quarta-feira, 16 de março de 2011

AUGUSTO ALMEIDA: "ESTE ÓRGÃO QUE SE CANDIDATA TEM UM POUCO DE TUDO, INCLUINDO BOM SENSO"




Ela aí está, a Entrevista pela qual todos ansiávamos. Em exclusivo ao Orientovar, Augusto Almeida abre o jogo claramente, fala do seu regresso às lides da Orientação, sossega as hostes, dá a conhecer os nomes daqueles que o acompanham e promete trabalho, rigor, dedicação, diálogo e... bom senso.


Orientovar - Imagino que estaria longe das suas cogitações o regresso às lides da Orientação, pelo menos tão cedo. Foi uma decisão difícil de tomar?

Augusto Almeida – Difícil?... Não, não foi, porque o conjunto de amigos que mo pediu não me permitia outra reacção e por isso a resposta era óbvia. É verdade que estava muito longe das minhas intenções o regresso à Orientação por opções pessoais. Mas a vida reserva-nos surpresas e coloca-nos desafios que nos transcendem e que nos obrigam a repensar opções anteriormente tomadas e assumidas e a sobrecarregar a nossa agenda em favor do interesse colectivo. Na despedida afirmei que não eram importantes os meus desgostos mas sim a modalidade e hoje reafirmo-o, também afirmei que não queria ter nada a ver com o futuro e hoje estou aqui.

Orientovar - Aquando da sua saída da Presidência da Federação Portuguesa de Orientação, em Entrevista ao Orientovar [publicada a 9 de Novembro de 2008], afirmava, e passo a citar, “na minha maneira de ver as coisas, é impensável viver acima da capacidade financeira de qualquer cidadão ou instituição.” Sentiu que, com esta Direcção que agora se demite, era algo do género que se configurava?

Augusto Almeida - Essa era e é uma convicção profunda. Acredito que não é admissível, e até pode ser imoral, em tempos de crise profunda, num momento em que o Estado quase está impossibilitado de cumprir as suas funções vitais - segurança e bem-estar das populações - ao ter de fazer cortes na solidariedade social, na saúde, na educação, na segurança, nos salários, etc, alguém pretender que exista um reforço substancial da subvenção estatal no desporto.


Cada cidadão sabe que tem muitos direitos e raramente lhe ocorre que tem igual número de deveres

Orientovar - Voltando a essa Entrevista, diz já na parte final que “novas pessoas farão novas políticas” e que “devem estar preparados para lidar com a maledicência, eventualmente com alguns insucessos e com muita falta de colaboração”. Neste contexto, Alexandre Guedes da Silva e a sua Direcção poderão ter razões para se sentirem injustiçados?

Augusto Almeida - São convicções pessoais baseadas na minha educação, experiência pessoal e profissional e na reflexão que tento realizar sistematicamente. Na generalidade, as pessoas estão disponíveis para maldizer sempre que a sua opinião, mais ou menos fundamentada, ou os seus direitos não sejam satisfeitos, mas raramente estão disponíveis para integrarem, opinarem construtivamente ou se disponibilizarem para construir, mesmo quando lhes é solicitado. Enquanto sociedade enfrentamos um problema civilizacional: cada cidadão sabe que tem muitos direitos e raramente lhe ocorre que tem igual número de deveres.


Nunca antes como agora se viu tamanha movimentação em torno da modalidade

Orientovar - Deixemos os tempos conturbados que a Orientação viveu nos últimos cinco meses. Aquilo que eu gostaria de lhe perguntar é como se recupera tanto tempo perdido?

Augusto Almeida - Não consideramos estes últimos meses como tempo perdido, mas antes como uma oportunidade que se abriu para discutir, frontal e abrangentemente, a modalidade, identificar as suas principais necessidades no momento presente e procurar as soluções mais adequadas ao nosso tempo e ao futuro. Nunca antes como agora se viu tamanha movimentação em torno da modalidade ou se assistiu a Assembleias-Gerais tão participadas. Nunca antes como agora tantos elementos de diversos quadrantes se aglutinaram em torno da Orientação e se mostraram disponíveis para integrar projectos de futuro. Não foi pois tempo perdido, mas antes tempo de reflexão e discussão. É certo que, durante os últimos meses, fruto do impasse e do vazio que se instalou, alguns projectos e actividades determinantes para a vida da FPO sofreram um atraso significativo. A esse atraso responderemos com trabalho, muito trabalho.

