sábado, 30 de abril de 2011

ACÁCIO PORTA NOVA: "EU AINDA SOU DO TEMPO..."




( Desvarios de mente em demanda da orientação hermana – impressões de viagem)


1. Prelúdio
Pois é, eu ainda sou do vetusto tempo em que a 6.ª Feira de Páscoa (Paixão, no género musical que mais me enche as medidas de melómano amador) era o feriado cristão mais sagrado, em que um crente pouco mais poderia fazer para além de luto, penitência, ou abstinência, nomeadamente de carne(s). Em tempos de outra senhora, em que a separação entre secular e religioso era bem ténue, este agnóstico, que me prezo de ser, tinha imensa dificuldade em encontrar, nesta altura do ano, uma simples rádio que emitisse, pois até uma privada, como o Rádio Clube Português, se bem me lembro, aproveitava o dia para fazer o almoço de TODOS os funcionários da empresa. Quando, umas décadas mais tarde, descobri o desporto, lazer e prazer da Orientação, que eventualmente acabou por se tornar mais obsessão, é claro que procurava (e desesperava por) provas, em qualquer local ou calendário, que pudessem satisfazer a adição inoculada. Já nem me lembro de como chegou ao meu conhecimento (mas tiveram de decorrer mais uns lustros) que TODOS os campeonatos de nuestros hermanos se realizavam no mesmo fim-de-semana e, para minha estupefacção, de 6.ª Feira a Domingo de Páscoa, Semana Santa em que eu pensava que gente tão religiosa só teria em mente procissões, irmandades, irmãs e andores. Uma tentação insidiosa invadiu-me, então, a mente: se crentes podem praticar orientação na Páscoa, porque não um agnóstico como eu? É claro que teria de aliciar companhia familiar, o que nem sempre é fácil (ainda não consegui recuperar duma derrota esmagadora, a propósito da 1.ª prova de vários dias que o Ori-Estarreja organizou, há uns anos, em Agosto, precursora do Portugal “O” Summer 2009, “…sim, que férias são férias, Orientação é Orientação!”). Com a agravante de que a(s) prova(s) não teria(m) qualquer interesse competitivo, não contando, sequer, para o nosso ranking. E, então, com a crise galopante que enfrentamos, como justificar, no orçamento familiar, uma ida a terras de Espanha, quilómetros a perder de vista, com as concomitantes despesas de alojamento, alimentação, combustível, portagens, estacionamento, …? Valeu a aliança conjugal, incentivada por filial experiência recente da movida madrileña. E lá se tentou juntar o útil ao agradável, antecipando os campeonatos da Sierra de Horche (Guadalajara) com uns dias de turismo cultural na metropolitana Madrid, que já tínhamos visitado umas décadas antes, mas em Agosto, e que não tinha deixado as melhores recordações.


