domingo, 23 de outubro de 2011

ANDREU BLANES: "OS DESPORTOS MINORITÁRIOS, COMO A ORIENTAÇÃO, RECEBEM APENAS AJUDAS"




De súbito, os olhares do mundo da Orientação pousaram nele. Naquela manhã do passado dia 03 de Julho, Andreu Blanes sagrava-se Vice-Campeão do Mundo de Sprint no escalão júnior, conquistando para a Orientação espanhola a medalha mais importante da sua história. À boleia da Revista "Correo del Material Deportivo", o Orientovar apresenta hoje uma Entrevista com o jovem atleta, da autoria de Luis Nogueira.


Andreu Blanes é um orientista do Club Colivenc, de Onil (Alicante), onde nasceu no dia 14 de Outubro de 1991. No dia 03 de Julho de 2011, na Polónia, sagrou-se Vice-Campeão do Mundo de Sprint, tornando-se no primeiro atleta espanhol a alcançar uma medalha numa categoria superior à de Juvenis. Este título veio acarretar algumas mudanças na sua carreira desportiva, nomeadamente ter conseguido firmar um acordo com a Salomon, marca que agora o patrocina.

Tendo-se fixado em Madrid desde 2009, Andreu Blanes integra o Grupo de Alto Rendimento que a Federação Espanhola de Orientação gere na Residência Joaquín Blume.


O empenho em continuar a trabalhar e a melhorar é o mesmo de sempre

Luis Nogueira - Esperava um resultado como aquele alcançado nos Mundiais de Juniores de Orientação Pedestre do passado mês de Julho?

Andreu Blanes - Na verdade, depois dos Mundiais de 2010, vi que era possível alcançar um resultado muito bom. Não sabia onde poderia chegar mas isso constituiu uma enorme motivação e ajudou-me a treinar no duro durante todo o ano.

Luis Nogueira - Que alterações sofreu a sua rotina depois deste título?

Andreu Blanes - Conto agora com um clube sueco (Södertälje) que me oferece a oportunidade de competir em provas completamente novas para mim e, além do mais, dá-me a possibilidade de treinar com atletas de primeiro plano a nível mundial. Também consegui garantir um apoio importante, da Salomon, algo que não é muito fácil neste desporto. Todavia, no plano pessoal, o empenho em continuar a trabalhar e a melhorar é o mesmo de sempre.


Aquilo que mais recordo são os gritos de incitamento dos meus companheiros

Luis Nogueira - Que recordações guarda da final de Sprint?

Andreu Blanes - Aquilo que mais recordo são os gritos de incitamento dos meus companheiros. Foi fantástico que me apoiassem daquela maneira, uma vez que estamos juntos há muito tempo e temos partilhado muitas alegrias. Quando marquei o finish, recordo o abraço do meu treinador e a emoção ao chamar pela minha namorada e pela minha família. Não me lembro da parte técnica, apenas de correr e sofrer.

Luis Nogueira - Foi o primeiro orientista espanhol a alcançar uma medalha num escalão etário superior ao de Juvenis. Pensa que os atletas escandinavos e os da Europa Central continuarão a ser inacessíveis para os espanhóis?

Andreu Blanes - É difícil cotarmo-nos ao seu nível, visto que as condições de que dispõem (meios, pessoas, terrenos…) confere-lhes uma enorme vantagem de base. Mas acredito que, trabalhando no duro, poderemos lá chegar. Temos um longo caminho a percorrer mas, como demonstrámos já em escalões inferiores, estamos a melhorar. E pouco a pouco vamos também marcando posições nos escalões absolutos.


Os meus objectivos não se centram na temporada imediata

Luis Nogueira - Como começou a praticar Orientação?

Andreu Blanes - Em Onil existe um grande clube, o Colivenc, que oferece a possibilidade de começarmos desde muito cedo com as escolas desportivas e progredir para níveis de outra grandeza. Neste aspecto posso considerar-me uma pessoa com sorte, uma vez que não há muitos sítios assim em Espanha.

Luis Nogueira - Quais as suas perspectivas para a próxima temporada?