No caso presente há que, como sempre, colocar as coisas nos seus lugares. Diz a doutrina que o ser humano tem uma pirâmide de interesses onde no topo surgem os interesses vitais pelos quais admite morrer (a família, saúde, etc.), depois aparecem os interesses importantes pelos quais admite lutar (o emprego, a habitação, etc.), seguem-se os interesses secundários pelos quais admite discutir (passatempos, férias, etc.) e na base da pirâmide, o grosso, os interesses terciários pelos quais se interessa (todos os outros). A Orientação, para os orientistas, será, no máximo, um interesse secundário e por ele… discute-se! Quem ultrapassa estes parâmetros terá razões para os respectivos comportamentos e por eles será julgado. Vamos pois ouvir, discutir de forma participada, objectiva e construtiva em conjunto com os vários intervenientes na modalidade, para encontrarmos os caminhos e opções que melhor servem a Orientação e, com trabalho e envolvimento dos que se disponibilizarem a colaborar, implementá-los.


Devemos pela nossa postura ser factor de estabilidade e serenidade

Orientovar - Em carta aberta ao Presidente da Mesa da Assembleia-Geral, José Carlos Pires, mostrou-se disponível para “constituir uma solução que devolva a normalidade e a tranquilidade à modalidade no caso de surgir um vazio directivo”. Agora que o órgão demissionário se mostra empenhado em ir de novo a votos e que certamente teremos pela frente uma disputa eleitoral, era disto que estava à espera?

Augusto Almeida - Limitei-me a dizer aos delegados que podiam optar em consciência porque uma solução do tipo "viver ou morrer" não se colocava. Limitei-me a dar voz a um significativo número de praticantes que fazem o favor de me distinguir com a sua amizade. Limitei-me a ser coerente com as minhas convicções e princípios.

Esperar? Esperava que a democracia participativa, apesar de evidentes disfunções no normativo federativo, fizesse o seu percurso... e fá-lo-á certamente. Quanto à disputa eleitoral, a mesma não vai existir da nossa parte nos moldes tradicionais com campanhas e apelos, expressos ou encapotados, nos fóruns, etc. Para além da presente entrevista, daremos a conhecer a toda a comunidade a nossa proposta de Plano de Actividades e Orçamento bem como as missões que consideramos prioritárias no início do mandato. Depois, em sede de Assembleia-Geral, onde a modalidade está amplamente representada, estaremos disponíveis para prestar os esclarecimentos e debater as nossas ideias por forma a que os delegados possam escolher. Assumimos esta postura por nos parecer que, em tempo de águas agitadas (para ser simpático!), devemos pela nossa postura ser factor de estabilidade e serenidade e não alimentar polémicas ou contribuir para fraccionamentos, numa modalidade em que somos poucos e, por esse motivo, todos importantes e necessários. Adoptaremos processos e posturas que se caracterizem pela educação e pela elevação, e, se há algo a apelar, é para uma grande participação dos delegados (mesmo que com sacrifício pessoal) na Assembleia-Geral para que as decisões que vierem a ser tomadas sejam as que a Orientação deseja.


É para nós ponto assente que as Corridas de Aventura são uma disciplina da Federação Portuguesa de Orientação de pleno direito

Orientovar - É inquestionável a sua postura de seriedade e rigor e a sua capacidade de trabalho, mas aquilo que as pessoas querem neste momento são respostas. Ou seja, como é que vai sossegar os atletas “do alto rendimento” e das selecções, os organizadores que têm visto defraudado o seu trabalho, os clubes que se fragmentam, os amantes das Corridas de Aventura, enfim, uma modalidade desnorteada?