2. Courante
Por falar em juntar o útil ao agradável, um dos (muitos) defeitos que me acusam de ter é, exactamente, misturar tudo, tentar fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo, “meter o Rossio na Betesga”. Bem, uma (das poucas) qualidade(s) que não me podem negar é a capacidade de autocrítica, de reconhecer os erros que me mostram (quando me mostram) ter cometido, embora confesse hesitar amiúde entre dois ditados populares: “burro velho não toma ensino” e “aprender até morrer”. Isto quando já lá foi o meio século… Avante! Outro defeito, que há muito me tem sido apontado é o “peso” do pé no acelerador, pelo que decidi fazer uma resolução de Páscoa (sim, não me restrinjo às de Ano Novo, ainda no Carnaval fiz uma sobre Orientação, que, entretanto, olvidei), aliás sugestão filial: vamos tentar evitar as auto-estradas, não só poupando em combustível e portagens, mas também prevenindo as altas velocidades. Bom, ainda não tinha experimentado a conclusão da CRIL (mais outra obra de Santa Engrácia, em que somos especialistas), pelo que pensei em ir por lá, atravessar a Ponte Vasco da Gama e ir pela N4 até à A5 de Espanha, o que faria com que só pagasse a portagem da ponte em toda a viagem (de mais de mil quilómetros). O começo da viagem não foi promissor, com o sair mais tarde do que planeado (não é propriamente raridade), ter de voltar atrás para ir buscar o laptop esquecido (idem), haver acidente no nó de Pina Manique… Parecia que os deuses (ou os santos) não estavam pelos ajustes, quiçá natureza da época. Lá decidi fazer um parêntesis em relação à resolução e fui por AE até Espanha (CREL, IC16, CRIL, PVG, A12, A2, A6), mas cortando nas velocidades (tanto quanto possível, em 5.ª, não baixando de 90, mas sem ultrapassar os 110). É claro que isso e o “passar pelas brasas” da companhia dão azo a todas as divagações numa tão longa jornada, trazendo, à mente, problemas deixados para trás, em vez de favorecer a concentração nos desejáveis motivos da viagem: qual a melhor maneira de resolver os problemas do caruncho e dos forros da casa lá da terra, como dar a volta ao artigo de investigação em mãos… O que vale é que ainda não se consegue ler a mente (até quando?), senão já estava a “ouvir” (estava proibido de pensar noutra coisa, para além de turismo e Orientação). O que é facto é que só precisei de meter combustível perto de Trujillo e, quando fui calcular o consumo, deu-me um baque: após anos de consumo médio de 8.7-8.8 litros aos 100km, tinha gasto 7.1 (ao preço de €1.36, quando na A6 estava a €1.644). É claro que chegámos a Madrid já a anoitecer e, para não demorar, lá fomos ao habitual fast food. Tínhamos reserva para ficar no centro da cidade e avisos de que a circulação automóvel não era fácil, mas nada que nos preparasse para quase duas horas de cíclicas tentativas de leitura de extractos de mapas Via Michelin, pesquisa de pontos de ataque para largar as bagagens e de nomes de ruas, contornar placas de trânsito proibido e, quando tudo falhava, usar “portuñol” para obter esclarecimentos de algum local mais prestável, que dizia sempre que era preciso ir dar uma grande volta. Aí, veio à memória, não uma frase batida, mas experiência semelhante três décadas antes. Quando, já em desespero de causa e mudado o dia, se questionava se não seria preferível regressar a penates, uma recapitulação dos passos planeados em casa (A5 até ao fim, Paseo de Extremadura, Calle de Segovia, virar para a Calle de Bailén, virar para a Calle Mayor…) empeçava, mais uma vez, num túnel imperceptível no mapa, mas que, contornado, expõe um parque subterrâneo, aberto 24 horas e não demasiado longe do alojamento. Finalmente, uma luz ao fundo do túnel: aparcamos o carro e não se fala mais no assunto, até termos de ir para Guadalajara!


3. Movida
As sinergias prometidas pelo binómio útil/agradável tardavam em manifestar-se e uma vez que a bricolage das obras e o artigo não me têm deixado treinar, pensei, para com os meus botões, já que não tenho corrido, pelo menos, posso andar (e muito deverá ser), para podermos visitar os pontos de interesse previamente seleccionados. Além disso, também podia aproveitar o respectivo mapa turístico para treinar orientação (dobrando e orientando o mapa, assinalando com o polegar, memorizando troços entre pontos de interesse, etc.), embora o exercício nocturno da véspera não tivesse sido lá grande augúrio. Mas, com boa vontade, podíamos encontrar algumas atenuantes (aliás, como costumamos fazer nas provas que nos correm mal): era a conduzir e não a andar, os mapas não tinham o detalhe adequado, não havia luz suficiente e já vejo mal… Lá iniciámos o primeiro tour, visitando a Plaza Mayor (limpeza da noitada e cheiros de comidas e bebidas não são o melhor aperitivo para o pequeno-almoço) e o Mercado San Miguel (tapas e doces para todos os gostos), passeando pela Plaza del Ayuntamiento, Catedral de la Almudena, pelo Palacio Real (mesmo que tivéssemos planeado visitá-lo, as bichas ter-nos-iam demovido) e jardins circundantes, pela Puerta del Sol (sem esquecer a estátua do urso e do medronheiro), pelos Museus Thyssen e do Prado, terminando no Parque del Buen Retiro. Aqui, a subir umas escadas junto da Puerta Felipe IV (pois, o terceiro e último de Portugal), comecei a sentir uma dorzita, picadas e formigueiro numa parte da anatomia que não me lembro de me ter incomodado antes (junção da coxa e nádega esquerdas) e pensei, será que estou a arranjar uma ruptura antes das provas? Na verdade, já devíamos levar um ror de quilómetros nas pernas, e a nossa menor juventude também desaconselhava abusos ao físico, até porque a barriga já andava a dar horas… Assim, lá começámos uma deriva sueste, pelo parque, doseando o esforço, em demanda, não dum qualquer preste joão, mas dum recanto que nos pudesse reconfortar o estômago e aliviar o físico. Ainda passámos junto duma estátua sui generis numa rotunda do parque, a Glorieta del Ángel Caído (Lucifer), em torno da qual patinava, incessantemente, uma fisionomia semelhante à minha, ambos os braços levantados, como em adoração, na mão direita uma garrafa de água (seria?), na esquerda não me lembro o quê (um bloco, papel?), auscultadores nos ouvidos (qual seria a música?), um transe de felicidade no rosto e que, a certa altura, começa a ler poesia (ou a discursar?)… Não sei porquê, veio-me à ideia o Luis Buñuel (bem, a perspectiva da estátua também incitava a conotações sobre a orientação sexual do anjo). Enfim, uma alma caridosa, inquirida, lá nos indicou o Arroz y Café, próximo do parque, onde retemperámos forças.

