sábado, 4 de junho de 2011

MICHALIS SAVVIDES: "CHIPRE É UM PAÍS PEQUENO E A MENSAGEM PASSA DEPRESSA!"





O Chipre acaba de ser admitido no seio da IOF – Federação Internacional de Orientação, sendo pois o seu 73º membro. Ao encontro da Orientação naquele país da Bacia do Mediterrâneo, o Orientovar falou com Michalis Savvides, um dos grandes responsáveis por este enorme trabalho e um entusiasta da Orientação.


Na sua reunião de Helsínquia, o Conselho da IOF - Federação Internacional de Orientação admitiu no seu seio um novo membro. Trata-se da KOMOAA, a Federação governamental cipriota responsável pela promoção e organização de eventos de Montanhismo, Escalada e Orientação naquele país. O Orientovar traz-lhe hoje uma grande Entrevista com Michalis Savvides, onde se reconhece a realidade duma modalidade que dá os primeiros passos na ilha, com tudo quanto isto tem de empenho e entusiasmo ao nível das entidades envolvidas, mas que revela também as dificuldades de quem está a “aprender a andar”.

Michalis Savvides nasceu em Chipre, em 1949. Cartógrafo de profissão, estudou Cartografia em Londres (1972 a 1976) e trabalhou em levantamentos cartográficos para as explorações petrolíferas da British Oil em Inglaterra, Tailândia, Líbia, Índia e Paquistão. É funcionário do Departamento de Terras e Levantamentos do Governo de Chipre desde 1987, sendo o actual responsável pelo área da Geodesia, trabalhando na elaboração de mapas especializados. Representante do governo cipriota em inúmeras instituições internacionais, Michalis Savvides é membro e avaliador oficial da Royal Institution of Chartered Surveyors, do Instituto de Navegação e da Câmara Técnica e Científica de Chipre, tendo sido eleito membro do American Explorers Club. Tem publicados dois livros técnicos e, no âmbito desportivo, é o Secretário da KOMOAA, a Federação de Chipre de Montanhismo, Escalada e Orientação. Em Maio de 2010 fundou em Chipre o primeiro Clube de Orientação, o ORIENTACTION.


Dar oportunidade a todos os interessados em conhecer e praticar a modalidade

Orientovar – Até ao momento, que passos foram dados com vista ao estabelecimento da Orientação em Chipre?

Michalis Savvides – Em Chipre, a Orientação é praticamente desconhecida pelo público em geral. Há cerca de 12 anos, a KOA – Cyprus Atletic Organization desenvolveu alguns esforços com vista à introdução da modalidade no nosso País, convidando um especialista de Israel e promovendo um evento de Orientação durante a sua estadia. Infelizmente, esses esforços não deram origem a novos desenvolvimentos, devido sobretudo a um factor que muitos países enfrentam: a inexistência de mapas de Orientação e os necessários recursos e conhecimentos para os executar.

Tendo em mente o desenvolvimento e a difusão da Orientação em Chipre, em Maio de 2010 foi fundado o Orientaction Hicking and Orienteering Club. Eu e outro membro do clube somos cartógrafos de profissão e estudámos as determinações da IOF – Federação Internacional de Orientação para a execução de mapas, formatos e simbologia. Nos últimos dez meses, o clube completou dois mapas e mantém outros três em fase de execução. O objectivo do clube é o de produzir, a cada três anos, um mínimo de cinco mapas em diferentes partes do País, e dar oportunidade a todos os interessados em conhecer e praticar a modalidade sem a necessidade de terem de efectuar grandes deslocações.


A KOMOAA concordou em adequar os próprios estatutos no sentido de poder incluir a Orientação no seu seio

Orientovar – Existe algum apoio do vosso Governo ou de algumas instituições públicas?

Michalis Savvides – Com vista a um maior desenvolvimento da modalidade, o Orientaction Club decidiu unir-se à KOMOAA, a Federação Desportiva oficial de Chipre que rege, promove e organiza eventos de Montanhismo e Escalada. A KOMOAA concordou em adequar os próprios estatutos no sentido de poder incluir a Orientação no seu seio e a ordem estatutária foi oficialmente alterada no passado dia 17 de Março. Visto não haver uma Federação de Orientação em Chipre, por sugestão da KOA, nessa mesma data o Orientaction Club tornou-se membro da KOMOAA.

A fundação duma Federação de Orientação implicaria a existência de pelo menos três clubes de Orientação, o que poderá levar muitos anos até ser uma realidade. Optando por esta via, conseguiremos impulsionar a modalidade mais rapidamente, dando-a a conhecer aos restantes clubes membros da KOMOAA, todos eles desenvolvendo actividades nas áreas dos desportos de natureza, sobretudo Pedestrianismo, Montanhismo e Escalada. Por outro lado, isso permite-nos uma maior economia de meios já que lançamos mão dos recursos da KOMOAA, tais como o Secretariado, etc. Quando a Orientação conseguir alcançar um estatuto que lhe garanta a desejada autonomia e hajam mais clubes, então poderemos partir para a fundação de uma Federaçãp de Orientação independente. Entretanto, a KOA prometeu auxiliar-nos financeiramente na aquisição de material electrónico de Orientação e de outros equipamentos.


