sábado, 21 de maio de 2011

IOF 50 ANOS / FPO 20 ANOS: CAMILO DE MENDONÇA




O Orientovar retoma a rubrica “FPO 20 Anos” precisamente no dia em que a IOF – Federação Internacional de Orientação celebra as Bodas de Ouro. A personalidade convidada para associar o nome da Federação Portuguesa de Orientação à efeméride é, nem mais nem menos, que o seu primeiro Presidente, Camilo de Mendonça.


Completam-se hoje 50 anos sobre a realização do Congresso de Copenhaga que ditou a fundação da IOF - Federação Internacional de Orientação. Bulgária, Checoslováquia, Dinamarca, Finlândia, Hungria, Noruega, República Democrática da Alemanha, República Federal da Alemanha, Suécia e Suiça assumiram a condição de membros fundadores. Quase três décadas depois, a 19 de Dezembro de 1990, Portugal viria a tornar-se membro de pleno direito da IOF, na data em que foi fundada a Federação Portuguesa de Orientação.

Associando-se às celebrações dos 50 anos da IOF, o Orientovar assinala a data com a Entrevista a um homem cujo nome ficará para sempre gravado a ouro na história da Orientação em Portugal. Ao seu esforço e empenho e ao seu trabalho abnegado se deve a fundação da Federação Portuguesa de Orientação, da qual foi o seu primeiro Presidente. Caros orientistas, connosco, agora e sempre, Camilo de Mendonça.


Funcionámos na altura como bandeirantes sequiosos de divulgar uma modalidade numa população que a abraçou com entusiasmo

Orientovar - Há um momento preciso, uma data incontornável na História da Federação Portuguesa de Orientação e que se reporta à sua fundação. Desse longínquo 19 de Novembro de 1990, que recordações conserva ainda hoje?

Camilo de Mendonça - Com quase 21 anos já passados, há muita coisa que foi esquecida. Porém, os factos mais marcantes conservo-os como se de há pouco se tratasse. A história da FPO é do conhecimento de muito pouca gente pois pertence à memória de um conjunto de pessoas que de uma forma directa ou indirecta estão na sua origem. A FPO foi sucessora da APORT (Associação Portuguesa de Orientação) e dissociá-las é impossível.

Aquilo que de mais gratificante recordo foram as inúmeras acções de divulgação ou formação levadas a cabo por todo o País, o contacto com pessoas oriundas dos mais diversos escalões etários e quadrantes profissionais e a inestimável amizade que perdura com imensa gente um pouco por todo o lado deste país. Funcionámos na altura como bandeirantes sequiosos de divulgar uma modalidade numa população que a abraçou com entusiasmo vendo nela potencialidades que lhe conferiam um estatuto muito próprio entre as modalidades já existentes.

Herdeira de uma prática até então exclusivamente militar, e denominada como de “corrida e orientação”, travámos dura batalha no sentido de lhe atribuir um nome que não sugestionasse à partida a necessidade de corrida e, por conseguinte, para além de poder desmobilizar quem eventualmente não gostasse dessa prática por um lado, por outro, castrante das inúmeras formas de prática subjacentes à modalidade (pessoas com deficiência, bicicleta, cavalo, pedestrianismo, etc).


Congressos


Pediu, assim, que formalizássemos rapidamente o pedido de adesão como membro da IOF para o que teríamos de nos constituir como Federação em Portugal

Orientovar - Que processos estão na génese do seu aparecimento como primeiro Presidente da Federação Portuguesa de Orientação?

Camilo de Mendonça - A APORT vinha desenvolvendo um trabalho de divulgação da modalidade não apenas no âmbito competitivo como também nas suas valências pedagógica, de lazer, profissional (ligada a bombeiros, P1 de terras, etc), de turismo e outras. Firmaram-se protocolos com diversas entidades destacando-se a então Direcção-Geral dos Desportos ( Profª Regina Mirandela da Costa) e o ISEF - Instituto Superior de Educação Física (Prof. Melo Barreiros). Fez-se uma Publicação para a DGD, escreveram-se artigos para a Revista Horizonte e organizaram-se diversos seminários de onde se destaca a colaboração com a Universidade de Coimbra ( Prof. Francisco Sobral) e muitos Municípios.

Nesta altura, reportando-nos a 1985, já a IOF - Federação Internacional de Orientação, cujo Presidente era na altura Lennart Levin, mantinha com a APORT uma relação que era de amizade, colaboração e de imenso interesse no acompanhamento do processo evolutivo da modalidade em Portugal. Faço aqui um parêntesis para afirmar que seria extremamente injusto não referir aqui o papel de Peo Bengtsson, Major sueco reformado que constituiu factor crucial neste apoio que nos deu mas que adiante referirei.

Em data que não consigo precisar, Lennart Levin contactou-me e relatou-me uma abordagem que teria tido na Suécia, por parte de quatro alunos do ISEF, quando da realização da prova “5 dias da Suécia”. Esta abordagem teve como objectivo comunicar-lhe a intenção de avançarem com a criação de uma Federação em Portugal. Esta situação era para ele incompreensível, pois nunca tinha ouvido falar deles, e preocupante porquanto poderia vir a complicar um processo que se vinha consolidando. Pediu, assim, que formalizássemos rapidamente o pedido de adesão como membro da IOF para o que teríamos de nos constituir como Federação em Portugal. Este incidente, associado à pressão que a DGD vinha fazendo no sentido de nos constituirmos como Federação tendo em vista o estabelecimento de Contratos-Programa com aquele organismo, motivou a criação da FPO e o consequente esvaziamento da APORT.

No final dos anos 80 existia outra Associação em Aveiro ( ANORT), um clube em Mafra e o Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação, em Almada, para além de poucos grupos desportivos que periodicamente aderiam a algumas actividades. Como à data era Presidente da APORT, acharam os demais membros que deveria ser eu a ocupar o cargo de Presidente da nascente FPO numa única lista existente. Recordo que na altura, mais do que uma estrutura sólida e organizada, pensava-se em continuar a semear para promover o aparecimento de clubes que dessem corpo a um futuro quadro competitivo para além da formação de técnicos que dessem suporte a estes clubes.




A profunda amizade que nos liga e a qualidade dos seus quadros contribuíram para que este processo fosse natural, empenhado e gratificante, do qual a Marinha saiu naturalmente prestigiada

Orientovar - Sendo o Orientação, nessa altura, uma actividade praticada exclusivamente por militares, como é que sentiu o processo de transição para a esfera civil e que tipo de resistências encontrou àquilo a que chamaria por “processo de desmilitarização”?

Camilo de Mendonça - Acho que o termo “desmilitarização” pode parecer um pouco duro no processo do aparecimento da Orientação no meio civil. A Marinha tem história no fomento de modalidades em Portugal e, nesta concretamente, tem um papel preponderante. Pode não ter sido por sua iniciativa mas foi certamente pelos quadros que lhe pertenciam e pelo apoio que nunca negou quando solicitado. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal porque acompanha o processo evolutivo da modalidade em todo o mundo, desde a vizinha Espanha até à Suécia (onde nasceu a modalidade) e onde o nome de Peo Bengtsson é, como Major do Exército, uma figura incontornável.

É óbvio que os conhecimentos de leitura e interpretação de mapas faz parte da formação técnico-militar do combatente. Assim aparece a Orientação integrada nos Campeonatos Militares do CISM (Conseil Internacional du Sport Militaire) e a partir de 1975 a primeira representação Portuguesa. Esta representação surgiu por selecções resultantes de campeonatos inicialmente inter-ramos e posteriormente com a adesão da GNR, Guarda Fiscal e PSP. Contudo as equipas eram constituídas por militares.

Foi a minha especialização em Educação Física, no ISEF, que me pôs em contacto com esta prática desportiva enquanto chefe dos Serviços de Educação Física nas unidades de Fuzileiros. Recebendo o serviço das mãos do meu grande amigo Comandante Lopes Pires mais sensibilizado fiquei com as potencialidades da modalidade. Este nome, conhecido nacionalmente pela sua postura como homem e militar, continua ainda com o entusiasmo com que o conheci em 1975.

Percebendo de imediato as potencialidades da Orientação, comecei a apostar nela integrando-a nos Planos de Curso de Formação na Escola de Fuzileiros e efectuei uma publicação técnica sobre a modalidade. A Marinha mandava os seus oficiais especializar-se em Educação Física no ISEF. Com esta decisão, para além de obter uma boa qualificação técnica dos seus oficiais, concorria para uma visão da Educação Física como concepção académica da sua prática. O contacto com os alunos da Faculdade promoveu ainda amizades e a consequente ligação a este estrato sócio profissional.

Começou, assim, a interacção com Escolas, Autarquias, Escuteiros, Bombeiros, Grupos Desportivos, etc., por iniciativa própria ou a pedido do exterior através da ligação que havia a militares que estavam lá dentro. Nunca houve qualquer resistência por parte das chefias. Pelo contrário, foram com frequência disponibilizados meios necessários à realização de muitas actividades.

Mas, para além da vontade, do conhecimento e da disponibilidade o grande segredo do sucesso deste grande “boom” foi sem dúvida a profunda ligação que na Marinha existe (e mais nos Fuzileiros) entre Oficiais, Sargentos e Praças. Independentemente da hierarquia que existe naturalmente no aparelho militar, possuem os Fuzileiros uma forma de estar que só assim foi possível este trabalho. A profunda amizade que nos liga e a qualidade dos seus quadros contribuíram para que este processo fosse natural, empenhado e gratificante, do qual a Marinha saiu naturalmente prestigiada. Conheci ao longo da minha vida militar os outros ramos e inúmeras pessoas pelas quais sinto o mesmo respeito e amizade e não quero ferir qualquer susceptibilidade, no entanto foi ocasionalmente na Marinha que se reuniram um conjunto de situações favoráveis a este arranque.

Apoio dos amigos cartógrafos suecos, Sven Kiborg e Rolf Anderson, durante uma actividade (I)

Apoio dos amigos cartógrafos suecos, Sven Kiborg e Rolf Anderson, durante uma actividade (II)


Foi uma época em que vencíamos todas as dificuldades motivados pelo ideal de ver nascer e crescer a modalidade sem quaisquer outros interesses

Orientovar - Como era fazer Orientação em 1990?

Camilo de Mendonça - Em 1990 já possuíamos alguns mapas de Orientação. Importa aqui referir que em 1983 o Campeonato do CISM realizou-se no Brasil. Face ao forte desnível que se fazia sentir da equipa Portuguesa para as demais e principalmente para as do Norte da Europa, foi decidido fazer uma pausa e enviar uma delegação que tinha por missão efectuar um relatório tendente a aconselhar um conjunto de medidas tendo em vista a evolução qualitativa das nossas representações. Esta delegação, composta por um oficial de cada ramo, e a que tive o prazer de participar, apontou para um conjunto de medidas das quais se destaca a elaboração de mapas de Orientação sem os quais seria impossível esse salto qualitativo. Com o apoio dos Serviços Cartográficos do Exército para a execução dos mapas e da equipa que iria ao CISM, elaborou-se um mapa em Aveiras de Cima. Contudo, o tempo que mediou entre a decisão e a realização do trabalho foi demasiado longo e surgiram entretanto outros mapas por nós realizados. Não querendo entrar aqui na História da Cartografia de Orientação em Portugal, referencio quatro exemplos que, estou certo estarem na sequência cronológica e devem figurar para a história.

- Mapa da Aldeia das Açoteias, no Algarve, efectuado por Finlandeses em Abril de 1981, tendo em vista objectivos de turismo.

- Mapa efectuado pelo Tenente Paraquedista Rui Antunes em 1984, tendo por base o mapa militar ampliado, implantando alguns caminhos e curvas de nível, bem como pintando algumas tramas relativas a vegetação. Foi um trabalho meritório para uma prova interna da Força Aérea.

- Mapa realizado por mim e outros fuzileiros pertencentes à equipa de Marinha em 1985. Este mapa foi efectuado tendo por base o regulamento da IOF e imprimido no Instituto Hidrográfico. É importante salientar as condições com que na altura se efectuavam os mapas, desde o trabalho de campo, ao desenho e à impressão.

- Mapas realizados pela equipa concorrente ao campeonato do CISM com o apoio dos Serviços Cartográficos do Exército em 1985 e 1986 em Alcoentre, Boa Fé e Guadalupe

Os mapas constituíram a base de desenvolvimento da Orientação no País. São uma infra-estrutura cara mas indispensável no processo evolutivo na competição. Para práticas não competitivas o seu grau de rigor não precisa de ser tão elevado mas continua a ser um instrumento importante de apoio a práticas de lazer.

A partir de 1985 começaram já os suecos, pela mão de Peo Bengtsson, a vir para Portugal para colaborar connosco no ensino e elaboração de mapas. Esta iniciativa tinha por base o apoio à modalidade, por um lado, e a criação de infra-estruturas de prática para o intercâmbio de grupos que vinham a Portugal num misto de turismo e prática de Orientação. Este processo resultou em pleno porque integravam esses grupos alguns atletas de nível mundial que participavam nas provas que íamos realizando. Destaco aqui os nomes de Sven Kinborg e Rolf Anderson, cartógrafos profissionais que apenas lhes pagávamos as passagens, o alojamento e a alimentação. Foi um esforço caro mas indispensável à elaboração de mapas um pouco por todo o País.

Colaborando com estas iniciativas, a Marinha facultou as suas instalações para a realização de um pequeno Curso de Iniciação à Cartografia. Posteriormente enviámos a Espanha uma delegação de diversas pessoas para a frequência de dois cursos na área da Cartografia e da Metodologia do Treino ministrados pela IOF. Este foi mais ou menos o início da modalidade no âmbito da formação. Entretanto, já com a Profª. Regina Mirandela da Costa, tínhamos ido à Suécia quando da realização da prova “ 5 Dias da Suécia” participar em “workshops” na companhia de Francisco Pereira, outro nome a não esquecer como atleta, amigo e entusiasta.

Contando uma história engraçada que vai perdurar na minha memória, recordo-me que tendo saído do Hospital de Marinha, onde estive internado após um acidente grave e na perspectiva de ter de retirar a pleura e com o braço esquerdo levantado e preso a uma armação, fui para as Gafanhas efectuar dois mapas com os dois amigos suecos que já referi. Como é costume neste processo, saíamos diariamente para o campo onde cada um efectuava o seu trabalho, encontrando-nos ao meio-dia junto ao carro para comermos uma bucha e falarmos um pouco. O pólen dos pinheiros parecia não me afectar mas o receio das consequências era bastante. Quando certo dia, num destes intervalos para comer, cheguei ao carro, já lá se encontravam o Sven e o Rolf que me disseram já terem bebido imensa água e muito fresca apontando para uma nascente ali perto. Como o carro estava parado junto a um cemitério fiquei alarmado com a situação e inquiri-os quanto a tão perigosa e bizarra ideia ao que eles me responderam ter sido por indicação de uma pessoa que estava ali perto. Fui ter com aquela pessoa perguntando-lhe se achava bem ter dado aquela indicação e ao que ele me respondeu de forma pronta : pois, eu sei que eles bebem muita mas não a bebem toda! Isto referindo-se aos mortos, claro está. Escusado será dizer que era o coveiro!

Mas final feliz teve a história em que nem os suecos adoeceram e a minha saúde teve uma recuperação fabulosa. Tendo ido ao pneumologista um mês depois, este deu-me os parabéns pela magnífica fisioterapia que tinha feito estando os pulmões praticamente limpos. Quem havia de dizer! A fisioterapia tinha sido no pinhal.

Regressando à questão que coloca, a modalidade estava já na altura, 1990, bem desenvolvida. Não tanto no plano estrutural mas nos conhecimentos que se possuíam relativamente aos métodos de treino, à organização de provas, à marcação de percursos e à elaboração de mapas. Os recursos eram escassos e numa fase inicial foram principalmente os nossos meios financeiros e os das entidades que íamos apoiar que possibilitaram essas acções. Já com a APORT, foi a Direcção-Geral dos Desportos que nos ia dando algum apoio. Foi naquele Organismo o entusiasmo, amizade e confiança da Profª. Regina Mirandela da Costa (“Peyroteo”, como gostava de ser chamada) que nos foi proporcionando alguma autonomia para prosseguir. Muito embora tivéssemos alguns Suecos que vinham a Portugal ajudar a fazer mapas, a estes tínhamos de pagar todas as despesas e, a outros, o trabalho. Tínhamos também de contar com a impressão. Nesta fase, pedi licença sem vencimento na Marinha para uma dedicação em exclusivo à modalidade.

O processo de desenho dos mapas não estava facilitado como hoje. Fazia-se tudo manualmente socorrendo-me de papel poliéster, rotrings, máscaras, decalques vários, etc. Se imaginarmos que a simbologia era a mesma, podemos calcular o trabalho que representava sem qualquer formação de base. Mas foi uma época em que vencíamos todas as dificuldades motivados pelo ideal de ver nascer e crescer a modalidade sem quaisquer outros interesses. Para além da aposta na formação de quadros no exterior e mesmo socorrendo-nos de técnicos internacionais que vieram a Portugal, como a grande acção realizada no Centro de Estágio da Cruz Quebrada, promovemos estágios de equipas de outros países como da Suécia, Suiça, Finlândia, etc. O intercâmbio turístico com base na modalidade foi uma realidade pelas mãos de Peo Bengtsson. Realizou-se em Monsanto o 1º Campeonato Ibérico de Orientação e fomentaram-se as relações com “nuestros hermanos” através destas provas e de cursos nas mais diversas áreas.