Augusto Almeida - Estamos a trabalhar, muito e com afinco, para, no imediato ou muito curto prazo, normalizar a vida administrativa em várias vertentes que vão desde o dia-a-dia até ao controlo rigoroso dos equipamentos, a vida associativa e em especial a ligação com o IDP, as selecções e os compromissos internacionais, o equipamento do centro de estágio e a transferência da sede, a normalidade dos QCN (quadros competitivos nacionais) face às alterações introduzidas no Regulamento de Competições, completar os departamentos e comissões de aconselhamento da direcção, reunir com os parceiros internos, etc.
Numa perspectiva de curto e médio prazo, vamos aproveitar este ano que encerra um mandato (2008-2012) para estudar e debater algumas questões fulcrais na vida da modalidade e, para isso, convidar personalidades exteriores e por isso independentes ao órgão de gestão que assumam esses trabalhos nas áreas da revisão dos Estatutos e Regulamento Geral, no modelo de organização dos QCN, no modelo de organização das Corridas de Aventura, na dinamização da imagem da Orientação, na diversificação das fontes de financiamento, na problemática da cartografia, nos benefícios fiscais e noutras que possam entretanto surgir fruto da discussão participada que será promovida. Destes grupos de trabalho esperamos pareceres e propostas que, uma vez analisadas e debatidas, permitirão traçar novos rumos face ao futuro, que se quer de estabilidade e progresso. Esperamos que alguns estudos fiquem prontos até ao Verão e possam ser debatidos ainda este ano, outros possivelmente só estarão concluídos para o final do ano e podem ser o tema central dum futuro Congresso.

As Corridas de Aventura têm sido abusivamente utilizadas como “arma de arremesso” e com elaborada demagogia. É para nós ponto assente que as Corridas de Aventura são uma disciplina da Federação Portuguesa de Orientação de pleno direito, com direitos e deveres iguais aos das outras disciplinas, e com a qual muito a modalidade pode ter a ganhar em termos de dinâmica, diversidade, abrangência, imagem e participação. Neste sentido, podem todos os orientistas estar certos do nosso máximo empenho em conseguir que também esta disciplina trilhe caminhos e modelos de sucesso, para o que contamos com uma forte participação de todos os amantes da mesma nos grupos de trabalho e discussão que promoveremos.


A lista é um conjunto de competência, rigor, amizade, experiência, seriedade e paixão

Orientovar - Disse que o órgão colegial de administração da FPO encabeçado por si estava definido e o Plano de Actividades e Orçamento 2011 estava pronto. Falando da lista à qual preside, que lista é esta e onde reside a sua maior força?

Augusto Almeida - A lista é um conjunto de competência, rigor, amizade, experiência, seriedade e paixão materializada pelos amigos Carlos Monteiro, António Rodrigues, António Amador, Jacinto Eleutério, Pedro Dias e Ricardo Chumbinho e tendo como suplentes Hugo Borda d’Água, Joaquim Patrício e Alexandra Coelho. Aos muitos que me questionaram, directa ou indirectamente, insistindo em conhecer os nomes que acabo, em primeira-mão, de anunciar, agradeço a paciência pela espera. Foi uma opção deliberada que outra intenção não teve que não a de evitar protagonismos numa altura em que a Orientação em Portugal, através da organização do Portugal O’ Meeting e do Meeting Internacional de Arraiolos e, ainda, das ímpares condições de treino e estágio que foram proporcionadas aos atletas estrangeiros que resolveram aproveitar a sua estadia entre nós para esse efeito, se voltou a alcandorar a um nível de projecção internacional que a todos nos deve encher de orgulho.

Orientovar - No caso de vir a ser eleito o Presidente de todos os orientistas portugueses, o que pode prometer a todos e a cada um de nós?

Augusto Almeida - Trabalho, rigor, dedicação, diálogo e... bom senso. Sabe, quando era jovem, a minha instituição ensinou-me, entre muitas outras coisas fundamentais, que o bom senso é uma coisa que não custa nada mas que custa muito. Este órgão que se candidata tem um pouco de tudo, incluindo bom senso.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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