sexta-feira, 10 de junho de 2011

TÂNIA CARVALHO: "A ORIENTAÇÃO É O MEU MEIO, LÁ ESTÁ GRANDE PARTE DOS MEUS AMIGOS, É O MEU TRABALHO E É O MEU LAZER"



Nascida no Rio de Janeiro a 23 de junho de 1978, Tânia Maria Jesus de Carvalho é a convidada de Junho do “Espaço Brasil” no Orientovar. Atleta de eleição, Campeã Sul-Americana em título, vencedora do 'ranking' brasileiro em 2010 e figura incontornável da selecção brasileira de Elite Feminina, Tânia Carvalho é Bacharel em Direito. Amante de livros da natureza, de boa música com culinária e de tudo isso na companhia daqueles que lhe são mais queridos, é uma pessoa que se surpreende e se encanta com as culturas, as pessoas e as experiências de cada dia. Confessa-se atraída pelas coisas simples e revela que é com os pequenos momentos de prazer que vai compondo o seu ser, numa espiral de permanente mudança e adaptação.E espera que o contacto com o Meio Ambiente e com as actividades na Natureza sejam o seu cenário por muito tempo.


Orientovar - Como travou conhecimento com a Orientação e que recordações guarda dessas experiências primeiras?

Tânia Carvalho - Em 2004 alguns amigos militares convidaram-me a passear, somente passear (rsrsr), num Campeonato de Orientação na cidade do Rio de Janeiro. Eu estranhei muito todas aquelas pessoas simplesmente sumindo para dentro de uma floresta, porque na realidade não tinha uma visão do que o atleta fazia depois que avançava além do ponto zero. E a chegada foi outra grande surpresa quando os atletas retornavam de um lugar que para mim era inimaginável, muito suados, com matos pendurados e com um mapa nas mãos mostrando uns aos outros o que haviam feito na floresta. Pensei: “Que loucura isso!”; e nunca mais me afastei daquele mundo.

Orientovar - O que representa na sua vida a Orientação?

Tânia Carvalho – A Orientação é o meu meio, lá está grande parte dos meus amigos, é o meu trabalho e é o meu lazer. O desporto fez-me ser escolhida para servir a Marinha do Brasil e hoje componho a Equipe Militar do Brasil juntamente com mais quatro atletas. Apesar de ser formada em Direito, neste momento o foco está voltado para os Jogos Mundiais Militares no Rio de Janeiro e, com isso, a minha rotina é treinar e me aperfeiçoar o mais possível para melhor representar o meu país.


Na Orientação em si, só vejo benefícios

Orientovar - O que é que a Orientação tem de melhor? E de pior?

Tânia Carvalho – Na Orientação em si, só vejo benefícios: É interdisciplinar, não traz restrições de idade ou de género, inclui todos os níveis de capacidade motora e é simplesmente mágico poder ver no mesmo campo de jogo pessoas de diferentes idades e conhecimentos técnicos adentrarem a floresta e ali fazerem suas escolhas, atingirem superações, interagirem com a Natureza. Todavia, um ponto negativo no âmbito Internacional, é o facto de ainda não ser uma modalidade olímpica; e, no plano nacional, a pouca difusão deste desporto, desde as categorias de base até as elites. Outro ponto, mas que não chega a ser um entrave no Brasil, é a falta de disposição de alguns poucos dirigentes em se modernizarem e se abrirem para as informações contemporâneas que só trazem melhoria para a prática desportiva. Contudo, isto é mínimo, não afecta a Orientação em si.

Orientovar – Até aos dias de hoje, qual o momento mais marcante em termos pessoais na Orientação?

Tânia Carvalho - Certamente foi quando em 2010 representei o Brasil no Campeonato do Mundo. É toda uma nação e toda uma história que entra connosco na batalha. Estar ali, levando a Bandeira Nacional do Brasil para a visibilidade mundial, me trouxe uma invasão de emoção, uma sensação de Pátria, de conquista, de amor a mim e ao meu País... nossa! Maravilhoso!


