terça-feira, 1 de março de 2011

OS VERDES ANOS: LILIANA OLIVEIRA






Olá,

Sou a Liliana Oliveira, tenho 20 anos e frequento o 3º ano da Licenciatura em Dietética e Nutrição na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa, pertencente ao Instituto Politécnico de Lisboa.

Se muito do que vivi e vivo dava uma comédia, o motivo que me levou a experimentar a Orientação é, possivelmente, uma das situações mais hilariantes, ou, pelo menos, originais, que se leu nesta rubrica. Poderia ter tido um primeiro contacto com esta modalidade porque gostava da natureza, porque gostava de desporto, porque queria experimentar coisas novas... Enfim, por um sem número de razões que levam as pessoas normais a vir experimentar pegar no mapa e ir correr por essas florestas fora. Nada disso: em 2000, acabara de entrar no 5º ano na mui nobre Escola da Sarrazola, recebi o convite para vir experimentar o que isto era por parte da minha melhor amiguinha da altura, que tinha um irmão que praticava Orientação pelo Desporto Escolar. O facto do “irmão mais velho” ser bué fixe poderia, também, ter tido uma grande influência sobre nós para que viéssemos parar a este mundo de loucura, mas não foi esta a razão que nos fez aventurarmo-nos, tão pequeninas, a vir a uma coisa que nem sabíamos bem o que era: um amigo do irmão da minha amiga era (e é, e sabe que é dele que estou a falar) também ele orientista, e ela, do alto dos seus 10 anos, sentindo uma paixão enorme pelo rapaz, precisava de alguém que lhe entregasse aqueles bilhetinhos fantásticos de amor, com os típicos recados “Gostas de mim? Sim, Não, Talvez”. Fui eu a escolhida para ser o pombo-correio, e fui eu que entrei na Orientação com ela. (Hãm? Motivo de sonho!)

Após uns três ou quatro treinos na escola, lá fomos à nossa primeira prova, de que me hei-de lembrar para todo o sempre: uma prova em Loures, na qual participei com duas raparigas mais velhas que eu no escalão de Classe Aberta (e que escalão do tempo da pedra... era o escalão equivalente ao Fácil Curto, OPT 1, Promoção 1,... enfim, o nome que lhe queiram dar), num dia muito chuvoso, num mapa de parque em que havia mais lama do que outra coisa, e na qual aconteceram mil e uma coisas que, só de me lembrar, me fazem rir a bandeiras despregadas. A simples imagem de uma cabine cimentada, onde se encontrava um ponto de controlo do nosso percurso, situada no centro de um amplo campo de lamas movediças, que engoliam as minhas colegas de equipa, prendendo-as até aos joelhos é, sem dúvida, uma imagem que despoleta em mim toda uma gargalhada possante (eu sei que a imagem parece chocante, mas a ideia de eu, com dez anos na altura, a tentar puxar duas raparigas... vá... pouco magras, para as tirar da lama, numa tarefa que muito pouco sucesso tinha - valeu-nos um grupo de rapazes que, entretanto, as conseguiram puxar!- , faz-me sempre rir à gargalhada!), e é também a primeira lembrança que guardo deste nosso desporto.

Depois do primeiro contacto (acho que nem vi o mapa, porque a minha “equipa” tinha-me incumbido de decorar os símbolos da sinalética e respectivo significado e debitá-los durante a prova... Coitadinha, ser o membro “benjamim” dava-me direito a estas coisas mais chatas!), recordo-me de ter feito mais uma prova nesse ano lectivo, e aí sim, tive o primeiro contacto com um mapa de Orientação a sério. Depois disso, saí da Orientação. Só no 7º ano, e porque a minha professora de Educação Física era a professora Avelina Alvarez, é que voltei a pegar num mapa.

Durante cerca de ano e meio fiz apenas provas pelo Desporto Escolar. Lembro-me da alegria de ter sido apurada para os Regionais em 2003, que decorreram no Cabo Espichel, em simultâneo com os Campeonatos Nacionais de Distância Média desse ano, e da desilusão de, após meses de treinos, quer fizesse chuva, quer fizesse sol, a minha equipa de Inicados Femininos não ter sido apurada para ir aos Campeonatos do Mundo do Desporto Escolar de 2004, que decorreram na Bélgica. Nesse ano, as provas de apuramento para o Mundial do Desporto Escolar tiveram lugar em Montemor-o-Novo e foram organizadas pelo CPOC, tendo sido esta a primeira vez que ouvi falar neste clube fantástico.

