quinta-feira, 13 de outubro de 2011

GRANDE ENTREVISTA: MARTIN JULLUM E A ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO




Stefano Galletti acaba de regressar da Noruega e trouxe com ele uma bela surpresa. À boleia do excelente www.trailo.it, o Orientovar publica a Entrevista feita a Martin Jullum, brilhante vencedor da competição de Temp-O do recente Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2011.


Stefano Galletti - A primeira questão é sempre a mais simples: Qual a razão desta Entrevista? Deixe-me ver… É jogador da Selecção Nacional de Futebol e, ao mesmo tempo, um Grande Mestre de Xadrez? Não, esse era Simen Agdenstein! Ganhou uma edição do “Skal Vi Danse?” e conquistou um Grammy? Não, esse foi o Madcon! Dê-me só mais uma oportunidade… Talvez seja um campeão de Orientação? Se assim é, fale-nos um pouco da sua carreira, dos resultados… e acerca de si, claro!

Martin Jullum - Sim, é verdade! O meu nome é Martin Jullum, tenho 23 anos e estudo Matemática Estatística na Universidade de Oslo. Pratico Orientação de Precisão em representação do Halden SK, aliás o clube que sempre representei ao longo da minha carreira.

Stefano Galletti – Sim, sei bem que é atleta do Halden SK. Quando fui o speaker do Andalusian O’ Meeting 2011, disse na altura que o Halden SK está para a Orientação como o Real Madrid está para o Futebol. Antes de começar a pensar que clube de Orientação terá paralelo no FC Barcelona, pedia-lhe que nos dissesse o que é isso de ter por colegas de equipa nomes como os de Olav Lundanes, Anne-Margrethe Hausken, Emil Wingstedt, Galina Vinogradova (e a minha amiga Elena Roos também..), e o que eles dizem quando percebem que têm Martin Jullum por companheiro de clube!

Martin Jullum – Nunca pensei no meu clube como o equivalente na Orientação ao Real Madrid, mas é claro que se trata dum clube “famoso” (se é que podemos considerar que há clubes famosos na Orientação), com um enorme historial e um elevado número de grandes orientistas. São todos excelentes companheiros e os seus resultados fazem com que me esforce ainda mais para melhorar neste desporto. Ter colegas de equipa e amigos nos lugares de topo, faz também com que se achem mais interessantes e divertidas as grandes competições como a 10-Mila, a Jukola e os Campeonatos do Mundo. Penso que eles também ficam felizes quando ouvem falar dos meus resultados. Também me sinto bem-vindo e estimado quando chego ao "Høiås", onde funciona a Sede do Halden SK. Ao longo do ano, é aí que têm lugar as formações e há todo um clima de socialização às quintas-feiras. Ser parte integrante desta grande família orientista, que compreende as crianças, os grandes atletas de Elite e os veteranos do clube, é verdadeiramente especial e dá-me o ânimo extra que necessito por vezes. A propósito, penso que talvez o Kalevan Rasti possa ser o FC Barcelona… (ou talvez o Selkien Sisu?)


Uma decisão errada pode corresponder à diferença que separa um resultado de sucesso dum resultado frustrante

Stefano Galletti – Foi o vencedor da competição de Temp-O do último WTOC, mas talvez estivesse muito mais focado no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão. Pode falar-nos da sua experiência no WTOC?

Martin Jullum – Evidentemente, estava mais focado no Campeonato do Mundo. Preparei-me arduamente para esta competição. O facto de os resultados não terem correspondido às expectativas, particularmente no primeiro dia, devem-se provavelmente a eu ter pensado em demasia. Cometi três erros, que devo agrupar em três diferentes categorias: uma má decisão (“Z” no segundo ponto, dia 1), um ponto de controlo tipo-bingo (“D” no décimo ponto, dia 1) e uma decisão precipitada (“A” no quinto ponto, dia 2).

Não estou contente com o resultado, mas penso que o meu nível à data de Agosto de 2011 era de apenas mais um ponto (e talvez um bocadinho mais rápido) – então teria ido ao pódio, tal como acontecera nos dois anos anteriores. Quero com isto dizer que o actual nível internacional da Orientação de Precisão é de tal maneira elevado que, no meu caso pessoal, uma decisão errada pode corresponder à diferença que separa um resultado de sucesso dum resultado frustrante. Mas mesmo que o meu resultado individual não tenha sido o melhor, a competição por equipas correu muito bem. Chegámos à medalha de prata, o que esteve bastante acima do esperado. Toda a equipa (Lars Jakob Waaler, Arne Ask e eu) conseguiu excelentes resultados no segundo dia, e este segundo lugar é mesmo uma vitória de toda a equipa. E devo confessar que bater a Suécia faz com que o sentimento seja ainda melhor… :)


A minha táctica para a prova de Temp-O consistiu em limitar-me ao básico

Stefano Galletti – Pedia-lhe que nos falasse também, como é óbvio, sobre a sua prova de Temp-O e essa vitória estrondosa num tempo absolutamente fantástico (eu também fiz a prova… e gastei mais de mil segundos! Mas, por favor, não comente o meu resultado…)