Na segunda parte deste primeiro tour, concluímos o passeio pelo parque, visitando a Rosaleda, jardim com imensa variedade de rosas, o Palacio de Cristal (com uma instalação vertical de alguidares, cestas e outros objectos de plástico, pertença do Museu Rainha Sofia, que iríamos visitar no dia seguinte), passando pelo Palacio de Velázquez (com um exemplar duma árvore muito especial, Tejo, a leste, protegida por uma cerca de madeira – com um nome destes, em espanhol, não podíamos deixar de a ver) e o Monumento a Alfonso XIII, para além de outras estátuas, lagos e espécies de árvores. Os pontos seguintes eram a Puerta de Alcalá e a Fuente de Cibeles (onde os merengues iriam celebrar a conquista da Taça do Rei). De frente para o Banco de España, as mazelas físicas forçaram-nos à rendição e lá mergulhámos nas entranhas da Terra, para fazer, de Metro, o percurso até à Plaza de España, onde nos aguardavam, hirtas nas suas poses perenes, as figuras sem dúvida mais famosas desta região, Don Quijote e Sancho Panza, bem como o seu criador, Miguel de Cervantes. Para concluir o tour, já só faltava o Templo de Debod, sito no Parque de la Montaña, e que confesso ter sido uma das maiores surpresas desta viagem. Quem esperaria encontrar, numa das colinas mais altas de Madrid, miradouro de grande parte da cidade, do Palacio Real à Casa de Campo (espécie de Monsanto), um templo egípcio? Não, não é a imitar, é mesmo verdadeiro. Lá tive de ler a história... Eu já tinha visto, há muito tempo e por mais de uma vez, documentários sobre o salvamento dos dois templos de Abu Simbel, em meados do Século XX, que iriam ser inundados pela construção da Barragem de Assuão, no Nilo, e que, por iniciativa da UNESCO, foram desmontados e reconstruídos numa posição mais elevada. O que não sabia era que o governo egípcio tinha retribuído, oferecendo monumentos a vários países, cabendo o Templo de Debod a Espanha. A visita vale bem a pena e é gratuita, mas é preciso esperar, porque não é possível ter muitas pessoas no interior do templo. Enfim, um interregno para um merecido repouso num banco de jardim e a descida para a Praça de Espanha, ainda a tempo de captar um casal de melros a namorar, um numa árvore e o outro (o macho?) num candeeiro. Lá subimos parte da Gran Vía, imperdível para os amantes de compras, arquitectura ou gastronomia (ainda pensámos experimentar as tapas, mas o almoço algo tardio tinha sido demasiado substancial), virámos para a Plaza de Santo Domingo (onde decorria uma feira de artesanato) e descemos para o hotel. Desta vez, não houve grandes percalços com a orientação, apesar do mapa (turístico, disponível no hotel) não ser excessivamente detalhado, não tendo de deixar os nossos créditos (de especialistas em orientação urbana) por mãos alheias. Uff! Lá acabou o tour... E já não era sem tempo, pois, mal entrados no quarto, desaba uma carga de água e trovoada que, a ter-nos apanhado “em digressão”, iria vacinar-nos para viagens madrilenas por bastante tempo. Antes de concluída a jornada, para vale de lençóis, ainda nos dá apetite para gelado, de preferência italiano e não muito longe, que a tempestade já tinha passado, mas ainda choviscava. Opinião de habitué, funcionário do hotel, leva-nos, mais uma vez, à Porta do Sol, onde o apetite é satisfeito, mas não a curiosidade sobre a localização do Café San Ginés, com fama de melhor servidor do tradicional pequeno-almoço (seria por ali, mas não sabiam ao certo). As dúvidas parecem desaparecer com a pergunta dum casal espanhol, com duas criancinhas: afinal, não é café, é a famosa Chocolatería San Ginés, Calle de Arenal abaixo, terceira rua à esquerda. Pois é, a hospitalidade e prestabilidade de nuestros hermanos deixa muito a desejar em relação à nossa. De qualquer modo, eu tinha um interesse especial nisto, porque não queria sair de Madrid sem provar o típico desayuno de chocolate com churros. Ficaria para o dia seguinte…

