terça-feira, 21 de junho de 2011

JOSÉ ANGEL NIETO POBLETE: "EM MOMENTOS DE CRISE TEMOS DE PUXAR PELA CABEÇA E ENCONTRAR AS MELHORES SOLUÇÕES PARA OS PROBLEMAS"




José Angel Nieto Poblete, Vice-Presidente da FEDO – Federação Espanhola de Orientação, esteve em Portugal no passado mês de Maio. Mais do que um dirigente, um amigo, o Orientovar falou com ele no preciso dia em que a IOF – Federação Internacional de Orientação festejava o seu 50º aniversário. E foi precisamente por aí que começou a nossa conversa.


Orientovar - A IOF - Federação Internacional de Orientação está a celebrar o seu 50º aniversário. Que significado tem esta efeméride para a FEDO – Federação Espanhola de Orientação?

José Angel Nieto Poblete – Penso que estamos tão centrados na nossa própria sobrevivência, no nosso trabalho, no desenvolvimento da Orientação em Espanha – e penso que se passará o mesmo em Portugal –, que talvez não tenhamos parado para pensar nesse detalhe e nos tenhamos esquecido um pouco do significado desta data. Dum modo geral, celebrar 50 anos é um sinal de vitalidade e deve constituir um impulso no sentido de tornar cada vez mais forte o nosso desporto. Mas todos temos que continuar a trabalhar e a desenvolver relações, no caso de Portugal e Espanha com os países da América Latina, através da Taça dos Países Latinos, por exemplo. Quer-me parecer que é aí que mais se poderá fazer notar o nosso contributo.

Orientovar – As nossas Federações têm cerca de 30 anos a menos que as dez Federações fundadoras da IOF. Esses trinta anos de atraso têm uma correspondência prática naquilo que é a Orientação em Espanha e Portugal, relativamente ao que se passa nos países mais desenvolvidos a este nível?

José Angel Nieto Poblete – Temos de rejeitar a palavra “atraso”. Poderíamos falar de atraso quando estávamos a começar. Se hoje os países nórdicos são países mais elitistas, isso é devido ao facto de terem atletas de muito maior nível. Mas se, de há largos anos a esta parte, estes atletas optam por Espanha e Portugal para cumprir os seus planos de pré-temporada, se se deslocam até nós e vêm participar nas nossas competições, isso significa que valorizam todo o nosso trabalho e as nossas organizações. Lembro-me que em 1996 levámos a cabo, em Múrcia, o Campeonato do Mundo de Veteranos e já nessa altura todos se interrogavam, nomeadamente os nórdicos, como era possível que um país que estava a dar os primeiros passos na Orientação conseguisse pôr de pé uma competição daquele nível e, além do mais, atribuindo funções de enorme responsabilidade a gente muito jovem. Portanto, onde é que está o atraso? Acresce que estamos recolhendo um enorme protagonismo nos países latino-americanos, coisa que os nórdicos não conseguem. É claro que há a questão da língua que é sempre uma barreira para quem não a domina e, nesse particular, temos uma clara vantagem. Em suma, falar de atraso é desajustado. Os nórdicos, talvez por uma questão de mentalidade, estão mais comprometidos com a modalidade e isso tem uma enorme influência na forma como a projectam para o mundo. Mas noutros campos, nomeadamente no que diz respeito às organizações de provas, à forma de trabalhar e ao seu desenvolvimento, estamos lado-a-lado. Aí não podemos aceitar que os países nórdicos sigam na frente.


O futuro da nossa modalidade está nas bases

Orientovar – Como avalia o actual estado da Orientação em Espanha. Continuamos a evoluir, estagnámos ou estamos em retrocesso?

José Angel Nieto Poblete – Em retrocesso, não. Avançaremos mais ou menos depressa, mas avançaremos. Isto implica, necessariamente, muito trabalho. Não podemos adormecer à sombra do que está feito e temos de investir nas várias parcelas que fazem parte do nosso trabalho. O futuro da nossa modalidade está nas bases e, por isso, estamos a trabalhar de forma muito séria nas escolas e o número de crianças que participam em provas de Orientação do Desporto Escolar é cada vez maior. Não podemos descurar essa lacuna que acaba por surgir entre o Desporto Escolar e o Desporto de Alta Competição. Admitimos que possa haver aqui uma pequena incisão, é uma luta constante fazer com que aqueles que captámos desde muito jovens para o nosso desporto prossigam e possam vir a ser grandes atletas no futuro. Temos o Desporto Universitário, é certo, mas não chega. Estamos perante idades muito ingratas, os jovens com 16, 17, 18 anos têm a cabeça noutro sítio, mas estamos a tentar colmatar essa lacuna e, aquilo que notamos, é um crescente nível de participações na Liga Espanhola.

