terça-feira, 12 de julho de 2011

A CRÓNICA DE MANUEL DIAS: "O MEU DIA DE SORTE"



Como diriam os romanos, "ad augusta per angusta". Hoje tive o meu dia de sorte, mas para aqui chegar foi o cabo dos trabalhos. Dispenso o relato da viagem em 2ª classe, cinco pessoas num compartimento de seis, a noite toda sem dormir entre Budapeste e Belgrado.

Imaginem que, esta manhã, ao visitar o Kalemegdan, o maior parque de Belgrado e que inclui a fortaleza da cidade, deparo com uma série de gente a correr de mapa na mão. Consegui perceber onde era a meta e... quem é que estava na organização? A minha amiga Ljubica Bacanac. Emprestaram-me um SI card, deram-me um mapa do percurso maior, fiz start e aí vou eu, de calças, sandálias e mochila, meter-me naquele labirinto de muralhas, agora é dentro, agora é fora. Os pontos 9 e 10 estavam a menos de 40 metros de distância mas, para lá chegar, era preciso dar uma volta dos diabos (depois de se ter encontrado a passagem, evidentemente).

Que coincidência e que privilégio poder fazer uma prova neste castelo que, em 1456 (três anos depois da queda de Constantinopla), conseguiu suster o avanço dos muçulmanos, transformando a cidade de Belgrado na "Guardiã do Cristianismo", como então ficou conhecida por toda a Europa. Mesmo para quem não preza a História, o Kalemegdan é um sítio fisicamente deslumbrante. Situado frente à confluência do Sava com o Danúbio, constitui um miradouro natural para os dois rios e para a zona ocidental da cidade e, dentro do próprio parque e da fortaleza, oferece muitos motivos de interesse e raras condições de repouso, a começar pelas sombras, que são dos bens mais preciosos neste Julho escaldante. Agora, por exemplo, está ali patente uma grande exposição de fotografia sobre a Polónia.

Foi neste espaço de eleição que a PWT Travel, a agência de viagens de Jörgen Mårtensson, promoveu esta prova de parque, incluída no Danube O-tour, que teve o seu evento maior no Mundial de Veteranos de Pécs. E eu, que me cruzei tantas vezes com os autocarros da PWT durante a semana do WMOC na Hungria, estava longe de imaginar que viria desfrutar na Sérvia de uma organização incluída no seu calendário. Um brinde da sorte, que fico a dever também à intervenção de Ljubica Bacanac, que conheci no meu primeiro O-Ringen em 1997. Sem custo de inscrição e com direito a garrafa de água no final.

Não vou maçar-vos com as minhas emoções nos templos ortodoxos ou com as horas que passei em esplanadas lendo ou tomando notas no meu diário de viagem. Mas quero partilhar a surpresa de dois grandes edifícios esventrados, à direita e à esquerda de quem sobe a Avenida Nemanjina, que liga a estação ferroviária à Praça Slavija. Como o tempo nos engana! Há apenas 12 anos que a NATO bombardeou Belgrado. Os edifícios estão como ficaram nessa altura, havendo, tão-somente, nos passeios, uma protecção contra eventual desmoronamento ou queda de destroços.

Quando visitarem Belgrado, dificilmente vão cruzar-se com portugueses que vieram acompanhar o Europeu de Juniores em Natação ou com o canadiano Matthew, que chegou à Europa há dois meses e vai por cá ficar outros dois. Cada um ouve as histórias que deixa contar. Eu, depois de o Andreas Grote me ter despertado para os 6 Dias de Gales (Croeso 2012), fiquei agora com uma grande vontade de conhecer Skopje, a capital da Macedónia.

Se cá vierem, verão outras coisas, terão outros encontros. Mas há dois poisos que não podem falhar: a Praça da República e a rua pedonal Knez Miahilova, por um lado e, por outro, a Skadarska, de preferência à noite. Esta artéria é o coração da zona boémia de Belgrado. Os jantares são animadíssimos, com grupos de músicos e cantores na maioria dos restaurantes. Um ambiente de folga, a meio caminho entre a alegria desbordante de um certo bairro de Istambul e o charme parisiense de Montmartre. Será por acaso que um dos restaurantes (e também hotel) se chama "Le Petit Piaf"?

Manuel Dias

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