Guardado estava o melhor bocado para o último dia em Madrid, que a prova começava no dia seguinte e era essencial poupar as maltratadas pernas: ver o Guernica, retido em Nova Iorque, enquanto Franco foi vivo, e que os espanhóis custaram a reaver, mas motivo principal para visita ao Museo Reina Sofía. Contudo, ainda havia alguns preliminares a cumprir: chocolate com churros na Chocolatería San Ginés, abastecimento de sortidos de bolinhos secos em La Cure Gourmande (encostada à Plaza Mayor), check-out no hotel, descarga das bagagens no bólide (ainda no parque subterrâneo, sempre quero ver a conta…) e Metro até à Estação de Atocha (junto à estação ferroviária, alvo do sangrento atentado de há 7 anos). A bicha (será fila?) para a bilheteira dava a volta ao largo frontal à entrada do museu (com dois elevadores panorâmicos em simetria), mas não seria isso, nem a chuvinha intermitente e chata que nos iria demover do nosso objectivo! O preço (€6) é uma pechincha, para tamanha ingestão de cultura: quatro pisos no edifício principal (Sabatini, arquitecto do Séc. XVIII), mais o anexo da expansão recente (Nouvel, arquitecto contemporâneo). Como já sabia que não iríamos conseguir digerir tudo, perguntei pelo local da colecção permanente e mandaram-nos para o piso dois. No elevador panorâmico, a apreciar a vista, reparei que a colecção permanente estava espalhada por vários pisos, mas imaginei que os funcionários já sabiam ao que vinha a grande maioria dos visitantes (e não estava enganado, é claro que o Guernica estava mesmo no piso 2). Já vi muitas reproduções deste quadro, para além de documentários sobre o contexto e pintura do mesmo, mas nada consegue reproduzir o impacto duma tela de mais de três metros por quase oito, pintada sob a influência das notícias da destruição da cidade basca por bombardeiros alemães, durante a Guerra Civil Espanhola, mas a ensaiar para a Segunda Guerra Mundial, que começaria poucos anos depois. Também me surpreendeu o poder admirá-la a três ou quatro metros de distância, apesar de actos de vandalismo recentes sobre este tipo de obras fundamentais do património da humanidade. Só pela observação desta obra, já valia a pena a visita, mas poder apreciar outros trabalhos preparatórios de Picasso, bem como outras obras (desenhos, pinturas e esculturas), dele e contemporâneos, espanhóis (Miró ou Dali) e não só… Além disso, também havia outras salas, com projecção de filmes ou documentários, por exemplo, sobre a Guerra Civil ou da filmografia de Luis Buñuel (estou a ver que o “maduro” da rotunda do anjo caído era premonição). Escusado é dizer que nem o piso 2 conseguimos ver na totalidade (tínhamo-nos imposto uma hora de saída). Ainda fomos ver o que se podia comer no café/restaurante (Edificio Nouvel), mas não havia nada de jeito, pelo que almoçámos nas redondezas, ainda comprámos uns rebuçados, apanhámos o Metro para o parque, pagámos (quase metade da conta do hotel) e pusemo-nos, finalmente, a caminho (ala, que se faz tarde) de Guadalajara, para o verdadeiro leitmotiv desta deslocação: experimentar os Campeonatos de Orientação de Espanha de 2011.


4. Entr'acte
Pronto, eu confesso! A saída para Guadalajara não foi, assim, tão imediata quanto isso (quem me conhece, minimamente, já imaginava que iria tentar encaixar mais alguma coisa no programa – que diabo, Guadalajara fica a menos de 60km, por auto-estrada, e havia anelo filial por memorabilia merengue, que, afinal, era piada, e a confiança, dada pelo treino pedestre com o mapa turístico, estava em alta). Abreviemos: teria que ir visitar o Santiago Bernabéu, provando-o com alguns instantâneos. Mais um mapa turístico, menor escala para caberem os rivais (mais o Vicente Calderón), localização numa enorme avenida (Paseo de la Castellana), facilmente acessível a partir da Plaza de Cibeles, está feito: é de dia, o trânsito há-de ser mais permissivo, saio do parque direito à Calle Mayor, Puerta do Sol… Qual quê!? Cortado na mesma? Bom, lá temos de contornar por onde nos deixam, Madrid antiga, o que vale é que o “reconhecimento” (de carro, na chegada, e a pé, no tour) já permite reconhecer alguns locais e ruas: OK, isto vai dar à Plaza Santo Domingo, sai de lá uma rua que atravessa a Gran Vía (ora bolas, não se pode virar à esquerda, lá temos de contornar outra vez o emaranhado de ruas, ruelas e becos, com os malfadados sinais a proibirem o óbvio)… Sem saber lá muito bem como, fomos parar à Gran Vía e na direcção certa; pois, cá está a Calle de Alcalá, a Plaza de Cibeles, deixa ver como saio da rotunda, estrada larga (estes espanhóis muito poupam em placas, que diabo, podiam ser mais explícitos)… Espera aí, isto não se parece com uma avenida larga, mais com um IC19 cá do burgo e, de conhecido, só me aparece Coruña nas placas… O quê, A6 directo à Coruña? Bem, eu tenho boas recordações da prova de há uns anos (das poucas em que venci amigo e émulo), mas não é para lá que quero ir – toca a sair! Lá vai mais outra consulta aos mapas, cada um mais esclarecedor que o outro, que isto de relocalização até é mais fácil no mato, ao contrário do que eu pensava. Como vem em qualquer manual de orientação, o melhor é inverter a marcha e regressar ao último ponto conhecido (Cibeles), tentando não entrar nas circulares (CRIL/CREL) lá do sítio (M30/M40); lá está aquele edifício com as duas torres inclinadas e mais uns arranha-céus, deixa evitar estas placas a mandar-nos para a “M…”, acessos e mais acessos, e não é que parecemos estar a andar para nordeste (pois, Cibeles ficava para sueste, e eu que pensava que os erros de 90, 180, 270 ou 360º, paralelos estes, eram exclusivos do mato – lá está, “aprender até morrer”).

