quinta-feira, 23 de junho de 2011

PELO BURACO DA FECHADURA: CAMPEONATO NACIONAL DE CORRIDAS DE AVENTURA 2011 / RAID ILHA AZUL




No encapelado mar onde navegam as Corridas de Aventura, surge lá bem no meio do Atlântico um farol de esperança. No Faial, pequena ilha do grupo central do Arquipélago dos Açores, tem lugar este fim-de-semana o Raid Ilha Azul / Campeonato Nacional de Corridas de Aventura 2011. Ao encontro dum intrépido grupo de aventureiros, o Orientovar falou com Esmeralda Câmara, Directora da Prova, e percebeu que estão criadas as condições para quatro dias inesquecíveis de aventuras mil, num conjunto de iniciativas que tem tudo para agradar a todos.


Ao certo, ao certo, ninguém sabe. Julga-se, contudo, que as origens das Corridas de Aventura se podem encontrar algures no “Alpine Ironman”, evento idealizado por Robin Judkins, um neo-zelandês que, em 1980, levou por diante no seu país natal uma prova onde os atletas corriam, pedalavam e esquiavam ao longo dum percurso nas montanhas. A evolução e a aceitação crescente desta disciplina levou a que no final dos anos 90 começassem a multiplicar-se provas desta natureza pelo mundo inteiro, com formatos e durações muito diversos.

Em Portugal foi criado o Portugal Eco Aventura no ano 2000, afirmando-se desde logo como a primeira liga de Corridas de Aventura no nosso País. As primeiras provas arrancaram na época de 2001/2002, com um total de cinco eventos nos quais participaram 63 (!) equipas num escalão único. Refira-se, a título de curiosidade, que o vencedor desse 'ranking' inaugural foi a equipa PRISMA, liderada pelo nosso bem conhecido e estimado Eduardo Sebastião, um homem que se mantém nestas lides e que estará este fim-de-semana no Faial, em representação do Clube de Praças da Armada.


Elementos para a história das Corridas de Aventura

Em 2004/2005, as Corridas de Aventura conheceram a sua primeira Taça de Portugal, na qual se inscreveram um total de 97 equipas, das quais 16 espanholas, uma brasileira, uma francesa, uma da Letónia e ainda uma dos Estados Unidos. Ao todo, foram mais de quatro centenas, os atletas que experimentaram o prazer das Corridas de Aventura em locais tão díspares como Idanha-a-Nova, Montalegre, Santa Maria da Feira, Vale do Lima e Terras do Grande Lago / Alqueva, para tudo terminar em Monsanto, com a disputa do 1º Campeonato Regional de Corridas de Aventura e que atribuiu o título maior à equipa JC Lisbon, dos consagrados José Galvão Marques, Nuno Liberal e António José Moura.

Na temporada seguinte disputou-se a primeira Taça de Portugal de Corridas de Aventura, já com as equipas distribuídas pelos escalões de Elite Mista, Elite Masculina e Aventura, mas só em 2007/2008 a Taça de Portugal passou para a tutela da Federação Portuguesa de Orientação, cabendo-lhe a responsabilidade de enquadrar todas as competições nacionais e regionais de Corridas de Aventura e atribuir os títulos nacionais e regionais referentes às mesmas. Hoje, as Corridas de Aventura estão, por inteiro, na dependência da Federação Portuguesa de Orientação a qual, a par da sua congénere espanhola, teima em levar por diante este projecto pioneiro a nível mundial, numa altura em que, mais do que nunca, se questiona a razoabilidade de manter as Corridas de Aventura na esfera da Orientação, quando a própria IOF teima em não reconhecer as Corridas de Aventura como uma disciplina da Orientação. O panorama das Corridas de Aventura em Portugal vai-se tornando cada vez mais sombrio, a realização do Campeonato do Mundo de Corridas de Aventura no nosso país, em 2009, não teve no empenho e na qualidade organizativa o necessário retorno, o interesse e o entusiasmo por este tipo de provas vem decrescendo a um ritmo alucinante e as provas adiadas ou anuladas vão-se sucedendo, sem que se vislumbre uma saída para a crise.


O Raid Ilha Azul está já aí, ao virar da esquina

As Corridas de Aventura irão voltar este fim-de-semana aos Açores, depois de já lá terem estado anteriormente pelas mãos da APCA – Associação Portuguesa de Corridas de Aventura, então para a realização do Pico Outdoor Challenge, que contou com a participação de quatro equipas no escalão de Elite Mista, 10 no escalão de Elite Masculina e 19 no escalão de Aventura e envolveu um total de 132 participantes. Agora, no Faial, os números caem para metade e é com sete equipas no escalão de Elite, nove no escalão de Aventura e quatro no escalão de Promoção que se disputa a segunda prova da Taça de Portugal de Corridas de Aventura 2011, a primeira em solo português (a anterior teve lugar na Corunha, nos passados dias 16 e 17 de Abril, contando com a escassa presença de duas equipas no escalão de Elite e cinco no escalão de Aventura). Mas a verdade é que a prova do Faial está já aí e, com ela, a segunda edição dos Campeonatos Nacionais de Corridas de Aventura. O Orientovar foi ao encontro de Esmeralda Câmara que, já no Faial, nos dá conta da envolvência duma prova que tem, certamente, tudo para agradar a todos.


