domingo, 27 de fevereiro de 2011

ANTÓNIO MARCOLINO: "OPTEI POR SER TREINADOR A CEM POR CENTO"




O convidado da Grande Entrevista de hoje é um nome que dispensa apresentações. Com apenas cinco anos dedicados à Orientação – em cinco décadas de vida – António Carolino Marcolino é hoje uma das pessoas mais queridas e estimadas desta nossa pequena “família”. Aqui nos relata, na primeira pessoa, um pouco do seu percurso de vida na Orientação.


Orientovar – De que forma chegou à Orientação?

António Marcolino – Como aconteceu com muitos de nós, a “culpa” disto é do Fernando Costa. Eu comecei no Atletismo aos 14 anos e, com 25 anos de Atletismo, estava farto. Farto de guerras e guerrinhas. Já não suportava aquilo, estava desiludido e parei. Foi então que apareceu a Orientação, numa altura em que ia fazer a minha manutenção ao Parque da Cidade do Porto. O Fernando Costa ligou-me – eu já nem me lembrava que ele me tinha convidado antes – e acabei por ir parar ao Parque do Carriçal onde fiz a minha primeira prova de Orientação.

Orientovar – O que sentiu na altura?

António Marcolino – É indescritível, é uma coisa fora do comum. É o prazer... Quanto mais nos “atascamos”, mais vontade temos de descobrir o ponto. Acabei por ver na Orientação muito mais do que poderia imaginar e, se é verdade que fui desencaminhado pelo Fernando Costa, não é menos verdade que comecei logo a desencaminhar também outras pessoas, a começar pela minha própria família. São já três gerações que andam nisto e quanto mais pessoas conseguir absorver para a Orientação, melhor.


Correr a pensar, pensar a correr...

Orientovar – Essa família mais pequenina, que é a sua, está agora perfeitamente integrada nessa grande família que é o Grupo Desportivo Quatro Caminhos...

António Marcolino – Isto é mesmo uma família. Como em todas as famílias, há sempre pontos de vista diferentes mas no final tudo se faz, todos conseguimos chegar a acordo, toda a gente se mantém unida e fazemos as coisas sempre no bom sentido, ou seja, em prol do clube e da Orientação em geral.

Orientovar – A Orientação é uma alternativa ao Atletismo?

António Marcolino – Não a vejo tanto como uma alternativa mas mais como um complemento. Eu considero que nós hoje já não fazemos Orientação. Fazemos Corrida de Orientação. Orientação era há uns anos atrás, quando pegávamos num mapa e íamos para o meio do mapa e perceber o que era aquilo. Agora não. Agora faz-se Orientação a correr, é 60% de físico e 40% de técnico. Correr a pensar, pensar a correr... Corrida de Orientação, portanto.


Já por duas vezes a minha mulher me perguntou se tinha casado com ela ou com a Orientação

Orientovar – Onde é que termina o António Marcolino - atleta e começa o António Marcolino – treinador?

António Marcolino – O António Marcolino – treinador começou já no Atletismo, ou seja, eu vim para a Orientação mas já era treinador. Quando cheguei à Orientação, há cinco anos atrás, as coisas corriam sem um rumo definido, quase ao sabor do acaso. Não se percebia quem era atleta, treinador, dirigente... E digo isto em relação à Orientação em geral, não me refiro apenas ao Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos. Comecei então a treinar o meu filho, a minha mulher, depois começaram a aparecer outros atletas do clube, mais atletas de outros clubes e acabo por ter neste momento um grande número de atletas que eu ajudo, independentemente do seu clube. Eu vejo a Orientação como um todo, gosto da Orientação e é por isso que eu ajudo seja quem for na Orientação.

Orientovar – Como é que gere os vários esquemas de treino?

António Marcolino – Cada atleta é um atleta. Faço o acompanhamento individual de cada um deles, programo o treino de acordo com o momento de cada um, trabalho para que se atinja o melhor momento de forma e procuro gerir esses momentos para que todos estejam na máxima forma quando isso for importante para o clube. Tenho atletas desde o escalão de Infantis até aos “super-veteranos”, como costumo dizer, e toda a gente tem um plano diferente. Gasto quatro a cinco horas por dia na elaboração de planos de treino, na visualização e no acompanhamento dos meus atletas. Isto não é fácil. Já por duas vezes a minha mulher me perguntou se tinha casado com ela ou com a Orientação.


A prova da Joana foi aquela que até hoje me encheu mais as medidas

Orientovar – Ainda continua a treinar uma série de pessoas da área do Atletismo. Quais as diferenças entre ser treinador de Atletismo e ser treinador de Orientação?

António Marcolino – Na Atletismo conseguimos treinar apenas a vertente física, ao passo que na Orientação temos de conciliar a vertente física com a vertente técnica. Eu vou treinar uma pessoa da área do Atletismo e outra da Orientação, por exemplo, e a primeira corre apenas, enquanto a segunda corre com um livro nas mãos. E vai a correr e a ler o livro. Está a treinar a parte física e, ao mesmo tempo, está também a treinar a visão e a capacidade de memorização. Isto porque, no fim do treino, ele vai ter de me contar aquilo que leu. É a mesma coisa que estarmos a fazer um treino de memória com um mapa.

Orientovar – Na sua vida de treinador de Orientação, qual o momento que guarda com mais alegria?

