quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DESPORTO ESCOLAR NO FIO DA NAVALHA: IMPRESSÕES (IV)




Coordenador Nacional de Orientação do Desporto Escolar, Ricardo Chumbinho deixa-nos as suas impressões acerca do Projecto de Despacho de organização do trabalho nos Agrupamentos ou Escolas não agrupadas, suas implicações no Desporto Escolar e mais concretamente no trabalho ao nível dos Grupos-Equipa de Orientação.


Qualquer decisão por parte do Ministério da Educação que retire o trabalho com o Grupo-Equipa (GE) de Desporto Escolar (DE) da componente lectiva será um erro enorme e com consequências imediatas e a prazo a diversos níveis.

No imediato, estou absolutamente convencido que seria uma medida que levaria praticamente à extinção quase automática do Desporto Escolar e à enorme diminuição da qualidade do “desporto escolar residual” que subsistisse, pelos seguintes motivos:

1. A maior parte dos professores não terá quatro horas disponíveis na componente não lectiva para assegurar o trabalho com o GE; a alternativa será então desistir desse trabalho ou assegurá-lo com apenas duas ou três horas o que, para um trabalho de qualidade, é pouco.

2. Ainda que alguns professores possam ter quatro horas disponíveis na componente não lectiva, fruto de reduções da componente lectiva por idade, têm muitas vezes que assegurar o desempenho de outros cargos importantes para a Escola e que recaem na componente não lectiva, como são os casos da coordenação de departamento ou grupo disciplinar, coordenação de direcção de turma, tutorias, etc., o que novamente deixaria menos de quatro horas disponíveis para o DE.

3. Considerando ainda um número já muito reduzido de professores com quatro ou mais horas na componente não lectiva e sem a necessidade de ocupar algumas destas horas com outros cargos ou funções na Escola, tornar-se-ia inviável aquilo que sucede muitas vezes hoje em dia e que é a acumulação do trabalho com Grupo-Equipa (componente lectiva) com a coordenação do Clube de Desporto Escolar ou actividade interna (componente não lectiva); os poucos professores em condições de o fazer teriam então que optar o que, qualquer que fosse a opção, resultaria de forma bastante negativa para o DE.

4. Finalmente, mesmo considerando que poderiam ainda assim restar alguns professores (os mais velhos...) que disponham de quatro horas de componente não lectiva, que não as vejam ocupadas com outro tipo de serviço distribuído pela escola e que não optem pela actividade interna ou pela coordenação do Clube de Desporto Escolar (obrigatório para que o mesmo exista numa escola), número este que seria certamente muito reduzido... seria necessário que estes professores aceitassem continuar o seu trabalho nestas condições!

Seria por outro lado um erro conceptual, uma vez que este tipo de trabalho é em tudo idêntico ao trabalho lectivo com turmas – há professor, horário semanal, grupo de alunos devidamente identificados e regular, conteúdos específicos, actividade de ensino/aprendizagem e necessidade de trabalho de planeamento, avaliação e controlo. Configura assim todas as características para poder ser considerado na componente lectiva.

É ainda um erro crasso em termos de saúde pública e mesmo de economia de estado. Portugal é reconhecidamente um dos países do mundo ocidental em que se registam menores taxas de prática de actividade física regular na idade adulta e maiores taxas de obesidade e doenças associadas, sendo que estes fenómenos começam a surgir cada vez mais cedo. Estes factores implicam elevados gastos do Estado em Saúde, não só em campanhas de prevenção como em recursos na doença. A única forma de combater esta situação é a criação de hábitos de prática desportiva, algo que apenas poderá acontecer de forma significativa na idade escolar. Aqui, os mais de 8.000 grupos/equipa envolvendo 150.000 alunos que anualmente estão na actividade externa do DE, jogarão seguramente um papel importante. Com a drástica redução do número de escolas, equipas e alunos, possivelmente os quadros competitivos locais teriam um interesse apenas residual e os campeonatos regionais e nacionais perderiam a razão de existir. Com esta falta de competição externa, no ano seguinte a maior parte das poucas escolas “sobreviventes” provavelmente também desistiriam.

Dito isto, não me restam dúvidas de que a passagem do trabalho com os grupos/equipa para a componente não lectiva do horário dos professores seria um erro tremendo que traria como consequência imediata a quase extinção do Desporto Escolar. Seriam cerca de 150.000 alunos que deixavam de ter acesso na sua escola ao treino e competição regulares da sua modalidade de eleição, com reflexos negativos na saúde pública a médio prazo e naquela que é já hoje uma das principais fontes de recrutamento e rejuvenescimento de muitas federações desportivas.

Contudo, aquilo a que se assistiu até à data desta reflexão nesta matéria foi a um primeiro projecto de despacho no sentido de retirar as horas do desporto escolar da componente lectiva, seguida de uma onda de reacções negativas originárias de diversos quadrantes e um novo projecto de despacho onde já não constava esta medida relativamente ao DE, sendo esta substituída por um vazio ao afirmar-se que o desporto escolar será objecto de despacho próprio. Dir-se-ia que o ME avançou demais (resta saber de forma deliberada ou pouco esclarecida...) nesta matéria, foi obrigado pela força da opinião pública a recuar e ganhou agora algum tempo para melhor reflectir sobre o assunto. Na prática, neste momento todos aguardamos pelo dito “despacho próprio”, sendo portanto um momento perigoso e a exigir de todo os interessados a devida atenção e a continuação da manifestação das preocupações até aqui feitas sentir. Bom seria que também o sistema desportivo (federações e suas representantes) não tardassem a fazer ouvir a sua voz nesta matéria não só na opinião pública como junto de quem de direito.

Termino com duas ilustrações paradigmáticas:

1. A minha escola tem, este ano lectivo, 9 professores envolvidos no Desporto Escolar, dos quais 8 usufruem de redução da componente lectiva (aquela que se pretendia/pretende retirar). Estes 8 professores treinam regularmente 7 equipas de 5 modalidades diferentes, asseguram a coordenação nacional de 2 modalidades e a organização do quadro competitivo local (cerca de 15 escolas) de 1 modalidade. No cenário previsto de passagem de todas as horas para a componente não lectiva e com os outros cargos e funções que desempenham na escola... apenas “sobreviveria” o Grupo-Equipa de Xadrez! Desapareciam 4 modalidades (Dança, Basquetebol, Futsal e Orientação), a Coordenação Nacional de duas modalidades teria que ser reformulada (Ténis e Orientação) e o quadro competitivo de Orientação da Península de Setúbal teria que ser totalmente reformulado em termos de escola-sede e responsável.

Numa breve análise aos 10 primeiros do ranking da Taça de Portugal FPO 2009/2010 nos escalões de Elite, verificamos que pelo menos 5 masculinos e 4 femininos tiveram origem no DE. Isto significa que, sem o DE nos moldes actuais, esta seria uma das modalidades extremamente penalizadas em quantidade e qualidade a curto e médio prazo.

Ricardo Chumbinho


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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