segunda-feira, 26 de julho de 2010

A MINHA ESCOLA: COLÉGIO DE CAMPOS (VILA NOVA DE CERVEIRA)

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Numa altura em que as férias lectivas já estão plenamente instaladas, também o Orientovar se prepara para entrar de férias. Não gostaria, contudo, de o fazer, sem dar a conhecer a realidade do Grupo-Equipa de Orientação do Colégio de Campos, em Vila Nova de Cerveira, que aqui nos é trazido pelo seu grande dinamizador, o Professor André Soares. Boas leituras e… boas férias!


Fundado durante o ano lectivo de 1983/84, para começar a funcionar em 1984/85, o Colégio de Campos localiza-se na freguesia de Campos (Vila Nova de Cerveira), e insere-se num meio envolvente cuja actividade económica dominante é a indústria, seguida de uma agricultura de subsistência. O Colégio de Campos é uma escola de 2º, 3º Ciclo e Ensino Secundário, dotada de Autonomia Pedagógica, que tem mantido uma política educativa assente no primado da democratização do ensino e no sucesso educativo dos seus alunos. Funciona actualmente com Contrato de Associação, o que permite o ensino gratuito aos alunos. e conta com cerca de 397 alunos, 40 professores/ formadores, uma psicóloga, 16 funcionários e 19 turmas.

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A nível científico e pedagógico o colégio de Campos operacionaliza a sua política educativa na aplicação do seu projecto educativo, promovendo, assim, um ensino de qualidade que vai de encontro às dificuldades e interesses dos alunos, num ambiente onde se prezam valores e atitudes. Ao Colégio chegam jovens oriundos de todos os grupos sociais, evidenciando uma variedade de culturas e de comportamentos tão grande quantos os alunos em presença. É uma Escola que abre as portas aos que a procuram sem filtrar ou escolher os que nela entram. Acolhe crianças e jovens entusiasmados pelo estudo e outros que detestam estudar, recebe e responde a crianças portadoras de várias deficiências e é uma escola onde se pratica e aprende a solidariedade, onde todos aprendem a lidar e a viver com todos. Um espaço de cidadania – dos direitos de todos e para todos, praticando a convivialidade social.

A diversificação das ofertas escolares do ensino secundário surge como uma estratégia de combate aos défices de escolarização e de qualificação profissional da região em que se insere, elevando os níveis de habilitação escolar e de qualificação dos jovens, em particular dos que não pretendem de imediato prosseguir estudos. Assim, o Colégio de Campos oferece o curso de Ciências Socioeconómicas, curso Tecnológico de Informática (11º e 12º anos), curso de Educação Formação de Cuidados de Beleza e curso profissional de Técnico de Gestão de Equipamentos.

Quem é o Professor André Soares?

André da Cunha Gonçalves Soares nasceu em Paredes, a 26 de Agosto de 1976. Possui a Licenciatura em Professores do Ensino Básico, Variante de Educação Física, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), a qual concluiu em 2000, com a média de 13 valores. No ano lectivo de 2002 / 2003, concluiu o 3º ano da Licenciatura de Educação Física e Animação Social, no Instituto Superior de Línguas e Administração (ISLA), em Bragança. Matriculado no 5º ano do Curso de Educação Física e Desporto, no Instituto Superior da Maia (ISMAI).

Para além dos estágios realizados na Escola EB1 Ciclo Espírito Santo (Guarda), no ano lectivo de 1998 / 1999, e na Escola EB 2/3 de S. Miguel (Guarda), no ano lectivo de 1999 / 2000, realizou ainda um estágio na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC) em Braga, no âmbito da disciplina “Metodologia do Treino - Opção Deficientes”, no ano lectivo de 2005 / 2006. Acumula no seu vasto currículo a realização de Seminários, o cargo de Treinador dos Minis A e B de Basquetebol, na Sociedade Recreativa Segadanense (Valença), de 1994 a 1996, o de monitor de “Ocupação de Tempos Livres”, na NautiMouro (Monção), durante o Verão 2000 e Verão 2001, o de Professor de Natação de crianças e adultos portadores de deficiência mental e motora, através da instituição San Xerome Emiliani (Tui – Espanha) – preparação de atletas para o Campeonato Galego Natacion 2005, o de organizador e responsável pelo Projecto “Canoagem”, no Clube Marinheiro Minhoto (Monção), durante o Verão 2002 e o de Treinador no Sporting Clube de Braga – Secção de Desporto Adaptado com as classes BC2 e BC4 de uma equipa de Boccia, na época 2009-2010, entre muitos outros.

Lecciona no Colégio de Campos (Vila Nova de Cerveira) desde o ano lectivo 2002 / 2003, altura em que teve a seu cargo alunos na disciplina de Educação Física dos 7º, 8º e 9º anos. Nos anos lectivos seguintes foi Professor das disciplinas de Educação Física, Área de Projecto, Estudo Acompanhado e Formação Cívica; Delegado de Grupo
e Director de Turma. Desde 2007, é o responsável pelos Grupos-Equipa de Orientação e Boccia no Colégio de Campos.



“Os alunos que integravam este grupo ‘amavam’ a modalidade”

Orientovar - Como surgiu a ideia de criar um Grupo-Equipa de Orientação no Colégio de Campos?

Professor André Soares - A iniciativa não foi minha. O Grupo-Equipa surgiu com o Professor César Cerqueira, antigo docente do Colégio de Campos. No ano lectivo em que o Grupo iria ser extinto, em consequência da saída do professor César do Colégio, resolvi submeter os alunos de Orientação a um questionário de satisfação relativo à prática da modalidade, de forma a efectuar um balanço da actividade. Concluí, então, que os alunos que integravam este grupo ‘amavam’ a modalidade. Assim, dei continuidade ao trabalho do colega. Neste momento o Grupo tem 4 anos de existência.

Orientovar - Qual a sua experiência na área da Orientação e como tem sido encarado o desafio até ao momento?

Professor André Soares - Nunca pratiquei este desporto na vertente competitiva. Apenas e por curiosidade fi-lo na vertente recreativa, ou seja, como actividade essencialmente lúdica, sem a preocupação de competir mas e somente a de me distrair e divertir. Para além disto, quando tomei a decisão de pegar no Grupo-Equipa de Orientação, achei que era necessário fomentar os meus conhecimentos na área. Para além da formação académica que possuía e da bibliografia arrecadada, achei que era necessário frequentar algumas acções de formação. Na altura recorri a dois fantásticos colegas com muita experiência e com cartas dadas na modalidade. Foram eles, o Professor Filipe Marques, da Escola Secundaria de Maximinos, e a Professora Paula Campos, da Escola Secundária Carlos Amarante, ambas em Braga. No meu primeiro ano, deram-me alguma informação e formação técnica e apoiaram-me na organização de um percurso simples na mata do Camarido, Caminha, que permitiu aos alunos consolidarem e aplicarem os conhecimentos por mim transmitidos. A experiência foi positiva para todos.


“A dificuldade maior é a de não ter o mapa da Escola”


Orientovar - Que virtudes encontra na modalidade que a podem tornar apetecível à prática pelos mais novos?

Professor André Soares - Enquanto modalidade, a Orientação proporciona, prioritariamente ao nível dos jovens, as bases de uma actividade física, num contexto social marcado pela educação e cumprimento de regras (cidadania e ética desportiva). Enquanto desporto de natureza, promove um contacto íntimo entre o praticante e o meio, a fim de fomentar a sensibilização ambiental. Ao contrário de outras modalidades, nesta, os alunos têm a possibilidade de demonstrar individualmente as suas capacidades, o que faz dela uma actividade mais aliciante. Para além disto, verifico que o facto de ser uma modalidade que se pratica ao ar livre, possibilita aos atletas romper com as obrigações do dia-a-dia gerando momentos agradáveis e descontraídos.

Orientovar - Quais as grandes dificuldades para o desenvolvimento das actividades de Orientação no Colégio?

Professor André Soares - A dificuldade maior é a de não ter o mapa da Escola. O nosso trabalho é desenvolvido com o auxílio de um croqui do Colégio, efectuado pelos professores de Educação Visual e Tecnológica, o qual não permite aos alunos retirar todo o “sumo” que um mapa oficial permite. Muitas vezes este primeiro contacto é conseguido nas provas regionais. Nas provas em que o mapa incide sobre espaços como parques / jardins e mesmo áreas urbanas, os nossos alunos sentem poucas dificuldades, isto pelo facto de se aproximar do espaço físico do Colégio. Já em percursos que envolvam matas ou floresta, aí a conversa é outra! Com a participação no último Campeonato Nacional de Desporto Escolar, foi possível averiguar que existe a possibilidade de estabelecer um protocolo ou algo semelhante com a Federação Portuguesa de Orientação para elaboração do mapa da Escola. Como a zona envolvente é floresta, este permitir-nos-á explorar e alargar os nossos conhecimentos. Este será o próximo desafio.


“Seria necessário mais gente a trabalhar com os responsáveis”

Orientovar - Quantos elementos integram regularmente o Grupo-Equipa de Orientação e de que forma coordena treinos e provas?

Professor André Soares - Ao todo, integram regularmente o Grupo-Equipa de Orientação 21 alunos. Devido à incompatibilidade de horários, alunos/responsável do Grupo-Equipa, é difícil a articulação de forma a garantir a presença de todos os elementos da equipa num só “treino” e alguns estão mesmo impossibilitados de praticar.

Orientovar - Que tipo de apoios têm tido por parte do Conselho Directivo da Escola, do Desporto Escolar e outros?

Professor André Soares - Na nossa Escola, apesar de haver por parte da Gerência do Colégio e da Direcção Pedagógica a preocupação de apetrechar os diferentes Grupos-Equipas com material adequado e específico, não existe a possibilidade de garantir as deslocações para o mapa mais próximo, o da mata do Camarido, Caminha. Esta acção acarretaria, sem dúvida, um custo muito elevado e incomportável. Quanto à relação que mantemos com a Equipa de Apoio à Escola (EAE) - Desporto Escolar é saudável. Embora, e no meu entender, seria necessário mais gente a trabalhar com os responsáveis para que a informação fosse entregue em tempo útil e houvesse maior esclarecimento das dúvidas.


“Ficaríamos todos a ganhar”


Orientovar - A tão desejada articulação Desporto Escolar / Desporto Federado, como é que se consegue, numa terra como Vila Nova de Cerveira onde não há um clube de Orientação, nem sequer nas suas proximidades?

Professor André Soares - Infelizmente - e ao contrário do que devia acontecer -, esta tão desejada articulação não acontece. Na verdade, faz todo o sentido que nas opções das Escolas entrem apenas modalidades que já existam nas proximidades, de forma a dar continuidade ao trabalho desenvolvido. Atendendo a que as escolas existem para formar alunos, os clubes deveriam existir para depois formá-los como atletas. A razão que leva muitas vezes a esta falta de articulação deve-se às escolhas efectuadas pelas Escolas e Professores e que, no meu entender, se prendem com dois motivos: O primeiro tem a ver com a área de especialização de cada Professor - no meu caso especializei-me e continuarei a trabalhar na aquisição de competências na área do Desporto Adaptado, e neste sentido desenvolvo na minha Escola as modalidades da Orientação e do Boccia. O segundo tem a ver com a falta de motivação dos alunos para a prática de uma actividade física. No sentido de orientar e motivar os alunos para uma prática desportiva activa, os Professores e as Escolas vêem-se “obrigados” a socorrer-se e a abordar outro tipo de modalidades que não as nucleares, como é o caso do Futsal ou do Futebol.

