terça-feira, 31 de maio de 2011

LUÍS SILVA NO REGRESSO DOS MUNDIAIS ISF: "SIMPLESMENTE FUI FAZER AQUELA PROVA POR AMOR À MODALIDADE"




Foi o nosso herói naquela manhã inspirada em Val Canali. Luís Silva está de regresso a Portugal, trazendo na algibeira essa medalha de prata – mais uma – conquistada de forma superior na prova de Distância Longa dos Mundiais de Orientação de Desporto Escolar ISF 2011. O Orientovar falou com ele e deixa aqui as impressões de alguém que revela, acima de tudo, uma enorme paixão pela modalidade.


Orientovar - Abriste a tua participação em Mundiais ISF com uma medalha de prata em Edimburgo, em 2008 e fechaste da mesma forma, agora em Primiero. Em que difere o Luís Silva de Edimburgo do Luís Silva actual?

Luís Silva - É verdade, três participações em Mundiais e duas medalhas que em nada são iguais. Em Edimburgo, confesso que fiquei surpreendido e um pouco sem saber como tinha ganho aquela medalha. Fui ao Mundial sem quaisquer expectativas, na altura praticamente nem treinava e as provas que fazia eram escassas. Um dia bom? Sorte? Talvez nunca venha a descobrir o que foi diferente naquele dia, mas de uma coisa estou certo: foi o que me deu motivação para começar a treinar e a tornar-me atleta. Neste Mundial já era tudo diferente, já tinha a experiência de dois Mundiais, sabia para o que ia e sabia o que tinha de fazer. Tinha treinado e trabalho arduamente e naquele momento só esperava os resultados.

Orientovar - Qual a chave do êxito para teres chegado à medalha de prata na prova de Distância Longa dos Mundiais ISF 2011?

Luís Silva - Não há qualquer segredo. Claro que o nível é elevado e precisei de treinar muito para chegar a este ponto físico e técnico, mas para mim o verdadeiro segredo - se é que é segredo -, reside no gosto que se tem pela modalidade. Eu adoro esta modalidade e a disposição com que encaramos a prova reflecte-se no resultado. Na Distância Longa senti, tal como já tinha sentido antes da Distância Longa do EYOC 2010, uma felicidade extrema por poder ir desfrutar de um mapa tão bom, esquecendo qualquer obrigação para com o resultado. Simplesmente fui fazer aquela prova por amor à modalidade e não preso pela obrigação de obter um bom resultado. Se há coisa que odeio - e já senti isso em competições anteriores (ISF 2009) - é ter de ir fazer uma prova para ganhar. Acima de tudo gosto de me descartar da pressão e fazer aquilo que sei fazer melhor, isto é, Orientação.


A medalha de prata soube-me a pouco

Orientovar - Esperavas repetir o resultado na prova de Distância Média ou mesmo melhorá-lo? Sentiste demasiado a medalha de prata e isso afectou o teu desempenho?

Luís Silva - Na Distância Média cometi um erro crasso, fruto da Distância Longa. Fiquei com alguma pressão pela expectativa que se colocou sobre mim e não me regi pelo meu código de competição, deixando-me de novo entregar a pensamentos puramente egoístas e esquecendo a modalidade. Apesar de ter tentado controlar a ansiedade, já era difícil e parti para entrar logo muito mal no mapa a perder muito tempo. Confesso que foi uma grande estalada, e soube ali mesmo que tinha perdido a prova, mas mesmo assim forcei-me a continuar e a dar tudo. Tive pena que não chegasse para mais, mas a vida é mesmo assim. O resultado foi mau, agora só tenho de o esquecer e focar-me no que vem aí.

Orientovar - No teu excelente currículo, contas já com um número muito interessante de títulos. Entre todos, este de Vice-Campeão do Mundo sabe-te a "ouro" ou é apenas mais um?

