terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

PORTUGAL O' MEETING 2011: A ANTEVISÃO DE LUÍS SANTOS, SUPERVISOR DO EVENTO




Em 2009 foi possível vê-lo em Mora, à frente duma empenhada equipa, levando por diante uma edição inesquecível do Portugal O’ Meeting. Dois anos mais tarde, Luís Santos regressa àquela que é a maior competição regular de Orientação Pedestre que se disputa no nosso País, não na qualidade de organizador, mas na de Supervisor. Ao Orientovar, aceitou falar de ambos os eventos, recordando o passado, sentindo o presente e projectando o futuro.


Orientovar - Ainda tem certamente presente a jornada de Mora do Portugal O’ Meeting 2009. À distância de dois anos, que particulares recordações guarda daqueles dias fantásticos?

Luís Santos - Recordações extremamente gratificantes. Costumo dizer que 10 anos de trabalho profissional como técnico de Estatística não me dão a sensação de realização e de dever cumprido que senti quando o evento terminou. Num evento daquele dimensão tudo o que vivemos é levado a expoentes extremos. Desde a ameaça de cancelamento de dois dos dias de evento a três dias da prova, do começo completamente caótico do OriShow até ao seu final apoteótico, a Cerimónia com o treinador suíço a elogiar o nível organizativo do evento e - o mais importante! - o bom trabalho de equipa que conseguimos como grupo de trabalho numa prova que foi uma agradável experiência de liderança “a dois” com o meu amigo António Rodrigues e que resultou muito bem. Claro que a imagem que sempre me fica é a do Sol e do norueguês do H80 que não queria ir para casa porque em casa dele tinha um metro de neve à porta...

Orientovar - Mas nem tudo foram rosas...

Luís Santos - É verdade. Já referi o problema de termos estado em risco de perder dois dias de prova e foram os dotes diplomáticos do Tiago Aires e da Raquel Costa que salvaram a prova. Mas noutro local, na madrugada do evento, tínhamos um dos proprietários (chamávamos ao que nos autorizou o “irmão bom” e a este o “irmão mau”) do terreno do WRE a dizer que afinal não lhe apetecia deixar lá entrar ninguém. Foram momentos de grande ansiedade, mas nos quatro dias o único que não deu problemas foi o primeiro. A tal ponto que, com outros episódios pelo meio, é difícil para o meu clube poder continuar a utilizar os mapas de Mora. Apesar do fantástico espírito de grupo que vivemos, estas situações fazem mossa em quem dá o litro voluntariamente e poucos meses depois disto senti que estava esgotado e já nem as participações me davam gozo. Das participações só me afastei seis meses, mas da vida organizativa foi praticamente ano e meio de paragem.


A postura e estratégia organizativa do CPOC foi construída à imagem do GD4C

Orientovar - Como recebeu a nomeação para Supervisor do Portugal O’ Meeting 2011, em Alter do Chão, Crato e Portalegre?

Luís Santos - Na altura da nomeação eu estava no Conselho de Arbitragem liderado pelo José Carlos Pires e estava envolvido no processo de escolha dos Supervisores. O meu desejo de trabalhar com o Fernando Costa e com o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos falou mais forte. Apesar dos meus dez anos de envolvimento em organizações, nunca tinha trabalhado com o GD4C. Desde os primeiros dias de participante no final do século passado que senti uma admiração especial pela forma como o GD4C preparava as suas provas e a postura e estratégia organizativa do CPOC foi construída à imagem do GD4C (note-se que as semelhanças vão ao ponto de sermos dois clubes das grandes metrópoles nacionais e ambos organizarmos eventos nas “pedras” do Interior do País). Pouco depois tornámo-nos amigos mas nunca tínhamos trabalhado juntos.

Orientovar - A articulação com o GD4C e todo o trabalho preparatório está a corresponder às suas expectativas?

Luís Santos - Sim. O Fernando tem um papel decisivo na condução de todos os processos que levam à concretização quer do trabalho técnico, quer do logístico e de divulgação e eu tento fazer o meu papel sem estorvar, sem impor desgastes ou pedidos complicados e tentando ser uma mais valia principalmente nas questões técnicas. Noutros eventos estaria mais atento aos preparativos logísticos. Mas com o GD4C a minha confiança nessa vertente da prova é elevada e o facto de serem quatro dias (mais o Sprint) faz aumentar exponencialmente o trabalho técnico. É essencialmente nessa vertente que eu tento concentrar a minha acção, vendo o meu trabalho como um complemento do trabalho do GD4C e também do Armando Rodrigues (cartógrafo), que neste evento (como em tantos outros na sua vida) irá ser uma das chaves do sucesso da prova.


Se vou para o terreno com companhia disperso-me com outros assuntos

Orientovar - Julgo saber que nas suas deslocações ao terreno pouco se tem cruzado com Fernando Costa. É uma coincidência ou é assim que se sente melhor a trabalhar?