Orientovar - Como é que vê a evolução da modalidade ao nível do Desporto Escolar?

Professor André Soares - Não estou há muitos anos a trabalhar com esta modalidade, mas tenho verificado ao longo do tempo, ano após ano, que existem cada vez mais atletas a praticá-la. Neste sentido penso que é uma modalidade que se encontra em pleno crescimento. Por outro lado, penso que deveria existir maior articulação entre as Escolas e Federações. Eu sei que existem protocolos assinados com a Direcção Geral de Inovação Curricular - Desporto Escolar, mas na minha opinião não passam de papéis assinados. Aliás, quanto mais gente envolvida no processo, mais a informação se dispersa e se perde. O que as Federações devem fazer é ter um papel mais activo junto das Escolas que desenvolvem a modalidade. Inclusive, havia de haver no site das várias Federações - não só na de Orientação -, um link, tipo “linha de apoio ao cliente”, que pudesse fornecer informações e formas de actuar perante determinadas situações ou dúvidas emergentes. Para além disso, deveriam ser criadas condições de promoção de acções, palestras, cursos direccionados especificamente para os professores que desenvolvam a modalidade nas Escolas, pois nem todos são especializados na área. Ficaríamos todos a ganhar: os Professores fariam e desenvolveriam um trabalho metodologicamente correcto; os alunos adquiririam conhecimentos científicos adequados e correctos, aproximando-se, quem sabe um dia, dos atletas mais consagrados; e as Federações poderiam ter mais e melhores atletas que enaltecessem o seu bom-nome.


“Faz todo o sentido que sejam os clubes a organizar as provas”

Orientovar - Acha que os quadros competitivos são os adequados às realidades das escolas ou, se tivesse poder de decisão, preconizaria que fossem as próprias escolas a organizar as competições, como acontece com a generalidade das modalidades do Desporto Escolar?

Professor André Soares - Ao que pude averiguar na Fase Final, com os colegas de profissão, é que esta situação varia de Direcção Regional para Direcção Regional. No meu caso, que pertenço à Direcção Regional de Educação do Norte (DREN), são realizadas 4 provas Regionais cuja competência é da Coordenação Local de Desporto Escolar (CLDE) de Viana do Castelo, Braga, Porto e Tâmega, e que normalmente envolvem um clube local, onde porventura podem estar ou não professores que são responsáveis pelo Grupo-Equipa de Orientação das escolas inscritas no CLDE, e a sua especialidade é em Desportos da Natureza. Na minha opinião, e uma vez que a minha formação é básica e recente, faz todo o sentido que sejam os clubes a organizar as provas. Pelo menos assim não corremos riscos no traçado do percurso. Como estamos todos neste “barco” para adquirir competências e saberes, poderiam eventualmente ser os professores de cada escola a fazê-lo, embora acompanhados de um especialista que lhes permitisse dar indicações do que está ou não correcto. Ou então promoverem cursos de traçados de percursos, mas não a pagar. As Federações poderiam ver esta situação como um investimento na modalidade.

Orientovar - Porque é que a Orientação é ainda um "ilustre desconhecido" na generalidade das Escolas deste País?

Professor André Soares - Se calhar por falta de aposta da Federação em informar os Órgãos Directivos e os Professores que coordenam e leccionam nas diferentes Escolas do país. Não só deveriam intervir no sentido de dar a conhecer os benefícios da modalidade, como também criar um quadro de pessoal especializado para formar e orientar os professores que pretendam desenvolver a modalidade.


“Mais e melhores resultados para o próximo ano”

Orientovar - De que forma viveu a presença de três alunos seus nos Nacionais de Águeda?

Professor André Soares - Lamento a correcção, não são três alunos, mas sim dois. Melhor, seriam na verdade quatro os que deveriam estar presentes nesta fase final. Passo a explicar: inicialmente a informação dada pelo responsável da Equipa de Apoio à Escola (EAE) - Desporto Escolar é que estavam apurados 2 atletas. Este apuramento teria sido conseguido a título individual. No dia anterior à competição, foi-me comunicado pelo responsável do Desporto Escolar que, devido ao aumento da quota de alunos provocada pela desistência de outras equipas, também tinha apurado a equipa de Iniciados Masculinos. Realizei a inscrição dos dois atletas apurados individualmente mais a inscrição da equipa masculina de Iniciados. Ora, como o atleta apurado individualmente fazia parte da equipa de Iniciados, foi-me comunicado pelo responsável da EAE -Desporto Escolar, segundo informação transmitida pelo coordenador da DREN – Desporto Escolar, que não era possível manter esta situação. Ou o atleta escolhia competir individualmente ou em equipa. Qual o meu espanto quando vou levantar as credenciais, já em Águeda, local onde se realizou o segundo momento, da Fase Final Nacional de Desporto Escolar, e deparo-me com a seguinte pergunta “… onde estão os documentos de identificação dos alunos que constituem equipa?”. Expliquei-lhes a situação, à qual me responderam que afinal o atleta poderia participar em ambas competições. Esta situação dá que pensar, Certo? No entanto, foi com muita satisfação que estive presente nos Nacionais, orgulhoso dos meus alunos e feliz por levar o nome do Colégio de Campos a este nível. Esta participação foi também uma oportunidade para partilhar e adquirir conhecimentos nesta área.

Orientovar - Como é que perspectiva o futuro do Grupo-Equipa de Orientação no Colégio de Campos?

Professor André Soares - Eventualmente, será uma modalidade que terá todas as condições e meios para durar. Como tenho dois Grupos-Equipa - Orientação e Boccia -, não me é permitido constituir outro, senão a aposta era formar um terceiro. Quanto aos objectivos colectivos e pessoais, perspectivo mais e melhores resultados para o próximo ano lectivo. Temos é que, em conjunto, melhorar algumas situações que são essenciais para o alcance de bons resultados, entre eles a compatibilidade de horários entre as partes envolvidas, mapa da escola e formação pessoal.


“O sonho comanda a vida!”


Orientovar - Ter um aluno do Colégio de Campos nos Mundiais do próximo ano em Itália seria um sonho?

Professor André Soares - “O sonho comanda a vida!”. A verdade é que eu já idealizei alguns supostos sonhos e o facto de trabalhar no sentido de os atingir fez com que alguns já tivessem sido alcançados. Estava longe de imaginar que um dia pudesse estar a participar numa Fase Final Nacional de Desporto Escolar e já este ano aconteceu. Neste sentido, e comparativamente a outras situações da vida parecidas a esta, no dia que eu meter na cabeça que o sonho de que me fala é um objectivo pessoal, eu consigo! Por enquanto é muito cedo para sonhar com esta ideia.

Saiba mais sobre o Colégio de Campos, acedendo à página na Internet em
http://www.colegiodecampos.com/.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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sábado, 24 de julho de 2010

O MEU MAPA: ISABEL E CARLOS MONTEIRO, QUIAIOS E LAGOA DAS BRAÇAS E O PORTUGAL O'MEETING 2010

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Quando surgiu o desafio do Joaquim Margarido para eleger ‘O Meu Mapa’ e contar um pouco a sua história, melhor dizendo, qual a razão ou o conjunto de razões que me levaram à escolha, dei comigo a pensar qual é o meu mapa e quais os critérios que me levaram a escolhê-lo.

Qual o mapa mais desafiante? Felizmente tenho encontrado vários, pelo que eliminei este critério e passei ao seguinte.

Qual o mapa onde fiz grandes ou muitas asneiras? Rapidamente eliminei este, pois são tantos os erros que também com este critério não seria fácil a eleição.

Mas afinal o que representa o mapa para além do terreno? E dei comigo a pensar que o mapa representa algo especial que precisamos para organizar uma prova, uma prova que nos satisfaça enquanto organizadores (somatório da satisfação dos participantes) e nos dê motivação para, depois da entrega de prémios e de uma noite bem dormida, nos pormos a pensar quando e onde será a próxima.

Decidi então que, em vez de eleger ‘O Meu Mapa’ enquanto participante, iria eleger ‘O Meu Mapa’ enquanto organizador de uma prova (leia-se - e bem! - co-organizador, integrado na minha grande equipa que é o COC).

Tenho o hábito, sempre que viajo para uma prova ou no seu regresso, seja em férias ou em viagem profissional, de ir olhando pela janela procurando zonas “perfeitas” para cartografar e logo ali vou idealizando a Arena, os Estacionamentos, a Acessibilidade rodoviária dos participantes e todos os outros pontos que, somados, resultam num grande Evento de Orientação.

Nos últimos tempos, e porque esse hábito se generalizou nas carrinhas do COC e é tema de conversa - até para tornar a viagem mais agradável -, vamos escolhendo e comentando “bela zona para uma Média…” ou “excelente zona para uma Longa”, quase em concurso e a ver quem descobre mais e melhores áreas para futuros mapas.

E para encontrar ‘O Meu Mapa’ - “Quiaios e Quiaios Lagoa das Braças” -, recuo a 2002 quando, um dia, o João Oliveira telefona e diz: “Encontrei uma excelente zona para cartografarmos. Visitem e validem”. E lá fomos, eu, a Isabel e o Rui Tenreiro. Confirmámos que a zona, hoje mapa do Ginásio, usado no último dia do POM 2010 Lagoa da Vela, era efectivamente interessante mas era demasiado pequena para o que pretendíamos. Estávamos ainda no início da utilização do Sport Ident que veio permitir que mapas de menor dimensão se adequem à realização de excelentes provas de Longa e Média.

Algo nos dizia que não devíamos desistir e que haveria por ali terreno de qualidade para cartografar e organizar eventos de excelência.

Depois de analisarmos imagens de satélite, decidimos voltar ao terreno, agora já munidos de carta militar. Desta feita comigo e com a Isabel foi o Rui Antunes.

Parámos o Jipe do Rui (por coincidência cinzento, da cor do COC…), junto ao velho e abandonado campo de futebol de Quiaios onde, em 2006, no Campeonato de Longa, fizemos o estacionamento. A pé e cheios de esperança fomos andando para norte e depois para nordeste e apenas encontrámos vegetação rasteira a dificultar a progressão. Cerca de um quilómetro depois passámos um aceiro e eis-nos numa zona completamente diferente, com interessantes detalhes de relevo, com uma ou duas curvas de nível, sem vegetação rasteira, pinheiros baixos a cortarem a visibilidade e um piso excelente, cheio de musgo a cobrir a areia.

Andámos para Este e a qualidade aumentava. Andámos para Oeste, mantinha-se a qualidade, diminuía a visibilidade, aumentava o relevo e já tínhamos colinas com duas e três curvas de nível. Passámos a estrada de alcatrão para Oeste e mantinha-se a qualidade num tipo de terreno completamente distinto do anterior.

Encontrámos, sem dúvida, uma área de grande qualidade. Estávamos entusiasmados e logo ali íamos pensando em candidaturas ao Campeonato Nacional de Longa e a um POM que queríamos um grande POM.

Como já estávamos muito cansados, voltámos ao Jipe para darmos uma volta maior e perceber o que iríamos cartografar. Fomos ainda interceptados por uma patrulha da DGRF que nos questionou sobre quem éramos e o que andávamos por ali a fazer. Feitas as explicações continuámos com a nossa pesquisa.

Depois da área definida, encomendámos o mapa base ao P-O-Derebrant e em 2005 o Rui iniciou a sua romaria diária para Quiaios, depois de ter acabado o mapa da Costa de Lavos e o mapa da Leirosa, este ultimo apenas estreado na primeira etapa do POM 2010.

