sexta-feira, 7 de outubro de 2011

NOVA PROPOSTA DA IOF PARA OS FUTUROS CAMPEONATOS DO MUNDO: O QUE PENSAM OS PORTUGUESES




Surgiu como uma bomba a proposta da IOF para o novo programa dos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre. Primeiro no Twitter e depois em artigo detalhado que o World of O deu à estampa, Olav Lundanes foi o primeiro a insurgir-se contra aquilo a que chamou “o principio da destruição da modalidade”. Hoje, é já superior a uma centena o número de atletas da Elite mundial que assinaram uma petição mostrando o seu desagrado perante as intenções da Federação Internacional. O Orientovar foi ao encontro de Maria Sá, Diogo Miguel e Miguel Silva, ficando a conhecer aquilo que por cá se cogita sobre o assunto.


Mais de uma centena de atletas presentes nas etapas da Taça do Mundo disputadas em 24 e 25 de Setembro, em Liberec (República Checa), assinaram uma petição contra a ideia da Federação Internacional de Orientação de remodelar o programa das futuras edições dos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre. As vozes que se juntaram às de Thierry Gueorgiou, Helena jansson, Annika Billstam, Olav Lundanes, Carl Waaler Kaas, Minna Kauppi, Dana Brozkova, Eva Jurenikova, Daniel Hubmann, Matthias Merz e Fabian Hertner são bem claras e afinam pelo mesmo diapasão: “Não gostamos das propostas do Conselho da IOF, não queremos participar num Campeonato do Mundo destes”.

Entretanto, o protesto já chegou aos grandes meios de comunicação social escandinavos e o Aftenposten - http://www.aftenposten.no/ -, diário norueguês de grande tiragem, dedicou uma das suas páginas do caderno de desporto da passada quarta-feira ao assunto. O braço-de-ferro ameaça prolongar-se e o resultado é uma incógnita. Diogo Miguel – um dos signatários da petição – Miguel Silva e Maria Sá aceitaram o repto do Orientovar e dão-nos a sua opinião abalizada sobre o assunto. Das suas palavras, infere-se que a tentativa de dar mais visibilidade mediática à modalidade está na origem das propostas. Mas será esta a melhor forma de tratar a Orientação?


"Pensemos primeiro naquilo que é o corpo da Orientação"

Num circunstanciado artigo de opinião, Maria Sá revela uma posição na linha daquilo que é o pensamento contrário ao da IOF. Senão, vejamos: “A Orientação é uma modalidade com características muito próprias, que por si só, infelizmente, impedem a sua divulgação e visibilidade. Arrastadas vêm a dificuldade enorme nas transmissões televisivas, a difícil compreensão da modalidade por parte dos espectadores e quiçá, por todas estas e mais outras razões, a dificuldade com que se poderá tornar a Orientação uma modalidade olímpica. Claro está que cabe à IOF solucionar este problema, ambição de qualquer modalidade em crescimento. Depois de se falar na inclusão da Micro-O dentro da Distância Média, do surgimento dos Knock-Out Sprints e depois de outras ideias e debates, a IOF surge agora de forma muito afirmativa e determinada com esta nova proposta.

Pensemos primeiro naquilo que é o corpo da Orientação. O que são as raízes da modalidade, as tradições, as suas características únicas. Como se pode encontrar no site da IOF: « The basic idea in Orienteering is to proceed from course start to finish by visiting a number of control points in a predetermined order with the help of map and compass». Este é um pressuposto básico: correr sozinho na floresta, em busca da melhor opção para cada ponto de controlo, com ajuda (apenas) de um mapa e bússola. Será que com a criação de uma prova de Chasing Start, onde se decidem medalhas e campeões, este pressuposto é cumprido na sua plenitude? Basta ver como decorreu a experiência deste ano na Distância Média na Finlândia… Qual é afinal a vantagem em criar este novo modelo na Distância Média? Será que permite uma melhor transmissão televisiva? Será que o espectador que não compreende a Orientação vai passar a compreender? Na minha opinião, tão ou mais importante, é estar a colocar-se em jogo a própria definição de Distância Média (aquela que teoricamente seria a tecnicamente mais exigente!).”


"Há que pensar, reflectir e dimensionar a importância de cada parte que forma o todo da nossa modalidade"

E prossegue: “Para além da novidade do Chasing Start para a Distância Média, surge a novidade da partida em massa para a Distância Longa. A antiga Distância Clássica (por muitos considerada como "the only real distance") é para mim aquela que requer uma capacidade física e técnica extraordinárias e concentração máxima durante 90 minutos para se poder vencer. Desde há vários anos que diversas ferramentas são utilizadas no traçado dos percursos, tais como o sistema de 'loops' de dispersão dos atletas e as pernadas longas numa parte inicial da competição, no sentido de manter o pressuposto básico de que há pouco falei. Claro está que existem provas como a Blodslitet em que o sistema de Chasing Start é utilizado e com muito sucesso, com a pequena nuance que esta é uma prova de distância Ultra-Longa e que, de certa forma, constitui uma competição com características diferentes. Será este um modelo justo de decisão num Campeonato do Mundo?

Voltemos agora um bocadinho atrás no tempo em que os Campeonatos do Mundo incluíam apenas a Distância Longa e a Estafeta de quatro elementos. Com alguma polémica também, mais tarde a Distância Média foi introduzida e, após influência da empresa privada Park World Tour, a IOF acabou por introduzir em 2001 a distância de Sprint no programa do WOC. Voltando ainda mais atrás, na Suécia a estafeta Tiomila decorria num perímetro enorme com a partida e chegada final afastadas por imensos quilómetros: o primeiro atleta partia num ponto, fazia o seu percurso e alguns quilómetros depois encontrava o último ponto onde o segundo elemento da equipa o aguardava para seguir a prova de Estafeta... e assim sucessivamente até terminar o décimo elemento da equipa na chegada oficial da prova. Logicamente, este modelo foi convertido para o actual, em que partida e chegada são no mesmo local e os espectadores podem assistir passo a passo a este grande espectáculo. Portanto, muitas mudanças existiram e por isso evoluímos. Há que pensar, reflectir e dimensionar a importância de cada parte que forma o todo da nossa modalidade.”


"Não deixemos destruir a magia do nosso desporto!"

Posto isto, a atleta conclui: “Na minha opinião pessoal, tudo gira em volta do desafio. Julgo que a maior parte dos atletas faz Orientação pelos desafios que a modalidade oferece em cada prova: na Distância Média, navegar constantemente no limite entre a segurança e a velocidade, na Distância Longa tomar as decisões correctas e manter uma atitude durante 90 minutos. Todas as mudanças sugeridas pela IOF designo-as de «spectator friendly». Mas no momento em que vivemos, onde já se consegue um bom nível de cobertura televisiva e em constante melhoria e evolução, com ajuda do GPS-tracking e câmaras na floresta, será que se justificam mudanças tão drásticas que põem em causa princípios básicos da nossa modalidade? Não deixemos destruir a magia do nosso desporto!”

Também Miguel Silva, embora confessando não ter tido tempo disponível para acompanhar este tema, não quis deixar de emitir um parecer: “Correndo o risco de fazer alguma má interpretação, considero que a proposta é um retrocesso ao actual modelo. Não concordo com a Estafeta Mista e tenho dúvidas quanto ao Chasing Start. A Distância Média clássica e a Estafeta são eventos que não poderão faltar. Em vez de adaptarmos a modalidade às transmissões televisivas, devemos adaptar as transmissões à modalidade, o que nem será assim tão difícil e onde ainda muito há a melhorar.”


