quinta-feira, 7 de julho de 2011

WMOC 2011: AS IMPRESSÕES DE MANUEL DIAS




Qualquer que venha a ser, amanhã, o desfecho da Distância Longa, se terminar sem lesões, considero-me muito satisfeito com este Mundial de Pécs.

Fui 17º na Final A de Sprint, com apenas um erro grave de opção de percurso, agravado por hesitação a meio da pernada. Custou-me 47 segundos, ou seja, quase metade dos 97 segundos a que me quedei do justo vencedor, Francesco Guglielmetti. Para trás ficaram nomes respeitados como Gerrit van de Riet, Antanas Pauzas, Ian Ditchfield, Jouko Malinen, Tom A. Karlsen, Leif E. Larsen, Vesa Tervo, Mikhail Gryaznevich, Henrikas Ulevicius, Ted Van Geldermalsen, Rauli Helkkula, Nikolay Pavlov, Oyvind Fadum, Tomas Zdrahal, Jukka Saramäki, Josef Hones e tantos outros que, nestas competições de Verão, me servem de referência para ter uma ideia de como anda a minha forma.

Não tenho consultado a Internet, provavelmente vou repetir o que outros companheiros já disseram no Orientovar. A qualificatória do Sprint decorreu na parte muralhada de Pécs, onde se encontram os tesouros arquitectónicos e históricos que fazem desta cidade património da Humanidade. Este casco antigo mereceria ser igualmente considerado um tesouro da orientação urbana: cheio de ratoeiras, junto às muralhas, com um labirinto de zonas ajardinadas, entradas que dão para recantos sem saída, passagens em túnel, escadinhas estreitas, tudo muito difícil de ver no mapa, mesmo parado e com lupa, quanto mais em corrida e a olho nu, um verdadeiro quebra-cabeças. Se calhar não foi só por causa da distância que os percursos falharam tanto: em vez dos recomendados 12-15 minutos, o vencedor da minha série fez 19.42 e o 3º classificado 22.20. Quando terminei com 24.12, pensei que estaria completamente fora da Final A, mas o "erro" fora do traçador: classifiquei-me em 8º na minha série (apuravam-se os primeiros 20).

O terreno da Final de Sprint, em ambiente de parque, era muito mais ao meu jeito, com blocos de edifícios, vedações, áreas privadas, socalcos, caminhos e vegetação variada, mas sem a confusão das ruas da cidade e sem o excesso de informação que não consigo digerir em corrida. Apesar da má opção de itinerário que já referi, foi das provas de Sprint que me deram mais prazer até hoje.

Mais do que por causa do Sprint, estou particularmente feliz pelas minhas duas provas de qualificação na Distância Longa. Em dois percursos de 5,7 km fiz 54.20 e 54.27. Apesar da semelhança dos tempos, corri as duas provas de forma muito diferente. No primeiro dia, perdi cinco minutos no 2º controlo e tive, depois, de fazer todo o percurso em esforço, para não queimar a hipótese da Final A. Terminei num confortável 6º lugar, que me permitiu não ter de arriscar na 2ª etapa: fiz um percurso sem erros, apenas com algumas opções menos boas.

No conjunto das duas qualificatórias devo ter perdido uns dez minutos e acabei, na minha série de 68 concorrentes, numa 6ª posição que sinceramente nem ousava imaginar. Ambas as provas foram fisicamente bastante duras e, apesar dos protestos do meu amigo e colega de quarto, Andreas (SUI M45), que gostaria de percursos tecnicamente mais complicados, acho que os mapas de Szarvaskút e Vízfö proporcionaram desafios interessantes, em muitos casos com opções de itinerário bem variadas. Todo o tempo que perdi ficou a dever-se a opções menos rápidas ou menos seguras. Fisicamente, estou a sentir-me muito bem, para o que há-de ter contribuído o facto de estar a correr H45 em Portugal.