O Rui ia-nos mantendo informados sobre o andamento dos trabalhos e a qualidade do terreno. Lembro-me que por vezes ele comentava: “Alguma zonas são de tal maneira técnicas que, depois de vir do campo e após o jantar, vou desenhar e, por vezes, não me consigo entender com o desenho manual e na manhã seguinte tenho de lá voltar para confirmar quase tudo.”

No final do Verão de 2005 - e após de cerca de três meses em Quiaios - o Rui entrega-nos 9 km2 de área cartografada e, desta feita, acompanhado pelo José Jordão, fui pela primeira vez para o terreno com o mapa na mão. Estava encantado com o terreno. Á medida que iamos navegando e deambulando pelo mapa, eu e o Jordão íamos idealizando pontos de controlo e comentando que estávamos perante um dos nossos melhores terrenos e que, para ombrear com esta qualidade do terreno, o Rui Antunes se havia esmerado e tinha feito o seu melhor trabalho de sempre. Na brincadeira e em tom de elogio questionávamos: “Quem foi o russo que tu contrataste para vir aqui a cartografar esta área?”

Iniciámos a preparação do Campeonato Nacional e quando o Rui esboçou os percursos sugeriu que apenas utilizássemos uma parte, guardando a zona Este para um dia especial.

Assim, elegemos Quiaios para, em 1 de Maio de 2006, ser estreado no Campeonato Nacional de Distancia Longa. Dada a importância da prova - e porque tínhamos tudo preparado em Março -, aproveitámos a presença da selecção francesa nos nossos Campos de Treinos e lá fomos uma manhã colocar o sistema SI e ver o Thierry Gueorgiou perder por dois segundos para um seu companheiro a quem oferecemos uma garrafa de vinho do Porto. Logo ali, e enquanto íamos bebendo um cálice de Porto, os atletas franceses fizeram grandes elogios ao terreno e ao mapa.


A zona Este, à qual chamamos Lagoa das Braças, ficou guardada e reservada para ser estreada num POM, promessa que honrámos e cumprimos com muito orgulho.

Assim ‘O Meu Mapa’, 9 km2 separados apenas pelos seus nomes, foi o eleito por ter proporcionado uma excelente jornada de Orientação para cerca de 1.900 atletas em representação de 30 Países, ajudando a dignificar Portugal e a Orientação Portuguesa nos dias 14 e 15 Fevereiro de 2010, dois dos dias mais felizes que vivi nas minhas lides organizativas, o POM 2010.

Um obrigado sincero a todos quantos tornaram possível que o sonho do POM 2010 se tornasse uma realidade de que muito nos orgulhamos.

Carlos e Isabel Monteiro
FPO 1931 e 1952
COC – Clube de Orientação do Centro

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sexta-feira, 23 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: O BALANÇO DE EDUARDO OLIVEIRA

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O Orientovar coloca hoje um ponto final no conjunto de grandes entrevistas efectuadas no decurso dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT 2010. Ao encontro de Eduardo Oliveira, ficamos a saber como o Director do Evento viveu e sentiu este verdadeiro marco na história da Orientação portuguesa.


Orientovar – Quando se aceita um desafio destes, imagina-se que vai ser assim?

Eduardo Oliveira - … não (risos)! Bom, acho que há uma ideia mas só quando passamos pelas coisas é que ficamos como uma noção concreta. Isto é uma tarefa de médio e longo prazo, é um trabalho de quase três anos de preparação que incluiu uma ida aos dois últimos Mundiais – Polónia e Israel – para tentar perceber o modo de funcionamento dum evento desta natureza, do que é costume fazer, o que corre bem e o que corre menos bem. Isso acabou por me conferir alguma bagagem e por me preparar para enfrentar o desafio. Mas isto não é uma pessoa apenas, é o trabalho duma equipa como um todo. Foram muitas pessoas, durante muitos dias, a trabalhar em conjunto e a preparar tudo para que as coisas corressem bem. E acho que correram, as pessoas esforçaram-se bastante, tivemos pessoas muito profissionais nas suas funções e o sucesso da organização é o sucesso de todos aqueles que voluntariamente participaram e contribuíram para que tudo corresse bem.

Orientovar – Um trabalho de três anos, resumido a uma semana de competição na qual encontramos, naturalmente, um dia chave: O primeiro. Como é que se sentia no início dos Campeonatos?

Eduardo Oliveira – O primeiro dia era o mais difícil e nós sabíamo-lo. Era a primeira vez que as equipas estavam a trabalhar em conjunto e a articular entre si e havia o risco implícito pelo facto de estarmos ainda a afinar o modo de funcionamento entre todos. Havia também o problema de termos uma prova muito limitada em termos de tempo. Era uma prova de Sprint, uma prova muito rápida, mas tínhamos apenas uma hora e meia para realizar a prova toda, não podia atrasar nada e qualquer falha poria em causa a prova. Tivemos logo de manhã uma má notícia porque era suposto o autocarro da Câmara estar cá às 7h00 para levar os atletas para Chaves e às 7h30 ainda ninguém sabia do autocarro. Eram 50 atletas que estariam impedidos de participar caso o problema não se resolvesse. Felizmente resolveu-se, os atletas acabaram por chegar cinco minutos antes da hora limite para a entrada na zona de quarentena, mas foi um tremendo stress. Nos dias seguintes fomos acertando pormenores – houve coisas que correram bem, houve outras que não correram tão bem… - e tivemos aquele percalço do ponto mal marcado na final júnior de Distância Média, um daqueles azares que não podem acontecer mas aconteceram.


“Errar é humano”

Orientovar – Entendeu a situação como um azar? O que é que sentiu nesse momento?


Eduardo Oliveira –Fiquei muito decepcionado, como é óbvio, mas errar é humano. Havia mecanismos criados que, supostamente, deveriam ter impedido que estas coisas acontecessem. Era um ponto fácil de marcar, tinha fita colocada, as pessoas que destacámos tinham competência e provas dadas noutras situações e o ponto foi validado por três pessoas – a pessoa que colocou a estaca, a pessoa que colocou a estação e controlador nacional que verificou o ponto – e nenhum dos três verificou que o ponto estava fora do sítio.

Orientovar – Mas foi possível reparar a situação, repetindo a final…

Eduardo Oliveira – Felizmente tivemos essa possibilidade. Conseguimos em tempo record montar um percurso no dia seguinte para resolver a situação. Claro que o mapa não era tão bom em termos de Distância Média uma vez que era uma mapa que estava pensado para a prova qualificatória de Distância Longa. O percurso foi adaptado dentro das circunstâncias mas pelo menos conseguimos ter os títulos em disputa e os Campeões do Mundo de Distância Média nos escalões juniores.


“O trabalho de cartografia acabou por ser em duplicado ou mesmo em triplicado”

Orientovar – Este é um aspecto que mancha os Campeonatos mas há ainda um aspecto que marca o evento pela negativa e que nos deixa a todos muito penalizados. Estou a falar do acidente sofrido pela atleta checa Hana Dolezalova. De que forma é que esta situação o afectou?

Eduardo Oliveira – Somos todos humanos e o acidente com a atleta acarretou um sentimento de desconforto muito grande. É algo que nos transcende, aquele mapa era dos menos perigosos em termos de terrenos – houve outras situações, noutros mapas, que nos levaram a avisar as pessoas para terem as devidas cautelas -, o local da queda é um local perfeitamente normal, uma descida suave sem qualquer situação de risco excepcional… Aconteceu algo com a atleta, um descuido a olhar para o mapa, um azar, ninguém sabe - nem ela própria sabe! – e a queda acabou por ter consequências muito graves. Mal soubemos da situação actuámos prontamente, colocámos de imediato a ambulância e a nossa médica no local do acidente e fizemos todos os possíveis para prestar a devida assistência até à chegada ao Hospital de Chaves. Estamos solidários com a atleta e estimamos uma recuperação da melhor forma, dentro do possível.

Orientovar – Os mapas e os percursos mereceram o elogio generalizado. Houve a grande preocupação, por parte da organização, em garantir os melhores cartógrafos e os melhores traçadores de percursos?

Eduardo Oliveira – Sim. Pelo menos foi nossa intenção garantir o trabalho dos cartógrafos com maior experiência, particularmente no desenho de mapas específicos de Orientação em BTT. Tivemos alguns percalços pelo facto de termos tido um Inverno muito rigoroso, o que danificou grande parte dos caminhos. Os mapas estavam preparados no ano passado mas tiveram de ser todos revistos. As chuvas afectaram a classificação dos caminhos, o vento e a neve derrubaram imensos pinheiros, a vegetação cresceu bastante na Primavera, ou seja, o trabalho de cartografia acabou por ser em duplicado ou mesmo em triplicado. Daí que o trabalho de fecho dos mapas acabasse por ser mais tardio do que estávamos a contar, o que acarretou também um certo stress acrescido, mas à boa maneira portuguesa conseguimos, a tempo e horas, ter tudo pronto.


“Todas as equipas corresponderam perfeitamente”

Orientovar – E à boa maneira portuguesa resolveu-se também o problema dos mapas chegarem, sistematicamente, a poucas horas do início de cada uma das provas…


Eduardo Oliveira – Bom, esse foi um problema com o qual tivemos de lidar e que criou também algum stress, mas que não foi muito visível para o lado dos atletas. Só uma vez tivemos cá os mapas com dois dias de antecedência, embora a situação estivesse sempre relativamente controlada a esse nível. Também é importante que se diga que houve muitas alterações de última hora em relação aos mapas, ajustes de percursos que tiveram de ser feitos muito tardiamente, percursos traçados na véspera no caso da repetição da final de Distância Média e tudo isso também condicionou o facto de termos os mapas mais cedo. E estou a falar de muitos mapas, sete ou oito diferentes, alguns deles ainda com variantes, troca de mapas e ‘loops’ intermédios. Posso dizer que as coisas correram mal em termos de preparação porque não houve o tempo suficiente, mas correram bem no dia-a-dia, com as provas a realizarem-se sem problemas a esse nível.

Orientovar – Tivemos implicadas cerca de cem pessoas, distribuídas pelas várias equipas. Cem pessoas, cem cabeças, cem sentenças… Foi complicado liderar esta vasta equipa?

Eduardo Oliveira – Avaliar em causa própria não é a melhor coisa. Mas posso dizer que me senti sempre confortável neste papel. Tive uma grande preocupação em definir adequadamente as áreas implicadas na organização da prova e colocar à frente de cada uma delas pessoas com experiência e provas dadas ao nível das organizações dos seus clubes. A esse nível correu bem e todas as equipas corresponderam perfeitamente. Nos últimos dias o meu trabalho consistiu em garantir que tudo estava controlado e assumi um papel essencialmente de coordenador para garantir que, em conjunto, tudo funcionava da melhor forma.


“Só esta semana é que as pessoas começaram a perceber que isto era uma coisa a sério”

Orientovar – Jan Cegielka foi o Supervisor Internacional do evento. Como avalia as suas intervenções?


Eduardo Oliveira – Se usar como termo de comparação a experiência com o David May nos Mundiais de Veteranos de Orientação Pedestre WMOC 2008, posso dizer que o Jan Cegielka foi muito menos interventivo, muito menos exigente. Visitou-nos antes do evento em duas ocasiões distintas, acompanhou os locais, validou as arenas e foi validando, posteriormente, alguns pontos mais críticos. A sua opinião foi muito útil nalgumas situações, como é natural, mas confiou na nossa capacidade organizativa, viu que as coisas estiveram sempre controladas, deu-nos alguma liberdade para fazer as coisas como fizemos e não precisou de ser tão interventivo quanto isso.

