domingo, 17 de julho de 2011

A CRÓNICA DE MANUEL DIAS: "ADEUS À SÉRVIA"




Escrevo na madrugada antes da Distância Longa que fecha os 5 Dias do Kopaonik Open, na Sérvia. Como o tempo muda! O tempo e as pessoas. Há dois anos, na Austrália, antes da final de Distância Longa do Campeonato do Mundo de Veteranos, também não consegui dormir e aproveitei o silêncio das Blue Mountains para alinhavar uma crónica para este mesmo espaço. Mas dessa vez garatujei a esferográfica no espaço apertado da tenda onde costumava dormir ao lado da autocaravana do Bernard. Hoje, teclo directamente no portátil, alojado sobre as pernas, na cama de um espaçoso apartamento de uma estância de esqui.

O Kopaonik Open está a chegar ao fim. Ontem disputou-se a prova do WRE, com a surpreendente vitória de Ivan Sirakov sobre Kiril Nikolov, a estrela maior da selecção búlgara, que marcou presença em força na Sérvia. À noite, procedeu-se à entrega de prémios desse troféu e, também, do Sprint Nocturno de Raska, uma prova extra, que deu à organização motivo para anunciar este evento como: "Kopaonik, 6 dias, 6 corridas".

O Lisboa OK esteve em evidência nesta cerimónia. O facto de, talvez por nos termos inscrito em primeiro lugar, sermos a equipa nº 1, com direito aos peitorais 1, 2 e 3, era já uma marca distintiva. E essa circunstância acentuou-se quando, na consagração do Sprint, subimos os três ao pódio: a Sílvia Delgado foi 3ª em W21B, o José Bernardo 2º em M40, e eu 1º em M55.

Antes da cerimónia e a comprovar a simpatia com que os portugueses foram aqui recebidos, Milica Jovanovic convidou-nos a visitar a sede do clube de Kopaonik. O edifício, situado no meio da floresta, muito perto do teleférico que conduz os esquiadores ao ponto mais alto desta zona, oferece condições de alojamento, preparação de refeições e convívio. Cada sócio paga 2,50 € /dia por um quarto.

Entre os conhecimentos que aqui fomos fazendo, merece destaque o nome de uma jovem que esperamos ver correr em Portugal a partir de Setembro. Nada Zdrakovic é sérvia mas estuda na Suécia. O seu curso de Economia está virado para a agricultura, pelo que, a partir do início do próximo ano lectivo, vai passar seis meses no ISA, em Lisboa. A Sílvia e eu vestimos o nossos fatos de agentes desportivos e já tentámos encaminhar a pequena para um clube português.

Esgotados os aperitivos, vamos ao que fica para a História: os nossos resultados no Kopaonik Open. A minha participação começou mal e piorou: fiz m.p. no sprint da 3ª etapa, pelo que fiquei arredado da classificação. De qualquer modo, levo daqui reconfortantes memórias: além da vitória na prova extra, ganhei as etapas 2 e 4 em M55 e sinto que posso repetir o triunfo quando, daqui a poucas horas, for o primeiro a partir para a derradeira corrida.

A Sílvia também não teve uma prestação brilhante. Arranca para a última etapa em 5º lugar de W21B, mas parece ter aprendido que a Orientação é mais do que fazer azimutes. Na viagem para o Montenegro, vai ter de me explicar quais foram os pontos intermédios que escolheu como referências de navegação nas pernadas longas. Está prometido.

Com três vitórias nas três primeiras etapas, o José Bernardo liderava confortavelmente a classificação de M40, mas a Distância Média no mapa do WRE atirou-o ontem para a 3ª posição. Estivemos, ao fim da noite, a comparar os nossos percursos e ele, na realidade, não teve tarefa fácil. Havia vários pontos marcados em V3 ou V2, que aqui é mesmo floresta cerrada, e outros sem ponto de ataque óbvio. Era preciso ter uma grande noção da altimetria, escolher os itinerários menos arriscados e navegar com prudência para não falhar as poucas referências seguras.

A prova de hoje vai desenrolar-se num mapa contíguo ao de ontem, sendo provável que aproveite algumas partes dele. É um terreno excelente, tecnicamente difícil e muito bem cartografado. Mata densa, fechada, relevo caprichoso sobretudo nas partes mais baixas, marcadas por frequentes pântanos e uma intricada rede de pequenas linhas de água. A todos esses factores de desafio somam-se uma profusão de pedras e um piso verdadeiramente "sujo": pujante coberto vegetal e um índice de troncos caídos no chão que promove os pinhais de Cantanhede e Leirosa ao estatuto de auto-estradas. E, depois, aqueles secos e acerados ramos que fazem dos troncos uma espécie de ouriços verticais e que têm o condão de estar sempre no enfiamento dos nossos olhos ou das nossas costelas. Correr aqui é também uma prova de permanente perícia.

Bom, está quase na hora de tomar o pequeno-almoço, afinal nem foi preciso despertador. Depois, estendo-me duas horinhas, até que sejam 7 em Lisboa e em Ovar e eu comece a encaminhar-me para a minha largada ao minuto zero.

Se as coisas correrem como espero, virei, depois da prova, confirmar que o Zé puxou dos seus galões e pôs búlgaros, russos e sérvios nos seus lugares. Isto é, evidentemente, dito com toda a simpatia por estes nossos amigos. Afinal, a foto que ilustra este texto, com as nossas medalhas do Sprint Nocturno, foi gentilmente cedida pelo Sasha Vucetic, um professor de alemão que se bate com o Zé em M40 e que é das pessoas mais animadas neste grupo. A verdade é que não passamos de uma família de um pouco menos de 300 praticantes que viveram aqui uma semana de que, amanhã, começarão já a ter saudades.

A mim, por exemplo, fica-me atravessada a perdida oportunidade de visitar dois lugares em especial: Djavalja Varos (Devil's Town), um sítio de património natural protegido pela UNESCO, e a cidade de Visegrad, que Ivo Andric imortalizou no romance "A Ponte sobre o Drina". Neste último caso, seria necessário atravessar a fronteira para a Bósnia, mas trata-se de uma viagem de apenas 2h50 a partir de Raska, segundo o Via Michelin. Talvez seja mais um bom motivo para voltar um dia a Kopaonik e, nesse caso, trazer como guia o Marco Póvoa, a quem emprestei aquele livro depois de ele ter aqui passado uns tempos em comissão de serviço.

Manuel Dias


P.S. - Cumprida a última etapa, pouco há a acrescentar. O Zé Bernardo voltou a ganhar, mas não por margem suficiente para desalojar os dois primeiros classificados, quedando-se a 9 e 20 segundos, respectivamente, do 2º e do 1º lugar. De qualquer modo, subiu ao pódio com a camisola do Lisboa OK. A Sílvia desceu para 6ª da geral. Eu ganhei com quase 20 minutos de vantagem, mas nada apaga o estigma do "miss punch". Resta-me a declaração simpática do vencedor: "Você é que merecia ganhar. Foi de longe o melhor atleta do nosso grupo." Obrigado, Mikhail Solovyev.

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