Luís Santos - É curioso colocares essa questão, pois nunca falei muito com o Fernando sobre isso, mas quando estou no terreno gosto de estar sozinho. Já nos encontrámos várias vezes em outros eventos, trocamos muitos e-mails, conversamos sobre vários aspectos da prova, mas se vou para o terreno com companhia disperso-me com outros assuntos e desconcentro-me. Para sentir o mapa, para usufruir da Natureza em locais belíssimos como Entre-Ribeiras, para aproveitar o investimento que a Federação faz no meu trabalho, cada dia de presença no terreno tem que ser de manhã à noite e com concentração máxima. Se não for assim, sinto que estou a desperdiçar o investimento feito nos Supervisores e eu quero contribuir para que o papel dos Supervisores, quando desempenhado com dedicação e rigor, seja uma clara mais valia para qualquer organização.

Orientovar - Em que medida a sua experiência de organizador do POM’ 09 tem sido uma mais-valia nesta sua actual função? Ou, colocando a questão doutra forma, tem sido um Supervisor muito interventivo?

Luís Santos - Sim, tenho. O Fernando não vai contradizer-me... Mais importante do que a experiência adquirida nas organizações do meu clube é o que vou aprendendo nas supervisões e este já é o meu quarto evento a contar para o World Ranking como Supervisor. Tal como me aconteceu no Portugal’O’Meeting 2007, o facto de serem quatro dias de evento (em ambos os eventos com três mapas diferentes + Sprint) faz com que a dimensão técnica da prova seja grande e o trabalho incida numa elevada percentagem na sua componente técnica. Repara que eu faço questão de validar antes do evento todos os pontos que vão ser utilizados sem excepção. Num evento normal de dois dias falamos de 100 a 150 pontos de controlo. Num Portugal’O’Meeting, só nos quatro eventos principais, falamos de 320 a 350 pontos de controlo...


Uma grande festa do desporto português

Orientovar - Em relação ao evento - e dentro daquilo que nos poderá revelar – quais os aspectos que maior ansiedade lhe causam neste momento?

Luís Santos - Há ainda algumas questões em aberto como os efeitos práticos da eventual utilização pela primeira vez em Portugal do escalão da Super Elite Masculina, ou até o sorteio de tempos de partida de todos os atletas, entre outras. Também o número de participantes é ainda praticamente uma incógnita e esse desconhecimento afecta os preparativos logísticos em diversas áreas (a seis semanas da prova, o Oásis regista perto de 400 estrangeiros e 70 portugueses já com representantes de 21 países diferentes). Mas nada, nada nos cria maior ansiedade do que as condições climatéricas. As organizações só brilham quando o sol brilha. Quando o clima é adverso, o mais que podemos ambicionar é de conseguir organizar um evento sem falhas.

Orientovar - O que irá ser este POM’ 11?

Luís Santos - Tal como os anteriores, uma grande festa do desporto português. Todos sabemos que os media nacionais não dão valor ao que fazemos. Recordo-me um dia de ver um pequeno canto de página a falar de um evento de Orientação em Cascais com 1000 participantes (acabaram por ser mais de 1000) e o tema que ocupava 80% dessa página era um passeio pedestre com um grupo de 20 entusiastas da Natureza... Será que há mais alguma modalidade em Portugal que consiga juntar quase 2000 participantes num único evento durante quatro dias, com mais de metade dos melhores atletas do Mundo? No Mundo da Orientação já nos dão o devido valor. Duvido que haja atleta que não saiba que, para o Ranking Mundial, mais pontos que no Portugal’O’Meeting só mesmo no Campeonato do Mundo... E não é sempre!... Não vou estabelecer comparações com eventos anteriores nem elevar expectativas a níveis muito altos, mas convido quem está em dúvida de ir, a não hesitar. Esta é a maior festa da Orientação nacional. Vai ter terrenos, mapas e percursos a preceito (abro excepção para referir que até os percursos do Sprint em Portalegre incluem desafios deliciosos!) e adequados para uma competição deste nível. Mas como já sabemos o GD4C oferece sempre muito mais. Basta irem acompanhando o site em www.gd4caminhos.com/pom2011.


Dispenso muito mal a competição

Orientovar - Imagino o conflito interior de estar no epicentro do POM e não poder correr naqueles mapas e terrenos. É uma leitura possível ou dispensa bem a competição?

Luís Santos - Dispenso muito mal a competição. Adoro competir e para poder dedicar-me a 100% tenho que treinar e conseguir também usufruir das provas que outros voluntários como eu organizam para eu me divertir. Qualquer dia começam também os meus filhos a participar... Mas é um erro dizer que não posso correr naqueles terrenos e mapas. Normalmente só ando, não corro, mas nos dias de validação de terrenos e de preparação e verificação técnica tenho os terrenos só para mim. No mapa de Entre-Ribeiras já andou um grupo de 17 ou 18 gamos a brincar às escondidas comigo... Inesquecível... E costumo dizer na brincadeira que fui dos poucos que usufruí da maravilhosa floresta de Campo de Anta em São Pedro do Sul com um sol maravilhoso por ter sido Supervisor da magnífica experiência que foi o POM 2007.


[Foto gentilmente cedida por Fernando Costa]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Sem comentários: