domingo, 3 de abril de 2011

O REGRESSO DO "BERDADEIRO": OS BASTIDORES DO POM' 2011




No “regresso à calma”, Luís Pereira voltou a ter algum tempo para escrever. E que bem que o faz. Ao longo de duas Crónicas, o “berdadeiro” reflecte sobre os bastidores do POM' 2011, dando a ver muito daquilo que escapou aos sentidos dos que partilharam um tempo e um espaço dividido entre Alter do Chão, Crato e Portalegre. Vale a pena ler, para que se perceba a dimensão daquele que foi, indubitavelmente, um dos momentos maiores da Orientação portuguesa de sempre.


BASTIDORES DO POM'11 (I)

- “Saiam 180 quilos de massa, 1.900 sopas e 7.500 garrafas de água para a mesa do canto!”.

Ah pois é! Podem fechar essas bocas de espanto. Dar de comer e beber a cerca de 2.000 “galfarros” durante quatro dias, é uma tarefa considerável e só uma enorme “mesa” como a do “Comezainas”, poderia responder com o mínimo de eficiência, a tamanha solicitação.

– “Alto, esperem lá! Água? Afinal quem é que despachou a meia dúzia de barris de cerveja e as inúmeras caixas de pacotes de “tintol”? E onde páram as centenas de bifanas e cachorros, o milhar de hambúrgueres, quilos e quilos de fruta, paletes de “sumois” e pazadas de café, que desapareceram como por encanto? Sem esquecer os apetitosos salgadinhos e deliciosos docinhos, que foi um ar que se lhes deu.”

Reconheço, não querendo menosprezar os restantes elementos da Organização, que sem dúvida alguma, a equipa dos comes e bebes merece todo o meu apreço e elevados encómios. Por duas razões inquestionáveis. Primeira, porque trabalharam incansavelmente de sol a sol (de lua a lua) e segundo, se eu não os elogiasse, corria o risco de no próximo evento, não ter direito nem a uma sopinha azeda, hehe!

Eu poderia enaltecer igualmente, a azáfama do grupo dos madrugadores, que de frontal e mochila às costas, desafiaram as alvoradas, percorrendo quilómetros nos mapas, em stressante contra-relógio, a colocar os 370 pontos necessários sem qualquer margem de erro, para que ninguém cometesse “mp” por ausência do “laranjinha”. Foram tão amigos, que decidiram abrir as dezenas de passagens nas vedações, para que não houvesse pele esfarrapada, equipamentos destruídos e super veteranos empoleirados.

Ou realçar o papel dos controladores de trânsito e aparcamentos (o seu desempenho no Gamito e Entre Ribeiras foi deveras notável), verdadeiros engenheiros de espaços, que encaixaram umas largas centenas de veículos, onde apenas cabiam metade. Tendo ainda que dispor de um fair-play acima da média, de forma a aturar os queixumes dos que se sentiram penalizados, por terem chegado cedo e lhes ter sido indicado um estacionamento desadequado (eu também resmungaria, mas obedeceria contrariado, hehe!). Decisões de alguma maneira injustas, mas apenas por imperativos logísticos, não para os aborrecer com caminhadas desnecessárias (o que tem de ser, tem muita força).

Se o pessoal conseguiu estacionar (mesmo onde não queria), efectuar os percursos sem questões de pontos “fugitivos”, dar aos dentes com qualidade e quantidade, também ia tomando conhecimento dos tempos realizados, fruto do trabalho especializado, minucioso, irrepreensível e invisível dos peritos informáticos. Se não analisou os “splits” ou leu as classificações atempadas, com certeza consultou o facebook, o site do evento ou o ori-blog, para se inteirar das últimas novidades. Os mais atentos e interessados, provavelmente já tinham gerido as informações, que a actualizada e bilingue speaker ia debitando.

Alguém reparou, como em pouco mais de três horas e meia diárias, se “empurraram” para o terreno, mil e oitocentos participantes, de trinta e oito escalões diferentes, para percorrerem vinte e oito percursos, sem qualquer sobressalto, tudo na paz do Senhor, consequência natural de uma bem oleada máquina de partidas? Fazendo umas contas rápidas, sempre foram necessários organizar para cima de sete mil mapas e respectivas sinaléticas suplementares. É obra!

Todavia, se as complicadas e extensas listas de partidas, que foram alvo de “751” condicionantes, “64” restrições e “n+1” pedidos de alterações, não provocaram grandes reparos, apenas se deve ao profissionalismo e ranger de dentes dos “santos” programadores (não sabem dizer não!)

