quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DIOGO MIGUEL: "EM NENHUM OUTRO DESPORTO A EXPERIÊNCIA É TÃO IMPORTANTE COMO NA ORIENTAÇÃO"




A República Checa é o país escolhido por dezenas de estudantes portugueses que, não conseguindo entrar em Medicina em Portugal, escolhem aquele país para tirar o Curso. Brno é um dos grandes centros universitários do país e aí se encontram várias dezenas de portugueses, formando como que uma “comunidade” em que até a tradicional Praxe tem lugar! Foi a esta comunidade que se juntou recentemente Diogo Miguel, o nosso convidado de hoje aqui no Orientovar.


Orientovar - As obrigações académicas levaram-no, prematuramente, a ter de desistir da luta pela vitória no ranking da Taça de Portugal 2011. Assim, à distância, com que expectativas irá acompanhar a realização dos Absolutos do próximo fim-de-semana?

Diogo Miguel - A Taça de Portugal não está, por norma, entre as minhas prioridades em termos competitivos. Não pretendo com isto tirar importância à competição em si, mas o meu objectivo passa por estar no meu melhor em Julho/Agosto para as grandes competições internacionais, e por isso não posso estar no meu melhor em todas as provas a contar para o ranking.

Quanto aos absolutos, espero que seja um fim-de-semana cheio de muita e boa orientação, com mapas e percursos de qualidade, e que a organização esteja, como é habitual, ao nível da importância do evento. Quanto à competição em si, estou expectante para ver como os nossos mais jovens e promissores atletas se vão portar entre a Elite, pois creio que alguns deles poderão alcançar um muito bom resultado. É também por isto que acho o campeonato nacional absoluto uma das provas mais interessantes do nosso calendário.


Um erro que não podemos cometer é dar razões aos media para que não divulguem a modalidade

Orientovar - Sente tristeza por não estar lá?

Diogo Miguel - Na verdade, mesmo que estivesse presente não iria competir, mas organizar. Ainda assim, sinto-me cheio de vontade de experimentar os mapas e os terrenos mal chegue a Portugal! E as fotos relativas ao terreno que a organização colocou na internet ainda me abrem mais o apetite..

Orientovar - Pegando nesta questão de se estar de fora, quem procura informações actualizadas sobre as provas depara-se, com inusitada frequência, com situações inacreditáveis. Numa altura em que, mais do que nunca, as preocupações da IOF se focam na tentativa de dar mais visibilidade à modalidade, que percepção tem da realidade portuguesa? Continuamos a desperdiçar oportunidade atrás de oportunidades para promover e divulgar a nossa modalidade?

Diogo Miguel - Acho que de uma maneira geral não estamos assim tão mal. Claro que, por vezes, numa ou noutra situação, as organizações acabam por descurar esta parte e por publicar os resultados e os mapas (no mínimo os dos escalões mais importantes deviam ser sempre disponibilizados no site após a prova) demasiado tarde. E os mapas raramente são publicados... Contudo, numa altura em que tanto se fala do tópico da visibilidade da modalidade, um erro que não podemos cometer é dar razões aos media para que não divulguem a modalidade. E neste campo, disponibilizar toda a informação necessária é o mínimo exigível às organizações! Mas se olharmos para outros países, como por exemplo a Espanha, podemos concluir que de uma maneira geral estamos nesta matéria muito acima deles.


A planificação desta época foi feita tendo em vista os Campeonatos do Mundo

Orientovar - Fale-me de si, Diogo, de como correu esta época, uma época que terá tido o seu ponto alto em França, com o apuramento para a Final A de Sprint.

Diogo Miguel - A planificação desta época foi feita tendo em vista os Campeonatos do Mundo. Todo o meu treino foi pensado para que eu estivesse na minha melhor forma durante essa semana. O meu objectivo principal passava pela Distância Longa, mas foi no Sprint que acabei por ser mais feliz e acabou por ser esse apuramento o momento mais alto da época, embora tenha sido desclassificado na final.

Quanto ao resto da época, foi bastante importante ter tido a oportunidade de competir nas rondas finais da Taça do Mundo. Em nenhum outro desporto a experiência é tão importante como na Orientação, e por isso estas oportunidades devem ser aproveitadas ao máximo.


A quebra no número de participantes é de facto preocupante

Orientovar - Como avalia o actual estado da Orientação portuguesa? Preocupa-o a quebra de participantes nas provas? Não teme que a criação do Circuito Nacional Urbano, de Estafetas e, eventualmente, o Circuito Nocturno, vá acentuar ainda mais o problema e criar problemas acrescidos às organizações?

Diogo Miguel - A quebra no número de participantes é de facto preocupante. Não creio que a criação de todos estes circuitos vá acentuar o problema. Na verdade, um grande número de clubes já organizava antes provas locais de Sprint e Estafetas, pelo que não vejo que enquadrar esses eventos num circuito os vá prejudicar. Acho até que é salutar a preocupação que esta direcção está a ter com este problema e o esforço que está a fazer para tentar dar a volta. Ninguém pode dizer hoje e agora que estas são as melhores medidas e que vão melhorar o actual estado das coisas, mas também ninguém pode dizer que não serão proveitosas. Cá estaremos no futuro para ver se de facto estas iniciativas foram ou não profícuas!

Orientovar - Qual o caminho a seguir para ultrapassar a crise?