Mapa "A Machada", com foto (da esquerda para a direita) de Manuel Ribeiro, José Batista, Francisco Pereira e Camilo de Mendonça

Mapa de Rui Antunes

Mapa do Crasto, efectuado por Camilo de Mendonça quando no INATEL


A competição deve ser o resultado lógico do movimento gerado nas camadas mais jovens onde a Orientação deve ter início

Orientovar - Quando deu inicio ao seu mandato, quais eram as prioridades e de que forma levou por diante o seu projecto?

Camilo de Mendonça - Quando dei início ao mandato as principais prioridades foram o investimento no fomento de clubes, a criação de quadros técnicos, o estabelecimento de um quadro competitivo e a pacificação da modalidade. Este último ponto refere-se à necessidade de gerir e eliminar qualquer conflito resultante da ligação que alguns clubes tinham a diferentes ramos militares. É assunto que não gostaria de falar até porque “águas passadas não movem moinhos” e nada se adianta levantando fantasmas. Pelo meu lado tenho a consciência tranquila e possuo inúmeras amizades em todos os ramos com os quais sempre mantive as melhores relações.

Se lermos alguns dos inúmeros artigos que escrevi a respeito da modalidade refiro-me sempre à Orientação como disciplina com um potencial inigualável em diferentes domínios. A competição deve ser o resultado lógico do movimento gerado nas camadas mais jovens onde a Orientação deve ter início. Portanto, sempre vi no Ensino Básico uma prioridade de investimento, apelando às extraordinárias valências pedagógicas da modalidade. Assim firmaram-se protocolos com a então DGD para a formação de Professores, apoio a Férias Desportivas e organização de encontros entre jovens. Destas iniciativas destaco um encontro no Centro de Estágio de Lamego, com a participação de umas centenas de jovens de várias escolas do País. Foi uma bela organização tendo estas iniciativas esmorecido entretanto. Também o trabalho com deficientes teve início com a organização de um Seminário Internacional em Viseu, no Parque da Cidade.

Notícia no "Correio da Manhã" sobre o I Meeting Ibérico de Corrida Orientada


Em todos estes processos nunca estive sozinho

Orientovar - Quer enunciar dois ou três momentos-chave da sua Presidência e que guarda como as mais gratas recordações?

Camilo de Mendonça - Da minha Presidência quero destacar a primeira competição Ibérica, a realização do congresso da FPO no nosso País, o encontro em Viseu dos responsáveis da IOF da área de deficientes em simultâneo com uma formação, o intercâmbio com o INATEL na organização de provas e o esforço na área da Cartografia, promovendo a formação interna de cartógrafos.

Em todos estes processos nunca estive sozinho. Todavia, quando se indicam nomes que por esta ou aquela razão deveriam ser mencionados, corre-se sempre o risco de ferir a susceptibilidade de não mencionar outros que igualmente o merecem. Que me desculpem todas essas pessoas por quem nutro a maior amizade, e essas sabem-no, mas teria aqui num artigo pedido ser tão extensivo que não teria cabimento. Órgãos da FPO e da APORT, camaradas de serviço e projecto, colaboradores na retaguarda logística, etc são inúmeras as pessoas que, com assiduidade, tornaram possível este projecto. A modalidade está-lhes em dívida e eu pela amizade que me dispensaram. As nossas memórias poderão um dia ser escritas e aí haverá lugar a inúmeros episódios que são da nossa memória colectiva. O projecto desenvolveu-se naturalmente e não tem a assinatura de uma só pessoa mas um abaixo assinado de uma lista extensiva.

Workshop na área da deficiência realizado na Suécia 


Havia necessidade de se passar a uma nova fase na vida da modalidade e encontrar gente nova para lhe dar forma

Orientovar - Quatro anos volvidos, em 1994, portanto, deixa a actividade federativa. Fê-lo porque deu por concluído o seu projecto e chegara a hora da passagem tranquila de testemunho? Qual o seu estado de espírito ao abandonar a Federação?

Camilo de Mendonça - Penso que começava a sentir algum desgaste em paralelo com a necessidade de compensar a minha vida profissional e familiar. Foram anos de dedicação total a uma causa em detrimento de tudo o resto. O aparecimento de Higino Esteves, que me acompanhou durante algum tempo, parecia ser a solução de continuidade que surgiu naturalmente e que, para mim, penso ter sido na altura a solução que me parecia correcta.