E por acaso, imaginaram as horas de trabalho (gratuito, saliente-se!) precisas, para colocar de pé todas aquelas magníficas Arenas e espectaculares zonas de chegadas? (mais uma hora de lavoura e entravam para o Guinness) Por falar em chegadas, não queiram saber quantas centenas de pacotes de bolachas digeriram, seus “monstros”! Nem ouso pensar nos panelões de chá consumidos, que até me dá ouras. Os aparelhos urinários devem ter ficado um mimo.

Gostaram das t-shirts? Encontravam-se devidamente ensacadas, não concordam? A guloseima dos “bollycao” caiu-vos bem? Espero que sim, porque ainda existe pessoal a sofrer de pesadelos (saco…t-shirt…água…bollycao…saco…t-shirt…água…bollycao…saco…).

Já agora, uma referência às simpáticas e voluntariosas “meninas” do secretariado, que durante os dias anteriores, fartaram-se de elaborar envelopes (para 405 clubes), tentando não atribuir nenhum peitoral errado e evitar que os participantes pagassem inscrições, que não lhes dissessem respeito (umas poliglotas de primeira linha). Controlar a contabilidade de todos os inscritos (exactamente 1.917!), oriundos de trinta e um países de três cantos do mundo (com um número de estrangeiros superior a 1.100), de maneira a que não faltasse qualquer euro, libra, rublo ou franco suíço, olhem que não dever ter sido nada fácil. Coitaditas! Nem abonos para falhas tinham.

Ainda por cima, foi-lhes atribuída a responsabilidade da conferência e custódia das medalhas, troféus e lembranças, num total de três centenas, a distribuir pelos premiados e entidades, peças de estanho e cobre devidamente cunhadas com os símbolos do POM e NAOM (caso do WRE).

Das meninas administrativas, para as de âmbito social. Durante os quatro dias, disponibilizámos amplos espaços para o “babysitting”, com o apoio de competentes e pacientes “educadoras” de emergência, que tomaram conta das criancinhas (vinte e tal por dia), para os papás e mamãs poderem desfrutar os mapas, sem correrem o risco de atascarem de preocupação.

Uuuah! Que sono…volto já.


BASTIDORES DO POM'11 (II)

Antes de prosseguir com a dissertação numérica e análise comportamental, quero fazer um pequeno parêntese, para dar uma explicação à comunidade orientista, sobre um assunto pertinente. Que fique bem assente, que o “berdadeiro” não teve qualquer interferência nos abastecimentos líquidos. Sei que houve água com fartura nos percursos longos (chuva não faltou), não havendo motivo para que alguém passasse sede, mas infelizmente votei derrotado nesta questão. Não permitiram o fornecimento de “minis” fresquinhas, ideia que eu defendi com unhas e dentes. Prometo que para a próxima, voltarei à carga.

Outra área que parece não se ter comportado mal, foi a que andou ao colo com os jornalistas, repórteres televisivos e fotográficos, proprietários, vip`s e demais convidados. Toda a gente que visitou o POM, recebeu tratamento digno e de acordo com a ocasião, pelos atentos relações públicas de serviço.

No que à comunicação diz respeito, até não nos podemos queixar. Nunca os média gastaram tanto tempo e papel, com uma prova de Orientação (entupimos diariamente os emails de dezenas de redacções, com “press releases”). Ver a “Bola” e “Record” a disponibilizarem uma página inteira e a “SIC”, “RTP” e “RTPN”, passarem vários blocos de imagens nos serviços noticiosos, tratando da nossa modalidade, para além de um milagre é uma estrondosa vitória.

Para a posteridade ficarão igualmente, as belas imagens captadas pelas objectivas dos “artistas” da fotografia, algumas, verdadeiras obras-primas de instantâneos desportivos, em plena comunhão com a natureza. Ainda nesta vertente, de evidenciar o notável trabalho realizado pela Localvisão, que acompanhou o evento desde a sua apresentação, com reportagens sugestivas, deixando-nos um esplêndido lote de vídeos, que no futuro poderão funcionar, como excelente meio de promoção e divulgação.

Contudo, há um pormenor que convém salientar, sobretudo, porque será porventura o mais relevante e decisivo. Toda esta festa não teria qualquer significado, se os terrenos apresentados para o desenrolar das provas, não reflectissem características de qualidade. O intenso e cuidadoso trabalho de prospecção das áreas de competição, que teve o seu início há mais de dois anos, foi o sólido alicerce, para que o POM`11 se tornasse inesquecível.

Sem mapas de excelência, não haverá prova de Orientação que resista. Os 7,789 km2 produzidos de novo e os 2,363 actualizados, deverão ser um bom exemplo. Estamos convencidos, que o nível técnico dos percursos foi do agrado da maioria e a filosofia da cartografia utilizada, não terá enganado ninguém. As opiniões que nos foram chegando dos mais variados quadrantes, atestam a nossa presunção.