"Acho que o Faial tem todos os ingredientes essenciais para podermos pensar numa Corrida da Aventura de enorme qualidade"

Orientovar – Que motivos a levaram a aceitar o desafio de assumir o cargo de Directora da Prova?

Esmeralda Câmara – Para além de praticante – agora nem tanto porque as tarefas organizativas não o permitem -, gosto muito das Corridas de Aventura e penso que, como atleta, esta é uma forma de contribuir para a modalidade e foi por isto que aceitei o desafio.

Orientovar – Com que implicações, do foro logístico e outras, se depara uma colectividade do Continente para pôr de pé uma prova desta natureza nos Açores? Contaram com que tipo de apoios?

Esmeralda Câmara – Começámos com provas mais pequenas e temos vindo, a pouco e pouco, a crescer em termos das nossas organizações. Sentimos, finalmente, que a nossa experiência nos permitia ambicionar algo mais e decidimos avançar com este Raid Ilha Azul. Porquê os Açores e porquê o Faial? Porque tenho aqui as minhas raízes, tenho aqui os meus familiares (e não só) e conheço muito bem a ilha. Acho que o Faial tem todos os ingredientes essenciais para podermos pensar numa Corrida da Aventura de enorme qualidade e fomos muito bem acolhidos quando apresentámos o nosso projecto. Tudo isto constitui uma mais-valia para nós, enquanto organização que enfrenta novas experiências, para as entidades locais que vêem potenciadas as excelentes condições naturais que têm, para os atletas e para a própria modalidade.


"Mais que o verde e o azul, é o silêncio que pesa sobre as levadas que torna tudo tão maravilhosamente diferente"

Orientovar – Como é que se consegue pôr de pé uma prova com apenas vinte equipas inscritas – sete no escalão de Elite – e um total de seis dezenas e meia de atletas? Onde é que se vai buscar a coragem para se fazer tanto para tão poucos?

Esmeralda Câmara – Não era este o número que gostaríamos de ter, naturalmente, mas os compromissos entretanto assumidos com as entidades locais e outras deixavam-nos pouca margem de manobra e, com afinco e força de vontade, decidimos avançar. Chegámos a equacionar o adiamento da prova, numa altura em que o número de inscrições era realmente muito baixo, mas as coisas acabaram por se compôr. Ainda bem, porque todo o trabalho estava de pé, um trabalho muito bem feito e que merecia ir para a frente na altura inicialmente prevista. É isso que irá acontecer já no próximo fim-de-semana,

Orientovar – Fale-me da prova. O que estará à espera dos atletas?

Esmeralda Câmara – A prova é, toda ela, um enorme desafio, com todos os ingredientes que, normalmente, os amantes das Corridas de Aventura apreciam. Eu destacaria, sobretudo, as paisagens magníficas, nomeadamente as levadas. Eles irão passar por lá, irão sentir que,. Os atletas vão ainda ter a oportunidade de passar do verde para a cinza, ou seja, da zona de levadas para o próprio Vulcão dos Capelinhos. Todos eles, sem excepção, irão reconhecer a beleza de duas paisagens tão díspares e que torna o todo num conjunto de momentos muito especiais.


"Espero sinceramente que esta prova possa significar um ponto de viragem no momento menos bom que as Corridas de Aventura atravessam"

Orientovar – O programa social é sempre um aspecto levado muito em conta, sobretudo numa prova que terá lugar numa ilha como o Faial. Quer detalhar um pouco esse tipo de oferta?

Esmeralda Câmara – Os atletas, na sua grande maioria, irão chegar ao Faial amanhã, vão ter logo a oportunidade de visitar o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos e irão ter um jantar de boas-vindas integrado nos festejos de S. João aqui na ilha do Faial, oferecido pela Câmara Municipal da Horta. No sábado á noite, teremos uma “pasta party” e no domingo será a vez do jantar de encerramento. Para os mais aventureiros, caso as condições meteorológicas o permitam, na segunda-feira iremos fazer a ascensão do Pico, para a qual já temos mais de vinte e cinco pessoas inscritas.

Orientovar – A quarenta e oito horas do início das provas, qual o seu estado de espírito?

Esmeralda Câmara – Com um conjunto de situações a passar-nos pelas mãos ao mesmo tempo e num tão curto espaço de tempo, é natural que haja uma certa ansiedade. Mas pensar que a prova está aí e vai mesmo arrancar dentro de tão curto espaço de tempo é motivo de uma enorme alegria. Espero sinceramente que esta prova possa significar um ponto de viragem no momento menos bom que as Corridas de Aventura atravessam. E que sirva de ensejo para que esta época possa começar da melhor forma.

Poderá encontrar toda a informação sobre o Raid Ilha Azul em http://www.raidilhaazul.com/.

[O Orientovar expressa publicamente o seu agradecimento a Nuno Leite por ter facilitado o contacto com Esmeralda Câmara e que esteve na base desta Entrevista]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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