Orientovar – Qual o ‘feed-back’ recebido da parte das muitas individualidades que estiveram no evento e que mais o marcam?


Eduardo Oliveira – O ‘feed-back’ que tive foi claramente positivo a todos os níveis, exceptuando obviamente aquele problema que tivemos na prova de Distância Média. Os atletas estabeleceram algumas comparações com provas anteriores, colocando-nos no melhor ou no segundo melhor Campeonato do Mundo entre as oito edições já realizadas. Quem esteve nas Arenas e presenciou os espectáculos que foram montados ficou encantado com aquilo que aconteceu. Conseguimos conciliar um conjunto de meios de Comunicação Social – quer a nível local, quer a nível regional e nacional – que estiveram presentes e que puderam sentir ‘in loco’ o que é uma prova de Orientação em BTT, mostrámos-lhes todas as zonas de Arenas e tentámos levá-los sempre que possível aos locais de competição para que vivessem mais de perto o evento. Penso também que as Cerimónias foram momentos particularmente empolgantes – as bandeiras, os hinos – e tudo isso confere maior solenidade e importância ao evento. Em relação à população local, andámos cá durante dois anos mas só esta semana é que as pessoas começaram a perceber que isto era uma coisa a sério, que era algo de muito importante para Montalegre e para toda esta região.


“Há que aproveitar esta embalagem”

Orientovar – Em que medida o apoio do município de Montalegre foi fundamental para o sucesso do evento?


Eduardo Oliveira – Foi fundamental a todos os títulos. Estamos aqui a conversar num Pavilhão Multiusos que é excepcional em termos de espaço e de funcionalidade e que constituiu uma ajuda fundamental para a organização. Assinámos um protocolo com a Câmara Municipal de Montalegre há cerca de dois anos e, ao longo deste tempo, a colaboração connosco foi sempre espectacular. Trabalhámos em conjunto em várias situações e, a nível logístico, operacional e no apoio diário, a sua intervenção foi sempre fundamental. Deixo aqui o meu muito obrigado à Câmara Municipal de Montalegre porque conseguiu conciliar todas as situações para que tivéssemos um bom evento e que fosse do agrado de todos. Isso foi o mais importante.

Orientovar – Daquilo que é a Orientação portuguesa e, em particular, a Orientação em BTT, que imagem passa para o exterior?

Eduardo Oliveira – As tarefas organizativas do dia-a-dia impedem-me de fazer uma avaliação relativamente à imagem que tem passado mas penso que foi desenvolvido um trabalho muito aturado no sentido de dar a conhecer, passo a passo, aquilo que aqui se foi passando. Um dos objectivos dum evento destes reside em criar notoriedade e divulgar a modalidade e acho que isso foi atingido, já que as pessoas começaram a ouvir e a falar de Orientação em BTT. Em termos de frutos para o futuro, temos de dar tempo ao tempo. Há que aproveitar esta embalagem, estes contactos, apostar em força na comunicação na próxima época e potenciar esta experiência para as provas do dia-a-dia a nível nacional.


“Acho que isto é bom é para rodar entre vários”

Orientovar – Se por um qualquer acaso, a Federação Internacional resolvesse atribuir a organização dos Mundiais de 2011 novamente a Portugal e o Presidente da FPO lhe dissesse para pôr de novo mãos à obra, aceitava?


Eduardo Oliveira – Felizmente isso não vai acontecer. Os próximos Mundiais serão em Itália e não vejo que haja alguma circunstância que possa inverter a situação. Já agora, só um parêntesis por curiosidade, depois dos problemas na Faixa de Gaza no ano passado, Portugal até poderia ter organizado os Mundiais de 2009, pelo menos chegou a colocar-se essa hipótese. Mas para 2011 e 2012, os Mundiais estão atribuídos à Itália e à Hungria e aí não haverá grande volta a dar. Mas regressando à questão… acho que isto é bom é para rodar entre vários (risos)! Se uma ou outra coisa correu menos bem é porque tenho pouca disponibilidade em conjugar a vida profissional com este tipo de actividades. Mas daqui a uns anos, quando me reformar e quando tiver tempo disponível, se calhar não teria qualquer tipo de problema em voltar a aceitar um desafio destes.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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quinta-feira, 22 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: GABRIELE VIALE E OS MUNDIAIS DE 2011

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De 20 a 28 de Agosto de 2011, Montecchio Maggiore, na bela região italiana do Veneto, recebe a 9ª edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT. Mauro Gazzerro, Presidente da Região de Turismo do Veneto e Gabriele Viale, Director Geral dos Mundiais de 2011, estiveram em Portugal a promover o evento e o Orientovar recolheu as suas impressões que agora partilha.


Orientovar – Quais os passos que levaram à atribuição dos próximos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT?

Gabriele Viale – A iniciativa partiu da nossa Federação de Orientação e apresentámos a candidatura a qual foi aceite. No início, a ideia era que os Campeonatos fossem disputados na região de Turim, no Piemonte, mas a Federação acabou por se ver na obrigação de encontrar uma outra área para o evento e a escolha recaiu sobre o distrito de Vicenza, no Veneto. É uma zona muito interessante para a prática da Orientação em BTT, é uma zona com bastantes declives e caracterizada pela profusão de vinhedos, num sobe e desce de grande beleza. A última prova, a final de Sprint, terá lugar no Velódromo de Sossano.

Orientovar – Como é que estão a decorrer os preparativos?

Gabriele Viale – Temos pessoas muito qualificadas nesta área e temos uma série de clubes com uma enorme experiência na organização de provas de Orientação em BTT. Já organizámos algumas provas da Taça do Mundo e sentimo-nos muito positivos quanto a um grande evento. O ciclismo e a BTT são muito populares em Itália – toda a gente conhece o “Giro” – e temos garantido um grande número de voluntários que irão ser preciosos para levar a cabo todas as tarefas organizativas. A minha grande dúvida tem a ver com as questões económicas e de marketing porque, como todos sabemos, não estamos propriamente na melhor altura. A crise está por todo o lado e em Vicenza também. Mas estamos confiantes, agora que a contagem final já se iniciou.


“O nosso ponto forte reside na imagem”

Orientovar – A Orientação em BTT é uma modalidade fascinante mas tem especificidades próprias. Há algum aspecto que lhe mereça uma particular atenção?


Gabriele Viale – A questão da segurança é algo que me preocupa realmente. É necessário manter fechadas muitas estradas e caminhos o que, numa região onde existem imensas propriedades agrícolas, não se afigura fácil. O risco, do meu ponto de vista, é muito grande. Temos de ter um sistema de segurança muito bem montado que nos garanta que todas as condições estão criadas para que as provas se realizem sem sobressaltos.

Orientovar – Como é que está a decorrer a promoção do evento aqui em Portugal?

Gabriele Viale – Perfeito. Tudo está a decorrer de forma perfeita. Hoje mesmo fizemos o convite ao Rui Barros – um nome querido de todos italianos e, em particular, dos aficionados da Juventus – para que seja embaixador do evento. Gostaríamos de garantir também a presença do Roberto Baggio e, assim, teríamos esta ponte criada entre o Futebol e a Orientação em BTT que iria certamente atrair muitas atenções. Penso que o nosso ponto forte reside na imagem e queremos que ela seja a melhor possível. Procuramos fazer o nosso melhor.


“Sente-se uma grande atmosfera”

Orientovar – Essa imagem passa também pela região onde os Campeonatos se irão disputar e pelo que tem para oferecer…

Gabriele Viale – Sim, como disse antes é uma região muito bonita do ponto de vista paisagístico, com as suas encostas repletas de vinhas, mas há muito mais para além disso. A cidade de Vicenza é rica em História, temos testemunhos arquitectónicos das épocas românica, gótica, renascença, barroca e neo-clássica e, por isso, a cidade é conhecida como a “cidade-teatro”. Temos sobretudo o Palladio, o monumento criado por Andrea Palladio que desempenha um papel importante na história da arquitectura mundial e faz parte do Património Mundial da UNESCO. Planeamos alguns espectáculos que possam dar a conhecer um pouco dos nossos usos e tradições, iremos organizar algumas provas onde as pessoas poderão degustar os nossos produtos e conhecer um pouco mais da nossa gastronomia e dos nossos vinhos – esta é uma das regiões de vinhos mais importante de Itália - e temos algumas visitas programadas a alguns pontos turísticos nesta região, nomeadamente ao Lago de Garda, a Verona, a cidade de Romeu e Julieta e à cidade de Veneza. Procuraremos combinar a parte desportiva com a parte histórica e cultural.

Orientovar – Após a estadia e os contactos estabelecidos aqui em Portugal, que ideias leva e que possam ser aplicadas nos próximos Mundiais?

Gabriele Viale – Tivemos a possibilidade de assistir a uma das reuniões da organização portuguesa e foi muito importante verificar como articulam entre si as várias equipas, a abertura colocada na abordagem das questões, a forma como se resolvem os problemas. Ficámos também com uma ideia mais concreta do que está envolvido nos aspectos técnicos, logísticos e operacionais. Mas aquilo que mais me entusiasmou foi a ideia de trazer toda a gente para um mesmo espaço, concentrando aqui toda a actividade não competitiva e as várias cerimónias, transformando-o num gigantesco ponto de encontro e conferindo-lhe o cunho de “aldeia olímpica”, onde todos estão juntos e se sentem bem. Sente-se uma grande atmosfera. Não tinha pensado nisto antes de ter visto o que aconteceu aqui em Portugal.


“Todos serão bem vindos”

Orientovar – Vai levar o modelo para Itália?


Gabriele Viale – É preciso perceber que os recursos não são iguais em todo o lado. Todavia, ter visto como resultou tão bem o facto de termos as Cerimónias no interior dum edifício e não ao ar livre, como é habitual, faz-me pensar em lançar mão do Palladio para a Cerimónia de Abertura. Não apenas usar a Piazza dei Signori mas introduzir os participantes num cenário único e maravilhoso, caso tenhamos autorização para o fazer.

Orientovar – A um ano de distância, que mensagem gostaria de deixar aos amantes da Orientação em BTT e aos desportistas em geral?


Gabriele Viale – Esperamos por todos eles, garantindo que tudo faremos para tornar inesquecíveis estes Campeonatos do Mundo. Todos serão bem vindos numa região reconhecida pelo valor e qualidade da sua história e cultura, da sua gastronomia e dos seus vinhos. Também o Orientovar será bem-vindo.



Saiba tudo em http://www.mtbo2011.org/.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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ORIENTAÇÃO EM REVISTA DE JULHO JÁ NAS BANCAS!

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Com um atraso substancial em relação ao que vem sendo hábito – os Europeus de Atletismo assim o determinaram – a Revista de Atletismo está finalmente nas bancas. A edição de Julho traz, como habitualmente, um caderno suplementar dedicado ao desporto da floresta e que desta vez, se debruça sobre os últimos Campeonatos Nacionais disputados: Desporto Escolar, Absolutos, Distância Longa e Estafetas.

No editorial, com a assinatura de Eduardo Oliveira, abordam-se os Mundiais de Orientação em BTT e Maria Sá é a entrevistada do mês, levantando a ponta do véu sobre os segredos dum sucesso que se salda, entre muitos outros títulos, com o “tetra” nacional absoluto. Resultados e calendário de provas fecham uma edição imperdível, cujo download pode ser feito AQUI.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: ANDRÉ HERMET E A FRANÇA NOS MUNDIAIS

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André Hermet foi o Director da primeira edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT (Fontainebleau, 2002) e é, de há cinco anos a esta parte, o responsável pelas selecções de França. Foi nessa qualidade que esteve em Portugal e, sobre o cair do pano, deixou ao Orientovar as suas opiniões. Aqui se reproduz o resultado dessa conversa.


Orientovar – Recuando oito anos no tempo, que recordações guarda da sua experiência enquanto Director da primeira edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT, em Fontainebleau?

André Hermet – Uma grande satisfação pelo facto de ter organizado o primeiro Campeonato do Mundo. Porque foi o primeiro, porque foi em França e porque constituiu um enorme desafio ter de criar tudo aquilo que foi necessário para levar por diante um evento daquela envergadura. Eu fiz os mapas, tracei os percursos, ocupei-me de todas as tarefas organizativas e, com a ajuda de meia centena de voluntários, consegui levar o evento por diante. A Finlândia esteve lá, a República Checa esteve lá, correu tudo bem… e a França sagrou-se Campeã do Mundo de Estafetas e alcançou ainda um título individual, o que foi ainda melhor.

Orientovar – Qual foi o grande desafio de organizar esses primeiros Mundiais?

André Hermet – O grande desafio foi organizar tudo em tão curto espaço de tempo. Esse foi o grande desafio. Estávamos em Outubro de 2001 quando me pediram para organizar os Campeonatos e em Junho estava tudo preparado. Trabalhei, de forma ininterrupta, dez horas por dia durante dez meses. Foi muito trabalho, a coisa fez-se mas foi muito duro.


“Uma grande satisfação ter três gerações numa mesma equipa”

Orientovar – A França colheu frutos desses Campeonatos?


André Hermet – Sim, tivemos dois títulos nesse primeiro ano. Depois tomei conta da equipa de França em 2005 e, nesse ano, na Eslováquia, alcançámos mais duas medalhas nas Estafetas. Em 2007 fomos Campeões Europeus com a equipa feminina e Campeões do Mundo com a equipa masculina e no ano passado, em Israel, o Matthieu Barthélémy foi medalha de bronze na Distância Longa. Este ano temos uma equipa em fase de reconstrução e estamos muito contentes por termos alcançado um número muito grande de diplomas.

Orientovar – São fundadas as expectativas duma França muito forte no futuro…

André Hermet – Penso que dentro de dois ou três anos teremos uma equipa muito forte. Temos o Cédric Beill, com apenas 17 anos, que é um valor seguro da nossa equipa, mas temos também o Jean-Charles Lalevee, com 50. Ou seja, três vezes mais idade que o Cédric. Estão ambos na equipa porque são ambos fortes. Ainda na temporada passada, Lalevee foi Campeão de França de Distância Longa, ex-aequo com Clément Souvray, o mais velho e o mais novo em prova e exactamente com o mesmo tempo no final. Para além de ser uma grande satisfação ter três gerações numa mesma equipa, isto significa que, com trabalho, perseverança e muita cabecinha, qualquer um pode integrar a equipa de França, independentemente da idade.


“Dentro de três ou quatro anos, Portugal será uma nação muito forte”

Orientovar – Como avalia a evolução da Orientação em BTT nestes últimos anos?

André Hermet – Ao nível internacional, a Orientação em BTT progrediu imenso. A cartografia, as organizações e os atletas constituem os principais eixos desta evolução. Os atletas, hoje em dia, correm muito depressa, pensam muito depressa e as performances não são mais o que eram antes. Se olharmos com atenção os tempos gastos numa qualquer prova em Fontainebleau e aqui, em Montalegre, percebemos que não há qualquer comparação. São muito diferentes. As equipas estão mais fortes, mais competitivas. A Dinamarca, por exemplo, não se via há um par de anos atrás. A Suécia e a Noruega estão a começar a aparecer. Há muitos países a alcançarem resultados de grande significado.

Orientovar – E Portugal também?

André Hermet – Claro, os portugueses também. A nível nacional, parece-me que a Orientação em BTT em Portugal tem muito mais importância e projecção que em França. A França tem uma população enorme, mas não tem mais de seis ou sete mil praticantes de Orientação Pedestre e os participantes regulares em provas de Orientação em BTT cifram-se nas duzentas pessoas. Em Portugal, a população é muito menor mas consegue haver um número superior a participar nas provas. Isto deixa perceber que têm mais gente jovem e, consequentemente, são maiores as possibilidades de se formarem equipas que permitam elevar os níveis. Juntando a isto a qualidade e os conhecimentos dos vossos treinadores e organizadores, estou seguro que, dentro de três ou quatro anos, Portugal será uma nação muito forte no panorama competitivo internacional. Hoje há equipas muito fortes mas que não organizam e que têm muito poucos jovens. Veja-se o caso da Suiça, por exemplo. São muito fortes mas era importante que organizassem uma grande competição para atraírem novos praticantes. Doutra forma, arriscam-se a desaparecer.


“Esta família não se pode desintegrar”

Orientovar – Relativamente à organização portuguesa dos Campeonatos do Mundo, qual é a sua opinião?


André Hermet – Muito boa, muito boa. E não digo isto pelo facto de a questão ser colocada por um português. Estive em sete edições dos Campeonatos do Mundo – falhei apenas a segunda edição, na Austrália – e penso que esta é a segunda melhor organização que presenciei, atrás da edição de 2007. Aí, na República Checa, houve coisas muito importantes, houve a televisão e as euro-transmissões, os alojamentos eram fantásticos e os mapas eram de grande nível. Aqui há tudo isso – há também este sol magnífico -, embora falhe na questão da televisão (mas em França é igual...). Particularmente em relação a nós, franceses, quando chegamos a Montalegre ou a qualquer outra cidade, toda a gente fala francês e acabamos por nos sentir praticamente em casa. É prático, é muito bom.

Orientovar – Como gostaria de ver a Orientação em BTT daqui a dez anos?

André Hermet – Espero que, dentro de dez anos, os Campeonatos do Mundo possam contar com muito mais nações a disputá-los, que as organizações mantenham o elevadíssimo nível que já atingiram e o possam ir melhorando cada vez mais e que as coisas não se degradem com a eventual entrada do “doping” neste desporto ou de outras situações nocivas que afectam várias modalidades. O ambiente que se vive na Orientação em BTT é fantástico e devemos fazer tudo para o conservar. Eu precisei de umas peças para as minhas bicicletas, foi um português que mas arranjou; precisei de outras coisas, foi um russo que me passou um pedal. Isto é algo de muito, muito importante. A Orientação em BTT é uma família e esta família não se pode desintegrar.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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MTBO WOC & JWOC 2010: A PALAVRA DE ANTÓNIO AIRES, SELECCIONADOR NACIONAL DE PORTUGAL

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Director Técnico Nacional e responsável máximo pelas selecções nacionais de Orientação em BTT, António Aires era um homem feliz no final da jornada de Montalegre. Aqui fica a sua análise aos bons resultados da selecção portuguesa… e não só!


Orientovar – No final destes Campeonatos, qual o seu balanço?

António Aires – Dia após dia foram sendo batidos os melhores resultados de sempre em Campeonatos do Mundo de Seniores e obviamente fico muito satisfeito porque isto é um sinal do trabalho que se começou a fazer. Um trabalho de fundo, pegando em alguns atletas com muito pouca experiência e que abre excelentes perspectivas em relação ao futuro.


Orientovar – O Davide Machado confessou que não estava nas previsões aquele 7º lugar na final de Distância Longa. E nas suas, estava?

António Aires – Antes de entrarmos para estágio, chegar ao top-10 era, no caso do Davide, um sonho. Mas há medida que nos aproximámos da competição – e logo após o que ele fez na prova de Vila Pouca de Aguiar, na semana anterior -, começámos a ver que o pico de forma dele estava mesmo a acertar em cima dos Campeonatos e acreditámos que as coisas poderiam tomar outro caminho. O Davide é muito jovem, tem apenas 22 anos, tem pouco tempo de modalidade, tem muita inexperiência e esses factores poderiam ser sempre uma condicionante. Mas no dia da prova, sim, já sonhávamos com este resultado.


“Estabeleço entre a Rita Madaleno e o Davide Machado uma certa analogia”

Orientovar – O Paulo Alípio passou um pouco à margem destes Campeonatos. Alguma explicação para o facto?


António Aires – À partida, tudo indica que o pico de forma dele acertou um bocadinho antes da competição. Mas só mais tarde, com cabeça fria é que poderemos analisar o que poderá ter acontecido.


Orientovar – Analisando a prestação da equipa sénior feminina, vemos um brilhante 18º lugar da Susana Pontes na prova de Sprint mas vemos igualmente dois excelentes resultados da Rita Madaleno nas provas de Distância Média e de Distância Longa. Ficou surpreendido com estas prestações da Rita?


António Aires – A Rita Madaleno constituía para nós uma grande incógnita porque ela, apesar de tudo, não se dedicou ainda totalmente à Orientação em BTT. É uma atleta que já treina bastante mas também é uma atleta que tem muito pouca experiência da parte técnica da Orientação. Investiu bastante este ano neste aspecto, andou uma boa parte da época a fazer provas de Orientação Pedestre, e mais uma vez, quando entrámos em estágio vimos que ela estava muito bem fisicamente, muito confiante. A regularidade que acabou por demonstrar foi extraordinária. Aliás, estabeleço entre a Rita Madaleno e o Davide Machado uma certa analogia. Para além do potencial que ambos demonstram, há uma enorme vontade em evoluírem. Tanto a Rita como o Davide estão interessados em pensar já na Itália, no ano que vem.


“Talvez nos possamos aproximar daquilo que se faz na Orientação Pedestre”

Orientovar – Passando aos Juniores, os resultados foram um pouco desconsoladores. Como vê o futuro destes jovens?


António Aires – Temos aqui vamos realidades diferentes. Por um lado, trouxemos um jovem com muita experiência de Orientação Pedestre, que é o João Mega Figueiredo, e que consegue superiorizar-se aos outros nas provas muito técnicas, como foi o caso do Sprint. Os outros, claramente, têm muito pouca experiência na parte técnica da Orientação. Os objectivos passam por trabalhar com estes atletas e também com outros que vão surgindo, procurando fazer com eles um trabalho de quantidade a partir de baixo. Mas sei que há muito trabalho pela frente. No caso das juniores femininas, as expectativas já não eram muito elevadas à partida. As duas atletas estão numa fase crucial dos seus estudos, há que estabelecer prioridade e julgo que devemos compreender isso. Mas penso que ambas demonstraram uma grande regularidade em termos dos resultados obtidos e esse era um dos objectivos delas, o qual foi plenamente atingido.

Orientovar – Estamos numa fase de transição. O Professor Jorge Caldeira vai abandonar o projecto, em Setembro teremos eleições para os Corpos Sociais da Federação Portuguesa de Orientação e há todo um conjunto de incógnitas que se colocam neste momento. Do seu ponto de vista, por onde deve passar o futuro desta selecção?

António Aires – Independentemente da constituição dos novos Corpos Sociais da FPO, penso que vai continuar a haver um interesse em apostar na modalidade e nestes atletas. Os moldes em que vamos fazer isso – principalmente ao perdermos o Jorge Caldeira – é que são ainda uma incógnita. Talvez nos possamos aproximar daquilo que se faz na Orientação Pedestre, em que cada atleta tem o seu próprio preparador físico e nós preocupamo-nos com a parte técnica. Ou então iremos continuar a investir, pelo menos no caso dos atletas de topo, num preparador físico que, na minha opinião, é crucial neste momento.


“Técnicos habilitados não abundam”

Orientovar – O modelo actual, na sua opinião, é mesmo o mais adequado?


António Aires – Bem, não disse exactamente isso. O que quero dizer é que mantemos este modelo ou vamos para um modelo que se assemelhe ao que existe na Orientação Pedestre, tendo para isso que haver técnicos habilitados.


Orientovar – Que não abundam…

António Aires – Por enquanto, sendo uma disciplina nova, técnicos habilitados não abundam, de facto.


“Portugal esteve muito acima da média”

Orientovar – Pedia-lhe um balanço destes Campeonatos em termos organizativos.


António Aires – Infelizmente temos uma situação pontual, um pormenor que pode parecer que mancha a organização porque saltou muito à vista e teve um impacto muito grande. Tratou-se dum ponto mal marcado que obrigou à repetição duma final. Mas penso que a organização não deve ser avaliada por esse pormenor, obviamente. Já estive em várias organizações internacionais e penso que, uma vez mais, Portugal esteve muito acima da média do que se faz lá fora. Nos aspectos técnicos, que é aquilo que eu mais valorizo, Portugal esteve bem.

Orientovar – O que se diz ao grupo, agora que vai de férias?

António Aires – Vamos realmente de férias e voltamos a concentrar-nos no fim de Agosto para começarmos a pensar no ano que vem, embora ainda haja a possibilidade de virmos a participar na última prova da Taça do Mundo, que vai decorrer em Setembro, em Itália. Vamos avaliar a possibilidade de levarmos lá alguns atletas, uma vez que a prova se disputará em terrenos muito semelhantes àqueles onde terão lugar os próximos Mundiais, precisamente em Itália. Seria importante que os atletas pudessem ter essa experiência.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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terça-feira, 20 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: JOSE RAMON GARCIA E A SELECÇÃO DE ESPANHA NOS MUNDIAIS

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A Espanha chegou aos Mundiais de Montalegre com enorme expectativa num par de bons resultados. Foi este o ponto de partida para uma conversa que o Orientovar manteve com Jose Ramon Garcia, 31 anos de idade e dois à frente da selecção espanhola de Orientação em BTT.


Orientovar – Como foi preparada a participação da selecção de Espanha nestes Campeonatos do Mundo?


Jose Ramon Garcia –Basicamente, preparámos esta nossa vinda aos Mundiais com as provas que tivemos em Espanha ao longo da temporada e com várias deslocações a Portugal, sobretudo no último mês. Sempre concentrámos muito do nosso trabalho e do nosso esforço aqui em Portugal porque, claramente, a Orientação em BTT está muito mais desenvolvida em Portugal do que em Espanha. Temos menos participantes, temos mapas de menor qualidade e agrada-nos muito vir aqui. As provas são sempre muito bem organizadas e somos tratados maravilhosamente. Que mais poderemos querer?


Orientovar – E como avalia os resultados?

Jose Ramon Garcia – Vínhamos com muita ilusão nalguns bons resultados, sobretudo depois da boa participação nos Mundiais de Israel, no ano passado. Penso que a Orientação em BTT espanhola deu um grande salto nos últimos três ou quatro anos. Se tomarmos como exemplo a prova qualificatória de Distância Longa dos Campeonatos do Mundo, era raro a Espanha conseguir apurar um atleta que fosse. Em Israel, esta tendência inverteu-se e tivemos três apurados, o mesmo acontecendo aqui em Portugal. É verdade que os terrenos e o clima em Israel eram muito parecidos com o que encontramos em Espanha e tivemos outros bons resultados a nível individual, com o Miguel Ramo a classificar-se no 17º lugar na prova de Distância Longa e o Albert Roca a ser o 21º na prova de Sprint. Isso deu-nos muito ânimo e criámos a ilusão de poder repetir esses resultados este ano. A verdade é que um não pode estar presente, o outro não se sente tão à vontade com os mapas portugueses e as coisas acabaram por ser um pouco decepcionantes.


“Devo atribuir à organização portuguesa uma nota muito alta”

Orientovar – Estes mapas e estes percursos do Mundial, como é que os achou? Aliás, como é que viu esta organização dos Campeonatos do Mundo, duma forma geral?


Jose Ramon Garcia – Creio que os mapas da prova de Sprint e da prova de Distância Média eram muito técnicos, enquanto o da prova de Distância Longa era, simultaneamente, exigente do ponto de vista físico e de muito difícil leitura, sobretudo pela dificuldade de transitar nalguns caminhos. Em termos globais, devo atribuir à organização portuguesa uma nota muito alta. Foi tudo muito bem conduzido. Tiveram o problema com aquele ponto que levou à anulação da Final de Distância Média dos Juniores mas as coisas estão tão bem organizadas – e também tiveram sorte por ter sido na altura em que foi -, que foi possível encontrar uma solução que agradou a todos e fez esquecer o que aconteceu. Estes Mundiais constituem um motivo mais para vir sempre a Portugal com o maior prazer.

Orientovar – Estava à espera de ver Portugal alcançar um sétimo lugar a nível individual, como aconteceu com o Davide Machado na prova de Distância Longa?

Jose Ramon Garcia – Não tenho acompanhado a carreira do Davide Machado e não o conhecia como conheço, por exemplo, o Daniel Marques. O Daniel foi sempre o “ponta-de-lança” da Orientação em BTT portuguesa. Mas é verdade que já contava com um ou mais resultados nos dez primeiros pelo que não foi uma grande novidade. Para mim a novidade foi este grande resultado vir do Davide Machado.


“Garantir a passagem de testemunho a uma nova geração”

Orientovar – Independentemente duma participação menos conseguida nos Mundiais deste ano, como está de saúde a Orientação em BTT espanhola?


Jose Ramon Garcia – Comparada com Portugal, a Espanha é um país muito maior e a dispersão geográfica conta muito neste desporto. Não é fácil convencer as pessoas a fazerem 600 ou 800 quilómetros para um fim-de-semana de provas. Todavia, temos algumas ligas regionais bastante fortes, nomeadamente no noroeste, que vêm aumentando os índices de participação nestes últimos três ou quatro anos. Mas a nível nacional, o número de participantes tem-se mantido, sobretudo porque as pessoas correm na sua região e não se deslocam para as provas da liga nacional. O número só não diminui porque já somos muito poucos. Portugal, sendo mais pequeno, tem as coisas muito mais facilitadas neste aspecto.

Orientovar – Quais as perspectivas em relação ao futuro da vossa selecção?

Jose Ramon Garcia – Procuramos promover a Orientação em BTT através da organização de provas, atraindo a atenção dos mais novos e levando-os a criar a ilusão de que é possível fazer um bom resultado. É importante termos estado aqui com os nossos juniores, que tenham visto o que é uma competição deste tipo e que sintam que devem continuar a treinar e a lutar para poderem ombrear com os melhores do Mundo. É aí que deve residir a nossa aposta, conseguir fazer com que mais jovens possam tornar-se praticantes de Orientação em BTT e garantir a passagem de testemunho a uma nova geração.


“Temos essa ilusão”

Orientovar – E quando iremos poder ver um Campeonato do Mundo de Orientação em BTT em Espanha?


Jose Ramon Garcia – Bom, bom… Não será para já mas temos essa ilusão, há gente trabalhando nesse sentido. Precisamos que mais pessoas se envolvam para que possamos passar do sonho à realidade. Neste momento abrem-se fortes possibilidades para que possamos ter, muito brevemente, uma prova da Taça do Mundo. Esse será um primeiro passo, e um passo muito importante.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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MTBO WOC & JWOC 2010: MARIA CUTOVA, A VOZ DOS MUNDIAIS

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Nasceu na Eslováquia há perto de 30 anos, vive na Suécia e viaja um pouco por todo o Mundo ao encontro de eventos desportivos, particularmente aqueles relacionados com a Orientação em BTT. Um olho nas Arenas, outro nos monitores, Maria Cutova emprestou, ao longo dos Campeonatos, a voz que nos trouxe as emoções de jornadas ímpares. Em tempo real e (quase) sem falhas!


Orientovar – Enquanto ‘speaker’, a Orientação em BTT é a sua especialidade?

Maria Cutova – Podemos dizer que sim. Penso que a Orientação em BTT é muito melhor do que a Orientação Pedestre e aprecio muito a companhia destes atletas.


Orientovar – Quando é que descobriu a Orientação em BTT?

Maria Cutova – Penso que terá sido em 1998, algures na Eslováquia, e foi completamente por acaso. Na realidade, um colega meu pediu-me ajuda para levar um par de coisas para uma competição. De repente estava no meio da prova a fazer de ‘speaker’, as pessoas gostaram e incentivaram-me a continuar. E foi assim que tudo começou.


“Calma e concentração”

Orientovar – Quais as características mais importantes dum ‘speaker’?


Maria Cutova – Acima de tudo, calma e concentração. É difícil perceber o porquê de eu estar a dizer isto porque, quem me conhece, sabe que estes não são propriamente traços da minha personalidade. Mas é isso, basicamente. E depois é necessário conhecer os atletas, ter uma boa memória visual, reconhecer algumas particularidades neste ou naquele, saber quais os diferentes estilos e usar essa informação para enriquecer aquilo que possamos ir dizendo.

Orientovar – Quanto ‘trabalho de casa’ implica esse conhecimento dos atletas?

Maria Cutova – Talvez não traga tanto trabalho de casa assim. Claro que tenho de estar preparada antes dum evento porque há coisas que ficam na memória dumas competições para as outras e é necessário reavivá-las. Estar presente evento após evento acaba por funcionar como a melhor preparação possível. Quando estou a descrever este ou aquele atleta, vêm-me à memória anteriores performances e uma parte importante do trabalho acaba por estar sempre presente, apesar da minha memória ser curta (risos). É assim que as coisas funcionam.


“É tudo ao vivo!”

Orientovar – Hoje, por exemplo, como é que se preparou?


Maria Cutova – Hoje já há muito trabalho feito que vem dos dias anteriores. Aí sim, foi um pouco stressante e estive um bom par de horas a estudar a lista de partida no primeiro dia. Havia imensa gente por ali à volta e não foi fácil identificar uma boa parte dos atletas. Mas geralmente as coisas são bem mais fáceis, é um enorme prazer voltar a encontrar os atletas, ter tempo para trocar impressões acerca de tudo e de nada como acontece hoje. Mas há no trabalho de ‘speaker’ muita coisa que não se consegue prever. É tudo ao vivo!

Orientovar – Como é que viu o convite para ser a ‘speaker’ destes Mundiais?

Maria Cutova – Quando soube que os Mundiais de 2010 se iriam disputar em Portugal, dei comigo a pensar que não sabia nada acerca do vosso País. Conhecia a Susana Pontes, talvez mais um ou outro atleta, mas não suspeitava sequer quem iria estar à frente do evento. Tão pouco sabia se teria alguma hipótese de vir a Portugal fazer aquilo que faço e gosto. A verdade é que eu não queria perder uns Campeonatos do Mundo, é uma experiência fantástica… Foi então que conheci o Eduardo, nos Mundiais de Israel. Julgo que fui apresentada por intermédio da própria organização israelita e aí ficou acertado que seria eu a fazer este trabalho. Na verdade, não terá sido propriamente um convite por parte do Eduardo, acho que foi um pouco de tudo.


