sábado, 29 de janeiro de 2011

ALEXANDER SHIRINIAN: A RECORDAÇÃO MAIS GRATA É O PAÍS E AS SUAS GENTES




Alexander Shirinian é uma referência incontornável da história da Orientação nacional. Verdadeiro “homem dos sete instrumentos”, o russo deixou-nos um legado fundamental através, nomeadamente, da assinatura do seu nome nalguns mapas emblemáticos do nosso País. É ele o protagonista do terceiro episódio desta rubrica destinada a assinalar os vinte anos da Federação Portuguesa de Orientação.


Orientovar - Quem era Alexander Shirinian antes de o conhecermos?

Alexander Shirinian — Trabalhei na Russia como Professor da Faculdade de Educação Física da Universidade de São Petersburgo, entre 1984 e 1992 e como treinador da equipa militar da minha região, de 1976 a 1984. De 1974 a 1980 fui um atleta de Alto Rendimento em Orientação, Vice-Campeão da União Soviética, catorze vezes Campeão de Leninegrado (São Petersburgo) e seis vezes Campeão das Forças Armadas da União Soviética. Tornei-me conhecido como Cartógrafo e fiz à volta de vinte mapas antes de encontrar Higino [Esteves].

Orientovar - Como surgiu a possibilidade de vir para Portugal colaborar com a Federação Portuguesa de Orientação?

Alexander Shirinian - Por acaso encontrei o Higino Esteves pela primeira vez na Suécia (O-Ringen), em 1994, e na mesma prova um ano depois. Foi então que o Higino me fez a proposta de executar trabalho cartográfico em Portugal e que eu aceitei. Cheguei a Lisboa em Janeiro de 1996 com a grande prioridade de fazer o mapa para a primeira edição do Portugal O’ Meeting, em Mafra. O tempo não ajudou, o terreno revelou-se extremamente difícil de cartografar, o prazo final foi muito apertado - menos de dois meses até à prova! -, mas dei o meu melhor e consegimos fazer uma prova óptima, de parceria com os Amigos do Atletismo de Mafra.


Elaborei cerca de cinquenta mapas com uma superficie total superior a 200 km2

Orientovar - Que Orientação veio encontrar em Portugal?

Alexander Shirinian Na segunda metade da década de 90, a Orientação em Portugal atravessava um período de desenvolvimento rápido, graças a uma enorme e entusiástica actividade por parte de Higino Esteves e de, entre muitas outras pessoas, Isilda Santos, Jorge Simões, Luís Sérgio, Armando Rodrigues, José Carlos Pires, Teresa Marques, Augusto Almeida e Francisco Pereira. Mas ainda assim, apesar de todo este empenho, a evolução da modalidade manteve-se condicionada pela existência dum grande número de obstáculos. A baixa qualidade dos mapas, os poucos clubes com capacidade para organizar provas de nível suficiente, a escassez de atletas nas categorias de Juvenis e Juniores, a falta de conhecimento no tocante ao planeamento dos percursos e o fraco nível dos atletas da equipa nacional eram problemas que subsistiriam ainda bastante tempo.

Orientovar - Centrou o seu trabalho sobretudo na execução de mapas, relegado que foi para segundo plano o trabalho com os atletas. Que balanço faz desse seu trabalho?

Alexander Shirinian – Quando vim para Portugal, a execução de mapas era um aspecto muito importante para o futuro da modalidade e, objectivamente, concentrei-me nessa tarefa. Mas esporadicamente participei em cursos de Cartógrafos, Traçadores de Percursos e Treinadores, bem como em estágios das equipas nacionais de Seniores e Juniores. No período entre 1996 e 2000, sozinho ou com parceiros, elaborei cerca de cinquenta mapas com uma superficie total superior a 200 km2. Os mais importantes foram os da Tapada de Mafra (POM’96), Serra do Gerês (Campeonato Ibérico 1996), Parque Florestal de Monsanto (1996), Furadouro (POM’97), Serra de Cabreira (POM’99), Praia de Vieira e Marinha Grande (World Cup Final 2000) e Praia de Mira (POM’2000). Mas o trabalho que mais prazer me deu foi o planeamento dos percursos para as provas de maior importância, nomeadamente o Portugal O’ Meeting de 1996 a 2000, os Campeonatos Ibéricos de 1996 e 1998 e os Campeonatos Nacionais.

