sábado, 15 de janeiro de 2011

ISILDA SANTOS: "A ORIENTAÇÃO SERÁ AQUILO QUE OS DIRIGENTES DOS CLUBES E DA FPO QUISEREM"




Em mais um episódio da rubrica que assinala o 20º Aniversário da Federação Portuguesa de Orientação, o Orientovar chama hoje à primeira página a presença e a palavra de Isilda Santos. Mulher dos sete instrumentos, Isilda Santos recorda para todos nós alguns momentos marcantes da história de duas décadas de Orientação no nosso País.


Orientovar - Apelando às suas memórias, como era a Orientação em Portugal quando a conheceu?

Isilda Santos - Começava o ano de 1992, telefonou-me uma amiga, a Teresa Marques, que já andava pelas florestas a praticar Orientação - e quem também lutou e fez muito pelo engrandecimento da modalidade, no clube que foi nosso de coração - a convidar-me para uma formação que o Higino [Esteves] ia promover, durante um fim de semana, no Jardim do Cerco, junto ao Convento de Mafra. No sábado tivemos teoria e no domingo, logo, a prática num percurso preparado no mapa daquele jardim. Plenamente confiante que o conhecia quase de olhos fechados perdi-me por lá, dentro dos seus recantos (e encantos). E perdi-me logo ali também de amores pela Orientação. Paixão essa que ainda perdura... E foi assim...

Orientovar - O que viu na Orientação para que ela se transformasse no desporto duma vida?

Isilda Santos - Permitiu conhecer-me melhor, deu-me liberdade, auto domínio, auto confiança, proporciona-me conhecer sítios lindos deste pais, que só quem o percorre em profundidade, bem nas suas entranhas, como os praticantes de Orientação, tem o privilégio de o conhecer. Bem, por vezes consigo ir a sítios onde nem os cartógrafos foram! Penso eu, quando me meto em silvados, impensáveis de ultrapassar. Estive com dois amigos, na festa maior da Orientação, o O- Ringen, em 1994. Aí foi o deslumbramento! A propósito, conhecemos lá o Alexander [Shirinian] e foi o inicio de uma colaboração técnica com a Federação Portuguesa de Orientação, muito profícua, da qual ficaram tantos ensinamentos sobre Orientação e que nos deixou uma mão cheia de belíssimos mapas e, também, uma fraterna amizade.


"Tinhamos sempre como bandeira o entusiasmo"

Orientovar - Nunca, em momento algum, se sentiu desapontada por ter feito a opção que fez?

Isilda Santos - Não, NUNCA!

Orientovar - Um amigo comum, referindo-se aos tempos em que foi a "secretária" da FPO, confessou-me isto de espantoso: "Hoje, se precisamos de pesquisar uma informação, temos o Google. Naquele tempo tínhamos a Isilda!". Quer comentar?

Isilda Santos - Querido amigo esse! Relevando o exagero, a verdade é que passámos horas, serões, fins-de-semana, a preparar o tronco do que é hoje a regulamentação da modalidade. Sem grandes recursos, a FPO preparou formação básica, preparou documentos que distribuiu aos clubes que entretanto se iam filiando. Procurámos responder às questões que iam surgindo e todos íamos transmitindo aquilo que também íamos aprendendo. Eu também não sabia muito, mas tínhamos sempre como bandeira o entusiasmo, a entrega incondicional à torrente de projectos e de vontade do Higino de sempre ir mais além. Ele que foi, sem dúvida, um relevante Presidente da FPO. Conseguia contagiar-nos! Ele era o leme daquela a quem quis chamar de “equipa de gigantes”. Quem teve o privilégio de conhecer o Higino, nesses tempos, sabe que ele era – e é! - mesmo assim.


"Não gosto de competir"

Orientovar - Se lhe pedisse para enunciar uma mão cheia de momentos marcantes ao longo deste tempo - para o bem e para o mal -, quais elegeria?

Isilda Santos - Só uma pequena amostra dos bons momentos, já que os outros, com o passar do tempo, consigo que fiquem transparentes. A nível pessoal, participar na organização do 1º POM, que decorreu na Tapada Real em Mafra. Que adrenalina na equipa toda! Bem, e tantos, tantos outros momentos inesquecíveis! Tantas amizades que vieram para ficar. A nível de membro da Direcção, a realização do 1º Congresso Nacional de Orientação, a organização da Final da Taça do Mundo de Orientação Pedestre, a assinatura do protocolo entre o Gabinete Coordenador do Desporto Escolar e a Federação Portuguesa de Orientação com vista a um maior desenvolvimento da Orientação no seio do Desporto Escolar... Ainda a comemoração do 5º aniversário da FPO, em que a atleta mais nova, a Ana Oliveira, apagou as velas. Como nota interessante, e julgo estar certa, também foi o atleta mais jovem, o Diogo Miguel, quem apagou as velas do 10º aniversário. Não é muito relevante mas são momentos que nos unem…

Orientovar - Apesar da inexorável marcha do tempo, a partir de determinada altura deixou de abdicar de fazer Orientação no escalão D35, o que ainda acontece nos dias hoje. Porquê?

