sábado, 26 de março de 2011

O MEU MAPA: MARIA AMADOR E UM ROL DE MEMÓRIAS




O meu mapa... ora bem... tenho alguma dificuldade em eleger apenas um mapa e confesso que a minha memória também não ajuda muito. Fazendo uma reflexão sobre este assunto, chego à conclusão que para mim o importante não é o mapa, mas sim os locais onde eles me levam, as sensações que proporcionam e que me fazem recordar com saudade. Sem dúvida que os mapas me levaram a locais que certamente sem eles não teria visitado.

Assim, irei partilhar algumas das minhas experiências com mapas, nas três disciplinas da Orientação: Pedestre, BTT e Corridas de Aventura.

Em 1994, quando participei no Campeonato do Mundo de Orientação Pedestre, em Vasteräs - Suécia, fiz equipa nas Estafetas com a Cristina Roberto e a Raquel Costa. Estava na iminência de sair na partida em massa (não recordo exactamente, mas apenas estavam mais uma ou duas equipas para partir), quando aparece a Raquel. Estava preparada para sair, quando vejo ao longe uma "molhada", um autêntico “comboio de homens” a alta velocidade, com um mapa na mão (estavam a terminar o primeiro percurso). Pego no meu mapa, e ao fim de uns segundos, ainda antes de entrar na floresta, passam por mim a todo vapor os segundos elementos. Parecia uma novata (apenas na experiência na Orientação, pois na idade já não podia dizer isso), assustada com todo aquele reboliço.

Após esta situação, continuo a minha prova sem grandes sobressaltos, quando chego ao ponto onde estavam a filmar, as imagens apareciam em directo na Arena, onde estava uma multidão de espectadores a acompanhar o desenrolar da Estafeta masculina. Quando dou por mim tenho outra vez o comboio ao pé de mim, com toda esta confusão desconcentrei-me e logo de seguida faço um erro muito grande. Quando estava a finalizar o meu percurso, antes de picar o último ponto, percebo que o público estava ansioso. A Estafeta Masculina estava prestes a terminar. Quando entro na recta da meta, “pé ante pé” e tentando passar despercebida, não foi exactamente isso que aconteceu: naquela altura eu era o centro das atenções de todos, com o meu “charme envergonhado” terminei a minha prova com os aplausos do público.

Em 1995, participei no meu primeiro Campeonato do Mundo de O-BTT, em Banska Bystrica – Eslováquia. A situação que vou contar também se passou na prova de Estafeta (fazia equipa com a Carla Freitas e a Susana Pontes). Para mim a prova de Estafeta é a prova mais espectacular e na O-BTT as equipas portuguesas estão mais próximas das equipas da frente e conseguimos ser mais competitivos.

Estava a aproximar-me do ponto de espectadores (perto já do final da prova), quando ultrapasso a húngara. Animada, continuo a minha prova, faltavam apenas dois pontos. “Já está, vou conseguir!”. Quando dou por mim estou num entroncamento, olho para o mapa a confirmar onde está o ponto, olho para trás lá e estava ele perto duma árvore fora do caminho a fazer-me carretas. Quando ia a virar-me, truz, catrapuz, lá está a Maria no chão - os sapatos de encaixe por vezes ajudam a estas situações. Levanto-me rapidamente, dirijo-me para o ponto. Agora só falta o último, quando começo a pedalar, vejo a húngara a passar rapidamente - o percurso era diferente do meu. Nesse momento, fiquei desanimada, já tinha ganho a minha posição e agora… Logo de seguida, o meu pensamento foi que tinha dar tudo por tudo para a ultrapassar.

Após controlar o último ponto, tínhamos que percorrer um caminho improvisado cheio de altos e baixos. Nessa altura para mim o piso era liso, só olhava para a roda da minha adversária, cada vez ganhava mais terreno, naquele momento parecia que era a super-mulher, com uma pedalada que me fazia sentir ir a voar. A meta estava a aproximar-se e eu cada vez mais perto dela. Foi por pouco, se a recta da meta tivesse mais 20/30 metros, teria conseguido ultrapassá-la. A adrenalina no final da prova circulava no meu corpo com uma rapidez… estava mesmo com muita pica! Foi mesmo muito emocionante.

