sábado, 5 de fevereiro de 2011

O MEU MAPA: ANA CARREIRA, O WMOC 2008 E A FINAL DE SPRINT NA PRAIA DA VIEIRA




O meu mapa é todo aquele imenso pinhal de Leiria!
Esse pinhal, berço dos meus antepassados próximos e remotos!

O meu mapa é o mapa onde fica situada a aldeia onde eu nasci, e donde saí com três anos. É o mapa da minha memória mais longínqua, em que me lembro dum grande incêndio, em que vi muitos adultos assustados, e também de brincar com um amigo chamado Ernesto!

Aí voltei passados vinte anos para conhecer a aldeia e a casa onde nasci!

Passados mais outros vinte anos voltei, de novo, mas desta vez por causa da Orientação, não da minha, mas de BTT que a família ia fazer. E senti uma grande emoção, porque a prova desenrolava-se à volta da minha aldeia! E ainda mais emoção porque encontrei pessoas que se lembravam de nós e tinham aprendido, ali, as primeiras letras com a minha mãe!

Este imenso pinhal, onde fiz as minhas primeiras provas de Orientação também se estende mais para Norte, Figueira da Foz, Estarreja, etc. Muitas provas fiz eu nesse pinhal mágico, onde tive muitos dissabores mas também muitas alegrias e emoções.

Esse pinhal, sempre a fazer lembrar o rei D. Dinis “O Lavrador”.

Na realidade (de acordo com historiadores), não foi o rei D. Dinis que mandou plantar o Pinhal de Leiria, mas sim, seu pai, D. Afonso III. De qualquer maneira, foi D. Dinis quem, com a sua inteligência e sensibilidade, contribuiu para que o mesmo fosse ampliado e mantido. Sabe-se que, durante muitos anos, por cada árvore que ali fosse cortada, outra era logo plantada.

Esse mesmo pinhal donde foi cortada a madeira para construir as caravelas e as naus que haviam de levar os portugueses por esse mundo fora, na época dos Descobrimentos.

Também o poeta Afonso Lopes Vieira (“Eu dou o azeite brando / que tempera e alumia / eu acendo a luz do dia / quando a noite vem tombando /…”) está ligado a este pinhal. Nascido em Leiria, em 1878, passava longas temporadas na sua casa de S. Pedro de Moel, a “Casa-Nau”, como ele lhe chamava.

O Mar e o Pinhal foram as suas grandes fontes de inspiração!

Na realidade, sabemos que foi ali que ele escreveu a maior parte da sua obra literária.
No seu testamento, o poeta legou a casa à Câmara Municipal da Marinha Grande para que ali fosse instalada uma Colónia Balnear Infantil para os filhos dos operários vidreiros, bombeiros e trabalhadores das Matas Nacionais. Em tempos, serviu também de dormitório aos jovens da Orientação num dos primeiros estágios para jovens orientistas que houve naquela localidade (lembram-se?).

No primeiro andar desta casa, está instalada a Casa-Museu, em memória do poeta.
Foi aqui, também, no seio deste pinhal, onde eu já fiz tantas provas, que se desenrolou o meu primeiro WMOC, em 2008!

Desta zona, uma pequena parte, em particular, representa “O MEU MAPA”, aquele onde eu tive imensos dissabores:

- Trata-se do mapa da final da prova de Sprint do WMOC, que se realizou na praia da Vieira de Leiria.

Na realidade, as provas de Sprint são aquelas em que eu, em geral, obtenho melhores resultados e, portanto, parto sempre com enormes expectativas.

Acontece que, na prova de apuramento que decorreu na cidade de Leiria, eu só tinha cometido um erro, o que me levou a ir à final B e não à final A, apenas por alguns segundos. Portanto, ia com grande vontade de fazer uma final de Sprint razoável. Esquecendo-me, eu, que esta final era uma prova mista, com uma parte de floresta e outra parte urbanizada, o que significa que, aqui, já não conseguiria correr tanto como numa prova urbana.

Comecei muito bem, embora debaixo duma grande tensão, pois queria dar o meu melhor, tendo feito os primeiros quatro pontos sem grandes falhas. Até que…Vou a sair do ponto 4 e ouço alguém a perguntar-me onde estávamos. Olhei indignada (numa final duma prova de Sprint de um WMOC não se devem fazer perguntas destas, pensei eu!) e deparo-me com um estrangeiro (sim, os estrangeiros perguntam muito, ao contrário do que se diz). Olhei para ele, encolhi os ombros e fiz um gesto, como quem está a dizer que ele não devia estar a perguntar!