“Acho que estou muito melhor agora do que há dez anos”

Orientovar – Este pequeno mundo da Orientação em BTT funciona quase como uma família, não acha?


Maria Cutova – Não somos muitos, realmente. Começa agora a aparecer alguma gente nova, sobretudo quando vemos uma competição destas em que os Juniores competem com os Seniores em conjunto. Não é pêra doce para mim, sobretudo havendo Juniores. Aí é necessário trabalhar realmente a sério para poder acompanhá-los também.

Orientovar – Como é que avalia a sua evolução como ‘speaker’?

Maria Cutova – Como disse, caí na Orientação em BTT por acidente. Acho que estou muito melhor agora do que há dez anos. Pelo menos espero (risos)… Conheço muito melhor os atletas e sinto-me cada vez mais confortável na posição de ‘speaker’. Os sistemas de apoio à nossa tarefa têm-se desenvolvido extraordinariamente e as pessoas compreendem a importância do nosso papel. Os atletas que estão em prova querem saber o que está a acontecer com eles ou com os seus colegas de equipa, as pessoas que assistem percebem o que se está a passar e, desta forma, conseguimos criar uma atmosfera totalmente diferente em qualquer Arena. Não nos podemos limitar a falar de alguém apenas quando cruza a linha de chegada, temos de dar a perceber o desenrolar da prova e o que se está a passar algures, no meio da floresta.



“O pessoal da informática tem um trabalho enorme”

Orientovar – Os meios informáticos colocados à disposição do ‘speaker’ acabam por ser fundamentais…

Maria Cutova – Absolutamente. O pessoal da informática tem um trabalho enorme e admiro-os muito pela sua capacidade e qualidades. Aliás, eu sou totalmente leiga nesse domínio, daí a minha enorme admiração pelo que eles fazem. Limito-me a dar voz à informação que me fazem chegar e, claramente, sem eles tudo seria muito mais complicado.

Orientovar – Quer-me narrar algum episódio engraçado que se tenha passado consigo neste papel?

Maria Cutova – Engraçado… Não sei se lhe posso chamar engraçado… Foi mais um engano e acabou por não ter assim tanta piada. Passou-se na Cerimónia das Flores da Final Júnior Masculina de Sprint e chamei ao pódio, na qualidade de Campeão do Mundo, um atleta que, na verdade, acabara de ser desqualificado. Não foi muito responsável da minha parte. Tinha os resultados finais fornecidos pelo pessoal da informática mas guiei-me pelos meus apontamentos. Tinha acordado nessa manhã e dito a mim própria que esta era uma situação que não podia acontecer… e aconteceu. Não, na verdade não foi propriamente engraçado.


“Estou realmente impressionada”

Orientovar – Pedia-lhe uma opinião acerca da organização dos Mundiais em Portugal?


Maria Cutova – Estou realmente impressionada. Penso, na verdade, que fizeram um trabalho excepcional, há imensa gente envolvida na organização e têm uma excelente distribuição das responsabilidades pelos vários sectores. Sabe, aquilo que realmente aprecio nesta organização é que há muita gente a opinar no sentido de fazer ainda melhor e são muito abertos. Se percebem que algumas sugestões podem realmente resultar, havendo tempo para isso, eles fazem-no. Estou muito impressionada com esta capacidade de trabalho. Torna tudo muito mais fácil.

Orientovar – E quanto a Portugal? Está a gostar da sua estadia aqui em Montalegre?

Maria Cutova – É a quarta ou quinta vez que estou em Portugal – um par de vezes em Lisboa e algures, há cerca duma dúzia de anos, em Portalegre -, mas é a primeira vez que venho a esta região de Portugal. Estou a gostar muito, é uma região muito bonita, têm boa comida, bom vinho e as pessoas são extraordinárias. Realmente não me posso queixar.


“Isso faz de mim uma pessoa especial”

Orientovar – Até quando vamos ver a Maria Cutova a animar as provas na qualidade de ‘speaker’?


Maria Cutova – É tudo uma questão que tem a ver com a qualidade das minhas intervenções e o quanto as pessoas poderão ou não apreciar o meu trabalho. Há muita gente – homens e mulheres – com imenso talento nesta área. A minha vantagem é que conheço toda a gente e isso faz de mim uma pessoa especial. Sobretudo, não está nos meus planos deixar esta actividade. É um excelente ‘hobby’, é maravilhoso.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

MTBO WOC & JWOC 2010: ENTREVISTA COM MIKA TERVALA

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Mika Tervala é, reconhecidamente, o melhor Orientista em BTT da história da modalidade. Seis títulos mundiais de Elite conferem-lhe o estatuto de atleta com mais medalhas de ouro da história da competição. O finlandês marcou presença em Montalegre, na qualidade de treinador das selecções nacionais do seu País e concedeu ao Orientovar um momento para entrevista.


Orientovar – Há oito anos atrás, o Mika Tervala foi o primeiro Campeão do Mundo de Orientação em BTT. Começaria por lhe perguntar que recordações guarda desse especial momento?

Mika Tervala – França e o ano de 2002 foram muito importantes para mim. Foram os meus primeiros Campeonatos do Mundo e também a minha primeira medalha de ouro e isso recordarei sempre com emoção. Apesar de ter vencido a Taça do Mundo em 2001, este título mundial significou realmente muito para mim. E ainda significa.

Orientovar – Desde então, a Orientação em BTT tem crescido e vai-se consolidando. Num contexto geral, que avaliação faz da evolução da modalidade ao longo destes últimos anos?

Mika Tervala – O ponto alto desta evolução relaciona-se com os mapas. Os mapas são hoje melhores, de mais fácil leitura. Lembro-me bem que, há dez anos atrás, não havia mapas especialmente elaborados para a Orientação em BTT. Eram adaptações de mapas de Orientação Pedestre e que colocavam imensos problemas de leitura quando se pretendia rolar mais depressa. Mas não é apenas na questão dos mapas que se evoluiu. Penso que também a Federação Internacional de Orientação e as pessoas que estão à frente das várias organizações de provas têm tido uma maior sensibilidade e cuidado na escolha das áreas de competição. As provas de Sprint, por exemplo, são agora muito mais desafiantes do que eram no passado. Esta novidade dum Sprint totalmente urbano, como se verificou este ano em Chaves, representa um enorme salto qualitativo para a modalidade. Trazer a Orientação em BTT para junto das pessoas mostra-lhes que a modalidade existe. Isto para além da própria competição em si e da necessidade de definir as várias opções de itinerário duma forma muito mais rápida. A realidade é que, numa prova de Sprint, não se pode parar para perceber o que fazer a seguir. Sim, as coisas evoluíram e estão muito melhor do que há dez anos atrás.


“Aquilo que faço procuro fazê-lo bem”

Orientovar – O que é ser o Seleccionador Nacional da equipa finlandesa de Orientação em BTT?


Mika Tervala – Este é o meu segundo ano à frente das equipas masculina e feminina de Elite e também me ocupo das equipas juniores. É um trabalho do qual estou a gostar mas a verdade é que a Orientação em BTT não é um desporto muito popular na Finlândia, lutamos com imensas dificuldades por falta de dinheiro, não conseguimos campos de treino como gostaríamos e, desta forma, os resultados também acabam por se ressentir. Mas penso que este é um problema transversal a muitos outros países.

Orientovar – Apesar de tudo, os resultados nestes Mundiais são bastante bons. A Finlândia leva na bagagem um belo conjunto de medalhas e isto tem, naturalmente, o seu dedo…

Mika Tervala – Claro que temos gente com muito valor, mas que é muito jovem e que tem bastante falta de experiência. Procuro aconselhá-los, dar-lhes as dicas necessárias para que possam tirar o maior partido das suas potencialidades e características. Ajudo-os na gestão do seu plano de treinos e digo-lhes como estar em prova, como encarar as competições. Samuli Saarela, Marika Hara ou Pekka Niemi são um bom exemplo, uma vez que conseguiram resultados excelentes, apesar da sua pouca experiência. Em qualquer circunstância procuro ajudá-los e transmitir-lhes aquilo que sei. Faz parte do meu trabalho e aquilo que faço procuro fazê-lo bem.


“É surpreendente a forma como a modalidade tem evoluído”

Orientovar – Como vê a Orientação em BTT noutros países?


Mika Tervala – É surpreendente a forma como a modalidade tem evoluído. Posso citar a República Checa, a Polónia, Portugal… A Itália, por exemplo, que nunca tinha ganho uma medalha em Campeonatos do Mundo, ou a própria Hungria que também conquistou a sua primeira medalha nestes Campeonatos... É bom, é muito bom mesmo que não apenas a Rússia, juntamente com um pequeno leque de países, consigam medalhas. Na verdade, a prestação de alguns países superou em muito aquilo que estaria à espera. No caso da Finlândia, quando regressamos a casa com uma ou duas medalhas apenas, sentimo-nos muito desapontados, mas quem consegue o que os países que citei conseguiram, julgo que é muito bom e muito motivador para eles.

Orientovar – Também mencionou Portugal…

Mika Tervala – Sim, sim. Na verdade esperava um excelente resultado de Portugal nestes Mundiais, mas pensava que viria do Daniel Marques. É verdade que ele não teve sorte e é muito bom ver que há um nome novo no top-10 e que é português. Não conheço o Davide Machado, não posso adiantar muito em relação ao atleta em si mas estou muito contente que ele tenha conseguido tão bons resultados aqui, em Portugal.



“Esta organização merece bem um 9,5”

Orientovar – Que avaliação faz da organização dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT este ano, em Montalegre?


Mika Tervala – Bom, se tivesse de dar uma classificação de 0 a 10, eu diria que esta organização merece bem um 9,5. A qualidade da competição foi enorme. A primeira vez que estive aqui, na Primavera passada – fizemos campos de treino em Chaves e em Leiria – fiquei surpreendido por encontrar áreas tão boas para a prática da Orientação em BTT. E aí percebi que estes Campeonatos do Mundo iriam ser perfeitos. Por exemplo, os mapas dos dois dias da prova de Distância Longa, analisei-os ao pormenor. Procurei colocar-me na posição dos atletas, tentei imaginar o que faria nas múltiplas situações que se deparam e constato que estes mapas e estes percursos têm uma qualidade elevadíssima, com enorme exigência ao nível das opções de itinerário.

Orientovar – Houve alguns atletas que criticaram o traçado da final de Distância Média, preferindo chamar-lhe uma “Curta Distância Longa”. Partilha dessa opinião?

Mika Tervala – Um pouco, um pouco… Mas é necessário pensar naquilo que tínhamos ali, no local onde se desenrolou a competição. Tínhamos o mapa, tínhamos o terreno e tínhamos a necessidade de encontrar uma solução para, naquelas condições, levar a cabo uma prova com o nível que se exige num Campeonato do Mundo. Na Finlândia, por exemplo, temos enormes problemas por causa dos pântanos, mas com toda a facilidade abrimos um novo trilho, criando o número de opções necessárias para que possamos elevar o grau de exigência da prova em termos técnicos. Aqui não temos isso. Daí, na Final de Distância Média, encontrarmos tão poucos pontos de controlo e pernadas bastante longas entre eles. Em minha opinião, o traçador de percursos esteve excelente, face às condições do terreno. De outra forma, não estaríamos a falar de Orientação. Era um percurso simples, com uma ou duas opções de itinerário e toca a andar…


“Somos humanos e estas coisas acontecem”

Orientovar – Como é que viu a questão do ponto mal marcado que levou ao cancelamento da Final de Distância Média do Mundial de Juniores, obrigando à sua repetição no dia seguinte?