Martin Jullum – Talvez devido ao facto de ter pensado demasiado nos dois dias anteriores, a minha táctica para a prova de Temp-O consistiu em limitar-me ao básico – não pensar demasiado, antes simplificar. Sabia também que tinha de ser muito mais rápido do que nos dias anteriores, onde gastei mais de um minuto nos dois dias. Decidi apostar tudo neste objectivo. Sentia-me também muito mais calmo que nas provas correspondentes ao Campeonato do Mundo. Evidentemente que não é propriamente agradável permanecer sentado duas horas antes da prova, mas isto foi igual para todos. Senti-me sempre muito bem ao longo de toda a prova, respondendo prontamente quando fazia a minha opção e procurando usar os segundos extra quando não tinha a certeza da resposta. Foi pôr em prática a táctica concebida e correu tudo bem. No final, tinha a sensação que esta tinha sido uma boa prova, mas não fazia ideia que tinha sido tão boa a ponto de valer a vitória.

Inicialmente, quando os resultados foram anunciados, eu era o 3º classificado, o que me deixava já bastante satisfeito. Todavia, quando conferi os meus resultados, apenas encontrei dois erros e não três, como tinha sido divulgado. Depois de esclarecida a situação junto da organização, fiquei naturalmente contente quando me disseram que o erro tinha sido deles e eu era o vencedor.


Alguns dos melhores atletas de Elite têm igualmente excelentes capacidades ao nível da Orientação de Precisão

Stefano Galletti – Devo dizer-lhe que perguntei ao Sr. Vinogradov, o treinador do Halden SK, se me aceitava no seio da equipa… mas respondeu-me que devo, em primeiro lugar, emagrecer um pouco. Quer isto dizer que os atletas do Halden SK são todos muito fortes, incluindo os atletas de Orientação de Precisão, como é o seu caso, por exemplo? Ele é o treinador do Halden mas há um treinador específico para esta área da Orientação de Precisão? Há uma colaboração estreita entre todos com vista ao aprimoramento do nível competitivo? Se assim é, de facto, qual o nível dum Olav Lundanes ou duma Anne-Margrethe Hausken no que respeita à Orientação de Precisão?

Martin Jullum – Eu não tenho o meu próprio treinador no Halden SK. A verdade é que vivo em Oslo e vou a Halden não mais do que uma ou duas vezes a cada dois meses, não treinando muito com os meus colegas de equipa. Obviamente, seria fantástico poder ter alguns treinos específicos preparados por alguém do clube, mas penso que o meu nível pessoal torna extremamente difícil obter algum proveito de treinos preparados a um nível mais básico. Talvez possamos vir a trabalhar em conjunto no futuro, no sentido de obter uma melhoria suplementar que permita a obtenção de mais medalhas a título individual.

Naturalmente, alguns dos melhores atletas de Elite têm igualmente excelentes capacidades ao nível da Orientação de Precisão. Emil Wingstedt, por exemplo, foi o vencedor da primeira prova de Orientação de Precisão na qual participei, no O-Ringen de Sälen 2008, na qual eu não passava dum mero principiante (mas vim a batê-lo um pouco mais para o final da semana). Olav Lundanes participou pela primeira vez nesta Primavera numa prova de Orientação de Precisão e também ele venceu, apesar de estarem em prova todos os melhores atletas noruegueses e suecos de Orientação de Precisão. Agora tenho de convencer o Olav a participar de novo numa prova, de forma a tentar batê-lo desta vez.


Participo em cerca de quarenta competições por ano

Stefano Galletti – Como é que treina para conseguir aqueles resultados no Temp-O? Tem alguma “check list” na sua cabeça quando ouve: “O tempo começa a contar… agora!”? Pode partilhar connosco os seus segredos?

Martin Jullum – Não tenho nenhuma espécie de lista para cada ponto de controlo porque creio que uma estratégia desse género poderia revelar-se demasiado lenta. Geralmente procuro fazer a leitura duma parte do terreno a partir do momento em que o mapa me chega às mãos. Antes de me sentar controlo a direcção do Norte, mas creio que esta é uma táctica bastante comum. Experimentei algumas técnicas de abordagem ao ponto de controlo, mas qualquer uma delas sem resultados satisfatórios. Penso que o mais importante será mergulhar naquilo que eu designaria por “impregnação psicológica”.

Stefano Galletti – Como gere os seus treinos para as competições de Orientação de Precisão, dum modo geral? Também faz provas de Orientação (entendida como a Orientação tradicional)?

Martin Jullum – O meu treino consiste sobretudo em competições na Noruega e na Suécia praticamente todos os fins-de-semana, de Abril a Outubro, talvez um pouco menos nos meses de Verão. No total, participo em cerca de quarenta competições por ano. Também planifico a Norwegian Spring, uma prova de dois dias que tem lugar no início da Primavera. Este tipo de planificação mantém-me preparado ao longo da temporada, com um grande e variado número de contactos com florestas e mapas, mesmo pensando que combinar tudo isto requer um enorme esforço e muito desse trabalho acaba por não se revelar particularmente proveitoso em termos de aprendizagem pessoal. Também fiz provas de Orientação tradicional mas há cerca de cinco anos fui obrigado a abandonar devido a problemas de estômago. Foi então que descobri a Orientação de Precisão, há mais ou menos três anos e meio e fiquei imediatamente rendido.