Também gostei muito de trabalhar nos estágios das equipas nacionais, especialmente com a juventude. Infelizmente para mim, havia poucas ocasiões de trabalho deste género. Dos atletas com alguma capacidade potencial na arena internacional, em finais do século XX, posso mencionar o Mário Duarte. Depois apareceram o Joaquim Sousa e o Marco Póvoa. Entre os jovens, a grande promessa foi o Pedro Nogueira, mas a falta de experiência internacional e, também, de condições de treino (geralmente por falta de treinador profissional que pudesse trabalhar com atletas a tempo inteiro), fez com que a expressão das potencialidades destes atletas não alcançasse o devido significado a nível mundial.


Sempre me senti em Portugal como em casa

Orientovar - Dos muitos momentos vividos em Portugal, quais aqueles que conserva na memória como fazendo parte das suas mais gratas recordações?

Alexander Shirinian - A recordação mais grata é o País e as suas gentes. Sempre me senti em Portugal como em casa. Nao só os amigos e parceiros da Orientação, mas todas as pessoas que eu encontrei e com as quais contactei, mostraram a sua hospitalidade. Todos os portugueses foram muito amigáveis para mim. Eu amo Portugal, a sua natureza, as suas gentes. Tenho muitos amigos, respeito todas as pessoas que encontrei durante a minha actividade em Portugal. Não há espaço para mencionar todos eles mas gostaria de realçar o José Carlos Pires, um homem muito inteligente e bem organizado (esta última qualidade nem sempre se encontra em Portugal), talvez o meu amigo mais próximo em Portugal. Higino Esteves, fez muito não só pela Orientaçao em Portugal mas também por mim, em termos pessoais. Armando Rodrigues – trabalhador dos trabalhadores! -, a maior parte dos mapas feitos por mim foram desenhados por ele. Os dirigentes dos clubes, Teresa Marques, Jorge Elias, Francisco Pereira, Augusto Almeida e Altino Silva. Os amigos pessoais, Mario Duarte, Carlos Garcia, Ricardo e Pedro Nogueira, Rui Antunes, Bruno Nazário. E muitos, muitos outros.

Orientovar - Em 2001, quando abandonou Portugal, era um homem realizado ou deixou muito trabalho ainda por desenvolver?

Alexander Shirinian – Deixei Portugal por razões familiares, mas não queria dizer muito sobre isso. Todavia, a minha partida também foi motivada por uma grande fadiga fisica e psicológica. O trabalho de Cartografia é muito duro. Podia aguentar dois ou três meses sem descanso, mas não foi possível aguentar o mesmo ritmo a tempo inteiro. Nenhum dirigente de FPO é responsável por esta situação, foi uma decisão pessoal. Peço desculpa por isso. Acho que havia muita coisa para fazer e não posso afirmar que me tenha realizado completamente, mas saí duma terra plantada e que viria a dar os seus frutos no futuro. Isto ficou bem patente na excelente organização do Campeonato do Mundo de Veteranos, no ano de 2008.


Fiz tudo o que podia dentro das minhas capacidades

Orientovar Após a sua saída, continuou a acompanhar a Orientação em Portugal?

Alexander Shirinian - Nos anos seguintes visitei Portugal algumas vezes, mas sem grande sucesso. Em 2002 trabalhei três meses, mas fiz pouco. Naquele momento não me encontrava ainda suficientemente recuperado, nem física, nem psicologicamente. No ano de 2009 participei nos estágios dos clubes bem como da Selecção Nacional. Gostei muito, mas isto foi apenas uma colaboração episódica porque não há emprego a tempo inteiro, qualquer que seja o clube ou mesmo na própria Selecção Nacional. A última visita, essa então não correu bem de todo. O trabalho previsto para vinte dias que me foi proposto não podia ser feito com qualidade dentro deste prazo. Com quarenta graus de calor no Alentejo, fiz tudo o que podia dentro das minhas capacidades. Peço desculpa ao Tiago Aires e à Raquel Costa. Foi um trabalho mal planeado da minha parte. Precisava de mais tempo para concluir esse trabalho.

Orientovar - Que análise faz do actual momento e que futuro para a Orientação portuguesa?

