quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DESPORTO ESCOLAR NO FIO DA NAVALHA: IMPRESSÕES (V)




Tema recorrente no Orientovar nos dois últimos dias, o Projecto de Despacho de organização do trabalho nos Agrupamentos ou Escolas não agrupadas, da responsabilidade do Ministério da Educação, continua na Ordem do Dia. Enquanto se aguardam mais reacções dos Professores com Grupos-Equipa de Orientação – nomeadamente a do Professor Jorge Baltazar, Vogal da Direcção da FPO e responsável, entre outros, pelos Pelouros do Desporto Escolar e do Desporto Universitário – apresentamos as impressões de João Vítor Alves e José Paulo Pinho, responsáveis pelos Grupos-Equipa de Orientação da ERD Conde de Ourém e ES Palmela, respectivamente.


Orientovar - Caso venham a ser implementadas, que reflexo poderão ter estas medidas no desenvolvimento do trabalho com o seu Grupo-Equipa de Orientação?

Professor João Vítor Alves - Caso se verifique a obrigatoriedade de cumprimento da portaria que regulamenta a saída das horas do Desporto Escolar da componente lectiva dos professores, será um “cortar as pernas” a um projecto que, desde longa data, vem promovendo a prática desportiva de milhares de jovens do nosso país e, do mesmo modo, inviabiliza a descoberta de muitos valores para o desporto nacional. No nosso Agrupamento de Escolas possuímos, no presente ano lectivo, nove Grupos-Equipa (BTT, Dança Urbana, Natação, Tiro com Arco, Ténis de Mesa, Xadrez, Voleibol, Futsal e Orientação), distribuídos por sete docentes com formação em todas as modalidades. No presente ano lectivo, encontram-se inscritos no Desporto Escolar 206 alunos, correspondendo a 37% dos alunos matriculados nos 2º e 3º ciclos. No que respeita ao meu Grupo-Equipa, será com muito desagrado, quer pessoal, quer do órgão de gestão do Agrupamento, que estes cortes sejam efectivamente concretizados, uma vez que a Orientação é, sem a menor dúvida, a modalidade que mais divulga a nossa Escola e o Desporto Escolar do concelho de Ourém. Este Grupo-Equipa foi criado no início dos anos noventa e tem funcionado ininterruptamente até aos dias de hoje, tendo tido sempre um número de alunos inscritos superior a vinte. No presente ano lectivo, e para promover a inclusão de alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), ao abrigo do Dec. Lei nº 3/2008, vários alunos foram integrados no Grupo-Equipa de Orientação e noutras modalidades, em articulação com a Educação Especial, de modo a permitir a ocupação de tempos livres e a aquisição de várias competências que não poderiam ser desenvolvidas na sala de aula. No meu horário lectivo, possuo seis horas (foram atribuídas oito, mas devido à tardia confirmação desta atribuição só foi possível atribuírem-me seis) que se distribuem por dois grupos de trabalho denominados de Escola de Referência Desportiva – protocolo com a Escola Secundária de Ourém - (20 alunos com conhecimentos da modalidade) e Escola de Referência Desportiva – NEE (22 alunos a iniciar a modalidade, 12 dos quais com Necessidades Educativas Especiais). A aplicação da dita Portaria terá inevitavelmente como consequência a desvalorização, ou mesmo o fim, do Desporto Escolar, deitando por terra o enorme empenho com que me tenho dedicado à modalidade de Orientação desde que tomei a responsabilidade do Grupo-Equipa. É de lamentar que numa época em que tanto se fala de hábitos de vida saudável, se procure, devido apenas a objectivos economicistas, limitar a prática desportiva, pondo em causa a qualidade da educação. É ainda de salientar, e pode ser facilmente comprovado, que a participação dos alunos em clubes, nomeadamente nos de carácter desportivo, constitui um factor de motivação para a permanência na escola (prevenindo o abandono escolar) e para o sucesso educativo.

Orientovar - Quais as consequências desta situação para o futuro da modalidade?

Professor João Vítor Alves - A nossa modalidade sairá muito prejudicada porque todos os professores responsáveis pelos Grupos-Equipa de Orientação, por muito boa vontade e amor que tenham pela modalidade, não irão ter, de certeza absoluta, motivação para continuar a trabalhar como até aqui e sendo assim levará à estagnação/regressão da qualidade já reconhecida internacionalmente em competições da ISF e do desporto federado dos nossos jovens.


"Os meus maiores lamentos são os de estarem a destruir algo que deu muito trabalho a conseguir"

Orientovar - Caso venham a ser implementadas, que reflexo poderão ter estas medidas no desenvolvimento do trabalho com o seu Grupo-Equipa de Orientação?

Professor José Paulo Pinho - A equipa de Orientação da ES Palmela funciona há 14 anos! Há mais de 14 anos que desenvolvo Orientação nesta Escola e existe um trabalho que tem evoluído ano após ano, quer no nº de praticantes, nos resultados obtidos, na quantidade de actividades que desenvolvemos e participamos, e até no número de alunos que transitam para o federado. Neste momento temos cerca de 50 alunos a participar nas provas do Desporto Escolar! Organizamos anualmente diversas provas e actividades locais e participamos em todas as provas do calendário do Desporto Escolar e nalgumas do calendário da Federação Portuguesa de Orientação. Desde há três anos a Escola está filiada na FPO. No início desde ano o Desporto Escolar decidiu que os Campeonatos Regionais e Nacionais do DE de 2011 seriam apenas para Juvenis. Esta foi uma primeira medida que, na minha opinião, marca o início do declínio do DE nas Escolas, com a diminuição do número de participantes e oferta desportiva de qualidade. Cerca de 40 dos alunos da minha equipa são Infantis ou Iniciados e uma das grandes expectativas que têm ao participar nas provas, tem sido ao longo destes anos o da obtenção de resultados que os possibilite participar nos Regionais e Nacionais.

Orientovar - Quais as consequências desta situação para o futuro da modalidade?

Professor José Paulo Pinho - Quanto à possibilidade do desaparecimento da redução lectiva dos professores para o desenvolvimento de actividades do Desporto Escolar, não vou falar do prejuízo ao nível do número de jovens a praticar desporto, os hábitos desportivos que não se vão criar e os efeitos ao nível da saúde e bem estar da nossa juventude. Vou falar dos efeitos para a nossa Orientação. Teremos muitos menos professores de Educação Física a trabalhar nas escolas e o mesmo trabalho (ou mais) para distribuir, o que faz com que projectos tenham que ser abandonados e outros inevitavelmente sofram um desinvestimento (porque o tempo não estica). Na minha escola, por ser um projecto bem enraizado penso que não haverá risco de desaparecer, mas sofrerá um inevitável desinvestimento que deverá passar pela não participação em provas federadas e um menor número de actividades organizadas ao longo do ano, o que terá como consequências principais um menor número de praticantes a surgir e menor evolução dos que surgem. Os meus maiores lamentos são os de estarem a destruir algo que deu muito trabalho a conseguir, e o facto de virmos a ter cada vez mais equipas e resultados no Desporto Escolar que resultam de trabalho de clubes e menos do trabalho das escolas. O trabalho desenvolvido ao nível do Desporto Escolar, em articulação com clubes e FPO, tem vindo nos últimos 15 anos a criar aos poucos uma pirâmide desportiva de praticantes de Orientação, com cada vez mais praticantes na base. Estas medidas colocam em perigo esta continuidade! Não devemos pensar apenas no momento e ficarmos satisfeitos por ter poucos mas bons, por estes serem suficientes para termos representações internacionais dignas. Esse é o papel do Desporto Escolar e das suas equipas.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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