Pois é, apesar de todas as minhas boas intenções (o que é que está mesmo cheio delas?), lá estávamos nós na M40, a dar a volta ao bilhar grande (é mesmo!), não, não quero ir para Burgos, também dispenso Barajas, não vou apanhar nenhum avião, desisto, eu quero mesmo é ir para Guadalajara, deixa ver se não deixo escapar a A2, é na direcção de Zaragoza, não quero voltar ao centro…Pronto, cá estamos nós! Agora, é sempre em frente e o hotel até fica junto da auto-estrada, é capaz de não ser a primeira saída, pelo que vi no Google, o que chateia são estas obras todas, deixa manter a velocidade de cruzeiro...


5. Plat de résistance
Quase perfeito! Saímos no segundo nó, falhamos a saída da rotunda, também não faz mal, contornam-se as obras, cá estamos na Calle de Toledo, olha, o hotel é aqui mesmo. Toca a perguntar se há mapa da cidade e onde fica o pavilhão que é o Event Center; pois, há vários, como é que se chamava a avenida? El Vado? Isso mesmo, numa urbanização nova, Aguas Vivas, como é que lá se chega? Und es wird Licht! Já me lembro, a minha resolução de 2.ª Feira de Carnaval era que não tornava a perguntar onde é que estávamos, mas isso é em prova, no meio do mato. ‘Tá no papo, é só voltar à Calle de Toledo, seguir sempre em frente, passando por vários monumentos e jardins, virar à direita na Plaza de los Caídos, atravessar o Barranco del Alamín e seguir em frente na rotunda. Pois, e os centros históricos, ruas estreitas, sinais de proibição… Vira o disco e toca o mesmo, contorna-se onde se pode, tem de se atravessar o rio, cá estamos, rotundas e arruamentos, há muitos, casas, nem por isso, pavilhões, muito menos, é claro que não passámos na ponte certa… Mas, será que não há setas, ninguém ouviu falar na prova, ninguém conhece, sequer, a Avenida de El Vado? Uma senhora menos jovem lá nos indica, finalmente: é só seguir na direcção em que parámos o carro e, na primeira rotunda, virar à esquerda (grande coisa, o “portuñol”!).

Aqui está a polícia local, mais uma rotunda (não sei quem copiou quem, mas a Ibéria deve bater records de rotundas e estátuas por esse mundo fora) e, já não era sem tempo, o pavilhão do Event Center (as setas de Orientação serão invenção “tuga”? Foi coisa que não vi nesta viagem). Lá paguei, recebi dois peitorais por pessoa (porque diabo os de sprint seriam diferentes?), perguntei pelo local da prova e, surpresa, oferta duma edição vernácula do Don Quijote de la Mancha, em dois tomos (é só um por família). Já que tudo estava concentrado no pavilhão, resolvemos aguardar pela cerimónia de abertura (não é muito frequente ter pontualidade para isso) e tenho de confessar que nos sentimos completamente em casa: “atraso académico” (37 minutos), aparelhagem sonora ininteligível e com volume excessivo, informalidade (poucas selecções das regiões autónomas com equipamento oficial, muitas criancinhas, nomeadamente do País Basco), espectáculo (modesto, mas honesto) de ilusionismo (vá lá, que dispensava diálogos), as habituais autoridades oficiais (de ranking não muito elevado), escassa assistência…