- “Agora diz-me tu, seu sabichão. O que farias se os donos das herdades vos fechassem os portões na cara?”.

Finalmente a “vozinha” mostra a sua perspicácia. Na realidade, a boa vontade dos proprietários das Herdades do Gamito, Couto da Arnela, Entre Ribeiras e Coutadas, para além da receptividade da Administração da Fundação Alter Real, demonstrou ser crucial no desenvolvimento de todo o processo organizativo. Sem a sua colaboração generosa e desinteressada, conjuntamente com o apoio logístico e financeiro das autarquias envolvidas, Crato, Alter do Chão e Portalegre, o Portugal O`Meeting`11 não teria visto a luz do dia.

O que eles devem ter sofrido, rezando para que aquela turba, que vertiginosamente atravessava os seus domínios, não lhes causasse prejuízos nos muros e vedações, não provocasse algum enfarte numa vaca mais assustadiça ou impotência a um garanhão de linhagem. No dia 9 de Março, o seu respiro de alívio ecoou por todo o Norte Alentejano. Bem hajam!

- “Não estarás a puxar demasiado a brasa à tua sardinha? Quem ler isto, vai pensar que foi tudo um mar de rosas. Não houve falhas?”.

Claro que aconteceram alguns imprevistos, mas foram imediatamente solucionados, de maneira a não perturbarem o normal decorrer do evento. Desde um gerador que teve de ser substituído à última hora, por não dispor de potência suficiente, ao atascanço no lamaçal do auto-tanque dos bombeiros, que vinha encher os depósitos de água. Um inesperado furo, que atrasou uma carrinha carregada de material, destinado às chegadas do Gamito. O desentendimento entre dois bois de Entre Ribeiras, que quase impediram com a sua fúria, a abertura de uma vedação. Uma box “preguiçosa” que voltou a adormecer e gerou uma quantidade de falsos “mp`s”, até ser substituída com o máximo de discrição. O desaparecimento de um elemento característico associado a um ponto e… Enfim, um rol de problemas, que apenas não acontecem, a quem não se mete nestas andanças. No entanto, temos consciência que, por escassez de recursos, alguns sectores não funcionaram como desejávamos (um segredo que fica entre nós). Só que diz-se por aí à boca cheia, que o óptimo não existe na Orientação, portanto, estamos completamente tranquilos, hehe!

Em termos pessoais, resta-me acrescentar, que sinto um enorme orgulho, em pertencer à lista dos oitenta elementos da distinta família do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos (e alguns amigos), que compuseram a estrutura organizacional do POM, superiormente liderada por quem sabe. A vontade, a entrega, o empenho, a seriedade, demonstradas pela totalidade dos intervenientes, são dignas de um louvor orientista.

Foi uma experiência única, porém, demasiado desgastante. Certamente, que o sucesso alcançado é uma agradável recompensa e não deixa de ser gratificante, o constatarmos a satisfação da maior parte dos atletas, mas francamente, não apetece repetir a dose nos tempos mais próximos. Outros que se cheguem à frente.

Não pretendia particularizar ninguém em especial, mas acho que não seria justo, se deixasse passar em claro o trabalho inexcedível do supervisor. Apesar de não fazer parte do Clube (por acaso até pertence a um adversário), foi mais um elo importante em toda a engrenagem, demonstrando uma solidariedade e disponibilidade apreciáveis. O GD4C tem de estar-lhe inteiramente reconhecido (vou enviar-lhe uma proposta de sócio).

Uma mágoa trouxe, deste evento tão especial. A vertigem do momento foi de tal ordem, que nem dispus de um minuto de calma, para me lembrar de solicitar aos campeões Gueorgiou (com quem troquei umas breves palavras de circunstância) e Niggli, uma foto de família com o “berdadeiro”. Para o ano não lhes perdoo esta falta. Assim eles apareçam, lá para os lados de Viseu.

Oops! Desculpem, mas tenho de me ausentar. Fiquei encarregado de ir pagar os 200 quilos de carne consumida, depois de sair da fisioterapia, onde ando a tratar um lumbago, provocado pelo excesso de labor físico alentejano.

Eu vou aparecendo.


Luís Pereira
Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos

1 comentário:

Anónimo disse...

Li e deliciei-me.Estava mesmo a precisar de me moralizar um pouco nesta enorme solidão.
Magnífico, magnífico, magnífico.
(por motivos profissionais não pude estar presente na grande festa)
De algures onde me encontro, endereço os parabéns á organização, ao inimitável Luís Pereira e ao Joaquim Margarído e ao seu(nosso) Orientovar.
Já agora, Parabéns e desejos de muito sucesso no comando dos destinos da FPO, à recém eleita Direcção.
Até breve;
Rui Antunes