sábado, 16 de julho de 2011

CARLOS GARCIA: "TEMOS MUITO AINDA PARA PROGREDIR"




Chama-se Carlos Manuel Pereira Garcia e nasceu no dia 17 de janeiro de 1964, na Beira (Moçambique). Militar da Força Aérea Portuguesa, conheceu a Orientação em 1988, “algures perto de S. Jacinto” e define-a como “uma paixão”. Dos tempos passados à projecção da modalidade no futuro, é todo um manancial de histórias que correm sob o nosso olhar ao longo deste Entrevista e onde se percorrrem, de forma indelével, 20 anos de Orientação em Portugal.


Orientovar - Conheceu a Orientação antes da própria FPO. Que particular motivação tem um “pré-histórico” para abraçar a modalidade de forma tão consistente?

Carlos Garcia - Porque razão se gosta tanto disto ou daquilo? O “gostar” ainda se poderá explicar, agora o “tanto” é que… permanecerá um enigma por mais algum tempo. Por “defeito de fabrico” ou “feitio de criador”, tenho tendência a observar, analisar e decidir. Após um primeiro casamento mal sucedido, tinha duas opções: ou vingar-me nas noitadas e boavaielas ou arranjar algo que me mantivesse ocupado… já gostava da modalidade, esta situação deu-me o “empurrão” que faltava.


Eh pá! Faltam aqui coisas desenhadas no mapa!

Orientovar - Que recordações guarda da sua primeira participação numa prova de Orientação, nos idos anos de 1988?

Carlos Garcia - É verdade, Abril de 1988… na ex-AM2 (antiga unidade da Força Aérea em São Jacinto) com muito frio e muita, muita chuva. Participei no primeiro, último e único curso sobre Orientação que as tropas pára-quedistas deram ao pessoal da Força Aérea de seu nome: «Curso de Organizadores de Campeonatos de Orientação». Três semanas.

Depois de duas semanas e alguns dias de teoria, lá participámos numa prova para “ver como era”… dentro dos limites da unidade, mapa com escala a 1:1500 ou 1:2000 (já não me lembro bem). Após os dois ou três primeiros pontos de controlo (e sem problemas) o meu pensamento foi: “Eh pá! Isto afinal é muito fácil!”. Que pensamento de maçarico!

A prova seguinte e última (ainda englobada no curso) foi feita com o auxílio de Carta Cartográfica Militar… pois… escala a 1:25000 e o pensamento mudou radicalmente: “Eh pá! Faltam aqui coisas desenhadas no mapa! Isto assim é muito difícil!”.

Quanto à minha primeira prova “a sério”, foi num Campeonato de Orientação da Força Aérea em Junho de 1988 — Carta Cartográfica Militar, sem bússola, nevoeiro de cortar à machada e fui o primeiro atleta a partir. O primeiro ponto era uma falésia. Nesse dia, depois de ter vindo três vezes ao triângulo e de pedir ajuda a um dos pára-quedistas “Pro” para o acompanhar, aprendi que uma falésia pode ser um degrau com apenas 1m de altura! Já lá tinha passado duas vezes!... O “bico” (apelido que nos davam os pára-quedistas) ficou num honroso 12º lugar entre os “cabeças-de-musgo” (apelido que nós lhes chamávamos) ou seja, no primeiro terço de atletas.


Eu tenho é mais mapas, resmas de mapas

Orientovar - Como é que estava implantada a modalidade no nosso país? O que era fazer Orientação nessa altura?

Carlos Garcia - Nessa altura a Internet, da maneira que a conhecemos hoje, ainda não existia, não havia telemóveis, não passava na RTP2 o programa “Magazine O-TV” e portanto que eu saiba, a Orientação praticava-se apenas dentro das Forças Armadas. Davam-se ainda os primeiros passos na vida civil através da extinta ANORT com o seu grande impulsionador, Cândido de Oliveira e na APORT pelo comandante Camilo Mendonça, o nosso primeiro presidente da FPO.

Como curiosidade, quando acabei o curso dado pelos Pára-quedistas, meti mãos à obra e descobri o endereço do Camilo Mendonça onde o fui “chatear” para me arranjar alguns apontamentos sobre esta nova modalidade. O escritório do comandante que presenciei estava parecido com o meu canto da Orientação que tenho actualmente em casa… apontamentos e mais apontamentos, fotocópias de acções de formação, livros, encadernações várias, material diverso para as formações… eu tenho é mais mapas, resmas de mapas.