6.ª Feira de Páscoa, dia de distância longa, estacionamento próximo da arena, a não ser que estivesse tempo de chuva (e estava, lá isso, estava), podendo ter de se estacionar ao longo duma estrada de acesso e caminhar mais um par de quilómetros. E será que dávamos com o sítio, sem setas? Estrada N-320, direito a Cuenca, saída ao km 259, mais 2km de via de acesso para passar um viaduto e voltar a mesma distância, mas agora num caminho de terra batida. Sem espinhas, da estrada nacional via-se a arena, sai-se para a via de acesso e… Vislumbra-se a bicha de carros até ao viaduto, que tudo (caminhos e terreno, de caliça e argila) estava enlameado e com tendência para piorar. As perspectivas não eram famosas: 3 a 4 km (e fomos dos primeiros a chegar) de caminho de lama e charcos, lama que se colava às solas, fazendo, dos ténis, botas (espera aí, onde é que eu ouvi queixas de metros de lama no caminho do secretariado para a partida?). Bom, não esquecer que, outra parte, da resolução já citada, era a de ter uma atitude construtiva, procurar os aspectos positivos e aproveitá-los (carpe diem). Realmente, se estivéssemos em casa, este cortejo de “orientistas” (the name really sucks) já estava todo era a tentar atravessar a estrada, apesar das redes de separação, dos elementos da organização e do perigo de atropelamento (para não mencionar os princípios cívicos que deveríamos seguir). Pois é, volto ao carro, que me esqueci de algo, e lá está um grupo de meia dúzia de nuestros hermanos (representativo, incluindo mulheres e crianças) a inclinar uma vedação, a tentar achar um hiato entre as passagens de carros e a inclinar a outra vedação – ainda são capazes de encurtar quase um quilómetro!). Com isto tudo, tive de correr para conseguir apanhar a cara-metade ainda no viaduto e partilharmos mais de 2 km no tal caminho de lama. Chegados à arena, toca a procurar a pré-partida (um já atrasado), mais quase um quilómetro até à partida, sempre a subir (75 metros de desnível), com as solas a perder lama num troço, para a recuperar logo a seguir. Bom, é a minha vez, espírito positivo, lembra-te das resoluções; viro o mapa, OK, procurar limite de vegetação, manter a cota, há-de ser a segunda reentrância, não deve ser muito nítida… Devia ser para aqui, olho em volta, uns 20-30 metros às 10 horas, vejo uma baliza, será? Era! Já me sinto mais reconfortado, deixa ver o segundo ponto… Não acredito: mais de 1 km, predominantemente a subir (o que não era, era para descer por causa de reentrâncias perpendiculares, para depois subir um pouco mais), sem a alternativa “inteligente” de manter a cota (e perder direcção e aumentar a distância). Bom, deixa-me ir a meio termo, ora a direito e sobe-e-desce, ora a manter, reconhecendo alguma reentrância mais profunda, ou algum caminho que se veja – em último caso, não me há-de escapar a última, bem grande, com clareiras e antes da elevação onde está o monte de pedras, no meio dos verdes (onde é que eu já ouvi isto?). A reentrância, encontrei-a, o monte foi mais complicado (havia muitos, o meu era o último, já a descer, mas, não sei porquê, dou comigo a lembrar-me da controvérsia acerca da cartografia nórdica (subjectividade, feeling, elemento mais significativo…): 22m25s! O terceiro é fácil, pedra entre muitas, mas junto a uma colina, azimute, menos de 200m e já está: 1m52s. O quarto pode ser pior, pedra no meio duma encosta, descer para apanhar o caminho e tentar subir o esporão certo (não foi, havia muito mais pedras e montes do mesmo, para não falar em balizas que não eram as minhas) – lá tive de ir à catching feature, caminho onde havia um ponto de água, que me reanimou, após o que fui ter ao ponto sem mais problemas: 13m33s (uns 300 metros). O quinto também podia ser manhoso, é melhor não inventar: voltar ao caminho, seguir até à curva com o monte de pedras, azimute grosseiro para o esporão antes do ponto, em floresta limpa, manter a cota, mais uma pedra em esporão – cá estou, penso eu, depois de atravessar vários verdes – será para cima? Era para baixo, mas, vá lá, não foi muito mau: 7m25s (600 metros?). O sexto também poderia ser complicado: uns 800 metros, pedra numa reentrância não muito nítida, entre verdes… O melhor é sermos conservadores: subir até ao estradão, acompanhar dois troços, sair para a encosta quando começar a descer, azimute grosseiro até ao topo do monte, reconhecer a pequena colina, ou as pequenas depressões… Não, depressões há demais, deixa ver é se descubro o colo, azimute até ao ponto - bom, podia ser pior: 16m34s (que o diga o nosso amigo Roy Dawson, que fez 45m34s). Para variar, o 7sétimo parece fácil: uns 200 metros, azimute e há-de aparecer uma reentrância que conduz ao ponto, mais uma pedra (2m18s). Já o oitavo volta a parecer suspeito: 250 metros, terreno pedroso, limite, junto a clareira… Ora, um homem é um homem e um gato é um bicho! Manter a cota, identificar o esporão certo e subir, procurando o tal limite/clareira… Escusado é dizer que me veio, mais uma vez, à memória, a questão, candente, da cartografia nórdica (porque seria?). Alguém disse que a OIrientação era uma espécie de “caça ao tesouro”, mas eu discordo, sou contra o esconder pontos e o omitir detalhes (os mapas deviam ser tão exactos quanto possível). Também havia lá mais gente, à procura do mesmo, mas eu lembrei-me das resoluções e disse: ou encontro o ponto sozinho, ou vou-me embora. Como não o tinha encontrado a subir, toca a descer para um caminho (mais outra catching feature), já a preferir não o encontrar, porque teria de voltar a subir e a chegada era mesmo em frente, sempre a descer. Ora bolas, quando a gente não quer, é que os encontra! Pronto, vamos lá ver se há a tal pedra na curva, parece que sim, azimute e toca a subir, mais do que esperava, o limite parece elástico, há sempre mais umas pedras, lá está uma baliza, é mesmo a minha (espera lá, e o limite? E a clareira? Já sei que sou míope e presbíope, mas algo está mal, ou no mapa, ou no terreno): 16m52s. Deixa ver o resto, só faltam dois pontos… Será que estou a ver bem? Isto é tudo a descer? Mas parecem umas largas dezenas de metros (vejo, agora, que deverão ser uns 150 metros a descer). O nono é mais uma pedra? Podiam ter variado um pouco, mas, ao menos, é numa encosta acentuada, num limite de vegetação… (200 metros, 4m13s). Bom, já só falta o décimo (200 metros): a direito, parece íngreme, mas já não tenho “pachorra” para mais, toca a “scuar” (até a t-shirt térmica, por baixo do fato de orientação, ficou cheia de lama). Sprint final (100 metros?) em velocidade alucinante: 49 segundos!