Uns meses mais tarde, já no final do meu 8º ano, fiz os Campeonatos Nacionais de Distância Longa, Média, Sprint e Estafetas pelo CPOC, e acho que foi nessa altura que descobri que a Orientação era, de facto, um desporto ao qual poderia vir a chamar “meu”, tanto ou mais do que a Dança Contemporânea ou a Natação, nos quais passei vários anos.

A partir daqui, o meu futuro ficou definido. Federei-me nesse verão e, a partir da época 2004/2005, comecei a correr pelo CPOC. Desde então, vários foram os terrenos onde já estive em prova, poucos são os distritos de Portugal em cuja floresta nunca andei. Vivi a minha adolescência na Orientação e a verdade é que este facto permitiu-me adoptar comportamentos e interiorizar valores que me irão reger durante o resto da minha vida, e que acabarei por transmitir a todos aqueles com quem me cruzar até ao fim dos meus dias. Se, de facto, os outros desportos tiveram a sua influência na minha construção como pessoa, a Orientação teve uma quota-parte muito maior que qualquer um deles. E se comecei a orientar-me por motivos que levariam a crer que não duraria muito tempo por aqui, esses mesmos motivos mudaram. Hoje a Orientação faz parte de mim, tal como qualquer parte do meu corpo, como a minha família e os meus amigos (amigos que, a propósito, conheci em grande número devido à Orientação). Embora não corra como fiz em tempos, embora não veja na Orientação uma competição nem tenha como objectivo um lugar no pódio, preciso de estar com os meus amigos e de estar com o meu clube, cujos elementos têm vindo a desenvolver uma cumplicidade tal nos últimos tempos que, de momento, partilhamos mais do que as cores da camisola: somos uma verdadeira família.

A Orientação tornou-se de tal forma essencial que, ao estar naquilo a que chamo “verdadeiros períodos de abstinência de provas”, em tudo comparáveis ao Ramadão, dou por mim a sentir ansiedade e melancolia por me faltar dar liberdade ao bichinho da floresta. A verdade é que preciso de sentir o cheiro da floresta, de olhar em volta, ver manchas coloridas a correr a toda a velocidade em busca do próximo ponto e pensar “Este é o meu elemento. Não troco isto por nada, mesmo!”.


Enquanto as pernas andarem, chegar a casa após um fim-de-semana de prova com roupa suja, a cheirar mal, cansada, mas divertida e feliz, de uma coisa tenho a certeza: a Orientação vai continuar a fazer parte da minha vida. Há mais de dez anos tive o primeiro contacto com o desporto da natureza: pois venham muitos mais, recheados de muita e boa Orientação, que eu cá estarei pronta para os viver.

Liliana Oliveira
CPOC – Clube Português de Orientação e Corrida
FPO 3157

[Foto gentilmente cedida por Jorge Correia Dias]

6 comentários:

jacinto disse...

Que história fabulosa. Um bom exemplo para miudos e graudos. Continua Liliana
Bjs

Ana disse...

Não tenho palavras que cheguem para descrever o que eu senti ao ler este texto. É emoção, é divertimento, sei lá… é tudo o que possamos imaginar! Quantas vezes me vieram as lágrimas aos olhos ao lê-lo… Nem sei o que possa escrever mais …não há palavras!

Ana Carreira

Alexandra disse...

Parabéns Lils por esta deliciosa história! É sempre uma alegria muito grande ter-te por perto...Um grande beijo com muita amizade!
Alexandra

João disse...

Grande Lils... realmente, já mandavas dietética às uvas, não?! :P
Adorei isto! A Orientação é mesmo isto tudo :)

João Dias

Gino disse...

Como dizem nuestros hermanos: "FENOMENAL!!"
Parabéns Liliana por partilhares conosco esta tua história, estes sentimentos, emoções...
Um beijinho com muito carinho.
Higino Esteves

PFernandes disse...

Uma história bonita sim, com passado presente e futuro.

Acho que todos nós nos revêmos, aqui ou ali, com chuva ou com sol, nas palavras da Liliana.

Continua, sempre.
Eu também continuarei.

Vêmo-nos na floresta...