Mika Tervala – Foi de facto um grande desapontamento para todos o facto de haver um ponto mal marcado mas eu posso errar, tu podes errar, qualquer pessoa pode errar. Afinal somos humanos e estas coisas acontecem. Não deviam acontecer, mas acontecem. A verdade é que a organização soube encontrar uma solução e isso foi bom. Foi uma decisão rápida: “A competição disputa-se já amanhã e agora é tempo de olhar em frente”. Isso foi bom. Penso que serão muito poucos os atletas que, no futuro, recordarão que houve um ponto mal marcado.

Orientovar – Qual a sua opinião acerca das provas de qualificação para uma Final A de Distância Longa? Justificam-se face a um número relativamente reduzido de competidores?

Mika Tervala – Não é uma questão de resposta fácil. Talvez na óptica de alguns atletas este modelo posso não parecer muito justo mas penso que as organizações têm muito poucas alternativas. Se olharmos para o que sucedeu há cinco anos, na Eslováquia, onde estiveram presentes 130 atletas só no sector masculino, percebe-se que não é fácil lidar com a situação se não tivermos provas qualificatórias. Daí que eu pense que as provas de qualificação devam existir. Aliás, se eu tivesse algum poder de decisão, não as resumiria apenas à Distância Longa, mas estendia-as também à Distância Média. Esta é a minha opinião.


“Precisamos de espectadores nas nossas competições”

Orientovar – Daqui a dez anos, como espera ver a Orientação em BTT?


Mika Tervala – Um dos aspectos mais prementes para que a modalidade possa continuar a evoluir prende-se com a necessidade de sermos – como direi? – mais “comerciais”. Precisamos de ter do nosso lado as rádios e televisões, os jornais… Era tão importante termos do nosso lado a televisão, bastavam dois minutinhos. Precisamos de espectadores nas nossas competições. Penso que a Federação Internacional de Orientação e a Comissão de Orientação em BTT devem analisar em conjunto esta situação e tentar perceber como lidar com ela. Penso que em termos da qualidade dos mapas e das próprias organizações, atingimos um limiar muito elevado. O desafio está na mediatização. Nós não somos conhecidos, as pessoas não sabem o que é a Orientação em BTT. Na minha actividade enquanto treinador das selecções da Finlândia, sou convidado para falar sobre a modalidade e vejo que ninguém sabe o que é a Orientação em BTT. É nessas alturas que percebo o quão pequeninos somos. Não sei muito bem como é que se poderá ultrapassar este desafio, mas confio que alguém saberá.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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MTBO WOC & JWOC 2010: OS MUNDIAIS VISTOS POR EDMOND SZECHENYI

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Presidente da Comissão de Orientação em BTT da Federação Internacional de Orientação, o francês Edmond Szechenyi foi, em Montalegre, um observador atento e interessado na forma como decorreram os Campeonatos do Mundo. Homem cordato e afável – um verdadeiro “gentleman” – Szechenyi mostrou-se disponível para responder a um par de questões colocadas pelo Orientovar. É essa conversa que aqui se reproduz na íntegra.


Orientovar – Em que qualidade o vemos em Portugal e, mais concretamente, nestes Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT?

Edmond Szechenyi - Em primeiro lugar, estou aqui como representante da IOF – Federação Internacional de Orientação. Mas o meu interesse em estar aqui prende-se também com o facto de ser o Presidente da Comissão de Orientação em BTT da IOF. Daí o meu interesse em poder apreciar tudo o que se passa aqui.

Orientovar – E o que se passa é do seu agrado?

Edmond Szechenyi – Sim, absolutamente. Encontramos aqui, de facto, tudo o que podemos esperar duma competição desta natureza.
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"Espero que seja um motor para a Orientação em BTT portuguesa"

Orientovar - Como avalia a evolução da Orientação em BTT nos tempos mais recentes?

Edmond Szechenyi – A Orientação em BTT faz parte das disciplinas da Federação Internacional de Orientação desde 1996. Em 2002 realizámos os primeiros Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT. O nível aumentou extraordinariamente e penso que este aspecto é bem elucidativo do grau crescente de popularidade deste desporto. Aquilo que constato é que, há oito anos, havia dois ou três países que conquistavam todas as medalhas e hoje todos os países podem ganhar medalhas.

Orientovar – Ao contrário da Orientação Pedestre, onde o número de países que ganham medalhas é ainda muito restrito…

Edmond Szechenyi – A diferença entre a Orientação Pedestre – que nasceu na Escandinávia, evoluiu fortemente e popularizou-se, tornando-se durante muito tempo como um desporto maior nesses países – e a Orientação em BTT é que na BTT estão todos os países em pé de igualdade pelo facto deste ser um desporto ainda muito recente. Havia realmente, há oito anos, a Finlândia e a França que ganhavam todas as medalhas. Hoje a França e a Finlândia já não são os “papões”.

Orientovar – Na realidade, temos aqui nestes Campeonatos alguns países a conquistarem medalhas pela primeira vez…

Edmond Szechenyi - Precisamente. Vemos a Polónia, a Itália, a Hungria a ganharem aqui as primeiras medalhas, o que é demonstrativo duma forte evolução da Orientação em BTT ao nível dos próprios países. E penso que um dos motores desta evolução reside na organização de eventos. Quando se organizam competições desta natureza, mesmo que não hajam espectadores, aparece sempre uma notícia nos jornais, fala-se um pouco na televisão e isso atrai sempre a atenção das pessoas, em particular dos mais jovens. A Polónia, por exemplo, nunca tinha ganho medalhas. Organizaram os Campeonatos do Mundo há dois anos atrás e agora estão ao nível das medalhas. Creio que isto funciona como um motor e espero que seja um motor para a Orientação em BTT portuguesa.
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"Estas coisas não podem acontecer"

Orientovar – Olhando para o início dos Campeonatos, deparamos com uma prova de Sprint totalmente urbana, uma novidade absoluta na história dos Mundiais. Isto criou em si alguma espécie de relutância ou de receio no sentido de que as coisas poderiam não funcionar?

Edmond Szechenyi – Pelo contrário, achei que era uma ideia excelente. É importante que, no interior de cada disciplina, as diferentes vertentes tenham características próprias. As competições urbanas foram lançadas na Orientação Pedestre e resultou num grande sucesso. É muito importante que a Orientação venha para o interior das populações, como forma de atrair a atenção das pessoas. Aqui, evidentemente, não havia pessoas porque era domingo e toda a gente estava na Missa. Bem sei que estamos em Portugal… e no Norte, em particular (risos). Mas penso que a ideia é excelente e permite aos países que não têm tanta experiência, tomarem parte em algo mais acessível. Não nos perdemos na floresta, estamos na cidade. Também nos enganamos, não vamos tão depressa mas podemos terminar a corrida de forma correcta. Numa corrida como a de ontem [prova de Distância Longa] um competidor inexperiente não consegue terminar a prova desta forma.

Orientovar – Tivemos depois uma final de Distância Média com um ponto mal marcado e a competição dos Juniores adiada para o dia seguinte. Que observações é que esta situação lhe merece?

Edmond Szechenyi – Penso que a solução encontrada era a única coisa a fazer face às circunstâncias. A Organização esteve, portanto, bem. Era uma prova que tinha de ser anulada, não poderíamos guardar os resultados sem que a verdade desportiva fosse falseada. Felizmente a prova podia ser repetida, havia tempo para o fazer. Se tivesse sido ontem, por exemplo, já não teria sido possível. Sem que isto seja entendido como uma crítica, a questão é que estas coisas não podem acontecer. Foi possível reparar a situação, eles repararam a situação mas, repito, isto não pode acontecer num Campeonato do Mundo!
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"Não devem ser mais de quarenta os participantes numa final"

Orientovar – Em sua opinião, justifica-se uma prova qualificatória de Distância Longa com tão poucos atletas?

Edmond Szechenyi – A razão de ser duma prova qualificatória de Distância Longa tem a ver com o facto de não ser possível ter demasiados atletas numa final com estas características. Trata-se duma prova longa, o tempo de partida entre cada atleta tem de ser necessariamente maior e, doutra forma, as coisas arrastar-se-iam e amanhã ainda haveria atletas a partir. Mesmo agora, com sessenta atletas, já é demasiado longa. Se me pedirem a opinião acerca disto, direi que não devem ser mais de quarenta os participantes numa final. As condições da prova para quem parte às nove da manhã são necessariamente diferentes daquelas que se enfrentam ao meio-dia. Quando se pretende que todos participem em pé de igualdade, devemos evitar que estes lapsos de tempo sejam tão grandes. Sobretudo em países como Portugal, onde o tempo da parte da tarde se torna extremamente quente. O atleta que sai às nove esfrega as mãos de contente, o que sai à uma da tarde… bom…

Orientovar – É uma questão que a Federação Internacional irá estudar no futuro…

Edmond Szechenyi – Não, não, não… No futuro, não. Está a estudar neste momento. Está a fazê-lo constantemente. Faz parte das nossas funções. É isso que fazemos. Tomo como exemplo aquilo que se faz na Orientação Pedestre. Aí, fazem-se neste momento finais com quarenta e cinco atletas, precisamente por este motivo. É preciso ponderar bem as situações mas é para uma solução dessas que caminhamos na Orientação em BTT.

Orientovar – Quanto ao acidente sofrido pela atleta checa Hana Dolezalova na prova qualificatória de Distância Longa, na passada quarta-feira, qual a sua opinião?

Edmond Szechenyi – Quanto a isso a IOF não pode fazer nada. Foi um acidente. Lembro-me de termos tido em tempos um acidente muito grave – enfim, não tão grave como este – causado por uma barreira que não estava muito visível. A solução foi criar a obrigatoriedade de marcar no mapa estes obstáculos que poderão não ser muito visíveis. Mas neste caso não há nada a fazer. Foi um acidente. Lamentamos muito mas… são riscos inerentes a qualquer desporto.
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"A única coisa que posso lamentar é que não hajam espectadores"

Orientovar – À margem da competição, ao nível social e cultural, como está a acompanhar o evento?

Edmond Szechenyi – Muito, muito agradável. Percebo que toda a gente se sente bem com as condições criadas, as quais são realmente magníficas. A única coisa que posso lamentar é que não hajam espectadores. Mas não podemos fazer nada, as coisas são como são. Se estivéssemos numa grande cidade, aí teríamos espectadores. Aqui, compreendo que as coisas sejam diferentes. Mas é uma pena.

Orientovar – Posso pedir-lhe um balanço final dos Campeonatos?

Edmond Szechenyi – Ainda estamos muito próximos e não consigo fazer um julgamento adequado. Mas posso afirmar que o melhor tem sido a competição em si. Neste plano, as coisas têm decorrido de forma excelente. Os mapas, os percursos – não falo do erro que levou à anulação da final de Distância Média dos Juniores – são excelentes e é tudo o que posso dizer neste momento. O ambiente é bom, pessoalmente tenho sido muito bem tratado (risos), está tudo muito bem. De negativo, claro, o erro que houve. Foi reparado, está tudo bem, mas se tal não tivesse sido possível, então seria realmente muito grave.

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
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