Por deformação “profissional”, poderia ousar avaliar a prova, o que nunca fizemos em relação a provas em Espanha, mas não é esse o meu objectivo: é mais uma sessão de psicoterapia, em despejar o que temos cá dentro, à falta de divã, até pode ser que sirva de catarse. É um facto que a prova era muito dura (relevo, tipo de terreno, condições climáticas) e que a minha preparação física anda pelas ruas da amargura (pelo que já referi atrás). A questão das setas, que não existiam, ao contrário de Portugal, também é discutível (o que nos disseram era suficiente para chegar aos locais). Mas, fazer três campeonatos (longa, estafetas e média) no mesmo mapa, tendo que os recolher e só os devolvendo no Domingo (o que me obrigou a escrever parte destas notas de cor, outras recorrendo-me do RouteGadget), é coisa que penso que já não se usa… Sim, porque embora muitos me considerem discípulo do Masoch, mal acabei a prova, decidi que era a primeira e última naquelas circunstâncias (o que a parceira subscreveu, convictamente).

Com mais esta resolução, só teríamos compromisso (desportivo) no dia seguinte, Sábado, às 16:00, para o sprint, em que até costumamos ter bons resultados, (mais ou menos) independentemente da forma física. Pudemos, pois, no resto do tempo, programar e usufruir dum programa social alternativo, à falta dum previsto pela organização. Guadalajara também não é muito grande, pelo que, recorrendo ao bólide (com quase 12 anos, 300.000 km e muitos maus tratos em cima), para não agravar mais o físico, lá nos passeámos por mais alguns monumentos e jardins: Panteón de la Duquesa del Sevillano, Fuerte de San Francisco, Plaza e Puerta de Béjanque, Concatedral de Santa Maria e Torreón del Alamín, Iglesias de San Ginés e San Nicolás, Palácio del Infantado, Plaza de los Caídos… À volta do Fuerte, um conjunto de ruas com conotações em relação à actual situação financeira do (nosso) país (e não só): ruas ou travessas de Portugal, Irlanda e Grécia, para além de estarmos em Espanha (Spain, não é verdade?), ou seja, os malfadados PIGS! Também se aproveitou para, finalmente, provar mais um pitéu gastronómico, as tapas, com duas Cervecerías que vale a pena experimentar (a Minaya e a Cañas y Tapas). Na 6.ª Feira, à noite, depois de cenar, vimos muita gente espalhada pelas ruas e tivemos curiosidade em ver o que seria: com algum atraso (soubemos, depois, que deveria ter começado ás 21:00), começou a Procesión del Silencio, a mais importante da Semana Sagrada, com o desfile das várias Cofradías e Hermandades, trajadas a rigor, a transportar os andores com a Paixão de Cristo, grupo de tambores no início e banda no fim, com o som duma espécie de castanholas a sinalizar o recomeço da marcha.