Alexander Shirinian - Penso que a Orientação em Portugal deu um grande passo em frente na última década e que há muitas coisas boas. Posso mencionar a grande qualidade das provas organizadas por clubes bem como pela FPO a nível mundial. Também estou bastante contente com o número elevado de praticantes jovens devido ao trabalho dos dirigentes dos clubes. Não tenho dados suficientes para fazer uma análise completa e detalhada, mas poderia dizer que não gostei de tudo o que vi na última (e única) prova em que participei em Portugal, em Setembro de 2009, principalmente em termos do planeamento e traçado dos percursos. Foi apenas uma prova regional, mas algumas tendências não me agradaram muito. Dum modo geral, penso que a falta de contactos internacionais em áreas vitais como a cartografia, o planeamento, o treino, etc., constitui o maior problema em todos os sentidos. Isto acontece igualmente ao nível da competição. Sem a resolução do problema da falta de condições de treino profissional para os atletas de Alto Rendimento, Portugal não poderá esperar situar-se ao nível dos primeiros, casos dos países nórdicos, da Rússia ou da Suíça.


A criação dum mapa moderno leva hoje mais tempo do que levava no século passado

Orientovar Caso a oportunidade surgisse, voltaria a aceitar um convite da FPO para trabalhar em Portugal?

Alexander Shirinian - Sinceramente, não sei. Tenho medo de aceitar um convite para Cartografia depois do último trabalho que fiz sem sucesso. Não que tenha perdido a capacidade técnica para este tipo de trabalho, mas as condições físicas já não me permitem trabalhar em terreno duro ou durante períodos superiores a 20-30 dias. Aqui na Rússia continuo a fazer mapas, mas apenas durante os meus tempos livres, aos fins-de-semana ou nas folgas do meu trabalho principal. Se aceitasse um convite para cartografia, gostaria que as pessoas que fazem a planificação do trabalho levassem em consideração que a criação dum mapa moderno leva hoje mais tempo do que levava no século passado. Na minha terra, planeamos sete a dez dias de trabalho por km2 para um terreno de dificuldade média e de dez a catorze dias por km2 para um terreno difícil ou muito difícil. Isso é uma realidade. As coisas, para serem bem feitas, não se podem fazer com pressa. Mas é claro que gostaria de regressar a Portugal para fazer coisas úteis dentro das minhas actuais capacidades.

 Portugal O' Meeting 1996, Mafra

 Taça do Mundo 2000, Marinha Grande

Selecção nacional de Juniores, 2000

[Fotos e legendas de Alexander Shirinian]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

7 comentários:

CarlosG disse...

Bom dia a todos os orient...

Como diria o meu amigo Alexander "é passível..." que pudéssemos vir a ter alguns atletas que pudessem "dar cartas" a nível mundial na nossa modalidade... "é passível" mas, pessoalmente e se nada se alterar, não acredito que isso seja uma realidade.

O meu pai disse-me à "long time ago", era ainda eu um jovem puto: «meu filho, não podemos agradar a gregos e a troianos!». Esta característa também a vi no Alexander.

Gostassem dele ou não tem de aceitar um facto: ele produziu trabalho positivo no nosso país para a nossa modalidade. Não gostavam dos seus métodos por serem demasiado exigentes?... Que chatice!

Quase todos gostamos de pedras preciosas e no entanto elas "sofrem" demasiado (pressões, temperaturas, cisalhamentos, fracturas, etc) para nos poder agradar no fim da transformação.

Tive o gosto de privar com este "russo apanhado da carola" e de aprender muito sobre a nossa modalidade com ele.

Um bem-haja para ele e um agradecimento a quem se lembrou desta merecida homenagem.

Pratiquem desporto. Haja saúde.
Orientação - o desporto na floresta.

Manuel disse...

Não privei de perto com o Alexander, mas guardo as melhores recordações dos contactos que tivemos. Não fazia ideia do seu invejável currículo na Rússia. Apreciei o seu diagnóstico e a memória de nomes e situações. Comoveu-me a grata imagem que guarda de Portugal e do nosso povo. Um abraço ao Alexander e muito obrigado ao Margarido por mais este excelente trabalho.

antunes disse...