Ser desportista e orientista foram uma consequência do que eu sou naturalmente: uma alma livre em interacção com o Meio

Orientovar - Esteve recentemente em Portugal, pela primeira vez. Como viveu esses momentos entre nós?

Tânia Carvalho - Apesar de desde 2007 até hoje ter tido o privilégio de ir à Europa a cada ano e conhecer muitas competições importantes, Portugal foi uma grande surpresa para mim. O terreno é lindo! Adorei todas aquelas mudanças de vegetação e a novidade das pedras, das gigantescas pedras, rs! Foi mesmo uma experiência grandiosa ver como de uma maneira tão simples fizeram competições tão organizadas e deliciosas de participar.
Igualmente delicioso foi agregar a isso tudo o convívio com os nossos descobridores, com seus sabores, e experimentar todo tipo de comida e bebida portuguesa que pude. O país é encantador, com suas azinheiras e sobreiros que nos contemplam sem cessar. Eu agradeço muito toda a hospitalidade.

Orientovar - "Ser mulher", "ser desportista", "ser orientista". Como é que se sente a mulher, a desportista e a orientista Tânia Carvalho no contexto da sociedade brasileira actual?

Tânia Carvalho - Desde menina soube posicionar-me diante das relações de género. Acho que a molecagem, o contacto com a natureza e as brincadeiras serelepes com todo o grupo me deram base para uma possibilidade de ser feliz e que me transformou nesta mulher hoje. Doravante, ser desportista e orientista foram uma consequência do que eu sou naturalmente: uma alma livre em interacção com o Meio. O Brasil vem perdendo há muito a mística da supremacia do masculino, tanto que hoje temos uma mulher na presidência da República. Desta maneira, só houve reconhecimentos e foi um grande privilégio tornar-me uma mulher atleta, militar, integrante da equipe nacional com todos os méritos que disto advêm. E mais: seria até irónico desprestigiar a “atleta” num segmento em que a mesma palavra - feminina, diga-se - pode referir-se aos dois géneros.


A Orientação no Brasil alcançou um momento muito bom

Orientovar - Como vê o actual momento da Orientação brasileira?

Tânia Carvalho - A Orientação no Brasil alcançou um momento muito bom. O suporte dado pela CDMB – Comissão Desportiva Militar do Brasil – em treinos e competições na Europa, promoveu um ganho técnico e cultural ímpar aos atletas e profissionais envolvidos na experiência. As competições atingiram nível técnico bastante elevado, com cartógrafos que fazem pinturas com as áreas mais diversificadas e hospitaleiras do país, traçadores que lançam os atletas em rotas desafiantes e organizadores que apostam no equilíbrio entre o tradicional e o inovador para realizar os mais especiais eventos. É com esta base que estamos prontos para realizar a 5ª edição dos Jogos Militares no Rio de Janeiro, em Julho deste ano, bem como, dentre tantas competições importantes, o Brasil ser candidato à organização do Mundial de Veteranos em 2014.

Orientovar - Como perspectiva a sua temporada?

Tânia Carvalho - Espero evoluir, tomando como termo de comparação o ano de 2010, em que fui uma atleta regular nas competições em que participei e com isso consegui ser a número 1 do 'ranking'. Isto é mesmo um desafio, visto que a Elite feminina do Brasil está a cada ano mais competitiva e fortalecida com o crescimento de cada atleta em particular, e cito aqui as atletas militares que hoje merecidamente compõem a nata da Orientação brasileira.


Que os beneficiários de hoje se tornem intimamente ligados com a missão de cultivar a Orientação no Brasil

Orientovar - Se lhe pedisse para formular um desejo, qual seria?

Tânia Carvalho - Desejo, imensamente, que todo este investimento que hoje a Orientação Brasileira recebe seja alicerce para um grande legado. Que os beneficiários de hoje se tornem intimamente ligados com a missão de cultivar a Orientação no Brasil e fazer a diferença com seu trabalho, seja ele voluntário ou não. O momento frutífero para a Orientação no Brasil necessita de pessoas que aprendam e compartilhem experiências para que, num futuro próximo e promissor, possamos competir em igualdade com aqueles que são os melhores da Orientação no mundo.




Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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