Enfim, no Sábado, lá fomos fazer a prova de sprint, no centro de Guadalajara, pré-partida no Event Center, partida junto ao rio: ao contrário do que é habitual, não estava muito para aí virado e, mal comecei, vi que ia ser duro, já me estava a custar correr e (ainda) estava praticamente em plano. Os dois primeiros pontos eram em escarpados, em lados opostos do rio, lá fui ao primeiro, era muito inclinado e os ténis normais não davam grande aderência; controlei, atravessei o rio, vi a saliência do paredão, subi para o escarpado, vi sair a parceira mais à frente, há aqui um verde, baliza, controlo e vou. O terceiro já implicava subir para a ponte pedonal, não vi o acesso, vai a direito pela encosta e salta a vedação (o que vale é que não está marcada como intransponível, senão era motivo de desclassificação), contornar o edifício e já está. Para o quarto, não se pode atravessar uma rua quase sem trânsito, toca a desviar para passar na passadeira, lá está o agente, é voltar para ver que toda a gente fez gato sapato da proibição. Até ao sétimo, não há história: é contar ruas, contornar edifícios e localizar a baliza. A chegar ao sétimo, que forçava descida numa escada em caracol, vejo um dos (rivais?) que tinham ignorado a proibição de atravessar a tal rua, que sai para onde eu tinha pensado ir. É claro que vou pelo outro lado, mas reencontramo-nos quando regresso à rua e, quando ele vira à esquerda para se dirigir ao jardim, eu viro à direita, mais descansado, porque, afinal, não deve ter o mesmo percurso que eu. Espera aí, onde é que eu estou? Isto parece um parque de estacionamento e, ainda por cima, nem está marcado no mapa. Como é que descalço a bota? Bom, deixa-me voltar atrás e tentar localizar-me (by the book): rua, rotunda, mas onde é que está o raio do jardim? Será que é aquilo? Mas, como é que ainda estou tão longe? Pois é, afinal também consigo sacar coelhos destes da cartola, sem ser no mato. O jardim é mesmo ali, vamos é despachar isto; controlo e, ao sair, escorrego e caio, esfolando o joelho (só me faltava mais esta). Para o nono era a direito, mas para o décimo ainda perdi mais tempo, é em baixo, ou em cima? À esquerda ou à direita do canteiro? Bom, já só falta o do Torreón e acabou! Vou ver os tempos e, para além de ter perdido dois a três minutos no jardim, “mp”: Foi no ponto 2, não confirmei o código (mais uma vez)… “Burro velho não toma ensino”!


6. Epílogo
Isto já parece um testamento, tenho de partir para o Porto (mais uns sprints e uns parques) e ainda não acabei… Bom, ainda passei pelo Bernabéu (com umas voltinhas a mais, mas já ia com um pé atrás). Lá saí, pelo centro, directo à A5 (com mais umas voltinhas, até acertar). A saída só tinha uma faixa, por causa dos engarrafamentos de quem queria voltar a Madrid. Continuei com a mesma condução, só metendo gasolina em Mérida (consumo de 6.6 litros aos 100 km, isto já parece a história do burro do espanhol). Em Portugal, meti pela N4 e fomos a umas sopas e bifanas na Chaminé de Torres Novas (isto é que é vida). Continuei pela N4 e só tive de fazer um desvio por Alcochete, porque não dei com a saída para a Vasco da Gama à primeira. CRIL e IC19 e estou em casa, só com uma portagem (PVG).


Ite missa est!

Chaparro

2 comentários:

Pedro Dias disse...

Estacionado em frente da ria de Faro a descansar os ossos e a fazer tempo para apanhar o compincha qe me vai ajudar na organização dum passeio ali para as bandas da arriba da Costa de Caparica (venha la esse Sol), foi com enorme prazer que fui percorrendo e saboreando esta deliciosa cronica digna dos melhores relatos turisticos que ja começam a ser moda nos escaparates das livrarias.
Foi como se estivesse la

Presidente disse...

Caro Acácio: que inveja!!!
Abraço