O único inconveniente é que precisamos duma autorização do Departamento Florestal

Orientovar - Como é que tomou conhecimento da Orientação?

Michalis Savvides – Li algo sobre a modalidade na Internet. Depois, conheci uma pessoa que trabalha para as Nações Unidos aqui em Chipre e que tem um vasto conhecimento acerca da Orientação. Conversámos imenso e foi então que decidi avançar com a criação do clube de Orientação Orientaction Club, com o objectivo de angariar mais pessoas e, em conjunto, impulsionarmos este desporto na ilha.

Orientovar – Pode dizer-me algo acerca dos mapas e dos terrenos em Chipre?

Michalis Savvides – O Chipre é uma ilha com duas cadeias montanhosas que cobrem a maior parte do País. Há, contudo, imensas zonas planas, o que faz com que qualquer parte do País seja desafiante. Procuraremos desenhar mapas que incidam sobre as zonas mais características do País, nomeadamente as áreas montanhosas, colinas, zonas de cultivo, regiões costeiras e outras. Presentemente, temos dois mapas. Um do Parque Nacional nas imediações da capital, numa área segura para a prática da Orientação. O único inconveniente é que precisamos duma autorização do Departamento Florestal, de cada vez que pretendemos desenvolver uma actividade, a qual deve ser requerida com enorme antecedência. O outro mapa é duma região a noroeste da ilha, numa paidagem lindíssima, coberta de elementos rochosos absolutamente espectaculares.


Temos consciência que muito mais trabalho está por fazer

Orientovar – Em muitos países, a Orientação ainda é maioritariamente praticada por militares. Passa-se o mesmo em Chipre?

Michalis Savvides – A Orientação é praticada por militares, sim, mas numa medida bastante limitada. Devido ao facto de não haver mapas de Orientação em Chipre, os militares procuram outras paragens para a sua prática. Penso que, na generalidade dos casos, se deslocam até Espanha. Um dos nossos objectivos reside em fazer com que os militares usem os nossos mapas.

Orientovar – Quais são os grandes desafios que a Orientação enfrenta em Chipre?

Michalis Savvides – Tenho uma enorme confiança em que a Orientação se irá desenvolver em Chipre e conseguirá consolidar-se. Desenvolvemos um imenso trabalho ao longo deste ano e temos consciência que muito mais trabalho está por fazer. Temos de preparar Regulamentos adequados à nossa realidade. Escrever um Manuel de Orientação em grego, formar pessoas que, por sua vez, possam formar outras, etc., etc. Os meios de comunicação social poderão ajudar-nos imenso mas apenas os iremos contactar quando sentirmos que estamos devidamente estabelecidos. Os media estão interessados sobretudo no Futebol, pelo que é no passar a palavra uns aos outros que reside a nossa acção no sentido de fazer passar a mensagem. Chipre é um país pequeno e a mensagem passa depressa!


Nadar, Primeiros Socorros e Leitura de Mapas são três matérias que todos os alunos deviam dominar

Orientovar – Vamos poder ver nos próximos tempos alguns eventos de Orientação em Chipre?

Michalis Savvides – Durante este último ano, o clube organizou cinco provas de Orientação de âmbito local. O seu objectivo foi o de dar a conhecer a modalidade ao público em geral e obtivemos uma resposta entusiástica da parte de todos os participantes. Planeamos levar por diante três novos eventos de natureza local e pelo menos um Evento Nacional em 2011.

Orientovar – Gostaria de deixar um desejo para a Orientação em Chipre?

Michalis Savvides – Actualmente, o nosso quotidiano é demasiado sedentário e as pessoas não investem os seus tempos livres em contacto com a natureza. A nossa visão com vista ao desenvolvimento da Orientação reside precisamente em mostrar às pessoas que se podem divertir fora de portas. Pelas suas características próprias, a Orientação é um desporto único, no qual toda a família pode tomar parte e sentir a emoção de encontrar os pontos, sem a necessidade de levar por diante a sua prova com espírito competitivo.

O nosso objectivo principal é fazer com que muita gente conheça e aprecie este desporto. Para nós é secundário – neste momento – termos equipas de competição. Com o tempo, teremos um conjunto de jovens que nos permitam criar uma Selecção Nacional. Olhando ainda a longo prazo, dentro de alguns anos será altura de tentarmos incluir a Orientação no currículo dos alunos do Ensino Básico. Nadar, Primeiros Socorros e Leitura de Mapas são três matérias que todos os alunos deviam dominar.



[Imagens de Jemez Pueblo, gentilmente cedidas por Michalis Savvides]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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