António Marcolino – Tenho vários momentos assim, mas aquele que mais alegria me traz foi no Campeonato da Europa de Jovens do ano passado, em Soria. Tínhamos apostado nas Estafetas e, na véspera da prova, a Joana Costa estava bastante doente que eu receei que ela pudesse competir. A verdade é que ela fez uma prova fantástica, acho que fez a prova da vida dela. Não tirando o mérito à Mariana Moreira e à Isabel Sá, que fizeram provas excelentes, a prova da Joana foi aquela que até hoje me encheu mais as medidas.


Para mim as condições são trabalho, trabalho e mais trabalho

Orientovar – Integrou a equipa técnica das nossas jovens selecções nacionais de Orientação Pedestre durante dois anos. Hoje o grupo está completamente desmembrado. O que é que sente perante esta realidade?

António Marcolino – Não gosto muito de falar do passado. Passado é passado… Foi com todo o orgulho que dei o meu contributo para a Selecção, na firma convicção que levaríamos a bom porto o trabalho que tínhamos delineado. Quando cheguei à Selecção, aquilo não tinha ponta por onde se lhe pegasse. Pois nós, os treinadores, conseguimos pôr o grupo todo unido e a apresentar resultados. Passados alguns meses, já se via disciplina e empenho nos atletas. O problema é que as promessas foram surgindo mas depois não eram cumpridas. Eu nunca gostei de pôr a minha assinatura em matérias já resolvidas. O tempo de colocar o meu cargo à disposição chegou após o EYOC, falei com o Director Técnico Nacional e saí.

Orientovar – Voltaria à Selecção? Sob que condições?

António Marcolino – Para mim as condições são trabalho, trabalho e mais trabalho. Eu nunca ganhei um cêntimo com a selecção. Mas tem de haver condições e que dêem aos atletas e aos treinadores o valor que eles têm. E não venham dizer que os resultados surgem por acaso. Porque não surgem. Com dois anos de trabalho, os resultados já não acontecem por acaso.


Gostava que alguém se desse ao trabalho de verificar qual o treinador mais medalhado na época passada

Orientovar – E o mesmo acontece no Grupo Desportivo dos Quatro caminhos, presumo. Como é que viu a vitória no ‘ranking’ de clubes pela primeira vez no historial do GD4C?

António Marcolino – Foi a cereja no topo do bolo. Orgulho-me de ter chegado ao Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos e fomos quartos, depois terceiros, segundos e o ano passado vencemos o ‘ranking’. E ganhámos porque trabalhamos. Podem mudar as regras que quiserem. Nós vamos continuar a trabalhar e a ganhar. Optei por ser treinador a cem por cento. O clube tem interesses, eu não vou competir. Sei o que os atletas precisam, sei que é necessário dar aquele pequeno acerto antes da saída, sei que tenho de os olhar nos olhos para lhes dar aquela confiança e eles saberem o que têm de fazer. Se eu andar lá dentro a competir, como é que lhes dou aquele apoio e incentivo de que eles precisam?

Orientovar – Foi o treinador que mais títulos conquistou esta época, mas a escolha como o “treinador do ano” recaiu noutra pessoa. Magoado?

António Marcolino – Magoado, não. Mas quis saber o porquê desta situação. Questionei o Director Técnico Nacional acerca do assunto, visto que gostava que alguém se desse ao trabalho de verificar qual o treinador mais medalhado na época passada, tanto a nível de Clubes como de Selecção. Atenção que isto nada tem a ver com a pessoa que foi escolhida e que tem valor e muito valor. Mas quais foram os critérios? Foi só isso que eu pretendi saber. A resposta vou guardá-la para mim.


Posso garantir que este vai ser um grande Portugal O’ Meeting

Orientovar – Vem aí o Portugal O’ Meeting e o António Marcolino despe a pele de treinador e salta para o terreno no papel do organizador. Que papel vai ser esse?

António Marcolino – Vou ser dos primeiros a chegar ao terreno, eu, o Fernando Costa e o Jorge Marques. Eu serei assim uma espécie de bombeiro que terá de acudir aos fogos quando eles surgem. A minha tarefa primordial prende-se com a montagem das chegadas, mas vou socorrer quem estiver em dificuldades. Posso garantir que este vai ser um grande Portugal O’ Meeting. Estive no terreno na semana passada e vamos ter muito bons mapas. Vai ser um prazer muito grande para todos aqueles que nos visitarem. E vai ser um prazer muito grande também para mim. Aliás, tudo o que faço é com prazer. Se não fizer as coisas com prazer, não vale a pena.


Para saber mais sobre António Marcolino, não deixe de visitar a sua página pessoal em

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:

Almeida disse...

Parabéns!
Não há palavras que paguem a dedicação e a correcção.
Abraço

Rafael da Silva Miguel disse...

Grande Marcolino!

Obrigado pelas vezes que me "esticou/estalou" as costas!

Um dia vamos reencontrar-nos na selecção, que eu sei que o Marcolino quer, tanto como eu, que isto ande para a frente... (Só falta que os "outros" também queiram, para andarmos para a frente!) E sei que se for preciso a sua ajuda o Marcolino ajudará!

Abraço
Rafael Miguel

Dinis Costa disse...

“Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és”
Esse meu homónimo pelas qualidades humanas, princípios “...a que vem do berço”, tinha (já não falamos faz tempo) o meu alvará, e penso que continuará a ter porque há coisas que não mudam, estão no” chip” da consciência
Se eu juntar ao intróito o que perpassa toda a entrevista tenho que admitir que ao nível do empenho e das convicções esse senhor também tem o meu alvará de consideração.
Como amante da modalidade agradeço todo o seu empenho em prol da Orientação.
(Um livre pensador NPCOTA)