sábado, 1 de outubro de 2011

SARA WEIS: "O SENTIMENTO QUE TENHO POR ESTE DESPORTO VAI MUITO ALÉM DUMA MERA PRÁTICA DESPORTIVA"




O Orientovar dedica hoje o seu “Espaço Brasil” a uma muito jovem e distinta atleta. Sara Fabrina Weis foi a representante brasileira nos recentes Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2011 e relata-nos hoje essa inesquecível experiência. Mas não só!


Sara Fabrina Soares Dornelles Weis nasceu em 25 de Maio de 1989 e vive em Resende, Rio de Janeiro. Para além de ensinar, a Professora de Educação Física Sara Weis gosta de viajar, competir, passar finais de semana na natureza e correr em florestas e parques. Conheceu a Orientação por intermédio do pai – esse mesmo, José Otávio Dornelles, o fundador e actual Presidente da Confederação Brasileira de Orientação – e fez a sua estreia em 1998, no Campeonato Gaúcho de Orientação em 1998, na categoria D10. Desde então foi campeã oito vezes do Campeonato Brasileiro de Orientação nas categorias D10, D12, D14B, D16A, D16Elite, D18Elite e D20Elite e campeã duas vezes do Campeonato Sul-Americano de Orientação nas categorias D14B e D16 Elite.

Além do currículo desportivo, encontra-se no terceiro mandato como Presidente do Natura Clube de Orientação e detém os cursos de Cartógrafo (básico), Técnico, Traçador de Percursos e de Gestão no Desporto, trabalhando igualmente na Organização de Eventos de Orientação e estando a constituir uma empresa de produtos desportivos para a Orientação. Ocupa actualmente o 8º lugar no ranking nacional do escalão D21 e foi a atleta feminina que o Brasil levou aos recentes Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2011, onde obteve como melhor resultado o 26º lugar na prova de Sprint e o 7º lugar na categoria Open do O-Festival. E é precisamente pelos Mundiais de França que começamos a nossa conversa.


Depois de pisar no tapete vermelho, minha história mudou

Orientovar - De que forma viveu esses dias passados em França, no decurso dos Mundiais de Orientação Pedestre WOC 2011?

Sara Weis - Vivi um sonho e uma realidade. Um sonho de conhecer como a Orientação é praticada na Europa, de participar no maior evento de alto nível do nosso desporto e poder confraternizar com diversos países. Por outro lado, vivi também a realidade da organização do evento, as inovações que podem ser implantadas no Brasil, a estrutura, a clínica da IOF para os países em desenvolvimento. Tudo isso será relatado para a melhoria da Orientação em nosso país e para o WMOC.

Orientovar - O que significou para si envergar a camisola do Brasil no mais importante evento da Orientação mundial?

Sara Weis - Por muitas vezes me questionei se merecia realmente esta camiseta. Pelos resultados atuais eu entendia que não, mas pelo meu envolvimento com a Orientação desde criança, pelo meu clube, vi que essa chance não poderia ser desperdiçada. Depois de pisar no tapete vermelho, minha história mudou, renasci para o desporto e a minha vontade de ser cada vez melhor voltou. Senti que sou uma verdadeira atleta, não pelo resultado final, mas pela emoção, pelo amor e por todos os anos que dediquei à Orientação.


Fiquei muito emocionada com a nomeação do Brasil

Orientovar - Daquilo que viu e sentiu, que aspectos lhe prenderam a atenção e que, se transpostos para a realidade brasileira, poderiam contribuir de forma séria para o incremento da modalidade no seu País, tanto em termos competitivos como organizacionais?

Sara Weis - Em termos organizacionais, a Arena é um ponto marcante e que pode contribuir para melhorar a visibilidade da Orientação no Brasil. As nossas competições de Sprint estão na sua grande maioria concentradas em ambientes afastados da cidade, dificultando a visibilidade da modalidade. A parte logística e a preparação dos voluntários também são itens importantes. Em relação ao lado competitivo, percebi que é necessária uma maior adaptação dos atletas brasileiros ao estilo de mapa e ao terreno europeu. Corremos muitas vezes em áreas reflorestadas, onde o terreno foi preparado antes do plantio das árvores. Na Europa o terreno é natural, com muitas pedras, penhascos e acidentes de relevo, atraindo a nossa atenção para outros aspectos que não apenas a navegação. Nesse sentido, precisamos ser mais seletivos quanto às informações do mapa.

Orientovar - Ajudou a defender - com pleno êxito, diga-se! - a candidatura do Brasil à organização dos Campeonatos do Mundo de Veteranos de Orientação Pedestre WMOC 2014. O que sentiu quando foi anunciado o nome do Brasil como tendo sido a nação escolhida?

Sara Weis - Fiquei muito emocionada com a nomeação do Brasil. Se a nossa comitiva não estivesse presente neste evento, seria muito difícil ganharmos à China, que estava tão bem preparada quanto nós. Foi sem dúvida uma decisão muito árdua para a IOF, mas estamos felizes com o resultado e agora é só colocar em prática o nosso cronograma de atividades pré-WMOC e começar a trabalhar para o evento.


