentar outros novos. Actualmente trabalho com o OCAD e procuro respeitar ao máximo as normas ISSOM.

Orientovar - Quais os grandes objectivos para a próxima temporada? O Portugal O’ Meeting vai continuar a ser um ponto de passagem obrigatório na preparação da sua época?

Ionut Zinca – Os meus objectivos num futuro próximo... Bom, espero poder resolver alguns problemas financeiros, mas ganhando menos de 300 euros por mês não é muito fácil estabelecer objectivos. A minha intenção passa por ficar entre os três primeiros no Europeu de Montanha (Denizli, Turquia, uma prova no sistema up-/downhill) e depois procurar dar o melhor na prova de Distância Longa dos Mundiais de Orientação WOC 2012 (Lausanne, Suiça). Quanto ao Portugal O' Meeting, bom, não sei se irei perdê-lo pela primeira vez. Agora vivo com a minha namorada, ambos somos desportistas e ambos fazemos Orientação. Até Abril, quando recomeçarão as provas de montanha, o dinheiro não abunda e os gastos são muitos. Além do mais, no próximo ano iremos casar e, claro, mais gastos, he! he! he!... Bom, espero poder ir.




Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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