domingo, 27 de março de 2011

ELEIÇÕES NA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ORIENTAÇÃO: REFLEXÕES PARA MEMÓRIA FUTURA




1. Com o sugestivo título “A montanha pariu um rato!”, Luís Sérgio partilhou, no seu blogue “alternativo” – http://maisumdesterro.blogspot.com/ -, dúvidas e reservas quanto ao futuro da Federação Portuguesa de Orientação. “Depois de conhecer a constituição da lista concorrente à Direcção da FPO, encabeçada pelo Augusto Almeida, não consigo deixar de sentir alguma desilusão”, dsse ele, para acrescentar um pouco mais à frente: “Se não gostei desta FPO paradigma, também não quero voltar a ter uma FPO paradinha!”

2. Mas afinal o que separa e distingue uma “FPO paradigma” duma “FPO paradinha”? Se pensarmos naquilo que foram os cinco meses de vigência da anterior Direcção e do seu Presidente, muito pouco mesmo. Nunca, como nestes últimos cinco meses, tanta dúvida e tanta desconfiança se gerou e instalou. Nunca, como nestes últimos cinco meses, tanto se adiou e tanto se cancelou. Tão pouco se fez, tanto futuro se condicionou.  Quanto ao “paradinha”, estamos entendidos. Para a história fica o “paradigma”, ele próprio. É ele que faz a diferença. Ou talvez não...

3. Não consigo deixar de sentir simpatia pelo anterior Presidente, pela coragem demonstrada em ter apresentado um modelo de ruptura. Um modelo que marca, indubitavelmente, um ciclo de ideias e de projectos e que configurou – para o bem e para o mal - um verdadeiro “sobressalto cívico”. Um modelo recheado de propostas deveras interessantes, contendo um punhado de apostas com tanto de ambicioso como de ousado. Destas destacaria o Alto Rendimento e a Profissionalização. E se o faço é porque, em conjunto, ambas são suficientes para explicar o falhanço do modelo.

4. Parece claro que a Profissionalização era o rumo preconizado por Alexandre Guedes da Silva para a Orientação. Mas não devemos – até por questões de princípio – misturar profissionalismo com profissionalização. São coisas diferentes, devem ser devidamente entendidas e debatidas, interiorizadas. Se o profissionalismo, como um princípio de boas práticas, é louvado e louvável, já a questão da profissionalização é algo de bem diferente. Exige clarificação, um separar das águas. Exige diplomacia. Exige tempo. Não é coisa que se faça dum dia para o outro. Exige paciência!

5. A saga “preparatória” que Alexandre Guedes da Silva encetou no Fórum FPO ao longo do passado mês de Agosto e que resumiu à tríade “dimensão”, “atitude” e “ambição”, merece ser realçada. Nas entrelinhas dos chamados “saltos quânticos da Orientação”, já então se percebia que não era no “conteúdo” que estava o “pecado”, mas sim na “forma”. Na forma de os apresentar e de os evidenciar, de os dizer e de os viver. Isso acentuou-se ao longo dos cinco meses da sua presidência. Ventos semeados, tempestades colhidas. Foi penoso ver tão valorosas ideias acabadas ao balcão duma mercearia rasca, com sabor a fel e cheiro a azedo, lado a lado com produtos cujo prazo de validade caducara a 5 de Março.

6. Afinal, a prova do muito que havia de bom no “novo paradigma”, acaba por chegar com o novo Plano de Actividades apresentado pela Lista de Augusto Almeida. Comparem-se os dois documentos e veja-se que, tanto na forma como no conteúdo, não existem, grosso modo, divergências. Desaparecem “A Orientação no Jamor” (embora se admita a reavaliação da viabilidade do projecto), o reforço da frota automóvel, a organização em Portugal de eventos internacionais de prestígio ou as sete regiões NUTS II. Os cursos e acções de formação passam de catorze para doze, os cursos de actualização e reclassificação de técnicos desportivos passam de oito para seis, as acções de apoio ao desenvolvimento da prática desportiva deixa de se estender ao Desporto Universitário e as Corridas de Aventura deixam de ver consideradas as participações internacionais. Finalmente, o irritante e omnipresente “stakeholder” desaparece da terminologia.

7. Já no tocante ao Orçamento, as coisas mudam radicalmente de figura. O actual documento prevê montantes globais moderados, que levam em conta o histórico da FPO mas também a realidade do País em que vivemos. Acima de tudo, este Orçamento está atento àquilo que são as prioridades desta nova Direcção. Daí que, obviamente, não houvessem quaisquer reservas da parte do Conselho Fiscal ao Plano de Actividades e Orçamento 2011. Em suma, conhecedor dos males de que enfermava o documento anterior, Augusto Almeida limitou-se a manter o muito que tem de bom, promovendo as devidas adequações de acordo com aquilo que são as “convicções pessoais baseadas na minha educação, experiência pessoal e profissional e na reflexão que tento realizar sistematicamente”, para usar as suas próprias palavras.

8. Teria sido difícil a Alexandre Guedes da Silva fazer o mesmo? Evidentemente que não. Ele seria, ainda hoje, o Presidente de todos os orientistas. Legitimamente. Faria o seu percurso de forma não tão rápida como teria imaginado ou desejado, mas faria o seu percurso. Consolidada e consistentemente, a pensar no futuro e, quem sabe, na dita Profissionalização (que não é, como ele muito bem diz, nenhum anátema). E porque não o fez? Apenas e só porque lhe faltou em Comunicação, Credibilidade e Confiança aquilo que sobrou em Confusão, Cegueira e Casmurrice!

9. Ontem, no Anfiteatro da Escola Secundária de Grândola, a Lista liderada por Augusto Almeida foi escrutinada e empossada e o respectivo Plano de Actividades e Orçamento 2011 votado e aprovado por unanimidade. No próximo ano e meio teremos, para o bem da nossa Orientação, uma “FPO paradigma”, que não uma “FPO paradinha”. É essa a minha convicção pessoal, ainda que consciente das dificuldades que todos enfrentamos. Olhamos à nossa volta e vemos aqueles que compreendem isto e se adequam às realidades, enquanto outros continuam a assobiar para o lado e a viver como se nada fosse. É este o princípio que distingue o “antes” do “agora”, no que ao órgão colegial de administração da FPO diz respeito. No demais, como diria um querido amigo, “a paixão à modalidade é um factor comum a todos nós e estou confiante que saberemos encontrar formas de nos mantermos unidos e de ultrapassarmos as contrariedades.”


[Foto gentilmente cedida por Paulo Fernandes]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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