Há que dizer que há tempo para tudo. Havia necessidade de se passar a uma nova fase na vida da modalidade e encontrar gente nova para lhe dar forma. Esse momento surgiu naturalmente e a modalidade continuou o seu caminho. Neste processo, repito que não vale a pena recordar o que de menos bom possa ter havido mas apenas o que de mais positivo aconteceu. É verdade que alguma ambição houve apoiada por grupos profissionais com uma visão diferente daquela que eu tinha da forma como estar na modalidade. Mas isso não é linear nem necessariamente mau, são apenas pontos de vista diferentes. Como já referi, sentia algum desgaste e a necessidade de acabar um capítulo e começar outro.
 A transição foi pacífica!




Para além da modalidade como competição pura, existe uma área muito mais abrangente e de acesso a todos que é a área do lazer

Orientovar - De que forma acompanhou a modalidade nos anos que se seguiram?

Camilo de Mendonça - Nos anos seguintes dediquei-me à modalidade nas áreas que eu, de forma isolada, poderia ser mais útil. Assim, integrando a estrutura do INATEL e já reformado da Marinha, organizámos alguns 'Opens' da modalidade. Convidado pela Câmara de Lisboa, estive durante dois anos a fazer formação de Professores do Ensino Básico e, efectuando os mapas da maioria das escolas da cidade, a promover o ensino da Orientação integrada nos currículos. Continuei a colaborar com inúmeras entidades que me pediam apoio e acompanhei o percurso da FPO.

Para além da modalidade como competição pura, existe uma área muito mais abrangente e de acesso a todos que é a área do lazer. Esta é a área, para além da pedagógica ligada ao ensino, para a qual me sinto mais motivado por estar associada a uma prática de lazer acessível a todos, independentemente da sua condição física.


Temos de saber qual o quadro em que nos situamos e estar na modalidade pelo gosto e não pela ambição da performance a nível mundial

Orientovar - Como avalia a Orientação portuguesa no momento presente e como perspectiva o seu futuro?

Camilo de Mendonça - Confesso estar neste momento um pouco fora da realidade da modalidade na sua prática Federativa. Sempre tive algumas dúvidas da performance a que chegaríamos em Portugal. Este cepticismo não está ligado à aptidão dos nossos atletas, que noutras modalidades o têm provado, mas tão somente às condições que temos, ao clima, às culturas, às mentalidades. Este é um problema de fundo que não pretendo ser desmotivador mas realista quanto ao nosso futuro na modalidade enquanto eminentemente competitiva. Os mapas são uma infra-estrutura cara, em permanente mudança, e sem os quais não pode existir competição. Onde estão o dinheiro e os investidores? A natureza da prática de Orientação dificulta a visibilidade e os espectadores resumem-se aos praticantes. Os praticantes são de uma forma geral pessoas que vivem em comunhão com uma forma de estar saudável, comedida, sem grandes consumos e, portanto, não deixando grandes gastos em potenciais investidores como restaurantes, hotéis, etc.

O nosso clima favorece o crescimento rápido de vegetação, ajudando não apenas à desactualização dos mapas por esse factor mas também pelos fogos que grassam por este país. O minifúndio e as culturas sazonais de natureza mediterrânica, não sendo um obstáculo sério, constituem preocupação na marcação de percursos que deve estar sempre presente pelo respeito pela propriedade privada. Por último, quero referir que o nosso clima ameno não suscita a apetência pelas práticas de ar livre com a mesma intensidade que ocorre nos países do norte da Europa. Meses de neve e gelo em casa e florestas perenes à porta são modeladoras de mentalidades e consciências difíceis de atingir no nosso país. A floresta constitui nalguns países uma riqueza ancestral e pela qual nutrem um respeito tremendo. O seu crescimento é lento e os mapas garantem períodos muito maiores na sua longevidade. Não quero com isto dizer que não vale a pena - até porque esta era a opinião quando comecei -, mas temos de saber qual o quadro em que nos situamos e estar na modalidade pelo gosto e não pela ambição da performance a nível mundial.


Julgo que não há pais que estejam arrependidos de ter gerado algo

Orientovar - Quando olha para trás, tem saudades daqueles tempos? Nunca se sentiu tentado a regressar?