Luís Silva - Confesso que a medalha de prata soube-me a pouco e no meu íntimo sei que não foi o meu melhor. Eu ambicionava o ouro, mas pelas circunstâncias presentes tal não me foi possível, mas também não é por isso que não estou contente! Estou bastante feliz até! Todas as medalhas que obtive valem por si porque todas elas foram obtidas em circunstâncias diferentes e esta não é menos importante para mim que todas as outras. Aliás, até a coloco no altar das mais importantes por diversos aspectos, mas a atitude com que encarei este Mundial foi um pouco mais para me avaliar em relação aos potenciais adversários que irei ter que encarar no EYOC e as conclusões que tirei foram bastante animadoras. É tudo o que posso dizer para já...


É impressionante o profissionalismo com que este Mundial foi encarado

Orientovar - Como é que viveste e sentiste o espírito no seio da nossa comitiva ao longo desta semana em Itália?

Luís Silva - Já experimentei várias comitivas e em todas a experiência foi diferente. Nesta não foi pior ou melhor que as outras, a desunião é algo que é impossível de evitar visto que todos somos diferentes e temos preferências mas devo dizer que, dum modo geral, até fomos unidos e apoiámo-nos mutuamente. Pelo menos falo por mim, que consegui boas relações com todos e não vi nenhuma situação pior. Destaco alguns momentos como a Cerimónia de Abertura em que com as vuvuzelas deixámos as outras delegações sem reacção (risos) e no dia da dança em que fomos impecáveis a dançar o tacão em bico. Com os professores é que não foi tudo muito fácil, havendo alguns desentendimentos, pois como somos jovens gostamos de nos relacionar e por vezes esquecemos um pouco a competição. Principalmente quem não tem experiência de EYOC's não dá grande importância ao descanso pré-competição e é claro que isso suscitou algumas situações bem desagradáveis com os professores e eles não estavam muito contentes connosco. Mas de um modo geral tudo correu bem.

Orientovar - Tiveste o privilégio, praticamente raro, de estar presente em três Mundiais. Queres estabelecer uma comparação entre eles, sobretudo do ponto de vista organizativo?

Luís Silva - Pessoalmente já fiz essa comparação e constato que, de ano para ano, a qualidade dobra sem precedentes. É impressionante o profissionalismo com que este Mundial foi encarado, o que prova que a Orientação já não é algo que não se leva a sério. Na semana em que estive naquela vila muito bonita respirei Orientação por todos os lados, bandeiras de todos os países cobriam a avenida principal e as bandeiras de Orientação estavam em todo o lado! A hospitalidade dos autóctones foi de facto muito boa e a organização não falhou num único ponto.


Nunca é cedo de mais para se começar

Orientovar - Despedes-te do ISF mas há muita gente nova que ainda terá, concerteza, uma segunda oportunidade. O que lhes dirias?

Luís Silva - Pelo que vi neste Mundial e pelo que tenho observado, deixo aqui uma mensagem que se continuarem a trabalhar não tenho dúvidas que irão obter excelentes resultados e podem mesmo estar certos disso, pois andam aí "diamantes" que a seu tempo, espero, serão "lapidados" e brilharão. Esperemos que isso de facto aconteça e que aproveitem o Mundial de 2013 pois terão vantagem redobrada.

Orientovar - A dois anos de distância, pedia-te que deixasses um voto à organização portuguesa dos Mundiais ISF 2013.

Luís Silva - A organização de 2013, se quiser nivelar-se às organizações anteriores, terá uma árdua tarefa pela frente. Mas não tenho quaisquer dúvidas que se nos empenharmos todos, conseguiremos chegar ao nível. Espero poder participar nessa organização de forma activa, mas a seu tempo veremos. Para já ainda é cedo, mas atenção: nunca é cedo de mais para se começar!


[Foto gentilmente cedida por Paulo Fernandes]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Anónimo disse...

"... a disposição com que encaramos a prova reflecte-se no resultado."
"...uma felicidade extrema por poder ir desfrutar de um mapa tão bom, esquecendo qualquer obrigação para com o resultado"
uma abordagem interessante à modalidade, o "desfrutar" serve também para enganar o cérebro das dificuldades que vão aparecendo e encará-las com outro ânimo e entrega

ILIDIO