A Orientação era feita com a ajuda de Cartas Militares, com uma escala mais pequena relativamente à actualmente utilizada e como consequência “mais lenta” de praticar. De facto não era mais difícil mas a progressão era menos rápida porque o detalhe do mapa não era tão rico como é agora e portanto era preciso navegar mais devagar para não “perdermos o Norte”. Além disso, nos primeiros dois anos não usei bússola o que (provavelmente) me deu alguma “estaleca” na componente técnica.


Afastei-me da modalidade por cerca de sete anos

Orientovar - De que forma acompanhou o processo da fundação da Federação Portuguesa de Orientação e como avalia a sua importância no desenvolvimento da modalidade?

Carlos Garcia - Não acompanhei de todo. Em 1989, por motivos particulares, afastei-me da modalidade por cerca de sete anos, período durante o qual a Federação Portuguesa de Orientação nasceu. Pessoalmente fazia duas a três provas por ano a nível civil e apenas as provas do Campeonato da Força Aérea (até os pára-quedistas transitarem para o Exército em 1992). Neste ano fui como reserva ao meu primeiro Campeonato das Forças Armadas organizado pela Marinha.

Regressei em 1997, quando alguém decidiu que estava na altura da Força Aérea voltar a participar no Campeonato das Forças Armadas. Foi um regresso em força, fiquei em 7º ou 8º (já não me recordo bem) e inscrevi-me no clube Amigos do Atletismo de Mafra a convite do António Churro. Nesse ano ganhei o troféu de Campeão Nacional de Distância Longa em H21A e fiquei em 2º no Ranking Nacional.

Um par de anos mais tarde fui convidado pelo Higino Esteves para o cargo de Director Técnico de Lisboa e Vale do Tejo, o qual me lançou um desafio: pensar, delinear, planificar e aplicar na prática um Campeonato Regional com os respectivos regulamentos para as zonas de Lisboa e Vale do Tejo e do Sul. De facto, tudo isso saiu da minha cabeça tendo como base o Regulamento da Federação Portuguesa de Orientação e o Regulamento da zona Norte e ainda com a ajuda de algumas pessoas que me animaram e incentivaram, nomeadamente o José Morais, António Churro, a “tia” Isilda, Teresa Morais, António Amador, o Jorge Simões, entre outros e naturalmente, o Higino Esteves.


O mais marcante e importante foi a implementação do sistema electrónico SPORTident

Orientovar - Na análise que faz da evolução da Orientação no nosso país, quais os passos que considera mais significativos?

Carlos Garcia - Para mim e sem qualquer dúvida, o mais marcante e importante foi a implementação do sistema electrónico SPORTident o qual deu um salto qualitativo na conclusão dos eventos e toda a gente sabe o quão impacientes os portugueses são…

A introdução da Orientação como modalidade no currículo escolar e os respectivos Campeonatos Escolares foram outro marco importante e que serviram para implementar o desporto nas camadas mais jovens de onde mais tarde apareceram alguns dos nossos melhores atletas actuais.

Outros pontos importantes: a regulamentação dos Rankings e a criação dos Rankings Regionais.


Quando o Higino me propôs que “criasse” a estrutura para um Campeonato Regional foi de facto aquilo que mais marcou

Orientovar - Em termos pessoais, se tivesse de escolher um momento verdadeiramente especial ao longo de vinte anos de vida da Federação Portuguesa de Orientação, qual seria?

Carlos Garcia - Quando o Higino me propôs que “criasse” a estrutura para um Campeonato Regional foi de facto aquilo que mais marcou. E porquê? Simplesmente pela “confiança” que ele depositou em mim… não me conhecia de lado algum e confiou. Isso sim… é verdadeiramente especial! No entanto, se a vida é composta pela soma dos acontecimentos então, todos os momentos de “progresso, reviravolta, sucesso, divulgação” foram especiais.