A Orientação de Precisão é assim como uma prova de Distância Longa na Orientação tradicional

Stefano Galletti – Marco Giovannini, o criador deste website, é um forte adepto do Temp-O; ele acredita que, num futuro mais ou menos próximo, pelo número de participantes ou pela garantia de espectáculo, o Temp-O poderá tomar o lugar da Orientação de Precisão. Qual é a sua opinião?

Martin Jullum – Eu sou de opinião que a Orientação de Precisão é mais divertida e é igualmente bastante exigente, mesmo que o seu formato e o traçado de percursos não seja ainda perfeito em termos da disciplina. A Orientação de Precisão é assim como uma prova de Distância Longa na Orientação tradicional, cotando-se como a mais desafiante e respeitada disciplina do meu ponto de vista.

Pessoalmente tenho uma sugestão a fazer no sentido de melhorar o formato do Temp-O: A resposta “Z” deveria representar um ponto de controlo em objectos diferentes e eu queria que isto estivesse escrito não apenas num qualquer guia oficial de Temp-O, mas que fosse uma alínea do Regulamento de Competições para o Temp-O assumida pela Comissão de Competição da Federação Internacional de Orientação. Uma tal regra, na minha opinião, impediria o Traçador de Percursos do próximo Campeonato do Mundo de introduzir um “Z” marginal. Um “Z” no mesmo elemento que o ponto correcto faz com que a competição se torne mais num jogo de adivinhação do que numa prova de Orientação de Precisão de velocidade.


Para atrair as gerações mais jovens, penso que o Temp-O é o melhor caminho

Stefano Galletti – Não sei se leu em www.trailo.it a Entrevista que eu fiz ao Dmitry Kucherenko, o novo Campeão do Mundo da Classe Paralímpica. Concorda com a opinião da Selecção russa sobre a falta de interesse quanto à existência duma Classe Open?

Martin Jullum – Não concordo com os russos. Se não existirem Classes Abertas, então não haverá ninguém (ou haverão muito poucos) que queira fazer provas ou competições. Na Escandinávia são muito poucos os atletas da Classe Paralímpica, pelo menos de acordo com as novas regras. Se os competidores não certificados para a Classe Paralímpica não pudessem participar em Campeonatos do Mundo, estou praticamente seguro que a disciplina morreria devido à falta de atletas. Honestamente, não consigo ver um único argumento válido que suporte a inexistência de Classe Open nos Campeonatos do Mundo.

Stefano Galletti – Em La Feclaz, vi-o a conversar com Marit Wiksell, a mais jovem atleta da Suécia. Penso mesmo que o Martin e a Marit estariam entre os mais jovens competidores deste último Mundial. O que poderia ser introduzido na Orientação de Precisão, ou o que está a faltar, para que mais gente jovem possa ser atraída?

Martin Jullum – Na verdade, Marit é minha namorada e penso que somos, realmente, dos mais jovens competidores. Os nossos amigos finlandeses, Lauri e Antti, são ainda um pouco mais jovens. Para atrair as gerações mais jovens, penso que o Temp-O é o melhor caminho. Não é preciso mudar nada, apenas melhorar e tornar mais precisos os mapas e fazer com que as competições de Temp-O tenham lugar nas Arenas das provas regulares de Orientação. A gente jovem aparecerá. Na verdade, o norueguês Martin Waaler, com apenas 17 anos de idade, participa na grande maioria das provas lado-a-lado com o pai, Lars Jakob Waaler. Penso que ele é um dos jovens atletas mais activos e pode perfeitamente qualificar-se para os Europeus da Suécia, no próximo ano. Talvez devamos perguntar-lhe porque motivo compete ele com tanta regularidade.


Eu quero realmente competir mais no Continente

Stefano Galletti – Última questão: Em 2011, tivemos em Cavalese uma edição dos Campeonatos Nacionais de Itália, na qual esteve presente a selecção da Suécia. Acha que, mais tarde ou mais cedo, também os noruegueses participarão numa competição em Itália? E o que esperaria duma tal experiência?

Martin Jullum – Eu quero realmente competir mais no Continente. Gostaria de ter ido a Itália nesta Primavera, mas também tivemos uma competição na Noruega nesse fim-de-semana e acabei por optar pela nossa prova. No próximo ano, apenas estudarei a 66% na Universidade, pelo que terei mais tempo para competir noutros países. Se tivessem, no mínimo, duas competições no mesmo fim-de-semana, sem que houvesse qualquer outra competição ao mesmo tempo na Noruega ou na Suécia, aí consideraria em absoluto estar em Itália no próximo ano. Da Orientação de Precisão italiana eu espero bons mapas, nos quais as linhas de observação constituem a chave para a resolução da maioria dos pontos de controlo.

[Entrevista extraída da página Trailo.it, em http://www.trailo.it/Novita.asp#]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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