Andreu Blanes - Agora vem um salto muito grande para o escalão sénior. Desta forma, os meus objectivos não se centram na temporada imediata mas naquelas que estão mais à frente. Trata-se, sobretudo, de continuar a melhorar e poder vir a ombrear com os melhores do mundo.


É uma felicidade ter podido treinar e partilhar muitas experiências com Roger

Luis Nogueira - Como se processa o treino dum orientista de alto nível?

Andreu Blanes - Procuramos cumprir, no mínimo, duas sessões semanais de treino com mapa, isto para além das provas. O resto é semelhante aos atletas da área do Atletismo, uma vez que fazemos bastantes séries, variações de ritmo, etc., mas mais específico para floresta. Também fazemos treino simulado, ginásio…

Luis Nogueira - Tem algum ídolo na Orientação mundial?

Andreu Blanes - Há muito tempo que admiro Thierry Gueorgiou (França), pela forma como trabalhou a sua técnica e pelo que conseguiu alcançar na Orientação, para além de todas as medalhas e êxitos conquistados. Admiro também Roger Casal, uma vez que conseguiu ir muito longe com muito poucos meios. Considero que, em parte graças a ele, na minha geração e nas que virão dispomos de meios que outros não tiveram. Por isso, pessoalmente, é uma felicidade ter podido treinar e partilhar muitas experiências com Roger.


Em Espanha pouca gente nos conhece

Luis Nogueira - Acredita que a Orientação espanhola está a crescer? Tem uma ideia de quantos atletas federados existem actualmente?

Andreu Blanes - Como disse anteriormente, estamos a melhorar aos poucos e isto é fácil de perceber. Todavia, à parte a alta competição, julgo que há ainda um longo caminho a percorrer até conseguirmos organizar provas ao nível dos outros países e, desta forma, darmo-nos também a conhecer, uma vez que em Espanha pouca gente nos conhece.

Luis Nogueira - Em termos da sponsorização, que atenção prestam as marcas desportivas à Orientação? Há alguma que esteja especialmente vinculada a esta modalidade?

Andreu Blanes - Há marcas que se dedicam em exclusivo à Orientação, como é o caso da sueca Silva, mas no tocante aos sponsors fazem incidir mais a sua atenção nos países da Escandinávia e da Europa Central, uma vez que o número de pessoas que aí pratica a modalidade é elevadíssimo. Em Espanha há algumas marcas que se dirigem especialmente às Corridas de Montanha, como são os casos da Salomon ou Inov, que estão aos poucos a tentar penetrar no mercado da Orientação. Mas mesmo assim ainda é muito difícil vermos algo de palpável.


Na questão económica, reside o maior problema

Luis Nogueira - Quais as maiores dificuldades com que um orientista se debate? Físicas, económicas...?

Andreu Blanes - No que respeita a lesões, eu, felizmente, não tenho tido muitas. Mas visitamos com frequência o Fisioterapeuta para podermos recuperar das semanas com maior carga de treino ou das competições. O mais difícil é saber correr em todos os terrenos e mapas do mundo. Para tal, torna-se necessário investir muito em viagens para participar nas competições que ocorrem no estrangeiro. Aqui, na questão económica, reside o maior problema.

Luis Nogueira - Como concilia a sua vida desportiva com a vida académica e familiar? É complicado? Como valoriza o apoio da Federação Espanhola / Valenciana?

Andreu Blanes - Manter o nível académico e desportivo é difícil, mais ainda quando as ajudas para poder ampliar a vida universitária não existem. A família apoia naquilo que pode mas os recursos são limitados. As Federações fazem o que podem, mas o problema vem de cima, visto que os desportos minoritários, como a Orientação, recebem apenas ajudas. É uma pena, visto que todos aqueles que alcançam este nível gostariam de se poder dedicar mais à modalidade. Mas a este propósito é necessário ter muito claro que, finalmente, aquilo que nos dará de comer são os estudos.

[Entrevista efectuada por Luis Nogueira para a Revista “Correo del Material Deportivo” e que pode ser vista no original em http://www.cmdsport.com/noticia/15070/Entrevistas-a-Deportistas/andreu-blanes-deportes-minoritarios-orientación-apenas-reciben-ayudas.html. Foto de Arquivo]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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