Bom Dia;

Tive o privilégio de privar de perto com este Bom Homem e Excelente Técnico, com quem aprendi muito do que hoje utilizo no meu dia a dia como profissional de Cartografia.
Era um regalo ver como ele passava para o papel com grande precisão, toda uma área visual.
Para mim, ainda não vi melhor cartógrafo do que ele, mesmo agora que já conheço pessoalmente alguns muito bons a nível mundial. Foi pena que não lhe tivessem dado hipótese de continuar o trabalho apaixonado que muitas vezes me confidenciou que gostaria de fazer em Portugal."Técnico Formador das camadas mais jovens.Mas, talvez por certas invejas e medos de perda de protagonismo,foram-no colocando de parte por forma a indicarem-lhe a porta de saída.
Tenho para mim, que só o facto de ser um grande Sr. e possuidor de uma educação extrema o leva a ter um cuidado extremo nesta sua entrevista para não melindrar ninguém. Mas eu e muito mais gente, sabe bem como ele saíu e como deverá estar ainda sentido com determinadas personagens.
Um muito obrigado ao Alexander por tudo o que nos deixou e também ao Joaquim Margarido por não deixar passar ao esquecimento, pessoas e factos tão relevantes para a modalidade.
Rui Antunes

Gino disse...

Muito bom ter notícias do nosso grande amigo e companheiro Alexander.
Sempre contámos contigo e não precisavas de pedir desculpas a ninguém por causa da tua saída de Portugal em 2001. Falámos sobre isso em seu tempo e o assunto ficou resolvido.
Em relação ao comentário do Rui Antunes, só gostaria de lembrar que o próprio Alexander refere na entrevista que as razões do seu abandono do trabalho na FPO foram de natureza pessoal. Na altura, dada a grande amizade e lealdade entre nós, mereci a confiança do Alexander que me confidenciou os problemas familiares que atravessava.
O Alexander só não foi mais envolvido no trabalho com os jovens talentos porque, na altura, a produção de mapas era uma prioridade incontornável, por vezes com vezes com eventos calendarizados e sem disponibilidade de outros cartógrafos para realizar os mapas. Sinceramente acho que, por respeito ao próprio Alexander, não deveremos colocar "veneno" onde nunca o houve!
Grande abraço Alexander.
Parabéns Margarido pela entrevista.

antunes disse...

Não venho aqui fazer comentários para entrar em diálogo com quem quer que seja.O Sr. Higino está a dar a sua versão eu dei a minha e garanto que como sempre o fiz e faço, nunca digo nada que não seja a pura verdade e com conhecimento de causa.A única pessoa que falou em veneno, não fui eu.
Como escrevi e repito O Alexander foi e é um grande Sr. e na minha opinião pretendeu ser superior a tudo o resto.Como referi há muitas pessoas que por cá andavam na altura e que sabem qual é a verdade, tanto neste como em muitos outros casos.Isso para mim basta.
Rui Antunes

Luís Sérgio disse...

Olá Rui.

Como me parece que a "pura verdade" não é compativel com "meias verdades" e porque seguramente grande parte dos leitores não "andava por cá na altura", seria util que indicasses a quem te referes, para libertar os restantes potenciais visados de suspeições.

Obrigado,

Luís Sérgio

Dinis Costa disse...

Obrigado ALEXANDER
Homenagem das gentes portuguesas, praticantes de orientação e outros, ao “CZAR da Rússia”Alexander Shirinian.
Fico feliz pela consideração que o Alexandre demonstrou pelas gentes, que reportou de melhores amigas/os. Pelo que manifesto a nossa Gratidão
O Alexander foi o homem certo no tempo certo, um achado:
- Foi valorado como técnico ou como “imigrante”? A minha consciência tem uma existência inquieta, a mágoa dos outros comove-me e a injustiça (a haver) revolta-me. Nas relações institucionais os motivos pessoais não são sinónimo de motivos familiares.
Os homens de boa índole, que mais trabalham, são sempre aqueles a quem as hierarquias mais pedem. Trabalhador incansável que ia de Bike e farnel, trabalhando por vezes de sol a sol.
Tinha a grandeza dos homens simples porque sabedores.
NPCOTA
Obs. : Ah! Ainda tenho uma Bússola, de afectos, vinda de ti.