Continuei a prova, mas aquele episódio, inesperado, foi o suficiente para eu me desconcentrar. Ainda tentei recuperar, mas já não consegui e fui ter a um sítio que, pensava eu ser o sítio do ponto seguinte, mas de baliza, nem sombras! Olhei para o mapa para me tentar localizar, mas aquilo não me dizia nada.

Fiz várias incursões pela floresta, a partir de um caminho que me parecia bem definido, mas voltava sempre ao mesmo sítio, sem encontrar o tal ponto. Comecei a andar para a frente e para trás, sem saber muito bem o que fazer!

A minha cabeça parecia um turbilhão! Parecia que andava tudo à roda!

Às tantas, pensei: vou desistir! Mas desistir é coisa que eu detesto e… Já que estava ali… Nova incursão pela floresta e de baliza nada!

Resolvi então parar, para tentar raciocinar, o que já se tornava uma tarefa muito difícil, e pensei: se eu sei onde estou, porque o campo de futebol está acolá, a zona urbanizada está mais à frente, subo até próximo do campo de futebol e, a partir dali, tento localizar-me e encontrar a baliza.

E assim foi! Mas mesmo assim, não o consegui encontrar à primeira! Ainda fiz várias tentativas até que…Lá estava a famigerada baliza! Ufa!... Pensei eu, finalmente! Agora, só tenho que fazer tudo nas calmas até ao fim, para não ser desclassificada. Sim, porque em relação à classificação, se não ficasse em último lugar, era um milagre. E não é que não fiquei!

Estava então eu a picar o tal fatídico ponto e, qual não é o meu espanto, apareceu outro estrangeiro a perguntar onde estávamos! Confesso que, desta vez, parei mesmo para explicar, não fosse o diabo tecê-las… e acontecer o mesmo que da primeira vez! Será que foi castigo?!

O resto da prova correu-me bem, mas eu sentia-me muito mal comigo mesma, lembrando-me das expectativas com que tinha começado a prova!

Resultado: só para aquele maldito ponto, fiz mais tempo (22:57 minutos) do que no resto da prova (20:61 minutos)! Entre 80 atletas da final B, do meu escalão, fiquei em 70.ª, com o tempo total de 43:18 minutos, tendo havido várias atletas com tempos parecidos com o meu.

Escusado será dizer que, quando acabei, só queria é que ninguém me perguntasse como tinha corrido. Cumprimentei a pessoa que estava a dar águas e fui andando a ignorar toda a gente com quem me cruzava, até que parei e encostei-me a uma parede a tentar recompor-me, desejando que ninguém reparasse em mim!

Foi mesmo para esquecer!

Mais tarde, voltei a fazer outra prova, naquele mesmo mapa, e, quando comecei, estava bastante apreensiva, mas pensava eu: caramba!... Já conheço isto… Portanto, não devo ter muitas dificuldades… E não é que me enganei, outra vez e bastante, logo para o primeiro ponto!...

Não haja dúvida que este mapa é mesmo “O MEU MAPA”!





Ana Carreira
CPOC – Clube Português de Orientação e Corrida
Fed 1556

1 comentário:

Manuel disse...

Abençoados momentos de desorientação! Sem eles não teríamos esta saborosa crónica. Só é de lamentar a origem desse percalço. Não é fácil convencer as pessoas sobre a injustiça de fazer perguntas em prova. Eu próprio incorri nesse vício até há bem poucos anos, sem ter consciência da sua gravidade. Além do ilícito benefício que a pessoa ajudada tira em relação aos concorrentes do seu escalão, há o risco de distrairmos a pessoa a quem fazemos e pergunta. Certamente por pudor, a Ana Carreira não evocou uma "tragédia" semelhante à sua ocorrida dois anos depois com o seu marido. Ou seja, no último Mundial de Veteranos, na Suíça, e por coincidência também no Sprint, mas agora na prova de Qualificação. Desta vez, o agente da infracção nem sequer era estrangeiro. O Acácio Porta Nova, que habitualmente tem no sprint o seu melhor desempenho, viu assim comprometidas as suas aspirações devido à inconsciência de alguém que, provavelmente, nunca conseguirá imaginar o transtorno que causou. Pude testemunhar o seu desencanto. Ele tinha ido a La-Chaux-de-Fonds especialmente por causa do Sprint. Senti-me meio envergonhado de pensar que alguém, viajando de Portugal como nós, lhe causara tamanho desencanto. O Acácio que me perdoe se achar que fui indiscreto, mas ainda não consegui esquecer o seu desapontamento. E é importante que toda a gente pense na injustiça de um tal comportamento, mesmo que ele seja inconsciente.