quinta-feira, 31 de março de 2011

GRAÇA CARRAPATOSO E O PORTUGAL O' MEETING 2011: "FOI DOS TRABALHOS EM EQUIPA MAIS INTERESSANTES QUE EU FIZ EM TODA A MINHA VIDA"




No âmbito da sua formação académica e actividade profissional, Graça Carrapatoso foi a responsável pelo sector médico do Portugal O' Meeting 2011. O Orientovar vai hoje ao seu encontro, colhendo um conjunto de impressões que dão nota do valor e interesse deste seu trabalho.


Orientovar – Na qualidade de médica, a sua primeira colaboração com a organização duma prova de Orientação teve lugar no Norte Alentejano O' Meeting 2010, no Crato. Como surgiu a oportunidade?

Graça Carrapatoso – Partiu tudo dum convite feito pelo Presidente do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos para integrar uma equipa da Cruz Vermelha, previamente contactada e preparada para avançar para o terreno. A equipa era composta por elementos com formação em Suporte Básico de Vida e muitos deles também em Suporte Avançado de Vida, perfeitamente preparados para assistir à maior parte de situações que se colocam neste tipo de provas. Aceitei o desafio, sobretudo por entender que, na minha área de especialidade, a Anestesiologia, a minha presença podia ser uma mais-valia.

Orientovar – Que recordações guarda dessa experiência?

Graça Carrapatoso – Foi uma experiência muito positiva, primeiro porque a nossa actividade profissional nos impede, muitas vezes, de fazer um trabalho voluntário e este foi o meu primeiro trabalho voluntário enquanto parte integrante duma equipa médica. Depois, porque me permitiu integrar uma equipa diferente das equipas hospitalares, com uma vocação benemérita por todos conhecida o que, já de si, torna o ambiente de trabalho e a postura em relação às situações que vão surgindo, muito agradável, muito cooperante. Foi dos trabalhos em equipa mais interessantes que eu fiz em toda a minha vida e por isso me interessa continuar a fazê-lo. Pelo facto de ser a primeira vez que o fiz, foi também uma nova experiência com um acréscimo de oportunidades diferentes daquelas que tenho no dia-a-dia e que levam ao nosso enriquecimento, nos ensinam coisas novas e nos fazem andar para a frente.


O apoio médico justifica-se em todas as circunstâncias

Orientovar – Entretanto tomou-lhe o gosto e, sempre que possível, tem colaborado com o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, ainda que em provas de menor dimensão...

Graça Carrapatoso – Isso aconteceu no Porto e também em Manteigas. Nestas provas houve apenas a presença de dois bombeiros e duma ambulância que faria o apoio e a evacuação para uma unidade de saúde, se necessário. Em ambos os casos, não vi tanto a necessidade da minha presença, uma vez que aquilo que ocorreu foram sempre pequenas lesões. Mas é óbvio que um Enfarte do Miocárdio pode acontecer em qualquer sítio, tanto no meio do Alentejo como num parque duma cidade. Isto para dizer que, realmente, o apoio médico justifica-se em todas as circunstâncias, embora as exigências variem de acordo com o tipo de provas em causa.

Orientovar – Quando voltou a abraçar novo convite, foi para colaborar no Portugal O' Meeting, um evento com outra dimensão e uma logística maior. Sabia, em concreto, aquilo que a esperava?

Graça Carrapatoso – Sim, já em 2009 tinha estado presente num Portugal O' Meeting, em Mora, como espectadora e a convite do Luís Santos, e nessa altura apercebi-me do grande número de participantes, nomeadamente estrangeiros, que acorrem a esta prova. Daí as minhas expectativas serem altas em relação à necessidade de cuidados médicos, uma vez que se trata de pessoas que correm muito no terreno, se atiram para a frente, não estão com grandes pruridos para transpor uma vedação ou um fosso e é óbvio que este tipo de competição gera, naquele tipo de terrenos, lesões em maior número e gravidade.


A nível de trabalho e de organização, isto é o melhor que se pode esperar

Orientovar – Isso acabou por se confirmar nesta edição do Portugal O' Meeting 2011?

Graça Carrapatoso – Sim, surgiram imensas pessoas com edemas a nível do tornozelo e com sinais de roturas ligamentares, umas menores, outras duma dimensão mais preocupante, algumas inclusivamente, que nos fizeram suspeitar duma eventual existência de fractura a nível do maléolo. Sempre que houve esse tipo de suspeita, as pessoas foram evacuadas para o Hospital de Portalegre. Curiosamente, o número de visitas à tenda da Cruz Vermelha no último dia foi inferior ao do dia anterior, em que estava sol. Ou seja, as pessoas compreenderam a perigosidade acrescida dos terrenos com chuva. Mas o balanço é o melhor possível, esta foi uma experiência ainda mais interessante e mais gratificante que no ano anterior e apercebi-me que, ao nível da própria equipa, toda a gente da Cruz Vermelha participou no evento com bastante interesse, talvez até pela forma como ele tinha sido publicitado pelos colegas que haviam estado no Crato. Inclusivamente, ficaram todos muito expectantes em relação à prova de Marvão, no próximo ano.

Orientovar – Como avalia a articulação entre si, a Cruz Vermelha e a Direcção da Prova, sobretudo numa fase de preparação do evento e na salvaguarda duma série de situações que sempre podem ocorrer?

