segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ORIENTAÇÃO ADAPTADA: UM DESPORTO PARA A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL




A ideia surgiu numa altura em que fazia trabalho de pesquisa sobre Orientação de Precisão. A página da Federação Britânica - http://www.britishorienteering.org.uk/ - sugeria a hipótese de se encontrarem formas de adaptar a Orientação às pessoas com Deficiência Intelectual. Entre a concepção do projecto e a possibilidade de o pôr em prática, já no próximo dia 14 de Outubro, vai um longo caminho. Momento particularmente importante neste processo, tenho hoje o prazer de apresentar as linhas mestras daquilo que é, na minha concepção, a Orientação Adaptada: um Desporto para a Inclusão.


A Orientação, embora relativamente recente em Portugal, é um desporto organizado já com mais de 100 anos de existência.

Os registos indicam que terá sido em Bergen, na Noruega, no dia 31 de Outubro de 1897, que se organizou a primeira actividade desportiva de Orientação. Os países nórdicos são, ainda hoje, aqueles onde a modalidade tem maior implantação, mobilizando um número de praticantes que a coloca entre os cinco desportos mais praticados na Escandinávia.

Ao longo deste século de existência, a modalidade foi evoluindo, tornando-se num desporto altamente desenvolvido que permite a partilha, em simultâneo, do mesmo espaço e tempo, independentemente do nível físico ou técnico, da idade ou do género do praticante.

À Orientação Pedestre seguiu-se a Orientação em Esqui, a Cavalo, em Canoa e também a Orientação em Bicicleta e a Orientação de Precisão, esta última particularmente vocacionada para pessoas com mobilidade reduzida, deslocando-se em cadeira de rodas. Neste contexto, de fora ficam apenas as pessoas com deficiência intelectual, sobretudo pela dificuldade em estruturar-se um conjunto de normas orientadoras que leve em linha de conta a multiplicidade e complexidade destes grupos e possam ser entendidas como as “regras do jogo”.

Apesar das contingências, prevalece a consciência de que a vida é feita de constante aprendizagem. É da ousadia das atitudes de cada um que resulta o prazer de colher os frutos das suas acções e do seu esforço. É por isso que nos atrevemos a propor um conjunto de pressupostos que, no seu tudo, definem este projecto de trabalho para a Orientação Adaptada. A consciência do risco que envolve esta iniciativa é compensada pela humildade necessária à aceitação que este é o primeiro passo dum projecto dinâmico, disposto a integrar todos os contributos válidos e a aperfeiçoar-se dia após dia. Assim todos o queiram.


O QUE É A ORIENTAÇÃO ADAPTADA?

A Orientação Adaptada pretende ser entendida como uma disciplina da Orientação, particularmente vocacionada para grupos específicos e onde se incluem a deficiência intelectual e as crianças em idade pré-escolar.

Um mapa, um percurso, um espaço natural de liberdade e uma mão cheia de desafios. É esta a essência do “jogo” da Orientação Adaptada, que se desenrola ao longo dum percurso desenhado sobre um mapa e materializado no terreno por pontos de controlo que devem ser visitados de forma sequencial.

Tal como na Orientação de Precisão, a escolha do itinerário entre cada ponto de controlo não é uma opção do orientista. Da mesma forma, também não é declarado vencedor aquele que completa o seu percurso de forma adequada e no mais curto espaço de tempo. A importância do factor tempo é relegada para um plano secundário, pedindo-se a cada participante que faça apenas a correlação entre aquilo que se encontra assinalado no mapa e que está depois materializado no terreno, sob a forma de sequência de cores. As respostas são assinaladas por meio de picotador em cartão fornecido a cada participante antes de iniciar a sua prova. No final, vence aquele que obtiver o maior número de respostas correctas.


PONTO DE PARTIDA

Na partida, cada participante recebe um mapa e um cartão. No mapa, para além do terreno onde a prova se vai realizar, está impressa uma sinalética que indica os pontos que a compõem, o número de balizas por ponto identificadas com as letras A a E, a sequência de cores que corresponde à resposta correcta e a indicação do sentido de observação (figura 1).