Camilo de Mendonça - Sinto enormes saudades dos primeiros tempos da modalidade porque a abraçámos com um espírito difícil de igualar. As pessoas que conhecemos, as amizades que criamos, a satisfação que todos sentimos em estarmos a fazer algo de útil pela sociedade é algo que é inesquecível. A nenhuns pais escapa o gozo dos primeiros anos dos seus filhos. Vê-los crescer, fazer asneiras, educá-los melhor ou pior tudo faz parte. Mas são seus, têm os seus genes e os registos são sempre para recordar com saudade. Eles ganham autonomia, amadurecem, geram família maior, mas a infância é sempre nossa! Julgo que não há pais que estejam arrependidos de ter gerado algo.

Quanto a regressar, nunca pensei muito nisso. Houve tempo em que chegaram a desafiar-me para tal mas a altura para mim não era compatível. Neste momento, a não ser que a modalidade estivesse em risco de extinção e me desafiassem para colaborar, sinto que deve haver muita gente capaz de o fazer com vantagem e, como tal, fico na expectativa, sem contudo negar o meu possível apoio.


O único reconhecimento que procuramos é a satisfação connosco próprios e a consciência que nos move

Orientovar - Arriscaria a dizer que a esmagadora maioria dos actuais praticantes de Orientação, se questionados sobre quem foi o primeiro Presidente da FPO, responderia com um encolher de ombros. Sente mágoa por isto? Sente-se injustiçado de alguma forma?

Camilo de Mendonça - Não sinto qualquer mágoa for falta de reconhecimento. O único reconhecimento que procuramos é a satisfação connosco próprios e a consciência que nos move. É óbvio que existe alguma mágoa com algumas pessoas, mas isso são coisas do passado. São documentos como este que lhe mando da IOF, e inúmeros nacionais, que nos dão alguma satisfação e fazem esquecer comportamentos menos decentes ou leais.

Penso que a forma como nos dedicámos desde a primeira hora, os sacrifícios a que sujeitámos as nossas famílias, os prejuízos causados nas nossas carreiras, os recursos financeiros que aplicámos no projecto e principalmente todo o nosso esforço e entusiasmo, marcaram bem aqueles tempos e foram o segredo do rápido desenvolvimento da Orientação. Este é o sentimento que todos temos e para nós motivo mais que gratificante.


A Orientação é uma forma de estar na vida, não é uma coisa de que se fale mas que se vive intensamente na sua prática

Orientovar – Pedia-lhe que, neste dia tão especial em que a IOF completa 50 anos de existência, deixasse uma mensagem a todos os orientistas.

Camilo de Mendonça - A todos os Orientistas gostaria de deixar a seguinte mensagem : A Orientação é uma forma de estar na vida, não é uma coisa de que se fale mas que se vive intensamente na sua prática. Na sua génese estão associados valores intrínsecos a quem respeita a natureza e os outros para que, sem fanatismos, consigamos com o nosso exemplo contribuir para uma sociedade mais tolerante, respeitadora e solidária. Quando pratico Orientação aprendo a respeitar-me enquadrando-me no limite das minhas capacidades, aprendo a respeitar a natureza pelo palco de prática, aprendo a respeitar os outros; tanto aqueles que são parceiros de prática como os donos das terras que com o seu trabalho nos proporcionam esses cenários.

Ao amigo Joaquim Margarido o meu especial agradecimento por me obrigar a um esforço de memória e pesquisa que me fez sentir saudades de amigos que já há algum tempo não vejo.

A primeira acção de formação realizada em 1983 no Município de Carrazeda de Ansiães

Uma das inúmeras acções realizadas com a Escola de santo André (Barreiro), com o Professor Palaio, entre outros

No rescaldo de mais uma acção realizada com Escuteiros e Guias, com o amigo Francisco Pereira

Acção de Formação para professores em cartografia básica das escolas

Puro lazer numa das vertentes da modalidade

Acção realizada em Bragança com o grande amigo e colaborador Vital Afonso

Uma das acções realizadas com a Escola Profissional Bento de Jesus Caraça que durava uma semana em cada ano lectivo

Acção com professores, uma das muitas centenas por esse país fora

[Fotos e documentos gentilmente cedidos por Camilo de Mendonça]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

8 comentários:

Anónimo disse...

obrigado por este regressar a um passado que merece ser recordado por uns e conhecido por muitos

Parabéns ao amigo Margarido e um abraço muito especial ao Camilo.

Rui Antunes

Gino disse...