Isilda Santos - Ora bem! Não gosto de competir. Precisava mesmo - e ainda preciso - é de “recarregar baterias" e às vezes dava por mim (imagine-se!) a ficar tensa e ansiosa com as classificações. Ah! Também nunca houve o “timing” certo no "meu" escalão. Quero dizer, eu vou sempre um pouco à frente do ultimo escalão que é criado. Vou socorrer-me de uma referência que li há pouco sobre o código de honra dos samurais. Aquilo é giro! Aquilo sou eu! Aquele rapaz conhece-me....


"Acredito mais em pequenos passos, mas constantes"

Orientovar - Que acompanhamento e avaliação faz do actual estado da nossa Orientação?

Isilda Santos - Estamos ao nível de muitos, tantos, outros países que já tinham esta modalidade antes de nós. Temos tido uma representação sempre digna nas diversas deslocações da nossa selecção, a eventos no estrangeiro. Temos mapas de uma qualidade impar, elogiados por muitos dos atletas de top que vêm ao nosso país treinar e/ou participar em diferentes provas. A Orientação será aquilo que os dirigentes dos clubes e da FPO quiserem. Porque os praticantes, esses querem. Esses estão lá. Esses são os nossos heróis. E muitos deles são também dirigentes... Como em qualquer colégio com poderes de decisão, temos de dialogar, de discutir construtivamente e de olhos nos olhos, os objectivos a que nos propomos e o modo como poderemos realizá-los.

Orientovar - O que irá ser necessário para que a Orientação se afirme, de facto, como "o Desporto do século XXI"?

Isilda Santos - Bem, estas frases que pretendem ter um grande impacto, não me dizem muito. Acredito mais em pequenos passos, mas constantes. Acredito naquilo que podemos fazer num dia após o outro. Eu acredito muito nos jovens. Acredito na sua capacidade de trabalho, talvez porque também me senti sempre muito incentivada e apoiada. Bem gostaria de terminar com optimismo e com confiança de que melhores tempos virão.



Formação básica no jardim do cerco. Esta era já a parte prática

Numa acção de formação já muito avançada sobre controlo de provas e
traçado de percursos em que o formador foi o Edmond Széchényi

Momento de "glória" em Punta Umbria -Espanha, em Abril de 1993

Outro momento de "glória" num Campeonato Nacional, em 2000

No POM, na Tapada real, durante o qual tivemos a visita do
Lennart Levin, Secretário-Geral da IOF

Ainda no POM na que foi a primeira participação da Yoli, que ainda
hoje é presença constante nos POM. Também já lá está o Alexander, mesmo por trás do Higino

Mesa do I Congresso Nacional de Orientação

Comemoração do 10º aniversário da FPO

Comemoração do 5º aniversário da FPO

O"RINGEN"94: Aspecto geral da arena

O"RINGEN"94:Eu numa chegada empolgadíssima

O"RINGEN"94:O menos jovem atleta

O"RINGEN"94: O Meu ídolo, na Orientação. Também já por diversas vezes esteve no POM

[Fotos e legendas da autoria de Isilda Santos]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

Gino disse...

Uma Grande Senhora da Orientação!
Inteligência, saber, equilibrio e ponderação, mas também determinação, frontalidade e coragem em todas as decisões em prol do crescimento da Orientação em Portugal.
Obrigado Isilda!

Luisa disse...

Os "novos" como eu ficam boquiabertos com a tua história na "história" da orientação em Portugal.
Um grande obrigado pelo teu testemunho.
Sou tua fã.
Luisa

Paulo Franco disse...

A Isilda é sem dúvida uma Grande Senhora! Reconheço-o pelo contributo à modalidade e pelo seu carácter. Viu e ajudou-me a crescer como atleta e pessoa. Obrigado! Um grande beijinho.

Manuel disse...

Que testemunho brilhante! Que saudável forma de estar na orientação! E que belas recordações: o POM 96, o O-Ringen, Jörgen Mårtensson, Shirinian... e todo o trabalhinho de, tijolo a tijolo, ajudar a construir o "edifício" da Federação. Um grande abraço.