Mas as corridas não são tudo neste Mundial. Gostei de sentir a firmeza no abraço do nosso lendário Erkki Luntamo, que reencontrei no Sprint de qualificação. Que bonito sorriso ele ainda mantém aos 96 anos, e que vigor nos seus braços. Infelizmente, terá acusado o esforço e a emoção do aplauso ao chegar à meta na Final de Sprint. Não compareceu à cerimónia de entrega de prémios e não participou na Distância Longa. Esperemos que Mercúrio, o deus que tinha asas nos pés, lhe devolva as forças, para o termos de novo connosco na Alemanha, no Masters de 2012. Um anjo louro da Rússia, a nossa Sasha, acaba de me dizer que ele está recuperado, mas por precaução não competiu na Longa.

Tantos reencontros em Pécs: a brigada britânica com Leakey, Crawford, Bedwell, Harwood; os americanos Sharon, Charlie e Joe (um abraço para o Norman); a japonesa Kayoko e a ausência do famoso Yotaro (lesionado); o brasileiro Becker; a espanhola Teresa; o checo Tomas; os suíços Peissard, Grote, Marti, Joli, Hiltebrand; o belga Sillien; o francês Bousser; o ucraniano Bozhko; os finlandeses Salmenkylä e Kerkola; a sérvia Ljubica; o dinamarquês Johnsen; o sueco Buhré... Estes reencontros são, para mim, um dos maiores encantos do WMOC.

Lembram-se de uma jovem húngara que, há dois anos, esteve a estudar em Rio Maior e que chegou a fazer algumas provas pelo CPOC? Pois, a Fani também cá está, a dar apoio ao namorado, que é um dos adversários do Joaquim Sousa.

Mas o encontro mais emocionante foi na antiga mesquita de Pasha Gazi Kassim, transformada em igreja católica no séc. XVII, após a expulsão dos turcos. Situa-se na Széchenyi tér, a mais bonita praça de Pécs, escolhida para arena da qualificatória de Sprint. No interior do templo, há uma capela com sete vitrais: ao centro, a Virgem; em cada um dos outros seis, inscrevem-se, em arcos góticos geminados, duas figuras de santos. Santo António (de Pádua!) ocupa um dos vitrais à esquerda. No último da direita, Santa Amália partilha a pintura com Santa "Elisabetha"! Estão a ver: "Elizabeth" igual a "Isabel". Nem mais, a nossa Rainha Santa representada com o milagre das rosas. A esta distância da pátria, pode haver emoção maior?

Ficam fora da crónica, entre muitos outros motivos de agrado, o concerto de órgão na catedral de Pécs e o mágico momento de uma inesperada audição de piano na sala de concertos do Museu Lizst em Budapeste. Além do numeroso júri, havia uma escassa dezena de familiares e amigos na assistência. Eu era o único "penetra" a assistir à prova daquela jovem que, durante 20 minutos, tocou sem partitura quatro das peças que certamente lhe foram indicadas para preparar e que o júri foi pedindo uma a uma. Como se chamará? que carreira irá fazer? Nunca o saberei, mas devo-lhe um dos momentos mais arrebatadores desde que, a 28 de Junho, saí de Lisboa.

Agora, a minha preocupação maior é conseguir amanhã, depois da Final de Distância Longa, arranjar transporte para Budapeste, de modo a apanhar o comboio nocturno que me há-de pôr em Belgrado no sábado de manhã. Seguem-se os 5 dias do Kopaonik Open (Sérvia), os 5 dias da Eslovénia, os 6 do Swiss O' Week e os 6 do WOC Festival em França.

Manuel Dias

3 comentários:

Presidente disse...

Abração Manel!

Anónimo disse...

De facto, muito bom!!!
Morais

Fernando Miranda disse...

Olá,
Estive há duas semanas na Hungria, e essa imagem de "Sta. Isabel" (mais concretamente trata-se de Sta. Isabel da Hungria, ver por exemplo http://www.ofs.pt/isabel_hungria.html), e que aparece em diversas igrejas e catedrais, é duma tia-avô da nossa Rainha Santa, e esta por sinal "herdou" de família a capacidade para o dito milagre :-)
Mas brincadeiras à parte, o povo húngaro está mesmo muito ligado ao nosso, e mesmo a Fátima, onde há pouco tempo renovaram a consagração a Nossa Senhora, (http://www.santuario-fatima.pt/portal/index.php?id=2081)
Abraços,
Fernando Miranda
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