Graça Carrapatoso – A articulação foi a melhor possível e nunca houve qualquer tipo de dificuldade ao nível da comunicação e da compreensão daquilo que poderia estar em causa. Isto não é mérito meu, mas sim, sobretudo, da Cruz Vermelha, que tem já estes processos completamente fluidos. Quanto à organização do evento, não há mais elogios que possa dar a este clube, porque em termos organizativos são um verdadeiro modelo. Não deixam nada ao acaso, antecipam as situações críticas no terreno e diariamente as pessoas conversam sobre aquilo que poderia e deveria ter corrido melhor. A nível de trabalho e de organização, isto é o melhor que se pode esperar.


Não vinham pedir ajuda a alguém estranho

Orientovar – Mas houve alguma coisa que poderia ter corrido melhor e não correu?

Graça Carrapatoso – A única coisa que eu poderia dizer que não correu tão bem – e cuja culpa não é, finalmente, da organização – prende-se com a forma como as pessoas estacionaram as suas viaturas ao longo do estradão que levava ao local das provas dos 3º e 4º dias. Houve muitas pessoas que não respeitaram as regras de estacionamento, não respeitaram os locais de cruzamento de veículos. Estávamos preocupadíssimos com o último dia, sabendo que ia chover, sabendo que a probabilidade de acontecerem mais acidentes e de maior gravidade era real. Estou contente por não ter acontecido nenhuma situação crítica porque, se estivéssemos a falar duma paragem cardíaca, por exemplo, a coisa ia ser muito complicada e a responsabilidade, realmente, ia cair sobre a organização.

Orientovar – Que significado pode ter, no meio duma vasta Arena, uma tenda da Cruz Vermelha?

Graça Carrapatoso – Essa é uma pergunta interessante. Fui percebendo dia após dia, pela forma como as pessoas acorriam à tenda, que não vinham pedir ajuda a alguém estranho. Sobretudo os estrangeiros vinham pedir ajuda a uma equipa que, apesar das caras serem diferentes, tem as mesmas atribuições e cumpre as mesmas funções em qualquer parte do Mundo. Isso ajudou muito ao nível da comunicação, que foi sempre excelente, e até na própria dinâmica criada no seio da equipa. As pessoas eram ordeiras, ninguém tentava passar à frente de ninguém, havia um ambiente muito favorável e isso ajudou muito a que as coisas corressem sempre bem. É curioso que um dos primeiros visitantes que tivemos foi um médico que fazia este tipo de trabalho no seu País e que veio apenas para observar aquilo que eram as nossas condições. Para além dele ter gostado de ver que estávamos bem preparados, percebi que no seu País a Cruz Vermelha faz parte integrante da própria estrutura de saúde governamental, duma forma diferente da nossa, o que economicamente acaba até por ser mais vantajoso, nomeadamente no tocante à colaboração neste tipo de eventos.


Marvão é já para mim quase uma prioridade

Orientovar – Vamos continuar a vê-la a dar o seu contributo às organizações do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos?

Graça Carrapatoso – A minha vontade vai nesse sentido, embora o meu horário de trabalho semanal seja tão pesado que eu deva ponderar muito bem todas estas questões. No entanto, sempre que possível, vou estar presente. E, claro, quero estar presente no Norte Alentejano O' Meeting do próximo ano, em Marvão. Marvão é já para mim quase uma prioridade, um momento de voluntariado mas sobretudo um momento de convívio e de camaradagem muito especial e que eu não quero pensar em desistir dele.



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

Acácio Porta Nova disse...

Embora leitor assíduo do Orientovar, não tenho por hábito comentar (acusam-me de demasiado
reservado) e seria mais provável reagir a algo mais intimamente relacionado com a orientação (que
dizem ser obcessão, ou vício, meus).

Contudo, não quero perder esta oportunidade de me pronunciar sobre a extrema importância dos apoios médicos e/ou fisioterapêuticos (a que eu próprio já tive de recorrer, quer em organizações do CPOC, quer do GD4C), em virtude das peculiaridades do nosso desporto.

Uma outra evidência deste trabalho é a absoluta necessidade duma atitude cívica, nomeadamente no
acatamento das indicações da organização--que dizer duma carrinha que bloqueou, durante largo tempo e apesar dos repetidos pedidos na aparelhagem sonora, o acesso dos autocarros (e eventuais
ambulâncias) à Arena?

Finalmente, mas não menos crítica, é a inevitabilidade do voluntariado, sem o qual o nosso desporto é inviável, embora muitos de nós (nos quais me confesso incluir) prefira participar a organizar.

O meu sentido agradecimento, não apenas aos inúmeros voluntários que nos têm permitido desfrutar
deste deslumbrante e formativo desporto (que espero praticar até me ir de vez), mas também ao
querido amigo Joaquim Margarido que, seguramente com muito esforço e sacrifício pessoal e familiar,
nos veio oferecer este espaço de aprendizagem e discussão (aliás, uma coisa é impossível sem a
outra).

Acácio Porta Nova

fernando disse...

Grande artigo, grande trabalho de toda a equipa médica que demonstrou um profissionalismo e dedicação invulgares.
Bem hajam!

Almeida disse...

Vivam,
Subscrevo na íntegra os comentários anteriores.
Felizmente ainda temos muitos cidadãos capazes de servir!
Abraço

Dinis Costa disse...

O meu "atrevimento": grato ao grupo médico.
“Um médico que só sabe medicina nem medicina sabe…” fica-se feliz quando se houve uma médica, pelo que transparece da entrevista, que não faz da sua profissão pura usura. É de louvar e partilhar esta nossa felicidade. Uma médica com personalidade generosa e uma visão holista na acção.
Dinis Costa