Por último, relato alguns, dos muitos episódios/imagens que guardo das Corridas de Aventura. Os mapas usados nestas provas são geralmente Cartas Militares de escalas muito pequenas (1/25 000 a 1/100 000). Tive o privilégio de participar em várias provas de Distância Longa (6 a 12 dias). Nestas provas passamos por situações únicas, muito diferentes do nosso dia a dia. São provas que nos põem à prova física e psicologicamente, de uma forma que nos permite conhecermo-nos melhor e também aos outros elementos da equipa. Ensinaram-me muito, desde a tolerância (estar 24 horas por dia, 12 dias, com as mesmas pessoas em situação de cansaço é um bom exercício), que não precisamos de muita coisa para sermos felizes, que o nosso corpo é muito resistente, entre outras. Passei por situações boas (paisagens espectaculares, conhecer outras culturas e pessoas, a companhia dos meus colegas de equipa, etc.) e más (fome, frio, calor, dormir pouco e mal, dores e mais algumas situações). Tenho muito para contar dos milhares de quilómetros que já percorri, mas vou apenas relatar algumas “memórias fotográficas”, que ficaram gravadas no meu cérebro.

No segundo raid em que participei (Raid Gauloises 1998 – Equador ~ 600 km), na etapa onde o meio de transporte eram cavalos, uma manhã quando acordei ouvi os meus colegas dizer que um dos cavalos tinha desaparecido, uma “boa” notícia logo de manhã e ainda por cima a culpa era minha, pois fui eu que amarrei o cavalo. Vou calçar-me, quando me apercebo que os ténis estão congelados, mas não tinha alternativa, lá coloquei os meus pés sem grande “ânimo”. Saio da tenda cabisbaixa, e quando levanto a cabeça… ah!!!! O sol estava a nascer… e tinha perante mim um lindo vulcão coberto por um manto branco. No lado oposto vejo ainda outro vulcão - foi mesmo espectacular.

Noutro raid, este do outro lado no mundo (Elf Authentique Aventure 1999 – Filipinas ~ 700 km), além dos mapas mais comuns, usamos mapas subterrâneos, em grutas enormes. Confesso que não me sinto muito confortável nestes espaços, mas ao entrar dentro da gruta vejo uma galeria enorme (altura de 20/30 m), só me imaginava naqueles filmes que vemos em casa, com o rabiosque no sofá, uma imagem grandiosa, onde um raio de luz espreitava por um buraco tornando-a ainda mais deliciosa. Ainda nesse raid e após a saída de outra gruta onde passava um rio, surge uma imagem verdejante espectacular, um vale rodeado por árvores e lá em baixo passava um outro rio, para chegarmos até ele tínhamos que saltar três quedas de água com cerca de 10 metros. Além destas pérolas ainda fomos brindados com a saída dos morcegos da gruta. A natureza é tão simples e tão bela.

No segundo Elf Authentique Aventure (2000 – Brasil ~ 800km), mais um amanhecer inesquecível. Imaginem um rappel suspenso de 100 metros junto a uma queda de água, lindo. E agora, olhem para trás enquanto estão a descer, e vêem uma bola de fogo amarela a emergir em terras longínquas. Sim, é uma sensação única.

Para terminar, porque o texto já vai longo, vou partilhar um episódio que se passou também no Brasil (EMA – 2001 ~ 600km). Numa equipa constituída por três meninas e um menino (Maria Amador, Ana Vilar, Ana Gabriel e Luís Sérgio), a meio da noite, no meio do nada, uma várzea (área que na altura das chuvas está coberto de água) com quilómetros e quilóemtros de extensão, e olhem que não estou a exagerar. Tínhamos sido bem avisados pela organização, que para além de várias espécies de cobras, havia peixes perigosos (eléctricos) nos rios e lagoas. O nosso menino, ao verificar que estávamos a progredir muito lentamente e precisávamos de repousar, tomou a decisão de ir sozinho ver se encontrava o rio que procurávamos (iamos a azimute perpendicularmente a ele). Ficaram as três lindas donzelas sozinhas naquele imenso negro. Juntinhas debaixo de uma rede mosquiteira, esperámos ainda algum tempo à espera por boas notícias. Já pensávamos que o nosso príncipe nos tinha perdido, quando surgiu o nosso herói na escuridão. Tinha descoberto uma fazenda de “cowboys” brasileiros pelo que nos dirigimos até lá. Lá estavam uns quantos vaqueiros admirados por ver naquele local, quatro portugueses àquela hora e ainda por cima três eram fêmeas. Eles tinham electricidade fornecida por um gerador, e o mais engraçado foi ver que estavam a assistir a ver leilões de gado na televisão. Para acabar bem a noite ofereceram-nos leitinho acabado de ordenhar e indicaram um barracão onde podemos dormir.

Pois é!!! Os mapas levam-nos a locais verdadeiramente surpreendentes.



Maria Amador
ATV
Fed 1889

1 comentário:

Dinis Costa disse...

Os Mapas de alguém
Um Mapa é vislumbre. Mapas há, que são sonhos de alma em introspecção. Quem é que ainda não contemplou Mapas, com paisagens a raiar divino? Sensações únicas que nos modelam a personalidade.
Há mapas que não são mais um, “o desterro” só pode ser afectivo, uma ausência da pertença, que se cogita.