As pessoas que me marcaram: Rui Antunes (plantou a semente ao oferecer-me, em 1980, um conjunto de apontamentos que ainda possuo); o Camilo de Oliveira e o Carlos Rodrigues (regaram e adubaram o gosto que eu já possuía por essa coisa de “andar pelo mato”); o António Churro e o Higino Esteves (apostaram num “gajo” que mal conheciam e obrigaram-me a empenhar ao máximo para não os defraudar); o Alexander Shirinian (pelo incremento técnico que me proporcionou em diversas áreas principalmente no treino de atletas e no traçar de percursos); o Jorge Simões (pela sua forma de estar na Orientação, profissional, competente e sempre pronto a ajudar o próximo e que muitos conhecimentos “corriqueiros” me transmitiu); finalmente um “puto” que me apoiou bastante quando entrei para o AAMafra e com o qual partilhei momentos e peripécias inesquecíveis nas provas ao longo de cerca de 11 anos… o Nuno Lemos.


Agrada-me a ideia de “estabilidade” que aparentemente se vive na família da Orientação

Orientovar - Como agente profundamente empenhado no fenómeno da Orientação que é, como sente o actual momento que atravessamos?

Carlos Garcia - Agrada-me a ideia de “estabilidade” que aparentemente se vive na família da Orientação. Não se sabe, não o saberemos nos próximos tempos, se calhar não estamos ainda preparados para uma mudança que se pretendia com a anterior Direcção. Diz-nos o bom senso (português) que devemos proceder a mudanças suavemente pois somos um povo resistente a mudanças.

Os clubes (organizações) quando são criados é para promover o bem-estar dos seus associados e devem visar a confraternização, a camaradagem, a protecção, a ajuda e as pessoas que se associam, de algum modo, revêem-se nos “princípios” das regras regulamentadas por essas associações. Ora, se constantemente se começam a “inventar” excepções, mais tarde ou mais cedo os associados deixam de perceber com que “linhas se podem coser”.


Prevejo um futuro risonho para a nossa modalidade

Orientovar - Que futuro para a Orientação em Portugal?

Carlos Garcia - Por defeito de fabrico sou optimista portanto, prevejo um futuro risonho para a nossa modalidade. Sempre o vi e sempre verei… repare, quando as coisas não correm bem o que fazemos? Claro… removemos o que está mal e recomeçamos de novo e é assim que as coisas evoluem.

Temos muito ainda para progredir e uma das frentes é na divulgação onde podemos tentar várias aproximações: publicidade massiva nos media; inclusão da modalidade no 1º ciclo (escola primária); “venda do produto” porta a porta (pequenas associações, colégios, aos amigos dos amigos).

Parece-me uma boa aposta a inclusão da modalidade no 1º ciclo e empenhar pessoas como o Tiago Aires e a Raquel Costa é fundamental. Canalizem verbas e recursos para esta aposta e daqui a uns anos teremos, garantidamente, frutos para colher. Já expressei publicamente a minha admiração pelo trabalho do Tiago mas não será honesto da minha parte não dar também o reconhecido valor à Raquel por aquilo que ela também tem feito em prol da modalidade. Assim, expresso aqui o meu obrigado ao trabalho desenvolvido por ela e desejos de continuados sucessos.

1ª Prova, 1988

1º Curso, foto de grupo

Equipa da BOTP1, Apostiça 1990

Na BOTP2, Jardim do Clube de Sargentos

No transporte


[Fotos gentilmente cedidas por Carlos Garcia]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

5 comentários:

Anónimo disse...

olá. sou a isilda.
És realmente um menino de ouro. Tanto na maneira como encaras o desporto, a vida, o relacionamento entre as pessoas, tens a minha incondicional admiração e respeito. E tambem muito carinho.

Rui Manuel Soares disse...

Carlos Garcia, eu fui o Pára-Quedista Condutor da Mercedes de serviço desse 1º Curso.

Rui Soares, 1ºCabo PQ - 080339-B

Grande Abraço Garcia.

CarlosG disse...

Não me lembro da tua cara mas lembro-me perfeitamente e com satisfação das viagens entre o AM1 e a BOTP2... tempo chuvoso e frio e a lona de cobertura da viatura a precisar de uns retoques...

Abraço.

Rui Manuel Soares disse...

Carlos Garcia, eu lembro ainda que no final do Curso, fomos todos jantar a Aveiro , jantar esse que contou com o Comandante da BOTP2, o Tenente Coronel Sebastião Martins.

Rui Manuel Soares disse...

Carlos Garcia, eu lembro ainda que no final do Curso, fomos todos jantar a Aveiro , jantar esse que contou com o Comandante da BOTP2, o Tenente Coronel Sebastião Martins.