Diogo Miguel - Na verdade, não sei... Os eventos, de uma maneira geral, já são bastante bem organizados, pelo que penso que não podemos pegar muito por aí. Por outro lado, muitas vezes os terrenos e percursos apresentados deixam muito a desejar, e quanto a isso penso que a federação já está a fazer algum trabalho, com todos os cursos de reciclagem de traçadores de percursos que está a promover. Acho que a qualidade dos terrenos, mapas e percursos será o que mais temos para melhorar. Quanto aos outros factores (económicos) que acabam por estar na base de todas as crises, infelizmente não há muito que possamos fazer em relação a isso!


Posso dizer que não sei o que comi em 80% das vezes que comi fora...

Orientovar – Como é que vamos encontrar o Diogo tão longe de Portugal. Porquê a República Checa?

Diogo Miguel - Eu estou neste momento no 5º ano do curso. Estava nos meus planos fazer Erasmus já há algum tempo, pois é uma experiência que ficará para sempre marcada na minha vida. A República Checa é bastante popular entre os estudantes que querem fazer Erasmus e também era a minha primeira escolha. Acabaram por abrir duas novas vagas este ano para fazer Erasmus em Brno e acabou por ser essa a minha escolha. A Universidade, chamada Masarykova University, espantou-me pela positiva. São incríveis as condições de ensino que oferece, culminando num Campus Universitário extraordinário, mais ainda se comparado às instalações de grande parte das universidades portuguesas.

Orientovar - Fale-nos desses primeiros contactos com a realidade checa?

Diogo Miguel – Estão a correr bastante bem! De uma maneira geral, os checos (principalmente os mais velhos) não são muito simpáticos, mas os mais jovens tendem a ser bastante amigáveis. A cidade é espectacular: pequena (o que permite estar perto de tudo), com bastantes espaços verdes e grandes florestas em volta, rede de transportes públicos muito evoluída, e tudo o que é preciso para ter uma excelente qualidade de vida. A Universidade também é bastante boa, e o ensino tem bastante qualidade.

As maiores dificuldades prendem-se com a língua. O checo é uma língua dificílima, e penso que nem que tivesse aulas todos os dias durante os próximos 10 anos a conseguiria aprender! Isto não seria um problema se as pessoas falassem inglês, mas na verdade ninguém por aqui fala tal coisa... Por isso todas as nossas idas às compras, ou mesmo tentar escolher um prato na cantina ou num restaurante, acabam sempre por ser uma comédia! Posso dizer que não sei o que comi em 80% das vezes que comi fora... Mas também é isso que torna tudo tão interessante.


Tenho aqui melhores condições de treino que alguma vez tive na vida

Orientovar - E no tocante à Orientação? Continua a treinar e a competir, a pensar já na temporada 2012?

Diogo Miguel - No que toca à Orientação, não poderia ter feito melhor escolha. Tenho aqui melhores condições de treino que alguma vez tive na vida. Treino com mapa praticamente todos os dias e tive a sorte de encontrar um clube (SK Žabovřesky Brno) com alguns dos melhores atletas checos – Adam Chromy. Milos Nykodým, Daniel Hajek, Katerina Chromá, Adélka Indráková e Jakub Zimmermann, entre outros - e que me recebeu muito bem. Todo o treino que faço agora tem já em vista a época de 2012, nomeadamente o WOC, e tento aproveitar a ao máximo para melhorar o mais possível a minha técnica neste tipo de terrenos.


Vou estar em Portugal a tempo do POM 2012

Orientovar - A sua estadia na República Checa prolonga-se até Fevereiro. Vai estar em Portugal a tempo do POM 2012 organizado pelo seu clube? Que POM vamos ter?

Diogo Miguel - Vou estar em Portugal a tempo do POM 2012, em que vou fazer parte da organização. Espero que este POM esteja ao nível dos últimos anos. Quanto aos terrenos, penso que terão uma qualidade bastante digna do evento em questão. Por outro lado, falei com alguns atletas de topo durante as últimas competições acerca dos seus planos para o inverno, e penso que também neste aspecto este será um POM ao nível dos anteriores pois muitos desses atletas pretendem vir competir a Portugal.

Orientovar - Como que a completar um ciclo de questões regressamos aos Absolutos, pedindo-lhe para deixar uma mensagem ou um voto relativamente à prova.

Diogo Miguel - À organização deixo votos para que tudo corra pelo melhor, e estou convencido que vai correr. Aos atletas desejo que corra tudo de acordo com as expectativas e, acima de tudo, que desfrutem dos mapas e da floresta! E que ganhe o melhor.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

José Grada disse...

Recordo o Diogo, nos 5 Dias de França de 2003. Sozinho sem qualquer acompanhante do seu clube já dava mostras de certa autonomia apesar de jovem iniciado.
Pelo seu comportamento viamos nele um jovem promissor não só na Orientação, mas também no aspeto pessoal.

Aí o temos nove anos depois a dar um grande passo em frente na sua vida. Um Erasmus num local escolhido, Brno, República Checa onde a Orientação é modalidade previlegiada.

Ele que já é um valor confirmado da nossa Orientação, virá, certamente, melhor preparado com este contacto.
O Diogo é mais um elo da corrente iniciada, salvo erro, com o P. Franco, seguiu-se a Maria Sá e depois o seu colega de equipa J. Fortunato.

Desejo ao Diogo uma boa estadia e que aproveite ao máximo as oportunidades que se lhe deparem, tanto no aspeto desportivo como no aspeto pessoal.