Orientovar – Globalmente, como é vista a Orientação no seio da generalidade dos desportos em Espanha?

José Angel Nieto Poblete – Em Espanha existem 64 federações desportivas e dessas 64 federações desportivas poderíamos pensar que a Orientação seria a última das últimas. Mas não. Estamos no posto trinta e poucos, ou seja, estamos a meio da tabela, inclusivé acima de algumas modalidades olímpicas, como é o caso do Ténis de Mesa ou da própria Esgrima, a única modalidade olímpica de origem espanhola. E atenção, que neste número não está configurado aquilo que se passa ao nível dos movimentos desportivos em cada uma das comunidades autonómicas, nas províncias ou nas localidades, que logicamente confeririam uma expressão muito maior a estes números.


Estamos a potenciar a Orientação

Orientovar – Temos uma nova fórmula de disputa dos Campeonatos Ibéricos, tanto na Orientação Pedestre como na Orientação em BTT. Justifica-se?

José Angel Nieto Poblete – Em momentos de crise temos de puxar pela cabeça e encontrar as melhores soluções para os problemas. É verdade que temos um novo conceito para o Campeonato Ibérico e que será implementado de forma integral já no próximo ano (o ano de 2011 é de transitoriedade). Isto prevê a disputa de provas em Portugal e em Espanha, sendo os campeões ibéricos apurados pelo somatório de pontos alcançados nas provas. Já não são duas provas, são quatro e com isto sairão a ganhar as organizações dos dois países. Penso que esta é uma boa solução. O factor tempo – e falo no tempo dispendido nas deslocações para as provas – é minorado pelo facto de hoje termos excelentes vias de comunicação entre os dois países. O que aqui está em causa, o que realmente é importante, é que tenhamos provas mais competitivas, muito mais participadas e nas quais todos os competidores possam lutar directamente pela conquista dos títulos ibéricos. Esta sim, é uma competição que poderemos considerar verdadeiramente internacional. Estamos a potenciar a Orientação e estou certo que este modelo se irá afirmar como particularmente importante para o futuro da modalidade nos dois países.

Orientovar – Acabam de decorrer em Itália os Mundiais de Orientação ISF de Desporto Escolar, uma competição que, há dois anos, teve lugar em Espanha, precisamente. Como avalia o movimento e a dinâmica da Orientação espanhola ao nível das camadas mais jovens?

José Angel Nieto Poblete – A sobrevivência, o êxito e o futuro da Orientação, em Espanha como em Portugal, passa logicamente pelo Desporto Escolar. Não podemos nunca descurar este facto e temos de prosseguir o nosso caminho potenciando-o cada vez mais. Em Espanha, por exemplo, há quatro anos atrás, existia apenas a categoria de Infantis. Percebemos que não nos podíamos centrar apenas numa categoria que abarca dois anos de nascimento e introduzimos a categoria “Cadete”. Hoje temos os Campeonatos Nacionais de Espanha a serem disputados já nestas duas categorias. Mas a nível provincial temos também a categoria de Benjamins. Não disputam os Campeonatos Nacionais porque entendemos que as deslocações com crianças destas idades são sempre um problema, mas já estamos a criar neles essa ilusão. Estamos a prepará-los para os anos seguintes, a dar-lhes a entender que poderão no futuro disputar Campeonatos Regionais, Campeonatos de Espanha e além do mais, com essa perspectiva no horizonte de poderem vir a representar a Espanha num Campeonato do Mundo. Para eles é a glória.


A palavra futuro baseia-se em trabalho

Orientovar – Qual o futuro da Orientação em Espanha?

José Angel Nieto Poblete – A palavra futuro baseia-se em trabalho, ou seja, creio que não podemos adormecer à sombra daquilo que foi feito até ao momento. Essa é a ideia chave. Se continuarmos a trabalhar como até ao momento, seguramente iremos preservar tudo aquilo quanto alcançámos nos últimos anos e que é uma certa estabilidade. Oferecer provas mais competitivas, poder dar aos mais jovens a possibilidade de evoluirem tecnicamente e adquiram competências que lhe permitam enfrentar as competições internacionais com espírito ganhador. Portugal teve o Davide Machado no 7º lugar dos Mundiais de Orientação em BTT em 2010 e também nós temos alcançado bons resultados. Isto é importante porque faz com que ultrapassemos certas e determinadas barreiras psicológicas. Estes resultados não eram para nós e, afinal, percebos que conseguimos também alcançá-los. Como disse, creio que o futuro é trabalho. Só desta forma podemos prosseguir, encarando de forma realista os nossos próprios objectivos.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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