As cores utilizadas são o verde, o azul e o vermelho, permitindo uma combinação de seis sequências diferentes. A cada uma destas combinações corresponde um pictograma (figura 2). Inspirados numa linguagem de afectos desenvolvida por Charles Bliss , o número total de pictogramas é de cinco (figura 3).


O cartão subdivide-se num conjunto de quadrículas, onde se faz a correspondência entre os vários pontos de controlo e cada um dos pictogramas. O participante deve assinalar, por meio de picotador, qual o pictograma que corresponde à sequência de cores correcta em cada um dos pontos de controlo (figura 4).


A existência duma sexta quadrícula no cartão, onde se encontra assinalado um “x”, tem a ver com a possibilidade de nenhuma das sequências presentes no terreno corresponder à sequência pretendida.


UM PERCURSO DE ORIENTAÇÃO ADAPTADA

Na Orientação Adaptada, o terreno assume uma importância primordial. O percurso deve ser traçado sobre trilhos em áreas com desníveis inexistentes ou pouco significativos, evitando-se acidentes de terreno ou barreiras arquitectónicas. Em condições ideais, este percurso deve ser do tipo “em linha”, balizado por meio de sinalização adequada (fitas, cordas), permitindo a progressão dos participantes de forma autónoma e sem correrem o risco de saírem do trilho e perderem-se.

À semelhança do que sucede na Orientação de Precisão, cada ponto de controlo está materializado no terreno por um ponto de observação e, em face a este, por um conjunto de duas a cinco balizas, nas quais estão montadas as sequências de cores (figura 5).


O participante deve ser estimulado a “invadir” o espaço de jogo, a observar atentamente cada uma das sequências e a compará-las com aquilo que surge indicado na sinalética do mapa que transporta consigo. Regressa então ao ponto de observação e, por meio de picotador, assinala a resposta correcta. A organização deve providenciar a presença de um elemento em cada ponto de observação, de forma a poder auxiliar na picotagem aqueles que se mostrem menos capazes de o fazer.


CONCLUSÃO

À semelhança do que acontece com a Orientação de Precisão, disciplina que me é especialmente querida e que tenho procurado ajudar a relançar, há uma ideia-chave a presidir a este projecto: Orientação Adaptada, um desporto para a inclusão!

A Orientação é um meio para se atingir um fim primeiro, o da partilha dum mesmo espaço e dum mesmo tempo, a interacção da pessoa com os outros e com o ambiente que a rodeia, o desenvolvimento de aptidões e aquisição de competências, por intermédio de regras simples que, no seu todo, fazem da Orientação Adaptada um jogo.

Mas como não podia deixar de ser, é toda uma série de conceitos que, no seu todo, configuram a Orientação enquanto modalidade desportiva, que aqui está em causa. Um mapa, um percurso, um espaço natural de liberdade e uma mão cheia de desafios são elementos que remetem, de forma inequívoca, para o desporto da floresta. Lá está o trilho em cujo final se adivinha o prazer da descoberta, lá está a salutar competição no respeito pelas regras e pelo outro, lá está a nossa consciência ambiental a lembrar-nos que são únicos os espaço que pisamos e cuja integridade temos o dever de preservar e defender.

E lá estão as balizas laranjas e brancas, ondulando suavemente ante a fresca brisa duma luminosa manhã, a chamar-nos por nós. Numa corrida veloz ou sobre esquis, galopando ou a pagaiar, em bicicleta ou de cadeira de rodas. Todos diferentes, todos iguais.

JOAQUIM MARGARIDO


[Este é um projecto em fase experimental, pelo que todos os contributos são, agora, particularmente válidos. Deixe o seu no espaço de comentário ou directamente através do endereço margarido61@gmail.com e seja parte da história deste desporto]

2 comentários:

fernando disse...

Como este projecto é experimental será muito importante a colaboração de todos.
Depois de conversar com algumas pessoas sobre o tema talvez seja preferível eliminar a última coluna (direcção de observação), assim como a segunda onde aparece a quantidade de balizas.
A orientação adaptada obriga a uma maior simplificação.
Venham daí contributos para optimizar este documento.

Afra Teresa Nogueira disse...

Sou terapeuta ocupacional em Baião e já participei em duas provas de Orientação. Trabalho na área da multideficiência e folgo muito em saber deste vosso projecto. Podem contar comigo. Obrigado