Obrigado Camilo por estas deliciosas recordações.
Foram muitos e gratos momentos vividos. Contigo muito aprendi e, acima de tudo, constatei a grandeza de carácter do Homem e Amigo Camilo de Mendonça.
Sempre senti e manifestei a enorme Honra e Privilégio que foi dar seguimento ao teu trabalho na organização e consolidação da Orientação Portuguesa.
Obrigado JM por mais este tesouro da História da Orientação em Portugal.
Um abraço com amizade,
Higino Esteves

Manuel disse...

Evocação lúcida sem ressentimentos ou ânsia de protagonismo. Um documento histórico. E também um monumento ao pionerismo dos bandeirantes de 80. As alegrias que sobretudo as selecções jovens nos têm dado nos últimos anos (veja-se o feito de Luís Silva hoje em Itália) não apagam a grata recordação que guardo do companheirismo no início da década de 90. Obrigado a Camilo Mendonça pela sua generosidade, honradez e competência. Na Suíça, Andreas Grote vai ficar feliz por saber da sua entrevista. Fala-me de si sempre que nos encontramos. Um abraço do Manuel Dias.

Armando Rodrigues disse...

Obrigado, pelo recordar de muitas situações vividas e pela maneira como colocou a modalidade à frente de muitas e muitas outras prioridades.

Graças a si, foram muitos os que fizeram da modalidade uma forma de vida.

Obrigado Cte. Camilo de Mendonça, bem haja.

PS. A quem de direito (FPO), para quando um "Troféu Camilo de Mendonça".

Saudações Orientistas
Um grande abraço
Armando Rodrigues

Dinis Costa disse...

O devir,
A mágoa é uma das maiores dores, para homens de boa/voa vontade, e a ingratidão a maior injustiça cometida contra tal gente;
É a desumanidade dos humanos: quem tem sede de protagonismo, nunca se embebeda de ganância, leva tudo à frente, até a memória é calada. Quem gosta de mandar é a causa primeira dos males da humanidade.
Obrigado (*) por ter(es) estado lá, na origem, e saberes o caminho das pedras.
(*) Tenho alguns amigos na Armada mas, o Francisco Pereira tem o meu alvará.
Um Abraço alargado aos demais

Octávio Andrade disse...

Gostei muito de ler este artigo com a visão de Camilo de Mendonça, de quem só conhecia o nome e pouco mais desde que descobri a Corrida de Orientação. É um belo testemunho pessoal da génese e nascimento da Orientação em Portugal e da FPO.

Embora a memória do passado esteja fora de moda, a história da coisas é importante e pode ajudar a perspectivar o futuro. De onde viemos, onde estamos, o que queremos e para onde vamos.

Seria interessante para todos os que se interessam pela Orientação, quer como uma forma de estar como refere Camilo de Mendonça, quer por lazer, quer como competição pura, uma iniciativa no sentido de se escrever de forma sistemática, organizada, documentada e independente a história da Orientação em Portugal e da FPO, desde a sua introdução no meios militares até à actualidade.

É um trabalho enorme mas que neste momento ainda pode beneficiar do facto de grande parte dos actores principais desta saga ainda estarem entre nós, podendo dar o seu testemunho pessoal dos acontecimentos e fornecer documentos que de outra forma ficarão perdidos, e permitindo às novas gerações e às menos novas, ter acesso a memória da modalidade.

Um grande bem haja a Camilo de Mendonça pela sua dedicação ao fomento da modalidade em Portugal.

Octávio Andrade

lipereira disse...

Retrocederia sem hesitar, três décadas atrás. Repetiria na totalidade, pelos amigos que na Orientação cultivei, pelos valores que sempre comunguei, pelos conhecimentos e ideais nela adquiridos e que ainda abraço, no fundo, por aquilo que em grande parte sou.
Um abraço para todos os que cooperaram para que este “retrato” - o mais simples e fiel sobre o aparecimento da Orientação em Portugal - fosse possível e para todos aqueles que continuam, por ela, a batalhar.
Para si Cte, OBRIGADO!
Francisco Pereira

António Neves disse...

Só para juntar ao acervo:
http://1.bp.blogspot.com/-Kd9_uoaXq7Q/TgxyjM-tbiI/AAAAAAAABpc/EuAdlRBZzug/s1600/essa1986.jpg
e
http://1.bp.blogspot.com/-URGNWfv_dHU/TeU5TSbV_UI/AAAAAAAABow/kw6quLmlh6o/s1600/bitmap.bmp

Qualquer destes mapas da Escola Secundária de Santo André já está desactualizado (devido à recente requalificação), pode ser que um dia o Camilo passe por aqui e queira fazer o "hat-trick" :-)
Abraço;
António Neves