"A IOF devia virar os seus esforços para o desenvolvimento de um produto atractivo para o telespectador"

Finalmente, as impressões de Diogo Miguel: “Quanto à minha opinião, esta também não é muito favorável à proposta. Compreendo os pressupostos da IOF, que entende como sendo importante encontrar um esquema com mais visibilidade para os média. Contudo, se por um lado, aumentando o número de provas de Sprint aumenta a visibilidade da modalidade, também creio que acaba por ‘desvirtuar’ a Orientação como o desporto da floresta. Por outro lado, temos também os moldes em que será feita a selecção dos atletas para a prova de Distância Longa. Sem uma prova qualificatória, penso que os critérios de inclusão de atletas para esta distância passará pela quotas dos países relativamente ao World Ranking Event (à semelhança do que ocorre com os Jogos Mundiais e World Cup, em que o número de atletas que cada país pode ter a competir depende da classificação dos atletas no WRE), o que pode vir a ser muito mau para pequenos países como nós!

Neste momento, penso que as preocupações da IOF no que diz respeito à visibilidade da modalidade são legítimas e justificadas. Contudo, acho que a IOF devia virar os seus esforços para o desenvolvimento de um produto atractivo para o telespectador. Na minha opinião, as produções têm feito um bom trabalho na emissão das provas, mas eu falo como adepto e praticante da modalidade. Para o comum do telespectador ainda existem muitos ‘espaços mortos’ durante a emissão que a podem tornar desinteressante e aborrecida. E quando existir um modelo sólido deverá ser a IOF a vender ou, mais importante, oferecer a entidades que a transmitam para o grande público (Eurosport, por exemplo).”


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Está aberta a discussão entre nós. Quem já assistiu às emissões de provas de Orientação e vem acompanhando a forma como as mesmas têm evoluído, terá certamente uma opinião. E uma opinião que conta. Partilhe-a connosco.

[Foto da página extraída do Twitter em http://twitpic.com/6vf5ly/full]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

Anónimo disse...

Boa Tarde;

Há uns dias, quando estava a ver televisão no canal EuroNews, fui surpreendido por uma pequena notícia/reportagem sobre uma etapa da Taça do Mundo de Orientação, no caso disputada em Liberec, Czech Republic em que os vencedores foram em masculinos Pasi Ikonen e em femininos Dana Brozková.
Estou a falar deste caso para referir que de facto o que se viu, foram dois atletas (no caso os vencedores) a sprintar para a meta já no balizado.
Obviamente, que para o espectador comum,é muito difícil atravéz destas imagens, dissociar a orientação duma comum prova de corta mato.
Claro que lá deram uma rápida explicação doque consta a orientação, mas só isto penso que não basta.
Como diz a Maria Sá, há que tentar adaptar os meios audiovisuais ao nosso desporto e não o contrário, mas tem de se lhe dar mais visibilidade sem dúvida.

Rui Antunes

Luís Santos disse...

Boa noite a todos.

Sem dúvida que concordo com o Rui pois são os meios audiovisuais que se devem adaptar à Orientação (e já vimos que isso é possível e apelativo) e não o inverso.

Mas na minha opinião a génese do problema não reside no formato do WOC, mas sim no objectivo máximo da IOF para a Orientação que já tinha um sentido neste período de 6 anos que agora termina e vai continuar a ter o mesmo objectivo - tornar a Orientação uma modalidade olímpica.

Muitos concordarão com isto mas este é no meu ver um objectivo errado que está a "perverter" algumas características da modalidade tal como defendeu e muito bem a Maria Sá.

Ao focalizar a modalidade neste objectivo da integração olímpica sacrifica-se tudo pelo espectáculo e pelo mediatismo audiovisual em detrimento da defesa das características da modalidade.

Eu acho que o modelo do WOC actual é muito apelativo e o crescimento exponencial do número de espectadores e de participantes nas provas paralelas do WOC provam isso mesmo. Só a IOF é que não compreende isso e procura mudar tudo outra vez...

Saudações desportivas,
Luís Santos