sábado, 10 de setembro de 2011

GRANDE ENTREVISTA: DMITRY KUCHERENKO, CAMPEÃO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO WTOC 2011




No decurso dos Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão 2011, que tiveram lugar em La Feclaz (França), Stefano Galletti teve a extraordinária oportunidade de entrevistar o novo Campeão do Mundo de Orientação de Precisão na classe paralímpica, o russo Dmitry Kucherenko. Com a devida vénia, o Orientovar reproduz esta peça notável que envolve também o treinador Alexander Kobzarev e o atleta Dmitry Dokuchaev - que traduziu as questões e organizou e traduziu também as respostas – e ainda o lituano Evaldas Butrimas, Campeão do Mundo em 2005 na classe paralímpica.


Stefano Galletti - Esperava este resultado? Com que expectativas chegou ao Campeonato do Mundo e quais as equipas a bater?

Dmitry Kucherenko – Antes de mais, em relação ao resultado, tenho que agradecer ao nosso treinador, Alexander Kobzarev. Ele é a pessoa mais importante do movimento da Orientação de Precisão na Rússia: o sucesso deve-se a ele e ao seu trabalho. Estou convencido - porque sempre falámos disto com o treinador - de que o sucesso se alcança passo a passo, com contínuo esforço para melhorar os resultados. Deste Campeonato eu esperava no máximo uma medalha de prata, ou mais provavelmente uma de bronze. Liderava no final do primeiro dia de competição, mas estávamos todos com resultados muito próximos uns dos outros; eu sabia que cada ponto seria decisivo para a classificação no segundo dia, mas tenho de admitir que fiquei um pouco surpreendido com a medalha de ouro.

Alexander Kobzarev - Desde os Campeonatos Mundiais de 2006, os nossos resultados como equipa e os resultados individuais de Dmitry têm vindo sempre a melhorar. Infelizmente, o nosso atleta mais forte morreu há alguns anos e precisámos de dois ou três anos para retomar o nível anterior. Mas a equipa é constituída por atletas ainda jovens: o Dmitry tem 28 anos e após uma primeira experiência na classe Aberta dos Mundiais de Kiev (WTOC 2008) já participou nos Campeonatos Mundiais de 2009 e de 2010, em Trondheim, aqui na classe paralímpica; Pavel Shmatov tem 31 anos, alguns atletas têm 22, 23 ou 25 anos, por isso ainda temos muitas hipóteses de melhorar. Aliás, na próxima edição dos Campeonatos Mundiais, tencionamos levar uma equipa com um ou dois atletas no escalão de Juniores!


Atletas com inaptidões físicas ou sem elas não têm as mesmas oportunidades

Stefano Galletti – Devo confessar alguma surpresa... Dmitry competiu em ambas as classes, Aberta e Paralímpica, em dois Mundiais diferentes?

Alexander Kobzarev - A nossa ideia, como Equipa e como Federação, é colocar os nossos atletas com incapacidade a competir na categoria Aberta. De facto, os Campeonatos Mundiais de Orientação de Precisão deviam contar apenas com a participação de atletas portadores de deficiência, como se fosse uma disciplina dos Jogos Paralímpicos: achamos que o desporto - não apenas a Orientação de Precisão mas também outros desportos - constitui uma parte muito importante da vida das pessoas incapacitadas. É verdade que na Rússia, nas competições de Orientação de Precisão, estão também envolvidas pessoas sem qualquer tipo de deficiência, mas até agora não temos intenção de os integrar na equipa Nacional com vista à sua participação nas competições internacionais. Quero frisar que somos contra o facto de haver uma Classe Aberta no Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão em que toda a gente pode participar: atletas com inaptidões físicas ou sem elas não têm as mesmas oportunidades. Pensem só na possibilidade de um atleta sem qualquer inaptidão se poder mover mais depressa ou ver os pontos de controlo de uma altura superior. Finalmente, isto leva-nos à questão inicial: queremos demonstrar que um atleta com deficiência pode ter melhores resultados na Orientação de Precisão do que um atleta sem ela. E a medalha de ouro ganha por Dmitry vai ajudar-nos mais claramente a pôr em evidência os nossos resultados e a trazer mais pessoas para a Orientação de Precisão.


Todos somos potenciais vencedores

Stefano Galletti - Como é o seu treino e quanto treinou para obter este resultado?

Alexander Kobzarev - O grande problema é que na Rússia a Orientação de Precisão não é considerada um desporto paralímpico, nem é reconhecida como tal pelo nosso governo, por isso não temos muitos fundos. Assim temos que utilizar o dinheiro que vem dos nossos próprios patrocinadores e talvez deste ponto de vista não tenhamos atingido mais cedo o sucesso que se deve à medalha de ouro de Dmitry...

Dmitry Kucherenko - A palavra-chave utilizada pelo nosso treinador é “Entusiasmo”. Comecei a praticar Orientação de Precisão ainda novo e agora passo todo o meu tempo livre a melhorar as minhas capacidades, planeando percursos de Orientação de Precisão ou organizando corridas, o que ajuda imenso. Depois estudo mapas e tento visualizar possíveis cenários. Sabíamos que em França o terreno seria diferente do que estávamos habituados na Rússia Central e que poderíamos encontrar terrenos parecidos em Sochi, no Mar Negro (onde terão lugar as Olimpíadas de Inverno 2014), nos Urais e na Sibéria Central. Por isso, em Março, fomos a Sochi e treinámos intensivamente durante duas semanas e depois ficámos cerca de um mês nos Urais. Fomos também à Suécia, onde não há tantos terrenos rochosos como esperávamos no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão, mas é sempre um terreno muito interessante: os terrenos escandinavos têm sido sempre bons “professores” e são uma experiência muito importante.

Alexander Kobzarev - Os períodos de treino em Sochi e no O-Ringen deram ao Dmitry a confiança demonstrada durante o Campeonato do Mundo.
Dmitry Kucherenko – Outra característica do treino é que procuramos sempre obter a colaboração dos nossos colegas da Ucrânia, Letónia e Lituânia. Competir em conjunto é importante para aumentar o nível geral: mais competição significa mais experiência! Depois, é claro, há a avaliação que fazemos das equipas nacionais da Escandinávia: Suécia, Noruega e Finlândia têm equipas muito fortes e a comparação entre cada concorrente é muito importante. Finalmente, quero referir mais um aspecto que o nosso treinador nos ensinou: a equipa russa não se divide em atletas fortes e fracos, atletas que conseguem ganhar e atletas destinados a resultados menos bons. O treinador sempre nos disse que todos somos potenciais vencedores, seja qual for a competição, mesmo tratando-se dum Campeonato do Mundo.


Na Orientação de Precisão é muito importante ter um potencial natural

Stefano Galletti - Falámos sobre treinos, mas quanto talento há nessa medalha dourada de Dmitry Kucherenko?


Dmitry Kucherenko - O treinador sempre disse que na Orientação de Precisão é muito importante ter um potencial natural. Mas ter esse potencial não basta; temos de melhorar as nossas capacidades. E para melhorar o nosso nível enquanto atletas, temos de amar este desporto. Amar não significa “gostar”. Se não te empenhares todos os dias para te tornares um melhor atleta, não poderás chegar à medalha de ouro, mesmo que tenhas um grande potencial: tens que trabalhar a sério!

Alexander Kobzarev - Dmitry não é um atleta que quer levar em conta apenas o seu potencial natural durante os treinos. Ele adora a Orientação e está a praticar o desporto que adora.


Há muitas opiniões diferentes sobre o Temp-O

Stefano Galletti - O atleta que administra este portal, Marco Giovannini, que foi medalha de bronze nos Campeonatos de Itália em 2010, aprecia particularmente o formato Temp-O. Acha que o Temp-O representa o futuro deste desporto? Trocaria a Orientação de Precisão pelo Temp-O ou prefere o formato original?

Alexander Kobzarev - É difícil responder a essa pergunta. Há muitas opiniões diferentes sobre o Temp-O e julgo que cada atleta tem uma opinião pessoal. Em todo o caso não ficámos surpreendidos com a a resposta “Z” na prova de demonstração de Temp-O que aconteceu hoje: Este tipo de prova foi introduzido na liga russa há três anos, por isso também estamos prontos para competir.
Dmitry Kucherenko - Eu gosto do formato clássico da Orientação de Precisão. A forma como competimos na Orientação de Precisão tem de se manter como parte integrante dos Mundiais. Depois poder-se-á discutir sobre se o O-Temp deve ou não fazer parte do programa dos Campeonatos, mas não se deve descartar, de forma alguma, o formato clássico.

Evaldas Butrimas - Eu concordo com a opinião de Dmitry. O Temp-O é uma disciplina que se está a tornar cada vez mais interessante ano após ano.
Dmitry Dokuchaev - O nosso treinador tem algumas ideias muito interessantes sobre o Temp-O. Ele pensa que poderia eventualmente ser dividido em dois ou três desportos diferentes: pontos de controlo com um número de balizas baixo ou muito elevado, ou podíamos ter uma curta, média ou longa distância dependendo da distância dos pontos de controlo aos pontos de observação. Quem sabe que desenvolvimentos futuros poderemos observar nesta disciplina?


Tudo gira em torno da questão do dinheiro

Stefano Galletti - Falando em futuras melhorias, que ideias têm sobre isto?

Alexander Kobzarev - A primeira coisa a fazer para aumentar a popularidade e a visibilidade deste desporto é ter mais competições internacionais: uma Taça do Mundo, uma Taça da Europa, um grande número de competições envolvendo equipas nacionais. A segunda coisa é trazer novos valores para a Orientação de Precisão: se não criarmos competições para atletas com idade inferior a 20 anos, corremos o risco desta disciplina eventualmente desaparecer. E essa é a razão, como referimos há pouco, porque iremos integrar brevemente um ou dois atletas juniores na selecção nacional.
Dmitry Kucherenko - Mais competição e a entrada de atletas novos vai aumentar o interesse por esta disciplina, e vai ajudar também a eliminar estereótipos... E há muitos na Orientação de Precisão.
Alexander Kobzarev - Presentemente, a Orientação de Precisão é vista como um desporto em que não existe esforço físico, ao contrário da Orientação Pedestre, da Orientação em Esqui ou da Orientação em BTT. Significa que há pessoas que não vêem a Orientação de Precisão com muito bons olhos. Mas nós lutamos para trazer para Orientação de Precisão atletas que já experimentaram as outras disciplinas da Orientação, e quando isso acontece, muitas vezes, o feed-back é bastante positivo. “Uau, isto é muito interessante”, dizem. Apesar disto, as pessoas consideram a Orientação de Precisão um desporto sem esforço físico, ou não a consideram sequer um desporto. Só quando houver apenas atletas com deficiência motora a participarem nas competições internacionais de Orientação de Precisão, teremos uma caracterização completa e então as disciplinas serão separadas permanentemente. Penso que aí será mais fácil encontrar organizadores que queiram desenhar um mapa ou organizar uma prova que possa destinar-se quer à Orientação Pedestre quer à Orientação de Precisão, por exemplo.
Dmitry Dokuchaev - Bom, tudo gira em torno da questão do dinheiro. Num país como o nosso, as distâncias são sempre importantes: por exemplo, para uma equipa de Orientação de Precisão de Vladivostok é muito mais fácil ir competir ao Japão do que a uma região do ocidente da Rússia. Por esta razão, os Campeonatos Nacionais não ultrapassam a meia centena de participantes por ano. Mas a medalha de ouro de Dmitry Kucherenko não é apenas importante para ele como atleta mas também para nós enquanto equipa: vai ser importante para a visibilidade que pretendemos ter e abrir-nos-à mais portas.


Não é difícil pensarmos em nós próprios como jogadores de Xadrez da Orientação!

Stefano Galletti - Gostava de terminar esta entrevista com uma questão do fundo do meu coração, ainda que possa parecer um pouco estranha: encontram alguma semelhança entre o “xeque-mate” (Xadrez) e a Orientação de Precisão? Ambos têm algumas dificuldades em declarar-se desportos e ambos envolvem grande esforço mental...

Dmitry Dokuchaev - Ah! Nem preciso de traduzir a questão aqui, porque todos perceberam o que queria dizer com “xeque-mate”... Claro que poderia dizer que o Xadrez e a Orientação de Precisão são um tópico constantemente debatido e falamos sempre sobre isso. Todos os dias encontramos uma nova maneira de comparar estas duas disciplinas, descobrindo novas semelhanças: há certamente muitos aspectos em comum e não é difícil pensarmos em nós próprios como jogadores de Xadrez da Orientação!

[Terminada a entrevista, gostaria uma vez mais de agradecer a toda a equipa de Orientação de Precisão da Rússia a sua hospitalidade, paciência e entusiasmo com que me mostraram o seu mundo, os seus objectivos e desejos. Pessoalmente, foi um motivo de orgulho conhecer estes atletas que representam o melhor que a Orientação de Precisão pode oferecer no panorama internacional]

Stefano Galletti
Milão, 24 de Agosto de 2011


Entrevista e foto extraídas do site dedicado à Orientação de Precisão em Itália, em http://www.trailo.it/Novita.asp. Subtítulos da responsabilidade de Orientovar.

Traduzido do inglês por Ana Margarida Macedo.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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