A Orientação brasileira passa por um momento de expansão no território nacional

Orientovar - No seu entender, quais os trunfos desta candidatura?

Sara Weis - Porto Alegre é a Capital do Rio Grande do Sul e está entre as cidades mais arborizadas do mundo, com diversas praças, reserva biológica e parques urbanos. Localiza-se no centro do Mercosul, posição privilegiada em relação a outras cidades brasileiras. O governo estadual está apoiando o Campeonato Mundial de Veteranos, bem como o governo municipal. A cidade foi centro de grandes imigrações europeias e resgata a cultura de diversas etnias. Sem dúvida será uma grande novidade para os atletas da Europa vislumbrarem o passado e conhecer uma cidade com padrões diferenciados daquelas já conhecidas e, se assim desejarem, praticar Orientação em mais um Continente.

Orientovar - Como avalia o actual momento da Orientação brasileira?

Sara Weis - A Orientação brasileira passa por um momento de expansão no território nacional. O Brasil é um país imenso e demanda tempo desenvolver a modalidade em cada região. Além disso, prestamos apoio aos demais países da América Latina para o crescimento da atividade no Continente. Temos ainda competições nacionais consolidadas como o Campeonato Brasileiro de Orientação e o Campeonato Sul-Americano de Orientação. O Brasil, por intermédio da Confederação Brasileira de Orientação e das Federações Estaduais, qualifica todos os meses árbitros, cartógrafos e técnicos de Orientação, vislumbrando um maior número de pessoas capazes de montar competições de excelência. A CBO possui uma Comissão Científica que produz pesquisas sobre Orientação. A modalidade também está sendo inserida gradualmente no contexto escolar, o que mostra uma grande chance de termos bons atletas na categoria júnior. Cada momento tem o seu objetivo principal e acredito que, em virtude do WMOC, em pouco tempo a nossa prioridade recairá sobre os grandes eventos desportivos de Orientação (Mundial de Veteranos, Mundial Júnior e Mundial Elite) e sobre o alto rendimento, com a preparação de uma equipa nacional para disputar as finais das competições.


A Comunicação cresce de forma exponencial

Orientovar - Juntamente com Fabio Weis, lançou-se há bem pouco tempo na blogosfera através do espaço http://brazil-o-life.blogspot.com/. Porquê criar um blogue e que avaliação faz da experiência?

Sara Weis - Acompanhamos com grande frequência blogues sobre Orientação e percebemos que a maioria das informações do nosso desporto no Brasil era encontrada em sites institucionais, muitas vezes como fonte única. A partir de então, decidimos montar um blogue que informasse sobre os principais eventos nacionais e internacionais, não somente boletins e horários de partida, mas informações do dia-a-dia e a percepção dos atletas sobre o evento. O número de acessos e seguidores do nosso blogue está crescendo a cada dia e isso dá-nos motivação para continuarmos a escrever.

Orientovar - Porque é que a Comunicação continua a ser o "calcanhar de Aquiles" da nossa modalidade?

Sara Weis - Acredito que as pessoas são muito fechadas para falar de Orientação e apenas os atletas de ponta e as instituições possuem sites. Na TV pouca coisa é transmitida e na maior parte das entrevistas estamos usando o mesmo discurso antigo sobre “o que é Orientação”, “onde é praticado”, “quem pode praticar”, entre outros tópicos. A expansão da modalidade nas redes sociais e nos blogues facilitará a pesquisa das redes de comunicação e tornará a Orientação mais conhecida mundialmente. Não é tarefa fácil fazer a cobertura de um evento num espaço aberto, a Arena ajuda muito nesse ponto. A Comunicação cresce de forma exponencial e quando alguém cria uma nova fonte mais um grupo de pessoas recebe essas informações.


A Orientação deu-me uma identidade

Orientovar - Imagina-se a viver sem a Orientação?

Sara Weis - Jamais viveria sem Orientação. Ela sempre esteve no meu DNA desde o início e assim como alguns atletas têm vocação para determinadas atividades, sei que tenho essa ligação com a Orientação. O sentimento que tenho por este desporto vai muito além duma mera prática desportiva. Os melhores momentos da minha vida estão relacionados com ele. A Orientação deu-me uma identidade, ensinou-me a ganhar e a perder, a ter humildade e a ser paciente. Eu tenho na Orientação uma família que só cresce, um vínculo que jamais poderá ser quebrado.

Orientovar - Quer exprimir um voto em termos pessoais, enquanto orientista, e também no tocante à Orientação brasileira?

Sara Weis - A Orientação brasileira está evoluindo rapidamente. Acredito que no máximo em cinco anos conseguiremos classificar atletas nas finais do WOC. Se não for um deles, gostaria muito de estar como técnica desta equipe. Após participar no Mundial mudei a minha visão. Hoje sinto-me como uma atleta que realizou um sonho e pretendo voltar quantas vezes for possível para viver essas duas semanas mágicas novamente.









[Fotos gentilmente cedidas por Sara Weis]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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